Volume 3 – Arco 14
Capítulo 158: Trajetória I
Os dias seguintes na AMA foram tão corridos quanto surpreendentemente divertidos, uma combinação que Fox jamais esperaria encontrar numa academia de magos.
A cada amanhecer, percebia-se imerso em um ambiente vivo, cheio de corredores cintilantes, salas que mudavam conforme o humor do Diretor Silas Tesla, e janelas abertas para o próprio cosmos. Tudo isso enquanto ele tentava entender o que significava existir ali, mesmo sem ser um mago.
Ele não teve a chance de reencontrar os dois jovens magos que o haviam abordado no corredor, magos de fogo e gelo, algo que o deixou levemente decepcionado, pois sempre gostava de ter mais companhia, mais pessoas com quem conversar. Porém, essa ausência foi rapidamente preenchida pela convivência com Estamina e Mana, que o seguiam como duas crianças hiperativas, curiosas e sábias demais para seu próprio tamanho.
E foi com eles que Fox recebeu algo que nunca imaginou na vida: a maior, mais profunda e mais fascinante aula de história que qualquer estudioso poderia desejar.
Estamina contava tudo com entusiasmo gestual, movendo-se no ar como se estivesse narrando epopeias ancestrais. Mana, por sua vez, explicava com precisão cirúrgica, corrigindo datas, organizando eventos e destacando, sempre com rigor quase acadêmico, o que era fato comprovado, o que era teoria aceita e o que ainda permanecia em debate entre estudiosos sérios.
— NUNCA misture fatos com propaganda — repetia Mana, cruzando os bracinhos. — O Império faz isso o tempo todo e é irritante.
— E história boa é história cheia de briga! — completava Estamina, estalando energia verde ao redor de si.
Fox, que sempre detestou estudar qualquer coisa que não envolvesse espada, combate ou treino físico, viu-se quase mexido pelo prazer de aprender. Era estranho. Era completamente novo. E, de certa forma, libertador.
Em certo momento das aulas, Estamina decidiu “testá-lo”, como chamou. Fox, sem entender muito, aceitou.
Como sempre acontecia quando precisava lutar, sua mente esvaziou-se, seu corpo se moveu naturalmente e, sem notar, o calor percorreu seus músculos, seu sangue, seu espírito.
E então veio o fogo.
Como sempre vinha.
Chamas lisas, douradas e vivas ascendiam pelo metal de sua katana, acompanhando o fluxo de seus movimentos, respondendo à respiração, ao instinto, à intenção.
Fox nunca tinha parado para refletir sobre isso. Para ele, era apenas parte de quem era.
Até Mana parar, cruzar os braços e olhar para ele com o cenho franzido.
— Isso é magia, Fox.
— Não é magia — rebateu imediatamente, quase indignado. — Eu não sou mago.
— Você usa mana, querido — disse ela em tom paciente, porém perigoso. — Não importa se você acredita ou não.
Fox tentou protestar, repetir seu argumento, mostrar que aquilo vinha de dentro, que sempre fora assim.
Então Mana suspirou.
E irritou-se.
Com um gesto irritado, estalou os dedos. A aura azul que a envolvia pulsou perigosamente.
No mesmo instante, Fox sentiu como se algo dentro de si tivesse sido apagado, um sopro interno sufocado, um motor parado. Quando tentou recriar o fogo, nada aconteceu. Nada. Nem um fiapo de calor, nem uma centelha. Era um vazio absoluto.
— Viu? — disse Mana, inflando o peito, orgulhosa. — Sem mana, você não faz nada disso.
Uma sensação quase desesperadora tomou conta de Fox por alguns segundos antes de a magia ser devolvida a ele, e o fogo renascer tão natural quanto respirar.
Silas observava de longe, braços cruzados, claramente avaliando tudo.
E foi entre treinos, conversas e tentativas de compreender aquela habilidade que Fox percebeu outra coisa: a katana que Reiji lhe dera parecia amplificar todo aquele poder.
O metal reagia ao fogo com perfeição, como se tivesse sido criado para ele. Como se entendesse seu ritmo. Como se respirasse junto com ele.
"Será que o Torison que forjou essa espada...", pensou Fox, passando os dedos pelo cabo com reverência. "...tinha uma habilidade parecida com a minha?"
Era uma pergunta sem resposta.
(...)
Quando enfim dominou tudo que Silas, Mana e Estamina podiam ensinar, ou tudo o que eles julgavam seguro revelar, Fox viu o diretor da AMA surgir novamente diante de si, como se soubesse exatamente o momento em que ele precisava de respostas.
Silas não chegou com pressa, nem com aquela postura confiante que costumava ter quando explicava algo complexo. Ele caminhou com um ar calmo, quase melancólico, como se estivesse ponderando cada palavra antes mesmo de pronunciá-la.
Fox percebeu que aquela conversa seria diferente.
