Volume 3 – Arco 14

Capítulo 163: Trajetória VI

Fox ousou atacá-lo novamente. 

Desta vez, lançou um corte horizontal na altura do torso de Ren, um movimento amplo e firme, carregado pela frustração acumulada de seu golpe anterior. 

SHINK! 

Para sua surpresa, e desgosto, o ataque foi facilmente aparado pela simples bainha que Ren segurava de modo quase preguiçoso, como se estivesse afastando um galho no caminho e não bloqueando um golpe capaz de partir um homem ao meio. 

— Você está ao menos tentando me ferir? — provocou Ren, sua voz carregada de deboche tranquilo, como quem conversa em meio a um treino casual. 

Fox cerrou os dentes, deixando escapar um rosnado frustrado.  

Recuou a lâmina por um instante apenas para girar o corpo e atacar novamente pelo lado oposto, desta vez canalizando cada gota de impulso, velocidade e raiva reprimida. 

Ren, no entanto, desviou com a mesma facilidade irritante de antes, dando apenas um passo para trás, simples, limpo, quase elegante. 

Fox não recuou; sua investida continuou, feroz e incansável. Atacou uma vez, depois outra, alternando ângulos, ritmos, alturas. Seu corpo parecia um borrão alaranjado de calor e fúria, lutando desesperadamente para encontrar uma brecha. 

Ren, por outro lado, não parecia surpreso. Nem impressionado. Sequer preocupado. 

Dominava aquela luta de maneira absoluta, como se estivesse poupando energia propositalmente, apenas reagindo o suficiente para não ser atingido. Em contraste, Fox fazia de tudo para derrotá-lo com um único golpe, cada ataque mais desesperado do que o anterior. 

— Consigo ver quais técnicas Reiji lhe ensinou — comentou Ren com calma, desviando de outro golpe —, ainda não é o suficiente, Guerreiro do Sol. 

A menção ao título reacendeu a chama da determinação de Fox. 

— Corte da Raposa... 

Ele deslizou sua lâmina rente ao chão, fazendo faíscas saltarem de forma selvagem, então ergueu a katana em um arco ascendente, rápido como um estalo, mirando o ponto vulnerável logo abaixo do pescoço de Ren. 

Desta vez, o fogo não se limitou à lâmina. Ele cresceu ao redor de Fox como uma onda viva, tomando forma, rugindo, queimando tudo ao redor. Mesmo que Ren pudesse escapar do fio cortante, era impossível evitar o incêndio que o envolvia. 

— ...Uivo Rubro! 

Ren desviou da lâmina com reflexos impecáveis, mas não teve tempo de evitar a torrente abrasadora. As chamas o envolveram por completo, engolindo-o em um brilho incandescente que iluminou toda a arena. 

Fox ouviu o grito. Agudo. Humano. Cheio de dor. 

Em meio ao cheiro acre de carne queimada, um desconforto pesado apertou seu peito. Ele não sentiu que estava ferindo alguém cruel ou ameaçador. Algo naquela reação de Ren, ou na falta de resistência real, parecia perturbá-lo. Sentia que estava ferindo um inocente. Ainda precisava libertar seus companheiros da ilusão. Isso era maior do que sua hesitação. 

Ren caiu de joelhos, curvando-se sobre si mesmo, recolhendo-se em posição fetal enquanto as chamas ainda lamuriavam ao seu redor. Sua respiração vinha entrecortada, fraca e dolorosa. 

Vendo uma abertura, Fox saltou, pronto para finalizar tudo de uma vez por todas, sua espada apontada com precisão letal para o coração do adversário. 

No instante em que a lâmina desceu, Ren se moveu, rápido demais para alguém em tamanha agonia. Ele simplesmente deslizou para o lado, abandonando o ponto onde deveria estar. 

Fox arregalou os olhos.  

Ren não demonstrara intenção de lutar daquele modo. Na verdade, pensando melhor, ele parecia assim desde o início: passivo demais, calmo demais, estranho. 

Fox decidiu fazer um teste. 

Com a katana em mãos, avançou mais uma vez, mirando um golpe fatal que, se acertasse, deceparia a cabeça de Ren sem qualquer chance de sobrevivência. 

Ren desviou. Não foi um desvio calculado, frio ou sequer elegante. Foi algo rápido demais para que Fox pudesse acompanhar com os olhos, quase como se o corpo de Ren estivesse reagindo por puro instinto, sem que o próprio entendesse o que fazia. 

E agora, o teste definitivo. 

