Volume 3 – Arco 14
Capítulo 164: Sombra Menor
Agora que você já sabe sua história, por que não voltarmos de onde pararmos?
***
SHINK!
A lâmina rasgou o ar com velocidade predatória antes de encontrar o peito de Kenshiro. O impacto não foi apenas um golpe, foi um estalo seco seguido de uma pressão profunda que atravessou carne, músculo e ossos com a precisão de um carrasco experiente.
O som metálico ecoou abafado, como se até mesmo o mundo tivesse prendido a respiração para testemunhar aquele instante final.
Por um segundo que pareceu impossível de medir, tudo se silenciou: o vento congelou em seu sussurro, o chão suspendeu seu tremor, e até as sombras pareceram hesitar.
— Sinto muito por não ser forte o suficiente para salvá-lo — murmurou Viktor, a voz baixa, carregada de um peso quase reverente. Seus olhos não demonstravam alegria, apenas um tipo estranho de certeza sombria. — Sua força... viverá em mim agora.
Essas foram as últimas palavras que o espadachim ouviu antes que a escuridão engolisse seu mundo. O foco se perdeu, o horizonte se dissolveu e a vida simplesmente caiu de suas mãos como areia escorrendo entre os dedos.
O silêncio seguinte foi quebrado por um único som, um grito que parecia carregar a dor de séculos:
— KENSHIRO!!!
A voz de Fox se misturou à de Ren, ambas rasgadas, cruas, desesperadas. O eco se espalhou como um trovão. A terra tremeu sob o peso daquela agonia, vibrando como se a própria natureza fosse capaz de sentir a injustiça do momento.
O vento, que antes cortava com ferocidade, agora parecia apenas carregar o cheiro de sangue fresco, perda e uma fúria prestes a incendiar o mundo.
Ren, tomado pela ira e pela dor que o rasgava por dentro, avançou com tudo o que tinha. Seus músculos tremiam, a respiração ardia e seus olhos estavam tomados pela loucura da vingança. Ele estava pronto para se lançar sobre Viktor com toda força, mesmo que morresse na tentativa.
Fox foi mais rápido.
Com um movimento firme e preciso, agarrou Ren pelo ombro e pelo braço, segurando-o com toda a força que possuía.
— Não, não! Espere! — disse Fox, sua voz vinha tensa, quase trêmula pela urgência.
— Do que você está falando?! — gritou Ren, tentando se desvencilhar, quase cuspindo as palavras de tanto ódio. — Aquele puto matou meu primo!
— Não seria a primeira vez que ele morre — respondeu Fox.
Ren congelou por um instante.
— O quê?
Fox puxou-o alguns centímetros para mais perto, inclinando-se ao lado do rosto do amigo para que Viktor não pudesse ver seus lábios. A respiração dos dois se misturou no curto intervalo de um sussurro urgente:
— Me escute com atenção agora. Precisamos fazer com que essa Sombra se afaste do corpo de Kenshiro, somente assim Erina poderá trazê-lo de volta.
As palavras atingiram Ren como um soco invisível. O choque, a incredulidade e a esperança, frágil, quase insuportável, lutaram dentro dele. Seus olhos buscaram os de Fox, procurando qualquer sinal de dúvida. Não encontrou nenhum.
Viktor, limpando a lâmina com um movimento rápido e elegante, ergueu a cabeça percebendo a estranha maneira como os dois espadachins estavam se comportando.
— O que vocês estão falando aí? — perguntou ele, caminhando com passos lentos, calculados. Cada passada parecendo um aviso. — Vocês vêm até mim ou eu vou até vocês?
Ren e Fox trocaram um breve olhar, não havia palavras ali, apenas uma decisão silenciosa, quase instintiva.
FUSH!
Ambos desapareceram das vistas ao recuarem simultaneamente, cada um se movendo para um lado, tão rápidos que pareciam ter se dissolvido no vento.
Viktor abriu um sorriso amplo, quase infantil, distorcido pela violência que irradiava dele.
— Então lá vou eu! — anunciou, a voz vibrante como alguém prestes a iniciar um jogo cruel.
***
Fox conseguiu se afastar com maestria, cortando o ar com movimentos quase invisíveis enquanto se distanciava da zona principal da batalha.
Ele se movia como um raio vivo, calculado e silencioso, buscando uma área afastada o suficiente para que não interferisse nas lutas de seus aliados. Sabia que, se chegasse perto demais, qualquer intromissão de uma Sombra, em especial, Varelith, seria o suficiente para virar o curso de todo o combate. Assim, tomou cuidado redobrado para não se aproximar de nenhum deles.