— Por que me trouxe aqui? — perguntou ele, sem rodeios. Já não tinha paciência para metáforas, quebra-cabeças ou alegorias mágicas.
Silas respirou fundo, parando diante dele.
— Para lhe ensinar — disse, com uma sinceridade desarmante —, para guiá-lo e, acima de tudo, para incentivá-lo. Reconheço que sabemos muito pouco, Fox. Pouquíssimo. E não temos ainda uma direção clara para apontar para você. Muitas vezes parecemos desestimulantes, talvez até incoerentes, mas tentamos nosso melhor.
Fox cruzou os braços.
— Vá direto ao ponto.
Silas sorriu de maneira leve.
— Acredita em destino, Fox?
A pergunta caiu como pedra.
— Não sei — respondeu o espadachim, apoiando as mãos na mesa. — Isso importa? Se o destino existe, não há nada que possamos fazer. Se não existe, então podemos fazer o que quisermos.
O mago levantou uma sobrancelha.
— Sempre tão extremos. Tudo ou nada. Luz ou trevas. Vida ou morte. Tente imaginar um ponto intermediário... um destino que existe, mas que não governa tudo. Que toca apenas algumas poucas pessoas, guiando acontecimentos cruciais. Diga-me: acredita que o destino favoreceria mais um simples fazendeiro ou um rei?
Fox passou a mão sob a testa, pensativo. Ainda que soubesse de um palpite óbvio, não ousou arriscá-lo.
— Você fala como se o destino tivesse... preferências. Vontades. Opiniões.
Silas aproximou-se um pouco, abaixando o tom.
— Talvez o destino, por si só, não tenha. Mas aquele que o controla... sim.
O “aquele” ecoou na sala, pesado, incômodo, quase ameaçador.
Fox sentiu os ombros ficarem tensos.
O mago percebeu.
— Por muito tempo, eu mesmo rejeitei a ideia de destino — continuou Silas. — Porque ele nunca tocou minha vida. Nunca me abençoou. Nunca apontou na minha direção.
Até que seu nome apareceu.
Fox piscou, surpreso.
— “Fox.” Um nome que apareceu repetidas vezes em relatórios, rumores, observações. No começo, pensei que fosse apenas uma dica equivocada, um erro. Mas conforme investiguei, senti algo diferente. Quase como um sopro divino guiando minha atenção.
Fox soltou o ar pelo nariz, preparando-se para escutar seu apelido , dito muitas vezes pelas suas costas.
— E admito — disse o mago, quase com humor —, fiquei decepcionado ao descobrir que você não era um herói imperial. Em muitos relatos, era descrito apenas como o capacho do Melhor Espadachim do Império.
Fox não se ofendeu. Aquilo não era novidade. Em mais de uma ocasião, ele próprio havia pensado da mesma maneira.
— Mas quanto mais eu acompanhava sua história, mais intrigado ficava. Sua origem simples, seus feitos improváveis, sua sobrevivência inexplicável. A graça do destino sempre esteve ao seu redor, costurando caminhos para você. E quando o conheci pessoalmente percebi novamente: o destino estava do seu lado.
Fox engoliu seco.
— E então? — perguntou com um misto de curiosidade e receio.
Silas sorriu suavemente.
— E então eu percebi que, através de você, os humanos talvez tenham uma chance. Uma mínima, mas real, chance de enfrentar os Ratos e as Sombras.
Os nomes atingiram Fox como uma marreta.
Memórias recentes, dos relatos assustadores de Mana, das explicações meticulosas de Estamina, retornaram imediatamente. Ele não fazia ideia de como enfrentar uma daquelas coisas. Mesmo assim, Sabia que elas existiam, e que eram terríveis.
— É isso que quer de mim? — perguntou Fox, quase num sussurro.
— Não — respondeu Silas, surpreendendo-o. — O que eu quero agora é que você siga seu próprio caminho, como você bem desejar. Mas lembre-se de duas coisas importantes.
Ele estendeu a mão, tocando a mão de Fox de maneira ritualística. No mesmo instante, uma pequena runa brilhou entre os dedos, como um selo. A imagem desapareceu logo depois, absorvida pela pele.
— Quando desejar, poderá voltar à AMA — disse Silas. — E isso deve permanecer em absoluto segredo.
Fox assentiu, sentindo um peso desconhecido no peito.
— E a segunda? — perguntou.
Silas abriu um sorriso orgulhoso, quase paternal.
— Você já domina sua Estamina e Mana em um nível excepcional. Pouquíssimos guerreiros na história foram capazes disso. Se aprender a dominar a Essência nenhum Rato ou Sombra será capaz de detê-lo.
Fox sentiu um arrepio na espinha.
— E como faço para aprender a Essência?
Silas suspirou.
