Volume 3 – Arco 14
Capítulo 159: Trajetória II
Fox estava revendo, com minúcia quase dolorosa, toda a trajetória daquele grupo singular enquanto permanecia ao lado de Silas, Estamina e Mana. Era como observar, quadro por quadro, uma tapeçaria viva sendo desdobrada diante dele.
Graças às habilidades combinadas de Mana e Estamina, puderam acompanhar cada passo daqueles viajantes desde o instante em que surgiram próximos à cidade de Miravalle, na vasta e densa extensão da Mancha Verde.
Viram-nos avançar pela estrada sinuosa até Altunet e, mais tarde, seguir em direção a Shenxi, onde uma poderosa onda de energia, quase um rugido mágico, fizera com que o mago os percebesse com clareza.
Fox, no entanto, carregava em si um receio profundo, quase instintivo, em interagir com Kenshiro Torison.
As notícias que circulavam diziam que Kenshiro havia sido o responsável pela morte de seu mestre, Reiji Torison, um homem que Fox não apenas respeitava, mas cujo legado carregava como um fardo e um farol. A simples possibilidade de se encontrar com esse alguém fazia seu estômago se contrair.
Ainda assim, após conviver durante anos com oficiais, heróis imperiais e figuras poderosas, Fox aprendera que muitas verdades no mundo eram distorcidas, moldadas ou forjadas por conveniência. Algumas eram criadas para encobrir erros vergonhosos; outras, para motivar guerras; e outras, simplesmente, para causar desordem.
À medida que observava aqueles viajantes, começou a supor que esse poderia ser mais um desses casos nebulosos. Para ter certeza, teria que encarar Kenshiro pessoalmente; olhar nos olhos dele, sentir sua energia, e extrair uma verdade que nenhum relatório ou boato seria capaz de oferecer.
Apesar desse turbilhão de pensamentos, o que mais o incomodava era a sugestão que Silas lhe dera momentos antes. Algo naquela proposta soava como um peso invisível empurrado sobre suas costas.
— Como você quer que eu fique junto desse grupo? E por quanto tempo? — perguntou Fox, cruzando os braços em claro sinal de resistência.
— Claramente eles sabem de coisas que nós não — respondeu Silas, com uma serenidade quase desconcertante. — Podem ser úteis.
Fox estreitou os olhos, incapaz de resistir à sensação de que havia mais por trás daquilo.
— Sei que tem algo além disso, Silas. Qual é a jogada?
Silas suspirou, seu rosto se abriu num sorriso leve, quase afetuoso. Ele sempre apreciara a maneira como Fox era atento e direto.
— Estamos caçando um certo mago — disse ele enfim, com um tom mais sério. — Alguém que nos deu muito trabalho no passado. E acreditamos que esse grupo seja nossa melhor chance de encontrá-lo.
Fox ergueu uma sobrancelha.
— Certo... então você vai finalmente colocar aqueles dois para trabalhar — comentou, referindo-se aos magos de gelo e fogo com certa ironia. — E quanto a mim?
Silas deu de ombros, enigmático como sempre.
— Quem sabe?
Fox não conteve o incômodo.
— Sem truques, Silas. Estou falando sério.
— Eu também — retrucou o mago, sem perder a calma. — Minhas intenções são puramente boas. Espero que você se junte a eles apenas para seguir o seu destino, mas deixo essa escolha nas suas mãos, Guerreiro do Sol.
Com isso, Silas afastou-se, já se preparando para receber aquele grupo único que estavam prestes a conhecer de perto. O salão silencioso pareceu maior quando Fox ficou sozinho, mergulhado em seus próprios pensamentos turbulentos.
Conhecia Silas o suficiente para reconhecer seus defeitos: por vezes ingênuo, por vezes pretensioso, com ambições que ultrapassavam seu próprio alcance. Porém maligno, isso Fox nunca vira nele.
Silas acabara de aceitar entre os magos um antigo professor, Nolan Scriptor, um homem expulso no passado por comportamentos inadequados e por uma rigidez quase cruel com seus alunos. Mesmo assim, Silas o acolhera de volta sem hesitar.
A justificativa era simples: não havia muitos magos restantes no Continente. E Silas acreditava que precisava reuni-los novamente, mesmo aqueles cuja reputação estava manchada ou cuja moral era questionável. Acreditava em segundas chances, mesmo quando, na prática, já estava oferecendo a décima.
E Fox não sabia se isso era um sinal de grandeza ou de perigo.
(...)
O tempo que passou ao lado daquele grupo fez Fox reconsiderar praticamente tudo o que acreditava conhecer até então.
Cada dia, cada conversa e cada batalha revelavam nuances que antes lhe escapavam, como se camadas inteiras do mundo estivessem se desdobrando diante dele depois de anos vivendo preso a um único ponto de vista.
Ele, que sempre se julgara experiente e preparado, começou a perceber que ainda havia muito no mundo, e em si mesmo, que desconhecia.
Isso ficou evidente já no primeiro embate, quando quase fora derrotado, e morto, por um mago de lava.