A vastidão ao redor parecia estranhamente calma, considerando o caos que se desenrolava atrás. O vento soprava com intensidade crescente, carregando o cheiro de terra revirada, suor e sangue, enquanto o sol filtrava seus raios entre as nuvens escuras.
Fosse pela velocidade absurda com que correra, ou pela distância surpreendente que cobriu em tão pouco tempo, Fox não esperava encontrar Viktor ali, parado bem à sua frente, como se tivesse surgido do nada.
A Sombra estava com Athena em mãos, a lâmina repousava abaixada, quase casual, como se nem estivesse prestes a lutar.
Fox freou seco demais.
Seu corpo deslizou com um breve arrastar no solo, desequilibrando-se por um instante. Seus pés quase cederam, o tronco inclinou para frente e o coração disparou. Um movimento tão pequeno que poderia ter sido ignorado por qualquer combatente comum, mas que, diante de um inimigo como Viktor, representava nada menos que uma sentença de morte.
Se o Sombra quisesse, naquele instante teria o matado.
Ciente disso, Fox ergueu sua katana sem hesitar, apontando a lâmina diretamente para o peito do inimigo. Sua postura era firme. Seu interior gritava para que mantivesse a atenção absoluta.
Viktor observava tudo com calma predatória, como um felino que brinca antes de caçar.
— Sabe — começou a Sombra, com a voz tranquila demais para alguém que acabara de assassinar Kenshiro —, você me decepcionou, Guerreiro do Sol.
Fox se moveu lentamente para o lado, deslizando o pé no solo, estudando cada músculo do adversário.
— É mesmo? E por quê? — perguntou, tentando extrair qualquer informação que pudesse lhe conceder segundos extras.
Viktor ergueu Athena, deixando-a na altura do ombro enquanto caminhava em um círculo quase preguiçoso.
— Minha mãe me mostrou as Crônicas que falavam de você — A voz dele assumiu um tom nostálgico, quase infantil. — Dizia que você era uma lenda viva, um guerreiro invencível que transbordava esperança por onde passava. Porém, não é isso que vejo quando olho para ti. Agora vejo medo. Vejo dúvidas. Vejo... vergonha.
Fox manteve o olhar firme, embora as palavras o atravessassem como farpas.
— Parece que não preciso contar minha história para você, já que me conhece tão bem — respondeu, modulando a voz para soar confiante. Na verdade, estava desesperadamente tentando ganhar tempo. — E quanto a você? O que Varelith lhe contou ou fez para convencê-lo a se tornar uma Sombra?
O sorriso de Viktor se ampliou.
— Minha mãe? Ah, ela não fez nada! — Soltou um riso breve, quase juvenil. — Na verdade, fui eu quem implorei para que ela me abençoasse. Com sua benção, ganhei uma força que jamais imaginei possuir. E, segundo ela, tudo o que fez foi desbloquear meu potencial completo. Então... acho que não trapaceei.
Fox cerrou os dentes, tentando conter a raiva.
Não conseguiu.
— Poder? Foi por isso que você quis ser uma Sombra?
Viktor inclinou levemente a cabeça para o lado, como se a acusação o tivesse acertado no ego.
— Ei! Não me acuse tão deliberadamente, Raposa Flamejante — disse ele, ofendido. — Eu uso esse poder para o bem... ainda que pela ótica de uma moral deturpada.
— E quanto bem você já fez? — rebateu Fox, sem piscar.
Dessa vez, Viktor hesitou. Por um instante, apenas um, algo passou por seus olhos.
Dúvida? Arrependimento? Uma lembrança?
Seja o que fosse, desapareceu rápido demais para ser identificado.
Em vez de responder, devolveu com frieza:
— Me diga você — Aproximou-se um passo. — Realmente quis ajudar as pessoas ou apenas o povo do Império?
Fox não respondeu.
Viktor então completou, como se saboreasse cada palavra:
— O único herói imperial que teve coragem de visitar Favéria foi Reiji Torison. Meu pai.
Fox estreitou os olhos.
— Você nasceu lá? — perguntou lentamente. — Favéria... é onde o Império envia os criminosos depois que os Remanescen...
— “Criminosos”? — interrompeu Viktor, com um sorriso amargo. — Então me diga... quais crimes eu cometi ao nascer? Ou minha mãe, já que ela também nasceu lá?!
