Volume 3 – Arco 14

Capítulo 165: Adaptação Constante

— Muito bem! — disse Viktor, com uma vibração doentia na voz. — Venham logo! 

Fox deu um passo à frente, firme como uma muralha, e Ren imediatamente se posicionou atrás dele, deixando que sua própria presença se fosse ocultada, desaparecendo.  

Naquele instante, suas silhuetas se confundiam. Os passos e balanços das lâminas se alinhavam com tal precisão que pareciam dois corpos regidos por uma mesma consciência, reduzindo até o simples caminhar a um único gesto. 

Não era algo que acontecia com naturalidade ou facilidade, mas em situações como aquela, onde vida e morte se entrelaçavam e eram decididas por meros detalhes, aliados que lutavam lado a lado, pelo mesmo objetivo, tornavam-se uma força única. 

Então Fox avançou. Decidido. Confiante.  

Seu corpo inteiro pulsava com propósito, como se cada fibra muscular tivesse sido moldada apenas para aquele instante. A terra sob seus pés se abriu, lançando pequenas partículas no ar enquanto ele ganhava velocidade. 

Viktor aguardou o primeiro movimento do Herói do Povo com a frieza de um predador acostumado a analisar presas. Seus olhos, quase sem piscar, absorviam cada detalhe. 

Ele queria, mais uma vez, estudá-lo, desmontá-lo mentalmente, prever o ritmo da respiração, o peso do passo, o ângulo do quadril, tudo para encontrar a brecha que o levaria à vitória. 

E, como havia imaginado, Fox realmente tentaria algo novo. 

Em vez de partir para um golpe direto, rápido, simples, uma estocada letal ou um corte limpo, ele começou a girar a lâmina em um espiral diante do próprio corpo. O movimento era fluido, quase hipnotizante, como uma pequena dança ritual carregada de determinação.  

A luz refletia no metal descrevendo arcos prateados que cintilavam no ar. 

A Sombra acompanhou a sequência com cautela extrema, o olhar afiado como uma águia, esperando apenas o momento exato em que o ataque real se revelaria.  

Ele observava a base dos pés, o tensionar dos ombros, a sutil mudança de peso no quadril. Ele conhecia espadas, e sabia que nenhum movimento ornamental era feito por acaso. 

E então o ataque veio. 

“A lâmina está erguida; próxima da cabeça; ligeiramente inclinada. O corte só pode ser diagonal. Simples de aparar. Simples de bloquear. E posso aproveitar isso para...” 

Seu raciocínio quebrou abruptamente. 

Algo faltava. 

Um segundo elemento. 

Uma variável negligenciada. 

“O outro espadachim... Onde está o segundo espadachim?!” 

A lâmina de Fox já descia em direção a ele, rasgando o ar com um assobio ameaçador. A mente de Viktor girava com velocidade cruel, tentando recuperar a fração de segundo que escapara de seus cálculos. 

Voltou, em pensamento, ao movimento anterior de Fox. 

Quadro por quadro. 

Respiração por respiração. 

E então viu, no instante em que Fox girara a katana para um dos lados e seus olhos estavam concentrados naquele ângulo específico, do lado oposto houve um deslocamento: rápido demais, leve demais, ainda assim, real. 

Ren. 

Sem hesitar, Viktor ignorou a investida principal e girou o corpo para o lado. 

E Ren já estava ali. 

A lâmina quase beijando seu pescoço. 

“Sempre querendo terminar uma luta com um único golpe decisivo…” pensou a Sombra, com uma fagulha de desprezo e admiração misturados. 

Num reflexo impecável, Viktor ergueu Athena, interceptando o golpe fatal por um fio.  

Metal contra metal, um impacto seco que ecoou pelos dois espadachins. 

Ren arregalou os olhos, surpreso pela velocidade quase inumana da dedução adversária. Esse instante de espanto lhe custou a reação: Viktor agarrou seu braço com força brutal, girou o corpo e o arremessou como se fosse apenas um peso extra a ser reposicionado no campo de batalha. Diretamente contra Fox. 

