Volume 3 – Arco 14

Capítulo 160: Trajetória III

Durante seu caminho de volta, Fox caminhava envolto em um silêncio tão denso que parecia acompanhá-lo como uma sombra.  

Cada passo que dava soava mais pesado que o anterior, não por cansaço físico, pois seu corpo já estava acostumado a distâncias e batalhas muito piores, mas pelo peso opressor de suas próprias dúvidas.  

Pensava em sua trajetória até aquele ponto. Relembrou tudo o que conquistara, cada vitória, cada derrota, cada sacrifício que moldara sua identidade desde que deixara escapara daquele inferno. À época, carregava apenas sonhos e a ambição de se tornar alguém grande. Agora, trazia cicatrizes, segredos e o fardo de um título que ele mesmo ainda não sabia se merecia. 

Reiji jamais demonstrara sequer ter conhecimento da Essência. Nunca comentara sobre ela, nunca fez referência a qualquer poder além do próprio potencial humano. E, mais impressionante ainda, jamais parecera precisar disso. Vencia batalhas, enfrentava ameaças e inspirava seu discípulo somente com disciplina férrea, técnica refinada e uma convicção tão inabalável que parecia quase um poder por si só. 

Fox, por outro lado, não possuía a mesma certeza. Ele dependia da Essência, mesmo que fosse apenas quando estava à beira da morte, quando o desespero o obrigava a soltar uma força que não compreendia. Usava-a como último recurso, como uma âncora que, ao mesmo tempo que o salvava, puxava suas dúvidas para águas cada vez mais profundas.  

E sempre que a sentia explodindo dentro de si, sempre que a luz queimava seus músculos por dentro, surgia a mesma pergunta amarga:  

Seria aquilo um sinal de poder ou de fraqueza? Será que suas vitórias eram realmente suas? Ou eram apenas conquistas emprestadas de um poder que não dominava, que o usava, em vez de ser usado por ele? E, se esse fosse o caso não seria um farsante? Apenas um guerreiro carregado por uma chama misteriosa que mal compreendia? 

O pensamento o machucava.  

Ele sabia que, cedo ou tarde, esse questionamento o consumiria por completo se não fizesse algo a respeito. Talvez a única forma de silenciar essa dúvida sufocante fosse aprender a dominar a Essência; entendê-la, moldá-la, controlá-la.  

Os gêmeos, apesar de libertos, não demonstraram a menor intenção de ensiná-lo. Isso fechava uma porta que ele nem tivera tempo de bater. 

Restavam-lhe outras possibilidades: procurar alguém que realmente entendesse aquela força, afundar-se em livros antigos em busca de respostas, ou então fazer o caminho mais perigoso: arriscar-se a descobrir sozinho, sem guia algum, enfrentando o desconhecido com a cara e a coragem. 

Foi nesse momento, enquanto refletia sobre seus próprios limites, que uma voz surgiu atrás dele, cortando seus pensamentos como uma lâmina fina. 

— Com licença... você é o Fox, não? 

Por um instante, o coração de Fox falhou uma batida. O som daquela voz era suave, quase cordial; algo nela despertou um alarme primitivo dentro dele. 

“Essa voz...!” 

Ele virou-se devagar, como se qualquer movimento brusco pudesse despertar algo adormecido ou perigoso. E então o viu. 

Um velho enorme estava parado a poucos passos dele. A barba longa e branca descia pelo peito como um rio de neve, lembrando as histórias infantis sobre um espírito bondoso que visitava crianças, presenteando as boas e punindo as travessas com carvão. Sua figura tinha algo quase folclórico, uma doçura aparente que contrastava com a força de sua presença. 

Fox não se deixou enganar. 

Por trás da aparência afável havia uma aura sufocante, pesada, como se o ar ao redor tivesse ficado mais espesso. Era uma energia tão poderosa que sua pele se arrepiou e seu sangue pareceu gelar dentro das veias. 

Ele conhecia aquilo. 

— Ajax — murmurou, num sussurro quase inaudível. 

O idoso sorriu, apoiando-se numa bengala retorcida que parecia ter sido esculpida do tronco de uma árvore ancestral. Seus olhos, apesar da expressão tranquila, guardavam séculos de algo que Fox não conseguia decifrar. 

— Não se preocupe. — disse Ajax. — Não vim aqui para lutar. 

as Fox permaneceu tenso, como um animal encurralado que enxerga a porta trancada atrás de si. Ele sabia que, se Ajax tivesse desejado sua morte, já teria acontecido, silenciosamente, sem aviso, enquanto ainda estava de costas. A simples verdade desse pensamento apenas aumentou seu desconforto. 