Sendo devagar desta vez, como quem se aproxima de um animal ferido, ele aproximou a ponta da espada da perna de Ren, e pressionou. 

A lâmina penetrou a carne com facilidade. 

— Aaahh! Aaaahhhhh!!! 

O grito ecoou como se tivesse sido arrancado à força de dentro da alma de Ren. Sua voz estava cheia de desespero, um misto de dor física e algo muito mais profundo, como se estivesse lutando contra algo invisível e esmagador. 

Fox puxou a katana imediatamente, apavorado. 

— O que está fazendo?! — perguntou, horrorizado, sem entender o que acontecia, nem mesmo acreditando no que via. 

Ren ergueu o rosto, os olhos entreabertos, a respiração trêmula. 

— Não consegue me matar, Herói do Povo? — provocou, sua voz saiu rouca, arranhada, frágil — Vamos... dê o seu melhor! 

As paredes do Farol do Saber estremeceram. 

O chão vibrou como se um terremoto estivesse começando bem ali, e a escuridão ao redor falhou, piscando em tons irregulares, como um foco de luz prestes a queimar. 

No meio daquela oscilação, Fox viu algo que fez seu estômago afundar. 

A figura diante dele não era mais humana. 

Por alguns segundos, segundos longos o bastante para que o horror se solidificasse, o corpo de Ren se contorceu, distorcendo-se em formas impossíveis. Tornou-se um monstro coberto de ferimentos grotescos, cortes profundos que deixavam à mostra carne, ossos, partes deslocadas. Era uma visão tão abominável que até o guerreiro mais experiente sentiria a ânsia subir pela garganta. 

E então, tão rápido quanto começara, aquilo cessou. 

A respiração de Ren voltou a um ritmo quase controlado. O Farol silenciou. A escuridão estabilizou. 

E Ren reassumiu sua forma humana, como se nada daquilo tivesse acontecido, exceto pelo terror estampado em seus olhos. 

— Vamos... logo... — murmurou, a voz falhando enquanto implorava entre gemidos e suspiros contidos. — Me... mate... 

Fox engoliu seco. 

— O que houve com você? 

Ajoelhou-se ao lado dele, tentando inspecionar seus ferimentos, pensando em alguma forma de tratá-los ou ao menos aliviar a dor.

Ren reagiu de maneira inesperada: levantou-se num sobressalto e começou a socá-lo. 

Só que não havia força. 

Nenhuma. 

Cada golpe que Ren desferia parecia atingir mais ele mesmo do que Fox. Os punhos tremiam, o impacto era fraco, quase patético e, pior, extremamente autodestrutivo. 

Fox ouviu o primeiro estalo. Um osso sendo quebrado. 

Depois outro. 

Os dedos de Ren se contorciam, ignorando fraturas antigas e novas.  

Em seguida, todo o braço pareceu deslocar-se, pendendo sem firmeza, encerrando a sequência de golpes. 

Ren ainda não havia desistido. 

Tonto, cambaleante, tentou golpear com a própria cabeça.  

Falhou.  

Errou completamente o alvo, acertando o chão duro, perdendo o equilíbrio e desabando no chão sem conseguir levantar-se novamente. 

Fox ergueu-se do chão, vendo que Ren estava completamente derrotado. Deu um passo para trás, depois outro, incapaz de compreender a cena diante de si. 

Ren não era um adversário, era um enigma quebrado, um paradoxo terrível. Por fora, parecia normal, inteiro, humano. Por dentro, parecia destruído, fragmentado, lutando contra algo que o consumia de dentro para fora. 

Fox não sabia o que fazer. E, pela primeira vez, teve medo, não de Ren, mas do que estava acontecendo com ele. 

— Existe algo aqui dentro que eu possa utilizar para ajudá-lo? — perguntou Fox, sua voz carregada de preocupação genuína, quase implorando por alguma pista, qualquer coisa que pudesse impedir aquele suplício que já fugia completamente do que ele entendia como “luta”. 

Ren levou a mão à própria boca de repente, como se tentasse se silenciar à força. Seus dedos tremeram com violência, as unhas pressionando a pele até deixarem marcas avermelhadas. Ainda assim, não conseguiu conter as palavras que escaparam. 

— Nos meus bolsos... 

As lágrimas escorreram de seu rosto de maneira involuntária, silenciosa, pesando mais do que qualquer grito poderia pesar. Não era apenas dor física, havia ali um tormento interno, desespero, talvez até vergonha. 

Fox não hesitou.  