Fox estava no meio do ataque. 

O movimento carregava impulso demais, intenção demais. 

Faltava espaço, faltava tempo. 

Ele não conseguiria parar. E se continuasse, mataria Ren. 

Viktor sorriu. Um sorriso frio, perigoso, satisfeito. 

Com um único contra-ataque, poderia eliminar mais um oponente, e fazê-lo pelas mãos do próprio companheiro. 

Fox estremeceu, o coração quase congelando, ao perceber a horrível possibilidade de ser a causa da morte de um amigo. O golpe continuava porque o corpo já estava entregue à trajetória, enquanto a mente implorava por uma brecha impossível. 

E Ren... 

Quando a lâmina parecia próxima o suficiente para partir seu torso como papel, algo em seu corpo se dobrou, uma torção precisa e quase animal. Ele girou sobre o próprio eixo em um movimento tão rápido que quase desenhou um rastro no ar, escapando da morte por um único sopro de tempo. 

Fox arregalou os olhos. Viktor também. 

Porém Fox ainda prosseguia no ataque e, devido ao arremesso, Viktor estava perigosamente mais perto. 

SHRAAACK! 

O som da carne se abrindo ecoou no ar como um trovão abafado. 

O corte não pegou onde deveria, ainda assim foi profundo. 

Seria o suficiente para derrubar um homem adulto, mesmo um soldado endurecido por batalhas intermináveis. 

Viktor não era um homem comum.

Era uma Sombra. 

Mesmo assim, o impacto o obrigou a recuar.  

Seus dentes cerraram-se com força, a dor pulsando em ondas pelo corpo. Sua pupila tremeu de pura raiva. Uma fúria crescente, sombria, prestes a transbordar. 

“Como isso é possível?! Como ele conseguiu escapar daquela forma? Isso foi planejado? Eu deixei passar algum movimento sutil? Algum cálculo deslocado?” A mente de Viktor fervilhava. “Não. Não errei em nada! Tudo estava perfeito. Eles... tiveram sorte!” 

O pensamento o incomodou como uma farpa cravada sob a pele. Sorte. Uma variável que ele odiava admitir, odiava sequer considerar como parte de um combate. E então, como um sussurro vindo das camadas mais profundas de sua memória, ecoou uma voz familiar. 

A voz de sua mãe, Varelith. 

“Se estiver contando com a sorte durante uma batalha, considere-se derrotado. Confie apenas em seus instintos e habilidades. Ainda que a situação esteja desfavorável, agarre-se às pequenas chances de vitória.” 

A lembrança o atingiu com um misto de conforto e irritação.  

Viktor respirou profundamente, estendendo o ar pelos pulmões até que a dor do ferimento recente ardesse e se dissipasse. À medida que seu peito começava a se regenerar, sua mente também retornava ao eixo, mais fria, mais precisa. 

Era verdade que o golpe o pegara desprevenido. 

Era verdade que havia levado a pior naquela troca. 

Ainda assim, ainda assim, as probabilidades continuavam ao seu favor. 

Ele conhecia Fox. Conhecia sua reputação, seus limites, suas manias de combate. O Herói do Povo era forte, extremamente habilidoso, mas previsível depois de tudo que Viktor já havia conseguido estudar. 

O problema era o outro. O espadachim silencioso, o que escapara de sua leitura, o responsável por sua frustração crescente. 

O desconhecido. 

— Qual é seu nome? — perguntou Viktor, com a voz baixa, firme. 

O espadachim o encarou sem vacilar. 

— Ren. 

— “Ren...”? — repetiu Viktor, como se saboreasse o nome, buscando algum reconhecimento perdido. 

— Apenas Ren. 

Os dois ficaram frente a frente por um instante que pareceu se alongar no tempo, como se o ar entre eles tivesse se tornado mais denso. Fox, ao lado, quase se apagava na cena, reduzido a mero coadjuvante enquanto a tensão se concentrava sobre aquelas duas figuras. 

