Volume 3 – Arco 14

Capítulo 168: À Beira das Cinzas

— Venha se tornar uma Sombra ao meu lado! 

A proposta atravessou o ar como uma lâmina invisível. Fox, atingido mais pela surpresa do que por qualquer ameaça real, sentiu seus músculos travarem e, quase sem perceber, deixou a ponta de sua katana descer alguns centímetros.  

O gesto foi pequeno, revelador.  

A ideia de lutar naquele instante simplesmente evaporara, embora sua Essência, ainda ardendo dentro de si, continuasse a se derramar por sua aura dourada, oscilando como um fogo inquieto que recusava ser completamente acalmado. 

Permanecia imóvel, incapaz de formular uma resposta imediata, e foi esse silêncio que permitiu a Viktor prosseguir. 

— Imagine o quão forte você poderá se tornar quando seu potencial estiver enfim liberado! — disse ele, cada palavra carregada de entusiasmo, quase de reverência. — Sem mais amarras ao seu corpo ou à sua mente, apenas o poder puro e indomável de sua própria alma tomando conta de tudo! 

Fox arqueou uma sobrancelha, o olhar estreitado por uma desconfiança antiga. 

— Pensei que as Sombras vendessem suas almas. 

— O quê? É claro que não! — Viktor respondeu rápido demais, como alguém que precisasse negar antes de pensar. Calou-se por um breve momento, respirando fundo para evitar escorregar em uma mentira involuntária. — Bem, ao menos, não vi nenhuma que tenha feito isso... 

Fox inclinou a cabeça, a katana agora repousando de forma quase relaxada ao lado do corpo, embora seus olhos continuassem atentos. 

— E quanto às marionetes de Varelith? 

Viktor engoliu seco. Seus dedos inquietos apertaram a própria túnica. 

— Elas não são Sombras — explicou Viktor, esforçando-se para manter a voz firme. — Apenas... uma extensão da minha mãe. Como... como os heróis imperiais seriam uma extensão do próprio Imperador! 

Fox deixou o silêncio pesar entre eles por um instante, antes de fazer outra pergunta, desta vez mais direta: 

— E quanto a você? O que seria uma Sombra? 

O sorriso de Viktor se tornou quase melancólico, como se aquela definição carregasse mais verdade do que ele normalmente ousava admitir. 

— Se o Sol é a humanidade — disse, apontando discretamente para o céu —, então nós o rejeitamos. Não porque odiamos o que ele representa, mas porque buscamos ser algo diferente. Algo melhor. Você entende isso, não é? Você não luta pela humanidade em si, ao menos, não pela humanidade que existe hoje. Você luta por sua ideia dela, pelo que acredita que ela ainda pode se tornar. 

Fox não tentou negar. A afirmação atingira algo profundo, algo que ele raramente permitia que alguém enxergasse. 

— Varelith me contou que a humanidade já fora boa e gentil — continuou Viktor, dando um passo adiante —, mas o Império a corrompeu no momento em que o Imperador perdeu seu poder e sua influência. Não consegue ver? Nós não somos seus verdadeiros inimigos! 

Fox permaneceu calado, a expressão impassível, embora internamente seus pensamentos se entrechocassem como ondas contra rochas. 

— Sei que se tornar uma Sombra é ir contra tudo que você já lutou — prosseguiu Viktor, sua voz agora baixa, quase suplicante —, mas... se está mesmo lutando por um futuro melhor, por que continuar defendendo um Império que se recusa a mudar? 

Viktor estendeu a mão em direção a Fox.  

O gesto era simples, carregado de promessa, e de risco. 

— Junte-se a nós — disse ele, com suavidade inesperada. — Garanto que não estou dizendo estas coisas apenas para te convencer. Não existe truque, nenhum vínculo oculto por trás de se tornar uma Sombra. Você continuará tendo total autonomia sobre si mesmo e sobre sua Essência. Aliás, como ela se tornaria algo natural para você, não estaria mais preso ao seu destino! Você poderá ser aquilo que sempre sonhou ser! 