Imediatamente vasculhou os bolsos de Ren com a rapidez de alguém que teme estar perdendo tempo precioso. Seus dedos encontraram um pequeno frasco de vidro, leve como um perfume artesanal. Ao destampá-lo, uma névoa roxa e suave começou a escapar, pairando no ar como fumaça etérea, quase hipnotizante. 

Ele aproximou o frasco da boca de Ren, pronto para fazê-lo beber. Ren não engoliu nada; inalou profundamente, como se aquele aroma fosse uma espécie de bálsamo fundamental. 

E então, o perfume começou a fazer efeito. 

Em poucos segundos, as queimaduras que Fox havia provocado desapareceram completamente. A pele de Ren, antes chamuscada, voltou ao normal, como se nada tivesse acontecido.  

Era como assistir o tempo sendo rebobinado diante de seus olhos. 

— Imbecil... — disse Ren, recuperando um pouco de sua postura arrogante. — Agora terá que começar tudo de novo... 

Fox balançou a cabeça, tomado por uma tristeza pesada, e respondeu com sinceridade. 

— Eu não vou lutar contra você. 

Seu semblante carregava um misto de cansaço emocional e empatia, algo que Ren não esperava encontrar naquela situação. O olhar de Ren se prendeu ao dele, avaliando-o. Após alguns segundos, aceitou a verdade: Fox não tinha mais intenção alguma de continuar lutando. 

— Que seja... — murmurou, desviando o olhar. — Parece que você não é capaz de me matar de fato... 

— Por que está fazendo isso? — insistiu Fox, a voz baixa. 

— O que te importa? — devolveu Ren, tentando manter a postura de desdém, já sem tanta convicção quanto antes. 

Fox aproximou-se, ajoelhando-se até ficar ao nível de Ren. Não havia ira ali. Apenas confusão e compaixão. 

— Por que está fazendo isso, Ren? 

A pergunta ecoou na escuridão.

Pela primeira vez, Ren desviou o olhar como alguém acuado por um medo além do físico.

— Só imaginei... que esse seria um fim melhor do que... as Sombras e os Ratos. 

As palavras saíram fragmentadas, pesadas, carregadas de imagens que Fox não compreendia por completo; soavam como pesadelos vividos. 

— Uma ilusão até que os nutrientes de seus corpos cessassem? — Fox perguntou, tentando entender, juntando as peças com cautela. 

— O único que gastou energias foi você, Herói do Povo — disse Ren, encarando-o diretamente. — Você despertou apenas de uma das camadas... O tempo ainda se seguiu da mesma maneira... 

O ar pareceu pesar entre eles. 

— Quanto tempo? — Fox perguntou, temendo a resposta. 

Ren esboçou um sorriso torto, quase teatral, tentando recuperar sua aura sádica, falhou, pois, seus olhos estavam vazios, cansados demais para sustentar qualquer máscara. 

— Três dias — respondeu —, e contando... 

Fox não reagiu com ódio, nem com pânico. Apenas com pena. Uma pena profunda, quase devastadora. E isso pareceu atingir Ren como nenhum golpe o havia atingido naquela luta inteira. 

— O que você sabe sobre mim? Sobre o Guerreiro do Sol? — Fox perguntou, buscando respostas. 

Ren ficou em silêncio. 

Talvez cansado demais para continuar mentindo. Talvez resignado. Talvez reconhecendo que seus planos para atormentar Fox já não tinham força alguma. 

Por fim, optou pelo caminho mais inesperado: contar a verdade. 

— O guerreiro da profecia da Crônica — começou Ren, com uma lentidão quase ritualística, como quem recita algo que já viu e revisitou muitas vezes dentro da própria mente. — Aquele que poderia enfrentar os Ratos e as Sombras e vencê-los. A última esperança da humanidade. Pode escolher, eu sei tudo. 

Fox manteve os olhos firmes nele, sentindo a gravidade das palavras pesar sobre seus ombros como uma âncora inevitável. 

— E acha que eu não sou ele? — perguntou, por necessidade de compreensão. 

Ren sorriu. Um sorriso fraco, torto, sem alegria. 

— Pelo contrário. Tenho certeza de que é ele. Posso sentir sua Essência... 

Fox franziu o cenho. 

— Então, por que...? 

Ren baixou brevemente os olhos. Quando voltou a encarar Fox, havia uma lucidez assustadora ali, como se por um momento suas fraturas internas se alinhassem. 

— Existe outra Crônica. Uma que o próprio Imperador ordenou que fosse mantida sob o maior sigilo possível. Nem mesmo os Phareos puderam ver seu conteúdo. 

Fox sentiu um arrepio percorrer sua coluna. 

