Volume 3 – Arco 14

Capítulo 161: Trajetória IV

Em seus últimos momentos em Cenara, quando a partida silenciosa do grupo se aproximava como uma sombra inevitável, Fox manteve-se fiel à rotina que vinha tentando impor a si mesmo nas noites anteriores. Subia aos telhados, deixava o vento frio tocar seu rosto e se colocava em meditação.  

Buscava, com toda a disciplina que possuía, compreender a Essência, senti-la, reconhecer seu fluxo, dominá-la. Mas a cada vez que se aproximava do que parecia um lampejo de entendimento, surgiam as dúvidas; insistentes, corrosivas, como pensamentos que sussurravam nas bordas de sua mente. 

Ajax... 

Metamorfo... 

Nolan... 

Tharion... 

Destacamento... 

Astrid... 

Nomes que rodopiavam em sua mente como espectros. Correntes de incerteza que se entrelaçavam e se apertavam em sua cabeça. 

Sabia pouco, perigosamente pouco.  

Como caminhar em um campo minado com os olhos vendados. Como tomar decisões quando a cada passo descobria um segredo pior que o anterior? Como confiar em aliados, quando até o propósito da guerra parecia estar sendo manipulado desde o início? 

Ele não queria acreditar que Nolan era um traidor. Mesmo com todas as evidências, mesmo com as desconfianças crescentes, ainda tentava agarrar-se à esperança de que houvesse alguma explicação lógica, humana, honesta. A verdade é que sua fé estava vacilando.  

E isso o feria. 

Mais angustiante ainda era a possibilidade de que o verdadeiro perigo não viesse apenas dos Ratos e das Sombras, mas dos próprios humanos aos quais jurara proteger.  

A ideia o enojava. O assustava. O enfurecia. 

Foi nesse turbilhão mental que seus ouvidos captaram um som sutil, suave demais para alguém comum perceber. Um deslocamento leve sobre as telhas, como patas ágeis deslizando com cuidado. 

Um pequeno animal. 

Fox não hesitou. 

Swoosh! 

O movimento foi tão rápido que nem o vento teve tempo de reagir. Em um instante, ele saltou para a fonte do barulho, e em outro já tinha o pequeno felino imobilizado sob sua mão, pressionado contra as telhas frias e ásperas. Se fosse de fato um animal comum, não teria sobrevivido à brutalidade do gesto. 

— Há quanto tempo, Lyner — murmurou Fox, sua voz baixa, dura, carregada de intenção assassina. 

O som que ecoou não veio da boca do gato. 

— P-por favor... espere! — A voz de Lyner vibrou no ar, trêmula, desesperada. 

Fox apertou ainda mais, sentindo as unhas da criatura arranharem inutilmente sua mão. 

— Por que eu deveria ouvir uma traidora? — rosnou. — Para escutar mais mentiras? Mais manipulações? 

Ele estava pronto para esmagá-la ali mesmo. Parte dele queria isso. Queria vingança, queria usar a fúria para abafar tudo o que estava sentindo. 

Lyner, em pânico, mal conseguia formar as frases. 

— S-se... você me matar... não vai saber o que eu sei... não vai ouvir minhas razões... 

Ela já estava ficando sem ar. Suas patinhas tremiam, frenéticas, tentando se soltar. Alguns segundos a mais e ela apagaria. 

Fox respirou fundo, seu peito subindo e descendo de forma pesada. Ele lutava contra o instinto. Contra a raiva. Contra a tentação de resolver tudo de maneira simples. 

Apertou os dentes, reprimiu a fúria e lentamente afrouxou o aperto no pescoço da criatura.  

O felino arfou com violência, puxando o ar de volta como se estivesse emergindo de um afogamento. Em seguida, seu corpo pequeno começou a se distorcer, expandir, alongar-se. Ossos rearranjaram-se com estalos abafados, pelos se retraíram, membros se estenderam. 

E, em poucos instantes, diante de Fox estava Lyner em sua forma humana, ou quase humana. A mulher-híbrida, de expressão conturbada, ainda ofegava, com a mão no próprio pescoço, encarando-o com um misto de medo, vergonha e urgência. 

O encontro estava longe de ter acabado. E Fox sabia que, apesar de tudo, precisava ouvir. A verdade, fosse ela qual fosse, estava finalmente ao alcance de suas mãos. 