Percebendo que começava a perder a compostura, Viktor cessou suas palavras e buscou controlar a respiração. Porém, a indignação persistia, especialmente quando seu olhar se voltava para Fox e o brasão que carregava.
— Herói imperial... é ingenuidade sua acreditar tão facilmente no Império...
FUSH!
Viktor desapareceu. Sumiu tão rápido que o ar sequer teve tempo de deslocar-se corretamente.
E Fox sentiu um instinto quase animal, afiado por anos de treinamento. Detectou a vibração microscópica do ar atrás de si. Seu corpo se virou antes mesmo de sua mente processar o movimento.
TCHANG!
As duas lâminas se cruzaram com brutalidade, chocando-se em um estrondo metálico que cortou a tensão. As espadas ficaram presas por um instante, rangendo sob a pressão incessante.
Ambos forçaram a guarda, músculos tensos, dentes cerrados, olhares travados, cada um tentando quebrar a postura do outro.
— Você me decepcionou, Guerreiro do Sol — continuou Viktor, agora sua voz já não carregava o tom de sarcasmo calmo de antes. Era algo mais denso, fervente, tomado por uma raiva que parecia vir de um lugar profundo e antigo. — Se o Sol não representa mais a Esperança, nem a Humanidade, mas apenas o Império... então eu mesmo farei questão de apagá-lo!
A mudança em seu corpo era nítida. Era como se sombras invisíveis o envolvessem, intensificando-se a cada segundo.
O ar ficou mais pesado, vibrante, e Fox sentiu a pressão da força do inimigo duplicar, talvez até triplicar. Cada centímetro quadrado de espaço ao redor dele parecia empurrá-lo, esmagá-lo, tentando sufocar sua capacidade de reação.
— NGAAH!
Um rugido rasgou a garganta de Viktor. E finalmente, a balança do confronto se inclinou.
O impacto veio como um golpe de martelo. Fox foi empurrado violentamente para trás, seus pés arrastaram no solo, e sua coluna gritou em protesto. Ele mal teve tempo de erguer sua espada, movendo-a por puro reflexo e instinto, quando a lâmina de Viktor veio cortando direto em direção ao seu pescoço.
O aparo foi desajeitado, completamente desequilibrado, feito na borda do desespero. O suficiente para salvar sua vida.
Viktor não parou.
O novo ataque veio imediatamente, veloz, afiado, certeiro, novamente mirando sua cabeça.
Fox precisou jogar o corpo inteiro para trás, inclinando-se tanto que quase perdeu o centro de gravidade. Sentiu os músculos da lombar se esticarem até o limite, o ar raspar em sua garganta e o chão desaparecer quando seus pés saíram meio centímetro do solo.
Agora, seu peito estava completamente exposto.
E Viktor aproveitou.
Empunhando Athena com ambas as mãos, ergueu a lâmina acima da cabeça como um verdadeiro carrasco prestes a executar um condenado indefeso.
A postura era perfeita, a força acumulada era enorme, e a queda da espada prometia ser fatal.
Enquanto a maioria dos sentenciados fechariam os olhos ou desviariam o olhar no instante final, Fox manteve os seus abertos. Arregalados. Ele viu a morte vindo em sua direção com a clareza cruel de alguém consciente demais de seu fim.
“É assim que eu vou morrer?”, pensou, sentindo o coração pesar e o estômago afundar como se estivesse caindo de um penhasco.
Sua espada estava longe demais para o salvar, o golpe anterior a havia arrastado para o lado.
Mesmo que erguesse o braço, mesmo que usasse toda sua força, não adiantaria: seria decepado sem piedade, e a lâmina seguiria adiante sem qualquer resistência.
Não podia desviar. Seu corpo ainda estava preso ao fim do último movimento defensivo, sem apoio, sem firmeza, sem saída.
Em apenas uma sequência de ataques, perfeita e calculada, Viktor havia se provado superior.
TCHANG!
Um som metálico explodiu.
Um terceiro fator interferiu.
— Ahn!
Fox caiu no chão com violência, o impacto sacudindo todo o seu corpo. A dor se espalhou rápido: costas, ombros, cotovelos, tudo pareceu reclamar ao mesmo tempo quando ele bateu no solo totalmente vulnerável.
Era a única dor que sentia.
Seu peito estava intacto. Sem sangue. Sem corte.
Sem morte.
Ofegante, Fox ergueu o olhar, e a cena diante dele parecia quase impossível.
