O Mundo de Sombras e Ratos Brasileira

Autor(a): E. H. Antunes


Volume 3 – Arco 14

Capítulos 171: Guerreiro do Sol

— ...Com o poder da minha Essência, os farei lamentar!” 

— Fox? — perguntou Ren, ainda descrente, a voz falhando como se estivesse tentando confirmar o impossível. — É você? 

O Herói do Povo virou o rosto lentamente, num movimento suave que parecia carregar séculos de significado.  

A forma como inclinou a cabeça deixou claro que era, sim, Fox, mas não o mesmo de antes. Havia algo diferente, algo tão profundo que fazia Ren sentir um arrepio percorrer sua coluna. 

Os olhos do guerreiro ainda brilhavam em dourado, porém aquele brilho agora era mais intenso, quase ofuscante, como brasas vivas alimentadas pelo próprio Sol. Sua aura, antes selvagem e densa, simplesmente não estava mais presente, ou melhor, havia deixado de existir como algo separado. 

Parecia que corpo, mente e Essência tinham se fundido em uma única entidade luminosa. Desde a pele até o metal de sua armadura, tudo adquirira uma coloração dourada, suave e etérea, como se uma luz sagrada emanasse de dentro dele e transbordasse para o mundo. 

A mão que havia sido decepada também estava de volta, reconstruída por pura energia. Transparente, brilhante, quase como vidro líquido banhado em luz. Não era um membro físico, a sensação que transparecia era de força absoluta, implacável, tão sólida quanto o aço mais resistente. 

Fox havia, enfim, alcançado aquilo que o destino sempre guardara para ele, mesmo que nem ele próprio tivesse imaginado tal caminho. 

Ele era o Guerreiro do Sol. 

— V-você está bem? — perguntou Ren, a voz vacilante, tomada por um misto de espanto, temor e admiração. 

— Se estou bem? HA! Eu nunca me senti TÃO VIVO! — O bom humor do Herói havia retornado com força. Sua risada carregava uma energia vibrante, eletrizante, quase musical. — VAMOS NESSA, REN! VAMOS EXTERMINAR ESSA SOMBRA! 

Sua voz ecoou através do campo como um trovão claro, ao mesmo tempo havia nela algo divino, uma ordem que parecia ressoar dentro da própria terra. 

Quando Fox flexionou os joelhos, preparando-se, Ren viu o chão sob seus pés rachar como se a simples pressão produzida por aquele corpo luminoso fosse demais para a natureza suportar. 

Ren sentiu, por um breve instante, uma onda de vigor percorrendo seu corpo, uma força contagiante, quase como se parte da energia de Fox fosse compartilhada involuntariamente. 

No momento seguinte, Fox desapareceu.  

Não houve deslocamento de ar, nenhum estrondo, nenhum rastro. Simplesmente deixou de estar ali; tão rápido que nem o vento teve tempo de reagir. 

Ren sabia que ele havia partido para o ataque. 

***

Viktor ainda tentava se recompor daquele ataque brutal.  

Sua respiração estava pesada, irregular, como se cada inspiração viesse acompanhada de uma pontada ardente que subia do ferimento aberto. A dor pulsava de forma quase rítmica, insistente, e a cicatrização, que normalmente acontecia em questão de instantes, parecia desta vez lenta, travada, quase teimosa.  

Nem mesmo os danos causados por fogo mágico demoravam tanto para se curar. Era como se o golpe recebido tivesse sido profundo demais, severo demais, tocando algo além da carne. 

Diante de seus olhos, a figura dourada surgiu novamente, brilhando como um cometa em meio ao campo devastado.  

Não houve aviso ou movimento prévio; simplesmente apareceu, como se o espaço ao redor tivesse sido rasgado para dar passagem àquela presença. 

A katana já estava a caminho de seu pescoço. 

O reflexo foi o que o salvou.  Athena ergueu-se para protegê-lo. A força daquele homem, ou aquele ser, era tão absurda que Viktor não pôde sequer acreditar.  

A investida lançou Athena para longe num impacto seco, um estrondo que ecoou pelo campo. Viktor sentiu o deslocamento da força e foi arremessado junto, mais uma vez, embora dessa vez mantendo certa consciência do que acontecia. 

E foi então que finalmente conseguiu enxergar com clareza quem era seu novo, e antigo inimigo. 

“Fox?!” 

A simples visão do Guerreiro do Sol fez seu estômago se contrair em confusão. 

Aproveitando um mínimo intervalo, Viktor conseguiu firmar os pés no chão. O mundo girava por um instante, mas ele recobrou o foco.  

Invocou então a técnica responsável por ter ferido Fox duas vezes no passado, a mesma que o derrotara na última ocasião. Era a única coisa que fazia sentido. A única reação lógica diante daquela aparição impossível. 