— E você viu? — questionou, quase duvidando da própria pergunta. 

— Olhe ao seu arredor — respondeu Ren, abrindo os braços fracos como se apresentasse o cenário de sua própria condenação. — Por qual razão eu não veria? Os Phareos já estão mortos. Phareon está morta. 

O silêncio que se seguiu era pesado, quase sufocante. 

Fox respirou fundo, tentando assimilar tudo. Cada nova revelação parecia abrir mais um abismo sob seus pés. 

Ele não podia deixar aquilo inacabado. 

— Onde está essa Crônica? — insistiu. — Acredito que eu deveria vê-la. 

— Não está aqui. 

— E onde está? 

— Não aqui. 

Ren respondeu com uma monotonia que mais revelava cansaço do que recusa. Como se a resposta não fosse realmente uma barreira, mas um eco de sua própria exaustão. 

Fox novamente respirou fundo, contendo a frustração e lembrando-se da fragilidade de Ren. Ele estava quebrado fisicamente, emocionalmente e mentalmente. Era preciso cuidado. 

— Você precisa tirar Kenshiro e Erina dessa ilusão — disse Fox, com voz firme e compassiva. 

Ren demorou alguns segundos para responder, sua expressão oscilando entre dúvida e fuga. 

— Por quê? Tenho certeza de que é isso que eles desejam... 

— Se isso for verdade — rebateu Fox, — então deveria ao menos deixá-los escolher. 

Aquela frase pareceu atravessar Ren como uma lâmina fina, silenciosa, profunda. 

— E se... e se eles não quiserem isso? — perguntou, como uma criança temendo o próprio desejo. 

Fox o encarou com serenidade. 

— Se for o caso, imagino que você entrará para o grupo e enfrentará as Sombras e os Ratos. Talvez acabe morrendo no processo, mas... isso não seria um problema para você, não é? 

Houve um longo momento em que Ren não disse nada. Apenas encarou o vazio, como se tentasse enxergar um futuro que há muito tempo deixara de considerar possível. 

Fox então se levantou. Ele tinha dito tudo que precisava dizer. 

Sem mais palavras, decidiu se retirar, deixando Ren com sua própria consciência — sua dor, seus medos, e a decisão que precisava tomar. 

E Ren, claro, tomou sua decisão. 

***

Na Maça Encantada, Fox acreditava que finalmente encontraria a misteriosa Crônica mencionada por Ren.  

No entanto... 

A Crônica não estava mais ali. 

Pouco depois, Kenshiro tocou em um assunto sensível, sensível o bastante para que Ren, visivelmente perturbado, optasse por se afastar do grupo sem dizer nada. Fox percebeu imediatamente a mudança de comportamento e decidiu segui-lo, acreditando que ainda havia coisas a esclarecer, feridas a serem expostas, verdades que precisavam sair à tona. 

Encontrou Ren alguns metros adiante, encarando o vazio com uma intensidade melancólica. 

— Quanto tempo planeja continuar nessa ilusão, Ren? — perguntou Fox, aproximando-se devagar. 

Ren não virou o rosto. Sua voz saiu baixa, firme. 

— Até encontrarmos uma Sombra ou um Rato. Depois disso imagino que não será mais necessário. 

Fox engoliu em seco. 

— Você quer dizer...? 

— Sim. 

A conversa morreu ali. Ambos recusaram-se a aprofundar o assunto, talvez porque a verdade fosse dura demais para ser encarada diretamente. 

Por alguns instantes, apenas o vento preencheu o silêncio entre eles. 

— Você deveria partir — disse Ren, finalmente, sem emoção na voz. — O seu destino é grandioso demais para esse grupo condenado. 

Fox soltou um riso fraco, quase irônico. 

— Você tem pouca fé neles, Ren. 

Ren negou com um leve balançar de cabeça. 

— Não. Só sou realista. Não existe chance de vitória para nós. Ao menos você... Você pode vencer esse conflito no final. 

— Talvez — disse Fox. 

— É, talvez — repetiu Ren, com uma sombra de amargura. 

Fox encarou-o por alguns segundos, estudando cada detalhe daquele homem que, apesar de toda frieza, carregava dentro de si mais rachaduras do que deixava transparecer. 

— E então? — perguntou Ren. — O que vai fazer? 

Fox inspirou profundamente, como se a resposta doesse dentro dele. 

— Na próxima parada, eu vou sair deste grupo. E... tentar reencontrar o meu caminho. 

Ren assentiu, com a calma de quem já esperava por aquela decisão, e de quem a aprovava. 

— Ótimo. 

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