Volume 3 – Arco 14

Capítulo 172: Face Sombria

Ren estava esgotado, não apenas cansado, quase despido de qualquer resquício de vida, como se cada fibra de seu corpo estivesse sendo arrancada uma a uma.  

Seus pulmões ardiam de maneira cruel, cheios de sangue, borbulhando dentro dele como se estivesse prestes a se afogar mesmo estando em pleno ar. A cada inspiração, o gosto metálico subia por sua garganta, queimando, sufocando, lembrando-o de que ainda estava consciente. 

Não podia permanecer ali. 

Não podia ceder ao instinto desesperado de se entregar ao desmaio que ameaçava envolvê-lo como um cobertor escuro. 

Não podia dormir, por mais que o corpo implorasse. 

Precisava se levantar. Tinha de voltar para a carruagem, precisava garantir que o que restava daquele dia infernal não fosse perdido. A luta havia terminado, enfim.

O pesadelo ainda não. 

— Fox! — chamou, a voz saindo em um rosnado áspero, quase monstruoso, distorcida pela dor e pelo sangue. — Vamos... temos que ir... 

Thunk! 

O som seco cortou o ar, ecoando com um peso assustador, e Ren piscou devagar, tentando entender. 

Athena, a lâmina, estava fincada no chão bem à sua frente, vibrando levemente como se ainda tivesse vontade própria. 

Com enorme esforço, quase movendo o pescoço em câmera lenta, Ren ergueu o olhar. 

Então o viu. 

Viktor.  

Ainda vivo. 

Ele estava de pé, firme, como se a morte tivesse passado ao seu lado e simplesmente desistido.  

Seus ferimentos estavam completamente curados, a pele impecável, o corpo ereto e calmo. Diferente de Ren, cujas feridas pareciam reabrir, sangrando como se a própria vida estivesse fugindo dele. 

— Como... você...? — conseguiu perguntar, cuspindo sangue, os olhos semicerrados. 

— Você errou a minha cabeça — respondeu Viktor, com um tom inesperadamente suave, quase triste, como se lamentasse o fato. 

Ren piscou novamente, confuso, exausto, tentando manter a consciência. 

— Fox... onde está... Fox... 

A Sombra retirou Athena do chão. E, ao fazê-lo, revelou algo atrás da lâmina. 

Um corpo.  

Estendido. 

Quase sem cor. 

Ren sentiu o peito afundar. Ele reuniu o que restava de força, que mal merecia ser chamada de força, e começou a se arrastar, centímetro por centímetro, em direção à figura caída. 

Fox. 

Quando finalmente alcançou seu companheiro, sua mão trêmula tocou a pele dele. Estava gelada. Imóvel.  O peito não se movia. Os olhos, normalmente cheios de inquietação e vida estavam opacos, vazios, encarando o nada. 

— Fox... Levanta... — disse Ren, sentando-se com esforço e balançando-o como se pudesse arrancá-lo da morte apenas pelo toque — Temos que... voltar... Não podemos... ficar... aqui... 

Nada respondia.  Nada se movia.  Não importava quanto Ren insistisse, empurrasse, tentasse fazer aquelas mãos frias se moverem outra vez. 

Não havia o que mudar. Não havia como reverter.  Aquele era um fato imutável. 

Fox estava morto. 

E, por alguns instantes, até Viktor pareceu quebrar. 

Toda a raiva fervente, todo ódio que carregava contra Ren, tudo isso se dispersou, substituído por um luto silencioso.  

A dor de perder Fox, um homem que, mesmo por pouco tempo, ele havia considerado como um irmão. Ainda que esse sentimento talvez nunca tivesse sido correspondido na mesma intensidade, ainda que tivesse sido unilateral, fora verdadeiro. 

A morte pesava sobre todos eles. 

E nenhuma espada, magia ou força era capaz de desfazer aquilo. 

Ainda sem saber como reagir àquele luto brutal, Viktor tentou, de algum modo, oferecer consolo a Ren. Não sabia onde colocar as mãos, o que dizer, como respirar diante do sofrimento evidente do outro.  

No instante em que deu um passo hesitante na direção do espadachim, algo inesperado o fez congelar. 