Cortou o ar repetidamente, cinco golpes consecutivos, cada um em um ângulo diferente, traçando linhas invisíveis de energia que rasgavam a atmosfera. Cinco cortes perfeitos, rápidos, moldados para matar. 

Fox permaneceu parado. 

E então moveu sua katana. 

CLAÏNNG! 

O som foi estranho, quase antinatural. Não parecia o choque de metal contra metal, e sim algo que vibrava como se tocasse o próprio tecido do mundo. Como se a lâmina houvesse atingido o impossível. 

A verdade era ainda mais absurda: a espada dourada havia interceptado diretamente a energia dos ataques. 

Viktor arregalou os olhos, incrédulo. 

E Fox repetiu o movimento quatro vezes, tão rápido quanto as ondas de luz que pulsavam de seu corpo. 

Cinco ataques. Cinco defesas perfeitas. 

Uma façanha que, até aquele momento, Viktor acreditava ser inalcançável. 

— Agora eu consigo ver — disse Fox, quase em êxtase, os olhos faiscando como brasas solares —, TODOS OS SEUS ATAQUES LERDOS! 

Então avançou. 

A velocidade era superior até mesmo ao Impulso, ultrapassando o limite que Viktor julgava existir.  

Não houve invocação de técnica, não houve nome, não houve aviso. Apenas movimento puro, instintivo, devastador. E novamente, estranhamente, não alterou o vento ao seu redor. Nenhuma rachadura no ar. Nenhum estalo. Nada. Só o avanço silencioso de um predador perfeito. 

Viktor o viu chegando, ou achou que viu, e sua mente lutava para processar o absurdo do momento. 

“Ele viu? Como? Como ele ainda está vivo? Eu perfurei o coração dele! E ele voltou... voltou assim... ainda mais forte... completamente transformado! Essa coloração... essa luz... Eu entendi!” 

— A Essência liberou todo o seu potencial! — disse Viktor, agora tomado por uma alegria ardente, selvagem. — Continue, Fox! Me mostre do que você realmente é capaz! 

A Sombra disparou contra o Guerreiro do Sol, e a força gerada por seu movimento rasgou a grama, arrancou pedaços de terra, deixou um rastro destrutivo por onde passava.  O impacto de sua arrancada parecia um trovão contínuo. 

E quando as espadas finalmente se encontraram, uma onda de choque colossal explodiu no centro do campo. 

Ren, que mal havia conseguido se aproximar após a primeira investida, sentiu o ar ser empurrado contra seu corpo com violência. Ele precisou fincar Minerva no solo para não ser lançado para longe. O chão tremeu sob a lâmina, e seu coração disparou. 

O confronto dos dois era como assistir ao encontro de duas forças primordiais. 

Nenhum dos dois quis desperdiçar mais tempo disputando outra colisão de forças.  

No instante em que seus olhos se cruzaram, o ar pareceu vibrar, e ambos avançaram ao mesmo tempo, como se o mundo inteiro tivesse sido empurrado para trás. 

Fox atacou primeiro com um corte descendente, sua katana dourada descrevendo um arco luminoso que riscou o ar como um raio. Viktor ergueu Athena no mesmo segundo, interceptando o golpe com precisão milimétrica. O choque produziu faíscas de luz branca e negra, energia contra energia, e antes que o brilho desaparecesse, Viktor já contra-atacava com um corte lateral. Fox girou o corpo, desviando por um fio, e respondeu com um estocada que Viktor apenas conseguiu afastar com um golpe instintivo. 

Era como uma dança, rápida, fluida, feroz.  

Cada ataque era bloqueado, desviado ou redirecionado. 

Nenhum dos dois parava nem por um único segundo. 

As espadas se chocavam em alta frequência, produzindo uma trilha sonora de estalos metálicos e explosões de Essência. Eles se moviam como dois deuses duelando numa linguagem que apenas eles compreendiam. 

E enquanto avançavam pelo campo, cada passo era calculado, cada movimento estudado.  

Viktor tentava criar ângulos novos, abrindo cortes no ar que estalavam com energia sombria. Fox, por sua vez, parecia prever cada tentativa, dobrava o corpo, girava nos calcanhares, deslizava pelo chão com uma leveza quase etérea. E quando surgia uma abertura, ele devolvia um ataque que Viktor bloqueava por reflexo puro. 

Era um empate absoluto. Em velocidade. Força. E técnica. 

Por isso nenhum deles conseguia ferir o outro. Era como se tivessem alcançado um mesmo limiar, dois horizontes que finalmente se encontravam num ponto impossível. 

Mesmo que suas lâminas não cortassem carne, o mundo ao redor sofria. 

