Volume 3 – Arco 14
Capítulo 166: Chamas Tremulando
Fox estava gravemente ferido.
O corte invisível que o atingira continuava a sangrar por baixo da armadura, e seu tempo de vida parecia escorrer junto com cada gota quente que lhe descia pelo tronco.
Seu corpo oscilava entre o esforço e o colapso, e embora o combate estivesse longe de acabar, longe até mesmo de se estabilizar, ele sabia que precisava continuar. Precisava lutar. Precisava permanecer de pé. Nem que fosse apenas por alguns segundos a mais.
Ren, ao seu lado, mantinha uma expressão dura, firme, quase inabalável. Por dentro, porém, suas emoções eram um vendaval: medo, dúvida, culpa, ansiedade, todos se entrelaçando em sua mente com uma velocidade que o sufocava. Ele não podia ceder a elas. Não agora.
Se quisesse manter Fox vivo, teria que assumir praticamente todo o combate sozinho.
E sabia disso.
O pior é que tinha certeza de que Viktor focaria em Fox. O ferido era o alvo mais óbvio, e Viktor era muitas coisas, menos compassivo.
E então, ele fez novamente.
— Agh!
O som cortou o ar como uma lâmina.
A Sombra atacou o vento.
E assim como antes, o ataque não tinha trajetória visível. Era uma rajada silenciosa, um golpe invisível de pura Essência, impronunciável, impossível de rastrear a olho nu.
— Fox!
Ren não hesitou. Pulou contra o companheiro, derrubando-o no chão com toda a força que seu corpo podia reunir naquele instante.
— Aaagh! — Fox arfou, o impacto pressionando seu ferimento, arrancando-lhe um grunhido de dor que o deixou momentaneamente tonto.
Shink!
Um brilho rápido passou acima de Ren.
Apenas alguns fios de seu cabelo foram cortados e flutuaram no ar por um segundo antes de caírem lentamente ao chão.
Por um fio, literalmente, ambos ainda estavam vivos.
Ren lançou um olhar rápido para Viktor, depois para Fox, respirando com dificuldade.
— Não podemos mais ficar afastados dele — disse Ren, a voz carregada de urgência genuína. — Se ele continuar com esses ataques, seremos derrotados!
— Estou... — Fox tentou inspirar fundo, a dor lhe roubando o ar —, logo... atrás de você...
Mesmo debilitado, sua determinação queimava em seus olhos. Ainda queria lutar. Ainda queria ajudar.
Ren acenou, firme. Eles não podiam se dar ao luxo de fraquejar.
Viktor já preparava outro golpe carregado de Essência, o corpo girando num movimento elegante, fluido, mortal. Ele estava bem no meio da execução quando Ren surgiu em sua frente, interceptando-o como um raio.
Shing!
O ataque de Ren arrancou um corte no antebraço da Sombra. Um corte pequeno. Dessa vez, Ren não buscava matar, apenas precisava interromper o golpe, impedir que Fox recebesse mais um ferimento.
E havia conseguido.
“Ele está desesperado”, avaliou Viktor enquanto tentava recuar. “Previsível.”
Com o julgamento feito, Viktor decidiu atacar diretamente Ren.
A Sombra girou Athena, mudando o ângulo do golpe num fluxo contínuo. Dessa vez, o alvo era claro: o tórax de Ren. Se o atingisse, perfuraria seus pulmões, tirando-o do combate em segundos.
Ren fez algo inesperado.
Novamente.
Ele avançou. Avançou mais do que seria sensato. Mais do que qualquer espadachim treinado ousaria. Aproximou-se tanto que seus rostos quase se tocaram. Um movimento suicida.
Athena passou por trás dele, cortando apenas ar, e por um instante Viktor ficou tão próximo de Ren que quase o envolveu com o braço, como se estivesse prestes a abraçá-lo.
A surpresa brilhou na expressão de ambos, uma confusão silenciosa, espelhada.
Ren não perdeu tempo.
Aproveitando o instante mínimo de desequilíbrio de Viktor, ergueu sua espada e realizando um corte vertical ascendente, rasgando a carne da Sombra desde a altura do umbigo até quase chegar ao pescoço.
O som do corte ecoou como um rasgo molhado.
Um ataque desses mataria qualquer homem. Mesmo o mais resistente, mesmo o mais treinado, mesmo um Herói.
Não uma Sombra.
Desta vez, Viktor não arfou. Não gritou. Não recuou.
Simplesmente observou.
E diante dos olhos arregalados de Ren, o enorme ferimento se fechou quase instantaneamente; a carne recuperando a forma, o sangue recuando, a pele se soldando como se nada tivesse acontecido.
Como se Ren jamais tivesse tocado Viktor.