Mesmo assim, obrigou-se a ouvir. 

Seu instinto gritava para fugir, correr dali sem olhar para trás ele ficou. 

Pois sabia que ignorar Ajax seria ainda mais perigoso do que encará-lo. 

Ainda com a guarda erguida, Fox observou o idoso caminhar lentamente até um pequeno beco lateral. Seus passos eram tranquilos, quase arrastados, carregavam uma firmeza que não combinava com a aparência frágil.  

Virou-se apenas o suficiente para indicar que esperava que o Herói do Povo o seguisse. Não havia ameaça direta em seus movimentos, apenas um convite silencioso.  Aquele encontro claramente não era uma armadilha. Parecia, na verdade, um pedido de conversa, quase um pedido de paz. 

Afastados das ruas principais, onde apenas os murmúrios distantes e passos de transeuntes ecoavam pelas pedras irregulares, Fox e Ajax se encararam por longos segundos.  

O beco era estreito, iluminado apenas por uma réstia de luz solar que escapava entre as construções. O clima era estranho: ao mesmo tempo íntimo e tenso, como se qualquer palavra pudesse carregar peso demais. 

O idoso então respirou fundo, flexionou as pernas e sentou-se no chão com um suspiro cansado. Mesmo sentado, sua presença ainda parecia imensa; seus ombros largos e postura firme permitiam que encarasse Fox diretamente nos olhos sem a mínima dificuldade. 

— Foi uma luta e tanto, não é? — comentou Ajax, coçando a barba longa e branca com um gesto lento, quase divertido. 

Fox soltou o ar pelo nariz, cruzando os braços ao mesmo tempo em que se recostava na parede atrás de si, tentando se manter alerta sem demonstrar nervosismo. 

— Eu não sei — respondeu ele, com sinceridade. — Só lutei contra os Gêmeos... e acabei desmaiando. 

— Eu sei, eu sei — Ajax assentiu, com um sorriso que mesclava compreensão e cansaço. — Você acabou exagerando quando utilizou sua Essência. Mas, honestamente, não acho que seja culpa sua. Afinal, você não sabe usá-la, não é? 

A pergunta perfurou Fox por dentro mais do que ele gostaria de admitir. 

— É tão óbvio assim? — murmurou, desviando o olhar por um instante. 

Ajax soltou uma gargalhada curta, as genuína. 

— Não, não! — respondeu, balançando a cabeça. — Já é impressionante alguém conseguir utilizar a Essência nos dias de hoje. Poucos são aqueles que conseguem acordar esse tipo de poder. Aqueles dois também — sorriu, referindo-se a Kenshiro e Erina —, não foram nada mal. 

Fox não estava ali para receber elogios, e aquela conversa estava demorando mais do que gostaria. 

— Sobre o que você quer conversar, Ajax? — perguntou, mais direto. 

O idoso percebeu o tom e, deixando de lado os comentários vagos, endireitou-se levemente. Sua expressão se fechou, tornando-se séria. 

— Apesar de habilidosos — disse lentamente — ainda não será o suficiente para vocês derrotarem as Sombras e os Ratos. 

Fox sentiu o estômago afundar. 

— Você sabe? — perguntou, incrédulo e alarmado. 

— HA! O que você acha que era aquele Metamorfo que eu estive tentando matar? 

Fox arregalou os olhos, confuso. 

— Mas... Nolan disse...

— Nolan diz muitas coisas — disse, com desprezo evidente. — A maioria delas mentiras... A General Astrid já está de olho nele há algum tempo. Tenho certeza de que depois de hoje, ela virá atrás dele sem hesitar. 

O nome atingiu Fox como um soco. 

— “A-Astrid”?! — balbuciou. — Nolan comentou sobre um destacamento, mas o Metamorfo? Onde ele poderia...? 

— Eu não sei — cortou Ajax, desta vez mais sério. — E sinceramente, isso não é mais problema meu. 

O silêncio que se seguiu foi pesado. 

Ajax ergueu o rosto para o céu visível entre as paredes do beco, como se buscasse alguma resposta lá no alto. Depois, suspirou profundamente. 

— Acredito que eu não tenha mais do que uma hora de vida restante. 

Fox engoliu em seco.  

Uma sensação amarga cresceu no peito: surpresa, pena, confusão, tudo misturado. Saber que Ajax estava prestes a morrer mudava completamente o cenário diante dele. E a revelação de que ele não era o Metamorfo em momento algum só tornava tudo ainda mais difícil de processar. 