Fox encarou Viktor. 

Por um instante, o tempo pareceu se esticar ao redor deles, como se o mundo estivesse observando em silêncio. Primeiro, seus olhos repousaram sobre a mão estendida; um convite simples, carregado de peso, destino e conflito. Depois, Fox ergueu o olhar novamente para o rosto do rapaz, prestando atenção aos olhos azuis que agora cintilavam em tonalidades douradas, refletindo a energia viva que pulsava de suas Essências. 

Sombra e Sol, forças que deveriam repelir uma à outra, naquele momento brilhavam em perfeita intensidade, emanando de seus corpos através de suas auras pulsantes. Como se estivessem conectados por algo profundo e invisível, apesar de estarem em lados opostos. 

Fox, ao observar aquele brilho, teve certeza. A certeza que atravessou seu peito como um sopro quente e indisputável: Viktor não estava mentindo. Viktor não estava tentando manipulá-lo. 

O garoto acreditava em cada palavra que dizia. 

— Sim — começou Fox, sua voz firme, embora carregada de uma ponta de melancolia. — É um erro lutar pelo Império. É um governo decadente que se recusa a mudar e só tem trazido mais corrupção e sofrimento para aqueles que jurara proteger e servir. 

O brilho nos olhos de Viktor se intensificou. Seus lábios começaram a se curvar em um sorriso pequeno, contido, como se temesse deixar escapar a euforia repentina de imaginar Fox não apenas como um aliado, mas quase como um irmão mais velho, alguém com quem poderia finalmente caminhar lado a lado. 

Fox ergueu a mão, fechou os olhos e continuou: 

— Contudo! 

O silêncio que se seguiu foi pesado, quase reverente. 

— Não foi por ele que eu lutei tanto — Fox respirou fundo, e o ar ao redor vibrou com sua aura dourada. — Não foi pelo Império que me tornei herói. Meu título, “Herói do Povo”, é a prova de que minhas ações fizeram alguma diferença neste... Mundo de Sombras e Ratos. 

As palavras ecoaram como um juramento antigo. 

— Todos aqueles que eu salvei votaram em mim porque acreditaram em minhas palavras e em minhas ações. Eles não se esqueceram de que eu estava lá quando mais precisaram. Que eu escutei suas vozes quando me chamaram. Que eu os defenderia quando o mal chegasse. 

Fox abriu os olhos, seu olhar ardia. O brilho dourado cintilava sem qualquer oscilação, firme, determinado, imbatível. 

— E por isso — continuou, a voz agora mais baixa, carregada de um poder quase espiritual —, seria uma vergonha jogar todo o meu legado pelo ralo apenas pela busca de poder. E você está enganado se acredita que eu já não estou vivendo meu sonho. Eu sempre quis ser um herói, e estou sendo um desde o dia em que matei aquele demônio naquela floresta! 

A expressão de Viktor começou a mudar. Seu sorriso desapareceu devagar, como se apagado por uma brisa fria. Sua mão, antes estendida com esperança, começou a recuar, lenta e pesadamente.  

Ele já sabia a resposta, mesmo antes de ouvi-la por completo. E, assim como Fox havia lhe concedido a chance de falar até o fim, ele retribuiu com o mesmo respeito silencioso. 

Com um único movimento fluido, Fox sacou sua katana, a lâmina refletindo seu brilho áureo, e assumiu sua postura de batalha. Seus pés firmaram-se no solo, e sua aura se ergueu como uma chama dourada pronta para explodir. 

— Além disso — disse ele, com a voz cortante como aço —, eu jamais me juntaria àqueles que mataram meu mestre, Reiji Torison! 

O impacto do nome foi como um golpe. 

Um golpe que Viktor sentiu profundamente. 

Seu corpo enrijeceu, e seus olhos se arregalaram por um breve instante. Ele entendeu que aquilo não era apenas mais um argumento, uma razão entre tantas, era uma acusação pessoal, uma ferida direta, um ataque à sua honra. 

E uma nova tensão nasceu entre eles. Mais pesada. Mais verdadeira. 