Uma demonstração cruel de que aquela luta estava perigosamente longe de terminar.
O impacto brutal do golpe lançou Viktor para longe do chão. Ele subia pelos ares, rápido demais, quase chegando à altura do topo de uma árvore alta.
Aproveitando a elevação repentina, a Sombra puxou Athena para trás e depois lançando-a para frente em um arco devastador, mirando diretamente na cabeça de Ren. A lâmina desceu com o peso e a precisão de um lenhador experiente partindo um tronco resistente.
Ren desviou para a lateral com um movimento curto, quase desajeitado. Ainda assim não foi o suficiente para evitar completamente o ataque; sentiu a lâmina de Athena tocar e rasgar a carne do ombro, abrindo um corte ardente e profundo.
Apenas não arrancara seu braço, pois Viktor estava elevado demais para Athena atingi-lo com tamanha profundidade.
Uma dor aguda correu em seu braço, obrigando o espadachim a cerrar os dentes.
A articulação pareceu fraquejar por um instante, mas Ren sabia que não podia ceder. Mesmo ferido, seu braço ainda era funcional, era tudo o que precisava. No calor daquele combate, dor não era desculpa, apenas mais um obstáculo a ser ignorado.
Ainda no ar, Viktor teve visão clara de Fox alguns metros atrás, esforçando-se para se erguer do chão com evidente dificuldade. O Herói do Povo arfava como alguém que já havia sangrado demais, seus movimentos trêmulos e desequilibrados.
A Sombra não demonstrou pena alguma; em vez disso, seus olhos frios, brilhando em dourado, estreitaram-se com intenção assassina.
Viktor balançou Athena três vezes num ritmo rápido e implacável, cada golpe descrevendo trajetórias precisas e mortais: o primeiro corte passou horizontalmente, o segundo vertical e o terceiro diagonal.
— Fox! — gritou Ren, sua voz carregada de desespero. — Mova-se!
Fox inspirou o ar como quem aprecia um vinho raro, sugando-o profundamente, guiando o fluxo pelo corpo com a técnica precisa de quem treinou aquele movimento milhares de vezes.
Seu peito expandiu-se, e quando abriu a boca, sua voz saiu rouca, mas firme o suficiente:
— IMPULSO!
Seu corpo disparou para frente numa arrancada brusca, veloz e precisa. O chão pareceu ceder sob seus pés com o súbito deslocamento e Fox escapou por poucos dos cortes; cortes esses que não deixaram marcas na grama, como se sequer existissem, mas que ambos sabiam que fatiariam sua carne sem esforço.
Colocando-se rapidamente abaixo da linha de ataque de Viktor, Fox ergueu sua katana em um movimento grandioso, mirando o céu, e bradou:
— Fúria da Raposa!
A lâmina não tinha alcance o suficiente para tocá-lo fisicamente, mas o ataque nunca fora pensado para depender de contato direto. Uma espiral de fogo surgiu na base da espada, rastejando primeiro como uma serpente tímida, crescendo rapidamente. As chamas subiram rodopiando, ganhando corpo, intensidade e brilho. Em instantes transformaram-se em um grande turbilhão flamejante que explodiu para cima numa torrente que prometia engolir Viktor por completo.
A Sombra não retrocedeu. Não arregalou os olhos. Simplesmente contraiu o maxilar, visivelmente irritado por ter perdido os golpes anteriores. Seus olhos dourados brilharam ainda mais forte.
Com um único movimento, simples e despretensioso, Viktor girou o braço lateralmente, como quem afasta uma cortina incômoda. E, ao fazê-lo, o fogo, todo o furor ardente de Fox, apagou-se num instante. As chamas murcharam e desapareceram como se nunca houvessem existido.
Fox e Ren ficaram petrificados.
A dúvida perfurou ambos: Fox estava tão debilitado que seus ataques perderam força? Ou Viktor havia ultrapassado completamente o limite de força que possuíra no início daquele combate?
A Sombra não deixaria que encontrassem a resposta.
Usando o próprio ar como apoio, Viktor impulsionou-se para baixo, os músculos tensionados, Athena empunhada com ambas as mãos. Ele descia como uma lança viva, como um predador mergulhando sobre a presa indefesa. A ponta da espada estava perfeitamente alinhada ao coração de Fox.
Ren compreendeu imediatamente a situação.
Não tinha tempo de interceptar o golpe. Não tinha ângulo, força ou velocidade para salvar Fox com a lâmina.
Poderia abandoná-lo, deixar que Fox fosse uma isca e usar o momento para decapitar Viktor enquanto atacava em queda livre. Aquela escolha fria e lógica poderia mudar os rumos do combate.
Ren não era esse tipo de homem.
Nunca fora. Nunca seria.