A cada golpe desferido por Fox, ventanias cortantes se expandiam como lâminas invisíveis, rasgando o chão e arrancando torrentes de terra, criando redemoinhos que ecoavam como uivos de um furacão. O simples impacto de suas espadas fazia o ar implodir, liberando ondas de choque que ondulavam para longe e trepidavam contra pedras distantes, rachando-as. 

O chão tremia sob os pés dos dois, sempre mais forte que antes. Cada passo parecia um terremoto. Cada desvio, uma explosão. Cada movimento, um impacto que o campo não estava preparado para suportar. 

E quanto mais próximos eles lutavam, pior ficava. 

O solo começou a afundar sob eles, primeiro lentamente, depois com velocidade crescente. A grama fora completamente varrida, deixando apenas uma superfície irregular de terra trincada.  

Estilhaços de rocha saltavam do chão como se tentassem fugir. A cratera começava a se formar, moldada pela violência dos golpes, pela pressão de seus corpos, pela colisão de poder bruto. 

E não parava por aí. Ela não crescia apenas em profundidade. 

O impacto circular de cada confronto expandia seu diâmetro de forma constante, abrindo o buraco ao redor deles como se o próprio planeta estivesse cedendo. A cratera engrandecia, ganhando extensão tão vasta quanto a que Kenzou Torison havia um dia provocado. 

E Fox, completamente focado em Viktor, sequer percebia. 

Sua atenção estava toda naquele duelo. Na lâmina que vinha. Na defesa perfeita. No contra-ataque imediato. No ritmo frenético da luta, onde cada instante podia determinar quem cairia primeiro. 

Nada mais existia para ele. 

Nada além da Sombra diante de si. 

Então algo mudou. 

Era quase imperceptível no início, um ajuste sutil na postura, um brilho diferente nos olhos.

Viktor percebeu. 

“Agora eu entendi.” 

Quando Fox avançou novamente, a katana dourada cortando o ar como um relâmpago vertical, Viktor inclinou o corpo num movimento mínimo, elegante e preciso, deixando o golpe passar rente à pele. No mesmo instante, Athena subiu numa curva curta e veloz, criando um semicírculo sombrio. 

A lâmina rasgou o peito de Fox. 

Um corte raso, nítido. 

Pela primeira vez desde a transformação, sangue dourado cintilou no ar antes de evaporar como poeira de luz. 

Ren sentiu o estômago afundar. 

“Essa não!” 

O coração dele disparou, a percepção se expandindo enquanto assistia, impotente, o duelo escalar. 

“Fox está tão forte quanto a Sombra, mas ela já está começando a aprender. Está copiando cada movimento, cada ritmo, cada técnica. Se isso continuar... nós perderemos.” 

Os dedos de Ren tremeram em volta da empunhadura de suas lâminas. 

“Eu preciso... eu preciso entrar em combate!” 

Enquanto isso, Viktor sorria. Um sorriso lento, alargado, repleto de satisfação. 

O brilho predatório em seus olhos crescia a cada troca de golpes, enquanto a expressão de Fox começava a se endurecer, perdendo a leveza e ganhando foco absoluto. 

As espadas se chocavam com mais força agora. Mais velocidade. Mais intenção. 

E em cada sequência subsequente, Viktor se adaptava.  Passo a passo. Golpe após golpe. 

Movia-se com leveza de uma sombra viva, sua silhueta distorcendo-se contra a luz dourada de Fox como se dançasse entre mundos. Seus ataques tornavam-se mais afiados, seus reflexos mais refinados. Começava a avançar centímetro por centímetro, impondo pressão, encontrando aberturas, moldando o combate ao seu favor. 

Aos poucos, Viktor estava vencendo. 

Fox repelia um golpe, devolvia outro, mas a Sombra vinha sempre um pouco mais rápida, um pouco mais ousada, um pouco mais dominante. Cada vez mais perto de causar um ferimento real. 

Então, no momento em que essa vantagem se consolidava, um lampejo negro cortou o ar. 

Um golpe profundo abriu-se nas costas de Viktor. 

A Sombra quase tombou para a frente, os músculos se contraindo. 

Não precisou olhar para trás. 

— Maldito... não pode me deixar em paz?! — rosnou ele. 

Tentou se afastar, recuar para não ficar preso entre Fox e Ren. 

Cada vez que Viktor dava um passo, uma nova linha de sangue surgia em sua pele. Cada movimento, um novo corte brilhando com Essência. 

Os golpes de Ren e Fox agora carregavam poder bruto amplificado, e os ferimentos deixados por essas lâminas demoravam perigosamente para curar. Até a própria alma de Viktor parecia estremecer com o impacto da energia. 

