Volume 3 – Arco 14

Capítulo 157: Recanto Longínquo

Ainda debilitado pela sensação vertiginosa da viagem, Fox mal conseguia manter os pés firmes no chão. Seu estômago parecia girar dentro do corpo, como se tivesse sido arrancado do mundo e devolvido sem qualquer cerimônia. Ele cambaleou, respirando com dificuldade, e teria caído de joelhos se Silas não o segurasse firme pelo braço. 

— Respire devagar — orientou o mago, sustentando-o. 

Fox tentou obedecer; o ar parecia rarefeito, como se estivesse inalando apenas metade do que precisava.  

Sua visão oscilava entre borrões de luz e sombra, e havia um zumbido permanente em seus ouvidos, como se a própria dimensão ainda vibrasse dentro dele. 

Foi nesse momento que duas vozes infantis ecoaram do alto, quase como se viessem do além. 

— Puxa, puxa, temos um visitante? — disse um menino, a voz leve como vento. 

— Parece que o senhor Silas finalmente levou nosso conselho a sério — comentou uma menina, com ironia doce e cantada. 

Fox ergueu a cabeça com esforço e piscou algumas vezes, tentando entender o que via.  

Acima do mago e do espadachim, flutuavam duas pequenas esferas; uma verde brilhante, reluzindo como uma folha ao sol, e outra azul, cintilando como água sob a luz da lua. Ambas tremulavam no ar como chamas vivas, sem calor, como se fossem feitas de pura energia. 

— Às vezes vocês têm algo útil — respondeu Silas, cruzando os braços. 

Antes que Fox pudesse perguntar qualquer coisa, o mago tentou apresentar: 

— Estes são...

Não teve chance. 

— Deixe que a gente se apresenta! — interromperam os dois, em perfeita sincronia e empolgação. 

PUF! 

As esferas explodiram em pequenas nuvens de luz, liberando uma névoa esverdeada e azulada que se espalhou como poeira mágica no ar. 

PUF! 

De repente, o menino materializou-se bem diante do rosto de Fox, tão perto que ele instintivamente deu um passo atrás. Era pequeno, parecia ter cerca de dez anos, cabelos bagunçados e olhos verdes luminosos, como se guardassem brasas vivas. 

— Eu sou Estamina! — anunciou ele, abrindo os braços com um sorriso orgulhoso que ocupava metade de seu rosto. — Represento a energia que transforma as reservas do corpo em ação física! Força, velocidade, resistência! Tudo aquilo que faz o corpo se mover de verdade! 

PUF! 

A menina surgiu logo ao lado dele, girando no ar como uma dançarina. Seus cabelos eram longos e azuis, flutuando como água em gravidade zero, e seus olhos ardiam como cristais celestes. 

— E eu sou a Mana! — disse com um sorriso calmo, travesso. — Represento a energia que transforma sua vontade em magia! Feitiços, encantamentos, manipulação da realidade! Tudo que existe entre o impossível e o que pode ser criado! 

Eles se aproximaram, felizes como crianças mostrando seus brinquedos preferidos. 

— Há também um terceiro — disseram juntos, inclinando-se para a frente —, mas ele... 

— Ele não é importante agora — cortou Silas, rápido demais. 

Fox ergueu as mãos, pedindo, ou implorando, silêncio. 

— Por favor, acalmem-se todos — murmurou ele, ainda ofegante. — Eu... preciso de um pouco de ar... 

Apenas agora ele percebeu que estava dentro de algum tipo de estrutura desconhecida: corredores de pedra branca, paredes polidas, luzes sem fonte aparente iluminando tudo uniformemente. O ambiente parecia ao mesmo tempo sólido e etéreo. 

Precisando desesperadamente de espaço, Fox se afastou, cambaleando enquanto tentava recuperar sua compostura. Sem pensar muito, tomou o primeiro corredor que viu à sua frente, apoiando-se nas paredes enquanto caminhava. 

Os pequenos espíritos o seguiram com o olhar. 

— Será que foi algo que eu disse? — perguntou Mana, com uma expressão genuinamente preocupada. 

— Mas não falamos nada ainda! — protestou Estamina, indignado, batendo o pé e fazendo pequenas faíscas verdes brilharem ao redor. 