A lembrança ainda o fazia cerrar os dentes.
Ele havia depositado confiança demais na filosofia de Silas, acreditando de forma quase cega que reunir os magos novamente traria equilíbrio e ordem. Aquele encontro brutal mostrou o contrário: alguns magos não buscavam redenção, apenas poder.
A fé de Fox havia sido ingênua, e ele sentiu na pele, literalmente, o preço dessa ingenuidade.
Foi somente ao ser submerso nas profundezas incandescentes do vulcão que descobriu algo surpreendente sobre sua própria armadura. Enquanto a lava fervia em torno de seu corpo, sentira uma força mágica pulsar na couraça, envolvendo-o como um casulo luminoso.
Era uma proteção resistente a magias de alta temperatura, como se a armadura tivesse despertado uma propriedade oculta, guardada para um momento decisivo. Em vez de morrer queimado, Fox emergiu da lava mais consciente e mais letal do que nunca.
Ao entender que não podia mais se permitir repetir a ingenuidade de Silas, nem a sua própria,encerrou o confronto com um único golpe. Canalizou todo o poder de seu corpo e de sua vontade no Impulso, um ataque tão veloz e concentrado que o mago inimigo não teve tempo sequer de reagir.
Por cautela, pediu para que Kaji o enviasse para o fundo do vulcão e o mantivesse lá até que fosse derrotado de maneira definitiva, sem possibilidade de retorno. Não queria surpresas futuras nem novos ciclos de violência por negligência.
E assim foi feito.
Mesmo após a vitória, uma irritação amarga se instalou em seu peito, não contra o mago derrotado, contra si mesmo.
O fato de ter entrado naquela batalha despreparado, por causa de crenças frágeis, era algo que o incomodava profundamente. Fox decidiu então que precisava resolver certos assuntos pendentes, e sem demora. Determinou que seguiria para Cenara o mais rápido possível, com a intenção clara de encerrar de uma vez por todas qualquer negócio ou desavença envolvendo Nolan.
Não queria deixar pontas soltas nem carregar peso desnecessário, não mais.
(...)
No período em que o Híbrido vasculhava cada canto da cidade de Cenara em busca de informações sobre o feitiço que Nolan desejava remover de Ajax, o até então Metamorfo, Fox buscou um refúgio silencioso.
A inquietação o consumia por dentro, e, em meio ao vai-e-vem constante daquele grupo tão peculiar, decidiu subir até os telhados da cidade. Lá, onde o vento corria livre e os ruídos mundanos se tornavam distantes, acreditava que talvez encontrasse algum tipo de orientação, qualquer murmúrio que o ajudasse a organizar seus pensamentos.
Sentou-se sobre as telhas quentes, cruzou as pernas e respirou fundo enquanto observava o horizonte tremer com o calor do Sol.
Deixou sua mente se afastar do presente por alguns instantes, entrando na meditação que aprendera ainda jovem, quando seu mestre o guiava com paciência e rigor. Em silêncio, deixou que as palavras surgissem dentro de si como se fossem sussurradas por uma voz antiga.
“Meu mestre, Reiji... estou realmente fazendo a diferença aqui? Sou mesmo o Guerreiro do Sol, destinado a enfrentar tamanho mal? Sempre desejei ser um grande Herói, sempre soube que um peso recairia sobre meus ombros, mas jamais imaginei que fosse tão esmagador.”
Uma pontada de dor atravessou seu peito ao admitir aquilo, ainda que apenas para si mesmo. Ele costumava acreditar que dúvidas eram fraquezas; estava descobrindo que, às vezes, eram apenas parte inevitável do caminho.
Quando abriu os olhos, foi recebido pela visão imponente do grande Sol pairando alto no céu, derramando sua luz dourada sobre toda a cidade. A claridade tocou seu rosto como um carinho quente, quase paterno, iluminando suas feições cansadas e, por um instante, trazendo-lhe uma breve sensação de conforto. Um lembrete silencioso de quem ele era e do que carregava consigo.
— Onde quer que esteja... — murmurou, a voz embargada de saudade. — Espero que esteja me observando. Espero que esteja sentindo orgulho de mim...
As palavras se perderam no vento, Fox tinha a esperança de que alcançassem algum lugar além da realidade visível.
Tentou manter o otimismo, ainda que esse esforço lhe parecesse árduo.
A jornada que enfrentava estava drenando não apenas suas energias físicas, como também seu emocional e suas convicções mais profundas.
Cada decisão parecia carregar um peso maior do que a anterior; cada passo parecia uma prova silenciosa de seu valor. E, enquanto o Sol continuava brilhando sobre ele, Fox se perguntava quanto daquele calor ainda vivia em seu próprio coração.
(...)
Ainda que não gostasse de admitir nem mesmo para si, Fox estava começando a apreciar a companhia daquele grupo.
Não era apenas a eficiência deles em batalha ou a forma como encaravam os desafios; havia algo mais profundo ali, um tipo de união que ele raramente presenciara em suas próprias jornadas. Era como observar uma família reconstruída a partir de cicatrizes, força e necessidade, e, mesmo sem perceber, ele começava a sentir-se parte dela.