Ren estava ali. Parado como um pilar inquebrável.
Sua espada estendida interceptava Athena, mantendo a lâmina de Viktor afastada por poucos centímetros do rosto de Fox. Os músculos do braço estavam tensionados, as veias saltavam, mas seus pés estavam firmes, enraizados no chão como se fosse parte dele.
Agora, Ren e Viktor eram os dois disputando força.
Ren segurava sua espada com apenas uma mão. Tivera que se esticar ao máximo para alcançar a tempo, inclinando o corpo para frente com um equilíbrio quase absurdo — qualquer centímetro a mais e teria perdido o ponto de resistência da lâmina.
E, por estar tão estendido, não tinha espaço para mover-se. Não podia mudar sua postura sem quebrá-la e abrir uma brecha fatal.
Mesmo assim, Ren não tremia.
Viktor utilizava as duas mãos, todo o peso do corpo, toda a força de que era capaz.
Ren permanecia sólido. Inabalável. Um escudo vivo entre Fox e a morte.
“Quanta força!”, pensaram Fox e Viktor ao mesmo tempo, cada um por um motivo totalmente diferente.
Fox, porque nunca vira Ren tão resoluto, tão absolutamente firme, tão avassalador; e Viktor, porque não concebia a ideia de alguém, qualquer pessoa, conseguir deter sua força total com apenas uma mão.
O olhar de Viktor pousou sobre os de Ren.
E quando encarou aquele semblante fechado, duro, afiado como aço recém-forjado, sentiu algo frio correr por dentro de si. Não era medo. Não o medo comum; era algo que arranhava sua alma.
Ren carregava um peso enorme nos olhos, uma dor que não se diluía no tempo. A morte de Kenshiro pulsava dentro dele como uma ferida aberta, viva, latejante.
Se não podia desfazer o que acontecera, ao menos poderia punir o responsável.
— Hah!
Num movimento explosivo, Ren levantou sua espada, erguendo junto a lâmina de Athena como se ela pesasse o mesmo que uma pena. O choque metálico perdeu força, e Viktor foi empurrado para trás, surpreso, desequilibrado.
O Sombra ainda processava ter perdido aquele embate bruto quando Fox avançou. Viktor sequer teve tempo de reajustar a postura; acreditava que, caso viesse um ataque, seria Ren quem tentaria golpeá-lo primeiro.
Não foi o caso.
— Corte da Raposa: Uma Cauda!
A voz de Fox cortou o ar junto com a lâmina.
Um golpe horizontal, limpo, veloz, tão preciso que parecia ter sido traçado com uma régua. Um corte que, se completado, separaria Viktor em dois, da cintura para cima e da cintura para baixo.
A Sombra tentou recuar, movendo-se com a rapidez sobre-humana que lhe era natural. Fox o acompanhou passo a passo, como um reflexo perfeito que se recusava a perder o alvo.
E então o corte o alcançou.
O som foi seco.
O sangue brotou imediatamente, espirrando e pintando a grama em vermelho vibrante.
A katana de Fox continuava limpa, as chamas que envolviam a lâmina queimavam todo sangue antes mesmo que a menor gota pudesse tocá-la. Um brilho alaranjado percorreu o fio da espada, serpenteando como fogo vivo.
— Aaaahhh!!!
O grito de Viktor rasgou o campo.
Pura dor.
Ainda assim, ele não caiu.
Continuava de pé, curvado para frente, segurando com força o corte profundo na barriga. O sangue escorria por entre seus dedos enquanto sua respiração acelerava como a de um animal acuado.
E, para surpresa de Fox, a regeneração de Viktor estava atrasada.
“Esses cortes mágicos são realmente dolorosos!”, reclamou Viktor a si mesmo, cerrando os dentes com frustração.
Ele observou Ren se posicionar ao lado de Fox; os dois agora alinhados, perfeitamente sincronizados, como uma dupla de predadores prestes a atacar o mesmo alvo.
A barriga de Viktor finalmente fechou. Em poucos segundos, estava completamente restaurado.
Respirou fundo. Precisava se acalmar.
Qualquer brecha, qualquer deslize, e seria derrubado antes de compreender o que o atingira.
Ergueu Athena, girou-a com leveza e apontou a lâmina para os dois guerreiros diante de si. Um sorriso largo, quase divertido, quase suicida, tomou seu rosto.
— Muito bem! — disse Viktor, com uma vibração doentia na voz. — Venham logo!
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