Viktor inclinou levemente a cabeça, seus olhos estreitando. 

— Está bem, Ren — disse ele, com um tom carregado de irritação contida. — Admito que você me intriga de uma maneira extremamente desagradável. Seu estilo de combate... não faz sentido. É desalinhado, imprevisível, desconectado. E ainda assim, funciona. Funciona bem demais. 

Viktor respirou profundamente, mais uma vez, buscando não perder o controle. 

 — Me pergunto quanto tempo isso irá durar... 

Ren ergueu a espada, assumindo uma postura que vibrava de determinação. A ponta da lâmina estava tensionada, apontando diretamente para o coração do inimigo. 

— Se tiver sorte — respondeu ele, com veneno na voz —, descobrirá meu segredo quando eu perfurar seu coração...igual você fez ao meu primo! 

“Primo?” 

A palavra atravessou a mente de Viktor como uma fagulha. O tempo para refletir acabou ali mesmo. Porque quando percebeu, Ren já estava em sua frente, o deslocamento tão rápido que parecia um salto através do próprio ar, com a espada prestes a atravessar seu peito. 

CLANG! 

Athena ergueu-se a tempo, interceptando o golpe com um estrondo metálico. A vibração percorreu o braço de Viktor, mas ele não parou: recuou meio passo, abriu a guarda por um instante calculado e, antes que Ren pudesse insistir no ataque, chutou-o com força brutal. 

A parte superior do corpo de Ren foi lançada para trás, o ar escapando de seus pulmões. 

E naquele exato instante, Fox desceu do alto, igual um predador caindo do céu. 

— Mergulho da Raposa! 

Sua katana envolveu-se em chamas intensas que ondulavam como serpentes de luz ao redor da lâmina. O calor irradiava tanto que distorcia o ar ao redor. 

Viktor já havia estudado o Herói do Povo. 

Com um giro fluido, desviou para o lado. A katana flamejante passou rente a ele, tão perto que o calor queimou sua pele, sem acertá-lo. Fox pousou no chão com força, enterrando a lâmina profundamente no solo. 

Quando Viktor completou o giro, já estava com Athena levantada, pronta para cortar o pescoço do adversário. Porém algo o fez hesitar por um fragmento de segundo: Fox não tentava retirar a katana. 

Ele a deixara lá. Intencionalmente. 

BRRMMM! 

O chão tremeu sob seus pés. Pequenas rachaduras se espalharam como teias pelo solo. E dessas fissuras emergiram cortinas de fogo, colunas ardentes que explodiram para cima, iluminando a arena com um brilho infernal. 

Pego de surpresa, Viktor viu a parede de chamas se aproximar. O fogo mágico o envolveu, queimando sua pele, suas feridas chiando ao contato. A regeneração, normalmente instantânea, falhou por alguns segundos enquanto o fogo corroía as bordas da carne. 

A dor estilhaçou seus pensamentos. 

Ele precisou de três segundos inteiros para recuperar o foco. 

Três longos segundos. 

E teve sorte, uma sorte que desprezava, de que seu chute havia afastado Ren. Porque, se estivesse mais perto, ele teria usado a abertura sem hesitar. 

E Viktor sabia disso. Sentia isso. E talvez fosse isso que mais o irritava. 

Quase totalmente recuperado dos ferimentos, Viktor levantou o queixo e encarou novamente Fox, que emergia lentamente do ponto onde havia finalizado seu ataque.  

A fumaça branca, gerada pelo fogo mágico que consumira o chão, serpenteava pelo ar em correntes suaves, como véus que se desfaziam ao vento. Ao atravessar aquela neblina luminosa, a figura de Fox ganhou contornos quase míticos. 