— Isso... será algo que você terá de descobrir sozinho. Mesmo que procure os Heróis, duvido que possam ajudá-lo nesse assunto.
Fox demorou alguns segundos para aceitar aquelas palavras.
Por fim, murmurou:
— Entendi... Acho que já passei tempo demais longe do Continente. Eu tenho que voltar.
Silas inclinou a cabeça, respeitoso.
— Que seu caminho seja sempre iluminado pelo Sol, meu amigo.
Sem mais explicações, ele virou-se e partiu, deixando Fox completamente sozinho, com o peso do destino sobre os ombros, a liberdade nas mãos e o futuro inteiro à sua frente.
Fox imaginou, por um breve instante, que Silas reapareceria para conduzi-lo de volta ao Continente, talvez com um estalar de dedos, um feitiço complexo ou alguma distorção espacial como da primeira vez. Mas logo percebeu, com um quase suspiro resignado, que não seria assim.
Recordou então o modo como fora arrancado de seu mundo na primeira visita. A sensação ainda estava viva em sua memória; uma náusea funda, uma vibração incômoda no estômago, como se os ossos tentassem escapar do próprio corpo.
Relembrou o ponto exato onde estivera antes da viagem: o “túmulo” de Kenzou.
Fechou os olhos. Respirou fundo. Concentrou-se na vertigem.
SNAP!
A visão do mundo se rasgou e remontou em um único instante.
Quando abriu os olhos, estava de volta ao Continente.
Não ao mesmo cenário destruído que lembrava.
Em volta dele, dezenas de mudas haviam sido plantadas, formando uma linha organizada de pequenos brotos verdes, tentando, em vão, esconder o que acontecera ali.
O Império, como era típico, buscava enterrar o passado sob raízes jovens, reescrever a história cobrindo o solo com novas árvores, como se a floresta jamais tivesse sido derrubada. Como se Kenzou jamais tivesse existido.
Fox inspirou devagar.
Havia voltado.
Daquele momento em diante, prometeu a si mesmo que usaria seu próprio código moral como uma bússola, jamais os decretos, convenções ou interesses do Império. Sempre lembraria das lições de Reiji Torison, de cada correção, de cada bronca, e também de tudo o que aprendera na AMA sobre humanidade, história e propósito.
(...)
O tempo seguiu-se. Tão rápido que mal podia-se acompanhá-lo.
Meses se passaram, e Fox finalmente recebeu o título que jamais esperara conquistar: Herói Imperial.
Chamaram-no de Raposa Flamejante, um nome que se espalhou rápido entre soldados, aldeões e comerciantes, graças ao brilho incandescente que surgia toda vez que emanava fogo através de seus ataques.
Quando os Cavaleiros de Camelot deixaram o Império e o cargo de Herói do Povo ficou vago, Fox não hesitou. Lançou sua candidatura com a mesma determinação com que encarava seus inimigos. E como havia ajudado incontáveis vilas, cidades e famílias ao longo de sua jornada, o povo não esqueceu.
O título foi concedido a ele sem resistência, com orgulho e esperança renovada.
A paz nunca durava.
Em pouquíssimo tempo, dilemas surgiram um atrás do outro, como se o destino estivesse testando cada novo passo que ele dava.
A notícia mais amarga o atingiu com violência:
Reiji Torison, seu mestre, seu mentor, a figura que moldou seu caminho, fora assassinado.
E o assassino era Kenshiro Torison, seu próprio sobrinho.
Antes que pudesse sequer processar a perda, uma reunião emergencial do Conselho Imperial foi convocada. O objetivo: votar na investida contra o território Remanescente, encerrando de uma vez por todas a Grande Campanha.
Fox sabia exatamente como Reiji votaria. Sabia também como o antigo Herói do Povo, seu antecessor, sempre se posicionava. E acima de tudo, acreditava que seu irmão ainda podia estar entre os Remanescentes, perdido em algum ponto daquela história incompleta que ele ainda precisava desvendar para tomar uma decisão justa.
E por isso mesmo, quando a votação aconteceu, Fox foi o único a levantar a mão contra a investida.
A sala inteira virou-se para ele.
Olhares de desprezo o atravessaram.
Alguns o chamaram de traidor, outros de ingênuo, e alguns nem se preocuparam em sussurrar suas ameaças.
“Acidentes acontecem”, diziam nos corredores. E todos sabiam o que aquilo significava.
No meio daquela crescente tensão política, Fox pensava seriamente em visitar Silas. Talvez para pedir conselhos, talvez apenas para respirar um pouco longe da pressão do Império.
Não precisou procurar o mago.
Silas o contatou primeiro.
A voz dele ecoou na mente de Fox, clara e urgente: ele estava observando um certo grupo, acompanhando seus passos como quem estuda um fio do destino prestes a se mover, e julgava que Fox deveria conhecê-los.
E foi assim que uma nova história começou a se desenrolar.
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