No ato impulsivo de quem não pensa, apenas agiu, Ren moveu-se para Fox. Seu pé alcançou o corpo do aliado no último instante e com um chute violento, ele desviou-o para o lado.
Viktor atingiu apenas o solo, afundando o chão com a força do impacto.
A terra cedeu como barro sob a lâmina, rachando em linhas irregulares, e Athena ficou cravada profundamente no solo duro, vibrando levemente com a potência do golpe que errara seu alvo.
Viktor virou-se para Ren com uma fúria que quase saia de seu corpo, seus olhos dourados tremulando como brasas agitadas pelo vento. O modo como a mandíbula dele se contraiu denunciava o quanto estava irritado, frustrado, genuinamente indignado por aquele espadachim insistir em se colocar no caminho.
— Cansei-me de você me atrapalhando! — rosnou, sua voz carregada de uma vibração grave que ecoou pelo campo destruído.
Antes mesmo que Ren pudesse erguer sua espada ou preparar qualquer defesa, Viktor avançou com rapidez. Sem usar a espada, sem técnica elaborada, apenas a brutalidade pura e direta, agarrou Ren pelo pescoço. Os dedos da Sombra se fecharam como um grilhão de ferro, levantando o espadachim do chão com facilidade assustadora.
Ren tentou se soltar, era como lutar contra uma parede viva.
Num movimento seco, Viktor girou o corpo e arremessou Ren como se arremessa um peso morto. O espadachim percorreu vários metros, talvez quilômetros, pelo ar antes de desaparecer no horizonte.
— Ren! — gritou Fox, ainda tentando forçar seus joelhos a sustentarem seu peso, lutando contra fraqueza, dor e a perda de sangue que teimava em escorrer.
Viktor, percebendo que Ren levaria alguns minutos para retornar ao combate, sentiu um prazer quase cruel infiltrar-se em seu peito. Girou Athena e apontou a lâmina para Fox, agora totalmente concentrado naquele que era, aos seus olhos, sua verdadeira presa.
— Agora somos só eu e você — decretou a Sombra, sua voz baixa e triunfante.
Fox soltou um riso fraco, rouco e trêmulo. Não havia nada naquele som que se aproximasse de confiança; era mais uma aceitação amarga do destino iminente.
— Imagino — disse ele, respirando com dificuldade enquanto apoiava uma mão no chão —, que isso significa que as chances de eu morrer são quase certas, não é?
— Obviamente — respondeu Viktor com frieza quase elegante, ainda que tentasse manter o respeito.
Fox levantou o olhar. Lentamente. Pesadamente.
Seus olhos encontraram os de Viktor, e então mudaram.
— Que bom... — murmurou, com um sorriso que não deveria ser possível em alguém tão ferido. — Ela só se manifesta nesses casos.
Primeiro, um brilho. Pequeno. Sutil. Um tremor dourado ao redor da íris.
Em seguida, tornou-se mais intenso, mais firme, até que seus olhos se transformaram completamente. Irradiavam um dourado vivo, quente, quase incandescente.
A Essência.
A aura surgiu logo depois, expandindo-se como uma explosão silenciosa.
O ar ao redor de Fox pareceu vibrar, distorcer-se, ondular como calor escapando do solo em um deserto escaldante. Era uma força quase viva, algo que queimava sem consumir, que iluminava sem cegar, que impunha respeito sem pedir permissão.
Sua armadura, antes apenas chamativa pelo modelo flamejante, agora parecia realmente feita de fogo sólido. As placas metálicas refletiam a luz dourada de sua Essência como se estivessem sendo derretidas e recriadas a cada segundo, pulsando em sincronia com seu coração.
O símbolo do Herói do Povo, a Raposa Flamejante, nunca pareceu tão literal.
Viktor, por sua vez, perdeu momentaneamente a fúria que carregava.
Seu rosto se desfez em surpresa, seus olhos se arregalaram. A raiva evaporou, substituída por curiosidade, animação e uma alegria infantil que destoava completamente do cenário sangrento ao redor.
Ele respirou fundo como um viciado finalmente recebendo a dose que esperou a vida toda.
Um sorriso largo, quase eufórico, se abriu em sua face.
— Certo! — disse ele, quase comemorando, com a voz vibrando em excitação genuína. — Divirta-me um pouco mais, Raposa Flamejante!
Apoie a Novel Mania
Chega de anúncios irritantes, agora a Novel Mania será mantida exclusivamente pelos leitores, ou seja, sem anúncios ou assinaturas pagas. Para continuarmos online e sem interrupções, precisamos do seu apoio! Sua contribuição nos ajuda a manter a qualidade e incentivar a equipe a continuar trazendos mais conteúdos.
Novas traduções
Novels originais
Experiência sem anúncios