Por instinto, Fox pensou em perguntar mais. Pensou em questionar, pressionar, exigir respostas, mas conteve-se. Percebeu que aquele assunto precisaria ser deixado para outro momento, talvez porque Ajax estava à beira da morte, ou talvez porque Fox ainda não sabia como lidar com todas aquelas informações. 

De qualquer forma, respirou fundo, sentindo o ar frio do beco preencher seus pulmões, tentando se preparar para o que viria a seguir. 

— Se quer desbloquear o poder da Essência por completo — continuou Ajax, com a voz ficando estranhamente serena —, primeiro você precisa compreendê-la devidamente. Então, permita-me mostrar. 

Fox sentiu o ar ao seu redor mudar. Como se a própria luz tivesse prendido a respiração. 

Ajax fechou os olhos e respirou fundo algumas vezes, inspirando e expirando de forma compassada, ritualística. E então, recitou: 

“Sob a proteção do Sol que me guia, 
Deixo para trás toda dúvida sombria. 
Ainda que apenas seu brilho eu reflita, 
Como a Lua na noite, minha força habita. 
E para cada Rato ou Sombra a me desafiar, 
Com o poder da minha Essência, os farei lamentar.” 

As palavras pareciam vibrar no ar, como se a própria realidade respondesse ao cântico. Quando Ajax terminou a última sentença, uma onda de energia invisível se expandiu lentamente a partir dele, fazendo a poeira do chão erguer-se em redemoinhos suaves. 

A pele enrugada do idoso começou a esticar. Seus músculos recuperaram firmeza. O branco da barba e dos cabelos se transformou em um dourado vivo, brilhante, como se filamentos de luz pura fossem cada fio. Em segundos, ele parecia mais jovem do que Fox jamais imaginara. A vitalidade que emanava dele era tão intensa que o beco inteiro foi inundado por um brilho dourado, quente, radiante, quase sagrado. 

Aquela forma era quase divina. E tinha algo de etéreo, translúcido, como se Ajax estivesse parcialmente desconectado do mundo físico. 

Fox sentiu a garganta secar.  

A simples presença daquele poder o empurrava para trás pela pressão esmagadora em sua mente, em seu corpo, em seu instinto. 

Ele sabia, com absoluta certeza, que era impossível vencê-lo naquele estado. 

Para sua surpresa, Ajax não atacou. Apenas continuou falando, pois a exibição de poder não era nada além de um gesto pedagógico: 

— A Essência — começou o homem transformado — não é nada mais, nada menos, do que aquilo que dá vida ao corpo. A própria alma, se preferir chamar assim. 

Sua voz ecoava com reverberações quase musicais, como se falasse em duas dimensões ao mesmo tempo. 

— É uma energia de poder infinito, capaz de reescrever seu próprio destino. Permitindo que você realize feitos inimagináveis, e derrote até os adversários mais invencíveis. 

Fox tentou organizar seus pensamentos; a presença de Ajax tornava difícil até mesmo respirar normalmente. 

— Não importa a força que exista em seu oponente — continuou Ajax —, se você estiver utilizando sua Essência, é certo que sairá vencedor. 

— E no caso do outro também utilizar? — perguntou Fox, a voz sem firmeza, ainda curiosa. 

Ajax sorriu de canto. 

— Então a luta volta a ter um certo equilíbrio. Claro, aquele que souber utilizar melhor sua Essência, desde o gasto da energia até a intensidade dos ataques, quase certamente será o vencedor. 

Fox tentou organizar as informações. 

— Você não disse que a Essência é de um poder infinito? 

— E é — confirmou Ajax, inclinando levemente a cabeça. — Mas seu corpo não. Ele é o recipiente. E recipientes quebram. Se você morrer, sua Essência, sua alma, continuará, seja para uma reencarnação ou para o paraíso. 

As palavras foram ditas com naturalidade, como se estivesse explicando algo tão cotidiano quanto o ciclo das estações. 

— Ccomo a Essência é a energia da vida — prosseguiu — ela é sua melhor arma contra os Renascidos, os Ratos e as Sombras. Nunca se esqueça disso. 

Foi então que Fox percebeu: o brilho dourado ao redor de Ajax começara a falhar. Sua forma etérea tremulava, como uma chama prestes a apagar. A juventude brilhante parecia vacilar, como se estivesse lutando contra uma força inevitável. 

Ajax estava se desfazendo. 

— E você... — Fox deu um passo adiante, quase sem perceber. — Você acredita que eu vou conseguir desbloquear esse poder? A Essência? 

Ajax o encarou com um olhar profundo, quase paternal. 