— C–céus... parece que você realmente queria me matar! — reclamou Lyner, massageando o pescoço.  

A pele ali ainda carregava a marca avermelhada dos dedos de Fox. Já começava a desaparecer devido à regeneração natural dos híbridos. Mesmo assim, ela ofegava como alguém que havia caminhado à beira da morte. 

— Era exatamente a minha intenção — respondeu Fox sem hesitar. A mão dele ainda pairava próxima da empunhadura da espada, pronta para reagir ao menor sinal de traição. — Por que você traiu a gente? 

Lyner ergueu as mãos, tremendo um pouco. Não sabia se era pelo susto ou por estar diante da fúria contida de Fox. 

— Eu... eu não traí vocês — tentou justificar. — Eu só traí o Nolan. Tá, tecnicamente... consequentemente, acabei traindo vocês junto no processo... mas eu juro que não tinha nada contra nenhum de vocês! 

Fox arqueou uma sobrancelha, nada convencido. 

— Seus juramentos não valem muita coisa agora — retrucou. — Então se explique. O melhor que puder. E desta vez, sem mentiras. 

Lyner engoliu seco, visivelmente nervosa. Respirou fundo, reunindo coragem. 

— Certo... tudo bem... — disse, encarando o vazio por um instante antes de olhar de volta para Fox. — Não deve ser segredo que eu estou em dívida com o Nolan. Ele me abrigou em Cenara mesmo quando o Império inteiro estava caçando híbridos como eu pelo Continente. Se não fosse por ele, eu teria morrido, então devo minha vida a ele. Ou melhor... devia. 

Fox não tirou os olhos dela nem por um segundo. 

— Continue. 

— A verdade é que... — Hesitou, mordendo o lábio inferior como se pensasse se era sábio revelar tudo. — Nós já deveríamos estar quites há muitos anos. Só que Nolan... — Sua expressão se tornou amarga —, ele me usa. Só isso. Ele me usa para limpar todas as sujeiras dele. 

A frase acertou Fox como um soco.  A expressão de seu rosto enfraqueceu. 

— Como assim? 

Lyner bufou, exausta. 

— Você acha mesmo que aquelas duas que salvamos eram a família dele? — perguntou, com ironia triste. — Na verdade, eram, sim. Só que não eram as primeiras. 

Lentamente, Fox afastou a mão da espada. Depois, deixou o peso do corpo ceder e sentou-se no telhado, cruzando as pernas. O vento frio da noite passou entre eles, levando parte da raiva embora.  

Lyner seguiu seu movimento, sentando-se também, claramente aliviada por não estar mais com uma lâmina imaginária pressionando o pescoço. 

— O Império não encara com bons olhos segundos casamentos — explicou ela, olhando para as próprias mãos. — Principalmente quando se trata de Governadores. A reputação deles tem que ser impecável, sem falhas, sem escândalos, sem espaço para fofocas. Eu precisei forjar documentos, manipular registros, subornar quem fosse necessário, e ajudar as duas a passarem pelos muros da cidade sem serem vistas por ninguém. Fiz com que se passassem pela família original do Nolan. E funcionou. Todo mundo acredita naquela mentira até hoje. 

Fox, mais calmo, porém ainda desconfiado, inclinou-se para frente. 

— E a primeira esposa? — perguntou, com a voz baixa e pesada. 

Lyner desviou o olhar. A boca se abriu para fala, não saiu som algum. Em vez disso, ela apenas balançou a cabeça, devagar, como alguém que carrega um fardo que prefere nunca mais revisitar. 

Fox não precisou ouvir a resposta. 

Ele a sentiu nas entrelinhas, na dor silenciosa, no medo marcado nos olhos dela. 

E lamentou. 

Lamentou profundamente que Nolan fosse, de fato, alguém tão podre por dentro. Alguém que Silas, em seu otimismo quase ingênuo, ainda insistia em ajudar. Ainda via esperança onde só havia corrupção. 

Fox não. 

Naquele momento, ele entendeu algo de forma definitiva. 

Nem todos merecem segundas chances. 

Nem todos querem mudar. 

Nem todos devem ser salvos. 

Alguns já estão perdidos demais para serem resgatados. 