— Eu entendo — disse Viktor, sacando Athena com uma lentidão quase cerimonial, como quem aceita um destino inevitável. — É mesmo uma pena. Você domina sua Essência com tanta maestria, mas... 

A lâmina refletiu a luz difusa do ambiente enquanto Viktor a ergueu e deixou-a estendida à frente, apontada diretamente para Fox como um veredito silencioso. 

FSH! 

O som foi leve; um sussurro cortante, rápido, quase impossível de perceber, como se o próprio ar tivesse sido dividido por algo preciso demais para olhos comuns.  

Fox, contudo, sentiu. Viu. Um diminuto brilho azulado escapou da ponta de Athena, cintilando por menos de um segundo. 

Então veio a sensação. 

— Aaah... Agh... 

Sua Essência desapareceu de repente, como se alguém tivesse arrancado o fogo de dentro de sua alma, apagando-o por completo. A aura dourada que sempre o envolvia se desfez no ar em fragmentos trêmulos e silenciosos. 

A katana escorregou de sua mão, ou talvez fosse sua mão que escorregou da katana. Não estava mais sentindo-a. 

Fox piscou, confuso, tentando entender a súbita leveza. A sensação de sua mão direita simplesmente deixando de existir. Ou melhor: deixou de responder. Seu cérebro enviava ordens; elas se perdiam no vazio. 

Só quando seus olhos, trêmulos, baixaram lentamente, ele percebeu a verdade: Sua mão ainda segurava o cabo da katana. Estava separada de seu braço.

Decepada. 

Quando aquilo acontecera? Sua Essência estava curando seus ferimentos ou apenas controlando-os? 

O horror chegou como uma onda fria e repentina, antes que pudesse processá-lo, outra dor o atravessou. 

Sua outra mão veio até peito por puro instinto. Ali, no centro do seu corpo, uma dor latejava, ardente e ao mesmo tempo anestesiada, como um fogo gelado se espalhasse sob sua pele.  

Sentiu algo úmido se alastrando, ensopando seus dedos com rapidez cruel. 

Ergueu a mão, movendo-se com esforço grotesco, e viu o vermelho viscoso escorrendo pelos dedos até formar pequenos rios que caíam pela palma e escorriam até seu antebraço. 

No centro do peito, um buraco perfeito.  Atravessado de lado a lado. Um segundo buraco, idêntico, marcava suas costas. 

Era o lugar onde seu coração deveria estar, perfurado, violado, condenado. 

As forças de Fox o abandonaram, e ele caiu de joelhos. A dor não era mais uma pontada: era uma vastidão avassaladora, uma pressão constante que ameaçava apagá-lo a cada segundo.  

Ainda assim, lutava, lutava com tudo que restava. Porque não queria que aquele fosse seu fim. Ainda tinha tanto para oferecer ao mundo, ao povo que jurou proteger. 

Viktor caminhou até ele.  

Lentamente.  

Cada passo ecoava como o pesar de uma decisão irreversível.  

Seus olhos azul-dourados estavam marejados, pesados, como se a própria lágrima fosse uma confissão de culpa. 

— ...você ainda não sabe todos os truques possíveis com a Essência — completou, sua voz baixa, quebrada pelas emoções. 

Ele se inclinou, tocando suavemente o ombro de Fox. O gesto tinha a intenção de consolo, carregado de tragédia. 

— Você foi o mais forte que eu já enfrentei até agora e... de fato... é um Herói. E precisa ser lembrado como um. Ainda que seja contra a sua vontade, espero que continue vivo até que minha mãe encerre sua luta. Então... vou implorar para que você se torne uma Sombra. 

Fox respirava com dificuldade extrema, cada inspiração parecendo arranhar seus pulmões por dentro. Não tinha força para mover a cabeça, ainda conseguia mexer os olhos, e eles se ergueram para fitar Viktor. O olhar era fraco, carregava repúdio, indignação, uma recusa absoluta. 

Viktor percebeu. E isso tornou tudo mais doloroso. 