— Eu tenho certeza — afirmou, sem hesitar. — Você é o Guerreiro do Sol que aquele monge vivia falando sobre… 

Fox piscou, confuso. 

— “Monge”? — repetiu, a palavra escapando quase involuntariamente. 

O brilho ao redor de Ajax oscilou de novo, desta vez mais forte, como se a revelação tivesse custado parte de sua força restante. 

E Fox percebeu que a explicação que viria a seguir talvez fosse a última coisa que Ajax teria tempo de dizer. 

A luz que envolvia Ajax tornou-se, por um único instante, tão intensa que Fox precisou erguer o antebraço para proteger os olhos.  

Era como encarar o próprio Sol de muito perto: quente, ofuscante, absoluto. Quando a claridade diminuiu o suficiente para que pudesse voltar a enxergar, Fox viu diante de si uma cena que jamais esqueceria. 

O Herói de Aranost estava completamente coberto por um brilho dourado, tão puro que parecia transformar seu corpo em uma estátua sagrada, esculpida em luz e não em pedra. Sua silhueta já não parecia totalmente humana; era etérea, quase como a manifestação física de uma divindade prestes a deixar o mundo mortal. 

E então começaram a se desprender pequenos fragmentos luminosos de sua pele, flutuando suavemente para o alto, como cinzas cintilantes levadas pelo vento. Fox sentiu o estômago revirar. Ele reconhecia aquele processo. Era idêntico ao da desintegração de Budai. O mesmo destino. A mesma forma de morte. 

Ajax respirou com dificuldade, como se cada palavra exigisse todo o restante de sua força. 

— Eu fui uma engrenagem obediente e paciente… — murmurou, a voz ecoando numa estranha mistura de presença e ausência. — Espero que tenha sido o suficiente para lavar os meus pecados e... que na próxima vida, a sorte me favoreça. 

Fox deu um passo à frente, instintivamente, incapaz de aceitar que aquilo estava acontecendo tão rápido. 

— Espera! — chamou, a voz embargada. — Que pecados? 

Por um momento, a luz oscilou, revelando o contorno quase transparente do rosto de Ajax. Havia tristeza ali. E resignação. 

— A muralha de Aranost... a Grande Campanha... a guerra contra os Remanescentes... — disse ele, cada frase mais fraca que a anterior. — É tudo mentira. Mentira que eu ajudei a criar... e sustentar... 

Os fragmentos dourados agora se desprendiam numa velocidade maior, como se o corpo estivesse perdendo a coesão. E desta forma, não existia qualquer parte física de Ajax diante de Fox. Sua forma translucida se desfizera pelo vento, cada fragmento desaparecendo lentamente. 

Ainda assim, sua voz ecoou pela última vez, como se viesse de um lugar distante, profundo, antigo: 

— Nunca... a guerra nunca foi dos vivos contra os vivos... 

E então, o som se desfez.  

A luz se apagou. 

Ajax estava morto. 

Fox permaneceu imóvel por vários segundos, encarando o espaço vazio onde o Herói de Aranost estivera. Os pequenos fragmentos brilhantes que restavam flutuaram lentamente, desapareceram no ar e deixaram apenas uma quietude pesada. Não havia corpo, não havia sangue, não havia nada. Somente o silêncio profundo de um segredo que morrera antes de ser compreendido. 

O Herói do Povo sentiu o peito apertar. Tinha acabado de testemunhar algo gigantesco, algo que podia mudar tudo, mas entendera muito pouco.  

As palavras de Ajax ecoavam confusas em sua mente: muralha, campanha, mentiras, pecados, guerra não entre vivos. Era como montar um quebra-cabeça com mais espaços vazios que peças. 

Tentou pensar em quem Ajax realmente fora. Um herói? Um monstro? Uma vítima? Um cúmplice? Ou tudo isso ao mesmo tempo? 

Por mais que tentasse buscar respostas, sabia que não haveria registros, testemunhos ou histórias capazes de revelar toda a verdade. Era um enigma perdido, enterrado junto com ele. 

E Fox, por mais confuso que estivesse, sabia que não podia se perder naquelas perguntas. 

Precisava focar no que mais importava para seu futuro, e para a sobrevivência de todos que ainda dependiam dele. 

A Essência. 

O que Ajax mostrara era apenas um vislumbre do que esse poder realmente significava. E era evidente que, se não aprendesse a dominá-la, jamais teria chance contra uma Sombra ou um Rato. Nem contra o que quer que estivesse por trás daquela guerra misteriosa. 

Fox fechou os punhos, sentindo o coração bater com força, como se tentasse lembrá-lo de que ainda havia vida  em seu peito. 

Ele não podia falhar. 

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