Silas apenas suspirou, passando a mão pelo rosto. 

E Fox desapareceu pelo corredor, tentando entender onde estava, e o que exatamente acabara de encontrar. 

Fox caminhou sem rumo, as mãos encostando nas paredes frias enquanto o chão parecia ondular sob seus pés. A sensação esmagadora em seu peito apertava como se o ar ao redor tivesse ficado denso demais, pesado demais, como se cada inspiração exigisse além de sua força física.  

Sua cabeça latejava. 

Atravessou o corredor tropeçando no próprio equilíbrio, sem direção clara, apenas tentando se afastar de vozes, luzes, sensações estranhas. Então, ao passar por uma grande abertura na parede, percebeu que era uma janela, e que algo gigantesco o aguardava além dela. 

Ele deu mais um passo, parou, depois voltou como se puxado por uma força silenciosa. 

O que viu roubou-lhe o fôlego por inteiro. 

Lá fora, ocupando toda a extensão da janela, estava o planeta. Todo ele. Azul e verde, girando lentamente, suspenso no vazio infinito. Cada nuvem parecia um véu delicado sobre uma joia colossal. Era uma visão absoluta e impossível. Uma visão que nenhum ser comum deveria presenciar com tanta proximidade. 

Fox encostou a mão no vidro, sentindo um arrepio atravessar-lhe o corpo. 

Agora tudo fazia sentido. Não era um truque, nem uma ilusão, nem exagero de magos arrogantes. Ele estava mesmo na AMA, a lendária Academia de Magia de Arboris. Agora sendo chamada de Academia de Magia de Astra. O lugar que desaparecera do Continente séculos atrás, deixando apenas teorias e mistérios.  

A maioria acreditava que havia submergido no fundo do oceano para escapar de guerras e invasões. Aquilo fazia muito mais sentido. E também era infinitamente mais difícil de conceber. 

Ele sentia o coração batendo tão forte que parecia que ia escapar do peito. 

— É uma vista e tanto, não é? — perguntou uma voz masculina, suave, hesitante, quase tímida. 

Fox virou a cabeça devagar, ainda meio tonto, e avistou um jovem parado alguns passos atrás. Parecia ter quase sua idade, talvez um pouco mais novo. Roupas simples, com detalhes que indicavam afinidade com fogo: tons escuros, linhas vermelhas que pulsavam levemente, como brasa sob cinza. O olhar do garoto brilhava com curiosidade, e um pouco de embaraço. 

Fox não teve tempo de responder. 

— Soren! 

A voz feminina ecoou como um estalo. 

Do final do corredor surgiu uma jovem deslizando suavemente, deixando um rastro de pequenos cristais de gelo cintilantes por onde passava. Sua presença esfriou o ar ao redor deles, de maneira quase elegante, como se ela carregasse o inverno sem a intenção de ferir. 

— Peço desculpas por ele, senhor — disse ela com um breve aceno respeitoso, puxando o colega pelo braço. — O Silas pediu para que ficássemos em nossos quartos hoje, lembra? 

— Eu só... — começou Soren, arrastado antes que pudesse concluir. 

As vozes dos dois se perderam rapidamente no corredor, apagando-se como o gelo que derretia atrás da jovem maga. 

Fox ainda encarava o planeta pela janela quando outra presença se aproximou, silenciosa como sempre. 

— É uma vista e tanto, não é? — repetiu Silas, parando ao lado dele. 

Fox não conseguiu se segurar: uma risada escapou-lhe, leve, incrédula. 

— É sim — respondeu, virando-se para encarar o mago. — Por que me trouxe aqui? Ou devo dizer “sequestrou”? 

Silas arqueou as sobrancelhas, como se não tivesse percebido até aquele momento que, de fato, agarrara Fox sem pedir permissão. 

— Peço desculpas — disse com humildade incomum. — Eu devo ter me exaltado um pouco. Perdão. Deixe-me levá-lo para o seu quarto primeiro. 

Fox piscou. 

— Meu quarto? 

— Não estamos longe — garantiu Silas. — Venha, por favor. 

Eles começaram a caminhar juntos, e Fox tentou aproveitar aquele pouco de calma para arrancar ao menos uma explicação. 