Sua armadura refletia tons dourados e avermelhados, brilhando com intensidade conforme as brasas ao redor ainda crepitavam. Cada placa do metal reluzia como se guardasse dentro de si fragmentos de fogo vivo. Uma estética que lhe caía perfeitamente, justificando com precisão quase poética o título que carregava: Raposa Flamejante. 

E aquilo irritava Viktor de maneiras que ele nem sabia explicar. O brilho, o heroísmo, a postura altiva, tudo era irritante por si só. 

O que o consumia de fato era outra coisa: 

Nenhum dos dois, nem Fox, nem Ren, ostentava um olho dourado. Nenhum deles utilizava a Essência. Nenhum. E mesmo assim, estavam conseguindo pressioná-lo daquele modo. 

— Ainda tenho muitos outros ataques guardados — disse Fox, com a confiança de quem já lutara batalhas demais para tremer diante de uma Sombra. — Recomendo que desista. 

Era um aviso. Curto, direto, quase arrogante. 

Ren voltou a aparecer ao lado dele, surgindo na fumaça como um fantasma que simplesmente escolhia existir naquele momento. Sua presença ao lado de Fox deixava claro que o próximo ataque não viria de apenas um, e sim dos dois, em perfeita sincronia. 

A raiva de Viktor borbulhou em seu peito como água fervente. 

Ele não podia se permitir ser surpreendido novamente por nada do que Fox viesse a criar. Sabia que o “Mergulho da Raposa” não o atingiria outra vez agora que entendia sua mecânica, mas Fox era exatamente o tipo de guerreiro que poderia improvisar algo novo a qualquer momento, forjando técnicas no calor da batalha. 

E isso seria perigoso o suficiente por si só. 

Ren... 

Ren era ainda pior. 

Um espadachim impossível de ler, impossível de prever, impossível de decifrar. Era como tentar seguir o movimento de um galho levado pelo vento; não importava o quão atento estivesse, ele sempre se desviava nos momentos mais inesperados. 

Viktor odiava isso. 

Odiava a ideia de que aquela luta exigiria dele esforço real. 

A contragosto, levantou-se totalmente do chão e inspirou profundamente. 

Então abriu os olhos. 

E ambos brilharam em ouro. 

Fox e Ren enrijeceram imediatamente.  

O ar ao redor pareceu pesar, como se uma pressão invisível se expandisse do corpo de Viktor. Os dois sentiram, com absoluta clareza, que o nível do combate havia acabado de mudar. A presença dele agora era mais densa, mais ameaçadora, mais afiada. 

— Agh! 

Viktor atacou. 

Um simples golpe horizontal. Simples demais para justificar o terror que o seguia.  

O ar não rugiu, não sibilou, não se retorceu. 

Parecia, à primeira vista, um movimento comum, até anêmico. 

Ren, sem entender o porquê, jogou-se no chão. Seu corpo reagiu antes que sua mente pudesse formar qualquer raciocínio.  Ele próprio parecia desconcertado pela reação involuntária. 

SHRACK! 

— Aaaagh! 

Fox arqueou o corpo para frente, um grito rouco escapando de sua garganta. Levou a mão ao abdômen em reflexo puro. 

Sua armadura permanecia intacta. Lustrosa. Sem sequer um arranhão. 

E mesmo assim, por debaixo dela, uma mancha avermelhada começou a se expandir, lenta, inevitável, como tinta derramada em tecido.  

Sangue. 

Um golpe invisível. Indetectável. Irreversível. 

Ambos os espadachins congelaram ao perceber o que aquilo significava. Os olhos de Fox brilharam de medo. Um medo denso, genuíno, frio. 

Sem Erina, aquele ferimento não poderia ser curado. E pior: tinha profundidade suficiente para tirá-lo completamente do combate ou mesmo matá-lo, se não fosse tratado a tempo. 

Eles olharam novamente para Viktor. 

E compreenderam, naquele único instante silencioso, que a luta havia se transformado em algo muito mais sério. 

Agora era uma corrida contra o tempo. 

E o tempo deles já estava escorrendo como sangue quente pelo chão. 

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