— E a sua traição? — perguntou Fox, estreitando os olhos. — Você fez tudo isso por algum tipo de razão nobre, ou só estava cansada de ser usada pelo Nolan? 

Lyner ergueu um canto da boca, um meio sorriso tímido, meio culpado. 

Hm... um pouco de ambos? — admitiu, dando de ombros. — Digamos que minha paciência com ele já tinha se esgotado há anos. 

Fox não sorriu. Sua expressão permaneceu dura, inquisitiva, implacável. 

— E o Metamorfo? — continuou. — Era só mais uma mentira criada pelo Nolan? 

Lyner balançou a cabeça com veemência. 

— Não! Não, aquilo foi real — disse rapidamente. — Ele existia, de verdade. Causou uma confusão enorme que eu tive que varrer para debaixo do tapete antes que o Império surtasse. Então ele desapareceu tão rápido quanto apareceu. Não faço ideia para onde foi parar. Porém — Suspirou —, não é exatamente difícil burlar a checagem imperial, principalmente quando se sabe onde colocar um selo falso. 

Fox cruzou os braços, absorvendo as informações. 

— E quanto ao Ajax? — perguntou, com um tom quase sombrio. 

Lyner parou por um instante. Inspirou profundamente. E quando falou, sua voz ganhou uma suavidade incomum. 

— Sim, eu conversei com ele — confessou. — Foi ele quem teve a ideia do plano. Eu só contribuí. Na verdade, eu nunca senti tanto medo em toda a minha vida quanto naquele dia — Ela riu sem humor, como se lembrasse de uma cena impossível. — Achei que ele fosse me agarrar pelo pescoço e quebrá-lo antes mesmo de eu pronunciar uma palavra. Porém... Ajax era... gentil? A palavra é estranha, eu sei, mas foi exatamente isso. 

Ela parecia reviver o momento diante de Fox, olhos vagando pela noite. 

— Ele me ouviu do começo ao fim — disse, quase em sussurro. — Não me interrompeu, não me ameaçou. Só me pediu calma. Falou que... que deixaria Cenara “limpa” de qualquer “praga” assim que terminasse com Nolan. Ele usou exatamente essas palavras. 

Fox sentiu o coração apertar por dentro.  

— Mas não foi o que aconteceu — disse Fox, com amargura evidente. 

Lyner abaixou o olhar. 

— Não... — respondeu, resignada. — Tudo deu errado no final. E agora... — Suspirou mais uma vez —, agora eu tenho que voltar a me esconder. Como sempre. Fugir, me misturar, desaparecer. Viver nas sombras como se eu não existisse. 

O peso de anos escondida estava estampado em cada traço de seu rosto. 

Fox apenas a observou por alguns segundos. Apesar de tudo que sentia, não havia como negar que o cansaço dela era real. 

— E sobre o destacamento? Sobre Astrid? — perguntou ele enfim. — Outra mentira de Nolan? 

Lyner sorriu com uma expressão curiosa, quase divertida. 

— Sim e não. 

Fox virou a cabeça levemente. 

— Como assim? 

Lyner cruzou as pernas, ajeitando melhor o corpo sobre o telhado, e finalmente pareceu relaxar um pouco, como se fosse um alívio poder falar sobre esse assunto específico. 

— O destacamento foi ideia do Ajax, na verdade — explicou. — Nolan só descobriu depois e pensou que poderia manipular tudo, virar a situação ao seu favor, usar a mobilização para encobrir as próprias sujeiras. Acreditou até que poderia enganar a Astrid. 

Fox arrumou sua postura. 

Lyner, por sua vez, deixou escapar uma risada curta e sincera. 

— Ele é realmente muito ingênuo — disse com certo deleite. — Achar que conseguiria enganar a Astrid. É quase fofo, se não fosse tão patético. 

Ela não conseguiu esconder o sorriso. Era evidente que falava da General com admiração genuína, talvez até uma ponta de devoção. 

E Fox percebeu que ali havia outra história, escondida nas entrelinhas. 

Uma que ainda não havia sido contada. 

— Porém... — continuou Lyner, inclinando ligeiramente a cabeça, como quem pondera cada palavra. — Nolan sempre teve um plano “b”. Ele pretende deixar que Astrid enfrente os Gêmeos sozinha. Deixar que ela os segure, que eles se destruam mutuamente se possível, e então ele foge. Corre com o rabo entre as pernas, como sempre fez. 