Bem ali, diante de seus olhos, Ren começou a mudar. 

Foi como assistir a um pesadelo ganhar forma. 

O corpo do espadachim estremeceu, arqueou-se, e então inchou, esticando a pele até quase rasgar. Seus músculos pulsaram sob a pele, expandindo-se como se quisessem romper o próprio esqueleto. Os pelos em seus braços e pescoço cresceram num surto, densos, escuros, enrolados como os de um lobo recém-desperto para a caçada. Suas unhas estalaram, alongando-se em lâminas curvas. 

A pele, que jamais fora completamente branca, que tampouco era negra, assumia uma tonalidade roxa profunda, quase sombria, como se o sangue estivesse fervendo sob camadas de hematomas vivos. 

Ren não percebeu imediatamente que estava assumindo sua verdadeira forma. Sua mente ainda estava fixa em Fox, na carruagem, na dor.  

Quando levantou o rosto, um rosto que já não era totalmente humano, e viu Viktor paralisado, olhos arregalados, respiração presa na garganta. Foi ali que entendeu. 

— Que coisa é você? — perguntou a Sombra, o timbre baixo vibrando como uma ameaça involuntária. 

Ren baixou o olhar, lentamente, e encarou o anel em seu dedo anelar, o objeto que sempre o ocultara. 

— Meu anel... falhou? — murmurou, a voz misturada entre espanto e medo. 

Dentro da mente de Viktor, os pensamentos se atropelaram como se quisessem escapar antes do raciocínio se completar. 

“Um anel Arcano?”, pensou, surpreso. “Mas as únicas maneiras de se anular algo assim são...” 

E então a resposta se formou.  Clara.  Inevitável. E terrível. 

Ele entendeu. 

— Ela chegou. 

Ren ergueu a cabeça de forma brusca, quase instintiva. 

— Quem? 

A voz dele era assombrosa. Uma mistura de um sussurro rouco com o arranhar de metal no fundo de uma caverna. Perturbadora. Falha. E cheia de uma angústia primal. 

Viktor respirou fundo, a mandíbula apertada. 

— Não é importante agora — respondeu, com a tensão entrecortando cada palavra. — Nossa luta levou tempo demais... 

Ren sentiu um calafrio percorrer a espinha. 

— E quanto ao restante do meu grupo? 

 Viktor não disse nada. Não precisava. O silêncio gritou mais alto que qualquer resposta. 

— Não... — Ren sussurrou, como se aquela única palavra pudesse impedir a realidade de se aproximar. 

De repente, ele se lançou para a frente. 

Começou a correr, ou tentar correr.  

Suas novas pernas estavam pesadas demais, tortas demais, rápidas demais. Ele cambaleava, tropeçava nos próprios pés, apoiava-se no ar como se pudesse quebrá-lo e usá-lo como sustentação. O chão parecia fugir sob ele. Ren não parou. 

A carruagem. Precisava chegar à carruagem. Precisava avisar os outros. 

Ele não entendia totalmente o que acontecia, mas uma coisa era clara, dolorosamente clara: não importava se todos tivessem vencido suas batalhas individuais naquela noite sangrenta, Varelith jamais permitiria que eles escapassem. 

Ainda assim, havia uma chance. 

Uma única chance. 

Se conseguissem usar a Passagem. Se ele os alcançasse a tempo. Se avisasse, mesmo em sua forma atual, mesmo esgotado, mesmo quebrado. 

Ren sabia exatamente o que precisava fazer. 

Ele ficaria para trás. 

Mas, se conseguisse alertá-los... Se corresse rápido o bastante... Ainda poderia salvá-los. 

Doce e terrível ingenuidade.

O corpo de Ren ardia como se estivesse sendo consumido por dentro. Cada músculo latejava, cada junta parecia prestes a se partir ao meio. Ele sentia o peso de seu próprio sangue escorrendo, quente em alguns pontos, gelado em outros, e o cansaço o puxava para baixo como correntes enterrando-o em areia movediça. 

Ele desejava desmaiar, desejava simplesmente tombar ali mesmo e permitir que a escuridão o abraçasse. Morreria feliz, independente se significasse parar de sentir aquela dor insuportável. 