“Ao menos,” pensou Viktor, rangendo os dentes enquanto desviava de um ataque duplo, “meu coração regenerou.” 

Então Fox avançou, e por um instante, apenas um respingo de tempo, sua defesa abriu.  Uma brecha larga demais para ser ignorada. 

Viktor não hesitou. 

A ponta de Athena atravessou o peito de Fox pela segunda vez. 

— FOX! — gritou Ren, sentindo o mundo congelar. 

A lâmina saiu pelo outro lado. o Guerreiro do Sol não se curvou, não cambaleou, não mostrou dor. Apenas permaneceu de pé, olhando Viktor nos olhos. 

Quando a Sombra puxou Athena de volta, pôde ver, pulsando dentro do ferimento, um coração dourado vibrando com um brilho quase líquido. A mesma coloração da mão reconstruída, do corpo inteiro. 

Um coração novo. Ou talvez, outro tipo de coração. 

“Por acaso... o coração realmente foi curado? Ou substituído?” 

A ideia o gelou. 

Fox se tornara imortal? Era isso? Havia ultrapassado até mesmo os limites que Viktor conhecia? 

Uma emoção rara tomou conta da Sombra: medo. 

Admitindo que não poderia vencer aquilo, Viktor recuou em desesperado: 

— Impulso! 

Golpeou o ar para o lado, criando um rasgo negro, tentando fugir para a maior distância possível, antes que aquela luz dourada o alcançasse novamente. 

Ren tentou correr atrás da Sombra, não conseguiria replicar o Impulso naquele estado. Seus músculos ainda estavam tensos, a Essência inquieta, instável. Então só lhe restou a velocidade do próprio corpo.  

Ele correu como um animal acuado, respirando fundo, forçando as pernas além do limite, os olhos fixos no vulto escuro que se distanciava. 

Fox, por outro lado, não estava desesperado. Não precisava estar. 

Ele caminhou com tranquilidade, como se ainda tivesse todo o tempo do mundo. 

Guardou a katana dourada em sua bainha com um movimento suave, ritualístico. Flexionou os joelhos, inspirando profundamente, o corpo inteiro alinhando-se como uma flecha prestes a ser disparada. 

Então ele proclamou com voz ardente: 

— IMPULSO DA RAPOSA FLAMEJANTE! 

Um clarão laranja-dourado irrompeu sob seus pés. A terra se abriu como se tivesse sido golpeada por um meteoro. O ar queimou e foi rasgado por um rastro flamejante, deixando atrás de si uma trilha luminosa que riscou o campo como a cauda de uma raposa feita de fogo vivo. 

O rastro curvou-se em um arco, ultrapassando a Sombra e retornando até atingi-lo de frente. 

— Aagh! — gritou Viktor, tarde demais. 

A katana de Fox atravessou seu peito por completo, indo direto ao coração. Dessa vez não havia superficialidade, não havia defesa, não havia adaptação possível. 

Viktor foi empalado com violência, a lâmina saindo pelas costas. 

A Sombra reagiu como uma fera enraivecida. 

Num único movimento brutal, rápido, preciso, desesperado, Viktor girou Athena e decepou os dois braços de Fox. 

O sangue dourado salpicou o ar. 

Quando os braços caíram no chão, algo impossível aconteceu. 

No local deles, surgiram imediatamente dois braços luminosos, dourados, etéreos, feitos de pura Essência condensada. Eles se solidificaram no mesmo instante, continuando a segurar a katana cravada no peito da Sombra sem perder força alguma. 

Viktor estava preso.  Totalmente imobilizado.  Não conseguia se mover um centímetro para qualquer direção. 

Fox sorriu, um sorriso largo, selvagem, radiante. 

— REEENN! AGORAAA!!!

Pela primeira vez desde sua infância, Viktor sentiu medo. Medo verdadeiro.  Medo da morte. 

Virou a cabeça, apenas o suficiente, e viu Ren saltando sobre ele como uma lança humana, Minerva erguida, a lâmina brilhando, carregada com toda a Essência que seu corpo conseguia reunir. 

— Primeiro foi seu coração — gritou Ren, com a voz rasgada pelo esforço e pela determinação —, agora é sua cabeça! 

FWOOOSH! 

A lâmina desceu com força absoluta. Um clarão surgiu. Um impacto seco. 

— Aagh… 

E então tudo acabou. 

Os três corpos caíram ao chão quase ao mesmo tempo. Fox despencando sobre o chão, sem cerimônias. Ren rolando pela terra, ainda movido pela força de seu ataque. E Viktor tombando ao chão, sem qualquer reação. 

As auras que cercavam cada um deles vacilaram, estremeceram, e por fim... apagaram. 

A luta havia terminado. 

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