Kenshiro e Erina, isso era inegável, eram os verdadeiros líderes daquela pequena formação. Fox apenas assumira a liderança temporariamente por circunstâncias e conveniência, mas bastava surgir uma situação de risco, algo que realmente ameaçasse a estabilidade do grupo, e os dois reassumiam o comando de maneira quase instintiva.
O modo como agiam era natural, fluido, como se estivessem programados desde o nascimento para proteger aqueles ao redor. Não era imposição, nem orgulho: era pura responsabilidade, moldada por dor e experiência. Eles se colocavam à frente sem pensar duas vezes, guiando, defendendo e inspirando os demais com uma confiança que Fox não podia ignorar.
E ele respeitava isso.
Graças a Sebastian, no entanto, Fox encontrara uma espécie de bússola, algo que o ajudava a se orientar naquela dinâmica tão diferente da que estava acostumado.
Sebastian observava os outros com atenção sincera, compreendendo nuances que passavam despercebidas para os demais. Suas palavras, sempre ponderadas, ofereciam a Fox uma leitura clara de como agir, como se portar, quando intervir e quando ficar em silêncio. Era como ter ao lado um mapa vivo da alma do grupo.
Quanto aos demais membros, Fox não tinha grandes críticas ou preocupações. Eram pessoas simples, cada uma com seu passado difícil, suas dores e seus próprios traumas. Nenhum deles parecia nutrir qualquer hostilidade verdadeira em relação a ele.
Sabia que o haviam aceitado como líder temporário apenas por causa da insistência e do bem-estar de Kenshiro e Erina. Não era por mérito próprio, nem por confiança imediata. Era por respeito aos dois pilares daquele grupo.
Ainda assim, sabia também que nenhum deles lhe desejava mal.
Todos queriam, no fundo, que as coisas voltassem a ser como eram antes; antes do medo, antes das perdas, antes do caos que se instalara na vida de cada um deles. E Fox, enquanto caminhava ao lado deles, começava a desejar secretamente que pudesse ajudá-los a reencontrar essa normalidade perdida. Mesmo que não admitisse isso em voz alta.
(...)
Quando a luta contra os gêmeos, os Generais dos Remanescentes, finalmente aconteceu, Fox se viu pressionado a um limite que raramente alcançara antes. O combate fora feroz, rápido e imprevisível, e cada troca de golpes fez seus músculos tremerem sob o peso da responsabilidade.
No calor daquela batalha, ele foi forçado a liberar sua Essência, algo que ainda não compreendia por completo.
Não era uma habilidade que pudesse acionar à vontade; era mais como um fogo ancestral que ardia em seu interior, esperando o instante certo para explodir. Só emergia nos momentos mais críticos, quando sua vida, ou a de seus aliados, estava por um fio.
Mesmo essa dádiva tinha seu preço.
Sempre que sua Essência se manifestava, drenava cada fragmento de força que havia em seu corpo. A descarga de energia o deixava exausto, como se tivesse sido esvaziado por dentro.
Uma vez ativada, o deixava inevitavelmente incapacitado, obrigando-o a abandonar o combate e se recolher, quase sempre desmaiando antes mesmo de tocar o chão. Depois, precisava de horas, às vezes um dia inteiro, de sono profundo para que seu corpo conseguisse se recompor minimamente.
Foi o que aconteceu dessa vez.
Por causa disso, não pôde testemunhar o desfecho da batalha ao lado de seus companheiros. O mundo mergulhou na escuridão em seguida, sem permissão para despedidas ou certezas.
(...)
Quando despertou, foi surpreendido ao encontrar-se diante dos próprios gêmeos que havia derrotado, agora libertos da influência corruptora que os aprisionava.
Ainda fraco, levantou-se com dificuldade, sentindo o corpo pesado como pedra. As poucas palavras trocadas com eles foram breves, intensas, como se carregassem uma verdade desconfortável que Fox não estava preparado para ouvir.
Disseram-lhe, sem arrogância, com uma sinceridade quase cruel, que se tivessem lutado a sério desde o início, Fox não teria tido a menor chance. Eles já dominavam a Essência completamente; ele, não.
Tinham controle, precisão e experiência. Fox dependia apenas da força bruta daquele poder interior, de uma fagulha que não sabia guiar, apenas soltar.
A revelação o atingiu de maneira profunda, quase como um golpe físico. Não pelo fato de ser mais fraco, mas pela constatação de que estava muito longe do caminho que acreditava trilhar.
A distância entre o que era e o que precisava ser parecia maior do que imaginara.
Com a mente pesada e o coração afundado numa mistura de frustração e reflexão amarga, decidiu retornar ao grupo.
Caminhou cabisbaixo, mergulhado em pensamentos que rodopiavam dentro de sua cabeça como ecos persistentes. Cada passo era um lembrete silencioso de que ainda tinha muito a aprender, e de que o destino que carregava nas costas talvez exigisse mais do que ele imaginava ser capaz de oferecer.
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