— Silas, desculpe, mas acho que está cometendo algum engano. Eu não sou nenhum mago. 

— Eu sei que não — respondeu ele, sem parar de andar. — Estamos com muitos quartos disponíveis. Não se preocupe, não fará falta. 

A resposta, misteriosa e tranquila, deixou Fox ainda mais confuso, e ainda mais tentado descobrir o que, exatamente, Silas queria dele. 

Por ora, tudo o que podia fazer era seguir aquele mago excêntrico pelo corredor. 

Chegando ao quarto indicado por Silas, Fox precisou de alguns segundos apenas para absorver o que via.  

O ambiente era amplo, absurdamente amplo, maior até do que os dormitórios dos cadetes imperiais da Capital, e aqueles já eram considerados luxuosos comparados aos das academias comuns.  

O teto alto, sustentado por arcos de madeira escura, comportava luminárias flutuantes que emitiam uma luz suave, quase calorosa. Havia uma mesa de estudos larga o suficiente para comportar três pessoas, estantes recheadas de livros encadernados com couro e metal, um conjunto de sofás confortáveis, tapetes espessos e até mesmo um biombo decorado com desenhos arcanos. 

Fox reconheceu de imediato. 

Não era um quarto de estudante normal. Era um quarto reservado para um professor, talvez até de alto escalão. 

— A escola não anda muito bem? — perguntou Fox, tentando disfarçar o desconforto com sarcasmo leve. 

Silas soltou uma risada pequena, cansada, quase resignada. 

— Não — admitiu. — Mas não foi por isso que trouxe você aqui. 

Fox andou até a mesa e se deixou cair na cadeira como alguém que finalmente se permite respirar depois de horas segurando o ar. Estava exausto, física e mentalmente, e aquela cadeira parecia ter sido feita exatamente para aplacar o corpo e acalmar a mente. 

— Então, por favor — disse ele, apoiando os braços sobre a mesa —, comece. 

Silas ocupou a cadeira à sua frente.  

O mago parecia carregar um peso invisível nos ombros, a postura rígida contrastando com o olhar sincero, quase preocupado. Ele respirou fundo antes de falar. 

— Deve ter percebido que muitas coisas têm acontecido recentemente. 

Fox desviou o olhar para o chão, lembrando-se de Kenzou, da floresta destruída, da projeção que se dissolveu diante de seus olhos. 

— Sim — respondeu, a voz baixa. — Não me parece algo normal, de fato. Não que… eu imaginasse que tais assuntos fossem incomodar os intocáveis magos da AMA. 

Silas ergueu a mão, pedindo paciência, sem irritação. 

— Por favor, sem deboche. Sei muito bem da propaganda imperial, de como nos pintam como entidades isoladas, arrogantes e indiferentes. Mas juro a você que minhas intenções são apenas boas. O sonho de todos os diretores da AMA sempre foi que a academia voltasse para o Continente. O meu não é diferente. 

Fox decidiu permanecer calado, apenas observando. Se Silas queria ser sincero, que fosse. Ele ouviria. 

O mago continuou: 

— Existem pessoas, seres, muito maiores do que você pode imaginar. Entidades ou forças que nenhum exército, nenhuma muralha, nenhum mago sozinho são capazes de enfrentar. Nem mesmo o Império está preparado para isso. E, se nada for feito, Fox — Silas desviou o olhar, como se temesse o que estava prestes a dizer — eu não consigo imaginar qualquer futuro que não termine em apenas morte. 

Fox sentiu o corpo arrepiar. 

— Mas... o Imperador, o Herói do Povo, os Cavaleiros de Camelot — tentou argumentar. — Eles parecem imparáveis! Não perderam um homem sequer até hoje. 

— Sim, parecem — admitiu Silas. — Mas é ingenuidade acreditar que o Império é aliado dos Cavaleiros de Camelot, ou mesmo do Imperador. 

Fox franziu o cenho, confuso, quase ofendido pela ideia. 

— O que está querendo dizer? Que eu deveria me tornar um Remanescente? Por isso me trouxe aqui? Para que eu vire um vira-casaca? 

Silas balançou a cabeça de imediato. 