A frieza na voz dela deixou claro o desprezo que guardava por Nolan. 

Fox respirou fundo, levando alguns segundos, incapaz de encaixar todas as peças. 

— Eu ainda não consigo entender — disse, tentando manter a calma. — Qual é a razão dele fazer tudo isso? Qual é o objetivo? O que ele ganha com isso? Nada do que você falou me parece... racional. 

Lyner o encarou por alguns longos segundos. Seus olhos, até então vivos e inquietos, tornaram-se melancólicos, quase cansados. 

— Fox — começou ela, em um tom que soava como um suspiro —, com toda a sinceridade do mundo, você realmente acredita na humanidade? 

A pergunta caiu sobre ele como uma pedra pesada. O silêncio que se seguiu parecia um julgamento. 

— Se você soubesse — continuou ela, agora com amargura —, o tanto que a sua raça já destruiu, o quanto vocês fizeram os outros sofrerem sem motivo algum... — Apertou o próprio braço, como se segurando um tremor. — Uma pessoa verdadeiramente boa entre os humanos deve ser uma em mil. Uma em dez mil, talvez. 

Fox abriu a boca para responder. Não conseguiu. Nada saiu. 

Se fosse no início da jornada, talvez ele tivesse discutido, defendido seus princípios, defendido o que acreditava ser verdade. Mas depois de tudo o que vira, depois de Ajax, dos Remanescentes, dos segredos e mentiras que surgiam um após o outro, sua fé na própria espécie estava severamente abalada. 

Lyner percebeu isso. E suavizou o olhar. 

— Mas Astrid é uma dessas pessoas! — disse ela, de repente mais animada, quase saltitante. — De verdade! E vocês não precisam temer a General. Eu juro! Se explicarem que foram enganados, que sofreram com as manipulações do Nolan... tenho certeza absoluta de que ela tentará entender. Talvez até ajude vocês, se perceber que as suas intenções são boas. 

Ela inclinou o rosto, avaliando Fox. 

— As intenções são boas, não são? 

Fox engoliu seco, passando a mão pelos próprios cabelos. 

— Eu... eu não sei direito — confessou, com vergonha de admitir. — Eu não sou um membro oficial dessa jornada. Só estou acompanhando eles temporariamente. Não é como se eu tivesse um papel claro em tudo isso. 

Lyner respirou fundo e sua expressão mudou novamente, ficando séria, cautelosa. 

— Então, eu aconselho que fique longe deles — disse com firmeza. — Não digo isso para te assustar. Mas... eu posso sentir que você é uma pessoa boa de verdade. O mesmo não posso dizer sobre todos que estão com você. Principalmente... aquele espadachim. 

Fox se ajeitou instantaneamente. 

— Kenshiro? O que tem ele? 

Lyner bufou, cruzando os braços. 

— Ele não é bom. Não de verdade. Não como a esposa dele, a Erina. — Ela fez um gesto vago com a mão. — Ele só está nessa por causa dela. Vamos ser francos, Fox; quando a situação piorar, porque vai piorar, quem você acha que ele vai escolher salvar? Ou sacrificar? 

A pergunta não era acusatória. Era simplesmente dolorosa. Verdadeira. 

— Ele não é alguém em quem se possa confiar — concluiu. 

Antes que Fox pudesse responder, Lyner suspirou e sua forma começou a encolher, distorcer-se e encolher novamente até tornar-se um pequeno gatinho ágil e peludo. Ela sacudiu o corpo felino, como se espantasse água inexistente. 

— Enfim… — disse com voz leve, quase divertida — se não se importar, eu preciso correr. A padaria logo fecha, e eu quero descolar um lanchinho antes que o padeiro me enxote de novo. 

Fox esboçou um sorriso cansado. 

— Claro. Pode ir. 

Lyner deu alguns passos sobre as telhas, preparando-se para saltar. Então parou, virando apenas uma das orelhas na direção dele. 

Sua voz ecoou suave, curiosa, desconfiada: 

— Apenas por curiosidade — disse, sem se virar —, você sabe para onde vocês vão depois daqui? 

O vento que soprou naquele instante carregando a pergunta com um peso que Fox não conseguiu ignorar. 

Era simples, carregava implicações. E perigos.  

Como tudo naquela noite. 

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