Não podia. Não podia abandoná-los. 

Não naquele dia. Não depois de tudo que já haviam perdido. Não quando, no fundo da alma, ele aceitara que a única morte aceitável seria a própria. 

Forçando as pernas a obedecerem, mesmo que cada passo fosse torto, arrastado, desesperado, Ren continuou correndo. O vento parecia bater contra ele como pedras afiadas, arrancando o ar de seus pulmões.  

Então, finalmente, ao erguer a cabeça, ele os viu. 

Seu grupo. Vivos. Longe ainda, distantes demais. 

Eles estavam longe demais para ouvi-lo claramente. Ren sabia disso. Precisava chegar mais perto, precisava diminuir a distância, precisava fazê-los entender. 

Antes que pudesse avançar mais alguns metros, ele viu algo acima deles. 

O céu.  Ele estava escurecendo. 

Não como o simples cair da noite, mas como se uma sombra estivesse se formando lá em cima, espessa, pesada, opressora. Como se o ar ao seu redor estivesse sendo esmagado, comprimido, dobrado por forças invisíveis. Ren sentiu uma pressão forte demais, quase sufocante, empurrando-o para o chão. 

Não tinha mais tempo. 

A única opção era gritar. Gritar o mais alto que sua garganta lacerada permitisse. 

— RÁPIDO! VOCÊS PRECISAM FUGIR! — bradou, com toda a força que o desespero podia emprestar. 

Ele viu algumas cabeças se virando. Viu corpos se movendo, como se estivessem tentando entender de onde vinha aquele som monstruoso. Não parecia que haviam entendido. Não parecia que tinham ouvido as palavras, só o rugido. 

Ren tentou gritar novamente, puxando o ar fundo, mas, no exato instante em que se preparava, sua perna, a menos danificada, a que ainda suportava parte do seu peso, finalmente cedeu. 

A dor explodiu, e ele caiu pesadamente no chão, o impacto arrancando mais sangue, mais ar, mais vida. 

De mãos apoiadas na terra fria, Ren olhou seus próprios braços, grossos, roxos, deformados e, por um segundo, ódio e desespero misturaram-se dentro dele. 

Porque agora entendia. 

Entendia o que os outros estavam vendo. Entendia por que não o compreenderam. A forma monstruosa que assumira, a voz distorcida, gutural, quebrada... tudo aquilo os afastava da urgência real que tentava transmitir. 

Se estivesse com sua aparência humana... se ainda fosse o Ren normal, saudável... talvez eles tivessem captado o aviso. 

Talvez tivessem fugido a tempo. 

Talvez... 

O céu escuro finalmente os alcançou. 

Com as últimas gotas de força restantes, Ren ergueu o rosto e soltou um grito, ou algo que deveria ser um grito, mas saiu como um rugido feroz, quebrado, primitivo, vibrando de dor e terror: 

— F… FUJAAAAMMMMM!!! 

O som rasgou sua garganta. 

Seu aviso chegou tarde demais. 

O céu se partiu. 

E então vieram as adagas. 

As primeiras ondas desceram em queda livre, velozes como chuva, mortais como sentenças. Elas perfuraram tudo, a terra, as pedras, o ar, deixando rastros brilhantes e violentos atrás de si. 

Eram incontáveis. 

Vieram em camadas, como marés impiedosas, como enxames famintos, cada leva seguida por outra e mais outra, até que o mundo inteiro pareceu se transformar no som brutal de aço contra aço, aço contra carne, aço contra vida. 

Gritos ecoaram. 

Sangue foi lançado ao ar como chuva carmesim. 

A morte tomou a forma de uma tempestade interminável. 

E então, tão rápido quanto começou, cessou. 

As últimas adagas tocaram o chão com um tilintar quase delicado, contrastando com o massacre que haviam causado. 

O silêncio tomou o lugar dos gritos. 

A poeira baixou. 

O céu voltou a ficar claro, liso, quase como se nada tivesse acontecido. 

E, nesse silêncio quebrado, pesado, surgiu um som novo: passos. 

Um pequeno destacamento aproximava-se ao longe. Marchavam com calma, paciência, controle absoluto da situação, como predadores se aproximando de presas já imobilizadas. 

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