— Ou você pode morrer agora — disse ele, desgostoso, quase amargo —, e a história do Guerreiro do Sol se encerraria aqui... 

Fox não queria morrer. Contudo, também não queria, jamais, se tornar uma Sombra. 

Entre viver sem si mesmo ou morrer como quem sempre foi, sua escolha interior era óbvia. Seu corpo já não obedecia. Cada segundo era uma batalha.  

A respiração era seu único fio de vida. Seu foco, sua frágil consciência, eram as âncoras que o impediam de cair totalmente na escuridão. 

Seu coração, sua alma, sua Essência, estava ferido de morte; derrotado. Agora, o que o mantinha vivo era apenas o trabalho desesperado e doloroso de seus pulmões, seu corpo, sua Estamina, e o fio cada vez mais tênue de sua consciência, sua mente, sua Mana. 

Viktor ergueu Athena mais uma vez, pronto para finalizar tudo ali mesmo. 

Seu semblante era de dor resignada; matar Fox seria, para ele, uma forma distorcida de honra, um adeus digno ao guerreiro que havia reconhecido como rival e quase como um irmão. 

Seus lábios tremeram levemente quando ele inalou fundo, preparando o golpe final. 

Então algo mudou. 

Um movimento. Um sussurro do vento. 

E Viktor, sensível como uma lâmina ao menor sinal de perigo, virou o rosto na hora. 

— IMPULSO! 

A palavra explodiu no ar como um trovão. 

Num instante, os ventos irromperam violentos, girando em espirais ascendentes que sacudiram o solo e ergueram poeira e fragmentos aos céus. A rajada atingiu Viktor como uma parede invisível, forçando-o a deslizar alguns passos para trás. 

Até mesmo Fox, imóvel, agonizante no chão, os olhos semicerrados em direção ao céu, sentiu seu corpo ser arrastado alguns centímetros pela força do golpe, como se estivesse sendo soprado por uma tempestade repentina. 

E então, quando o vento se dissipou, lá estava ele. 

Entre Viktor e o corpo de Fox, de pé como uma muralha silenciosa. 

Ren. 

A sua presença, embora tardia, era imponente. Seus cabelos caíam sobre seus olhos escuros e intensos, ocultando boa parte da expressão, exceto a determinação feroz que se concentrava ali. 

Viktor soltou uma risada curta, debochada. 

— Vejo que chegou um pouco tarde, não acha? 

Ren não respondeu.  

Nenhuma palavra, nenhum gesto desnecessário. 

Sua mão apenas desceu, e de repente avançou. 

O ataque veio rápido, direto, brutal. 

Um golpe que Viktor teve de bloquear imediatamente, recuando com os dentes cerrados. E então outro. E outro. 

A luta entre eles se iniciou num fluxo veloz, feroz, duas forças opostas colidindo sem hesitação. 

E Fox... 

Fox permaneceu onde estava, abandonado pelo próprio corpo, deitado sobre a terra fria, encarando o céu imenso e aberto acima de si. 

Sua visão oscilava, turva, manchada de luz e dor. Mesmo assim, por algum motivo, o céu nunca parecera tão vasto. A claridade do Sol, que deveria cegá-lo, não o incomodava nem um pouco. Pelo contrário, era quase acolhedora. 

— Ele... é tão lindo... — murmurou Fox com a voz fraca, serena, como alguém contemplando algo precioso pela última vez. 

O Sol resplandecia acima dele, imponente, iluminando seu corpo moribundo e testemunhando seus últimos instantes de lucidez.  

Um herói, sozinho com sua própria luz, exatamente como vivera. 

Apoie a Novel Mania

Chega de anúncios irritantes, agora a Novel Mania será mantida exclusivamente pelos leitores, ou seja, sem anúncios ou assinaturas pagas. Para continuarmos online e sem interrupções, precisamos do seu apoio! Sua contribuição nos ajuda a manter a qualidade e incentivar a equipe a continuar trazendos mais conteúdos.

Novas traduções

Novels originais

Experiência sem anúncios

Doar agora