— Você é livre para fazer o que quiser, Fox — disse com suavidade. — Não quero manipulá-lo, nem direcioná-lo. Só quero ampliar o seu horizonte. Mostrar que o mundo é maior do que as histórias que ouviu. Para que, quando chegar a hora, você tome suas próprias decisões, e que sejam as corretas, não apenas as convenientes. 

Fox esfregou os olhos, cansado. 

— Não sei se vou conseguir entender tudo isso...

— Eu sei — respondeu Silas. — Então descanse. Amanhã conversaremos melhor. Hoje você precisa apenas relaxar. Conheça a AMA, explore os corredores. Tenho certeza de que Mana e Estamina adorariam fazer uma excursão com você. 

O mago levantou-se lentamente, ajeitando o manto com um gesto elegante. 

— Sinta-se em casa — disse ele, antes de se virar para a porta. 

Sem dizer mais nada, Silas deixou o quarto, fechando a porta com delicadeza.  

O silêncio que se instalou parecia profundo demais para um lugar tão cheio de magia. 

E Fox, finalmente sozinho, sentiu que sua cabeça era pequena demais para tantos pensamentos, e que sua vida nunca mais seria simples outra vez. 

(...) 

Era, de fato, informação demais para digerir — um turbilhão que girava sem ordem em sua mente, colidindo, se sobrepondo, se contradizendo.  

Fox sentia como se estivesse tentando enxergar através de uma névoa espessa: via formas, intuições, fragmentos de verdades, nada nítido o suficiente para afirmar com convicção. Ainda assim, mesmo sem compreender os detalhes, a gravidade do que ouvira o esmagava por dentro. 

A simples possibilidade de imaginar o Império como um potencial inimigo era amarga demais para ser engolida. Aquilo feria algo profundo, quase sagrado, dentro de si. O Império era sua casa, seu norte, a estrutura que moldara cada passo de sua vida.  

Seu próprio mestre — Reiji Torison — era um herói imperial, um símbolo de honra e disciplina. Fox crescera admirando-o, desejando um dia merecer caminhar ao seu lado como igual. E ele mesmo estava perto disso, perto de finalmente ser reconhecido como um soldado completo, talvez até como alguém digno do título de herói imperial. 

Por isso, permitir-se sequer cogitar que tudo aquilo pudesse ser uma fachada era doloroso. Era como se parte de sua identidade estivesse sendo arrancada com as próprias mãos. 

E ainda havia Kenzou. 

Saber de sua morte, mesmo sem ter visto, fora devastador, mais do que Fox esperava sentir. Porém fazia sentido. Explicava a súbita frieza de Reiji, a maneira como o mandara partir.  

Aquilo não fora apenas disciplina. Fora proteção. Reiji devia sentir que um fantasma o caçava e, temendo que Fox sofresse o mesmo destino, cortara o vínculo para afastá-lo do perigo. 

Era uma explicação cruelmente plausível. 

E então havia Wolf. 

Seu irmão. Seu espelho. Sua outra metade. 

Fox sentia o coração apertar ao pensar nele; era um aperto diferente, não de dor, de inquietação. Temia pelo destino de Wolf, claro, mas havia algo dentro dele que se recusava a acreditar que o irmão estivesse correndo qualquer risco sério.  

Wolf era... Wolf.  

Mesmo preso em território Remanescente, Fox queria, precisava, acreditar que ele estava bem. Que estava vivo, inteiro, talvez até rindo da própria situação, como sempre fazia quando as coisas saíam do controle. 

Ele não permitiria que a dúvida o destruísse. 

Tentou afastar tudo isso; todas as intrigas, todas as perguntas, todos os temores. A cabeça latejava, como se cada pensamento fosse uma batida seca contra seu crânio. 

Não era hora para mais questionamentos. Não era hora para entrar em pânico. 

Fox estava exausto. Física, emocional e espiritualmente esgotado. 

E assim, finalmente, permitiu-se recostar na cama que Silas havia deixado para ele, sentindo o tecido suave e a leveza do colchão que parecia moldar-se ao seu corpo cansado.  

O silêncio da AMA, um silêncio que não pertencia a lugar algum no Continente, envolveu-o como um manto frio e reconfortante. 

Em poucos minutos, sua mente, sobrecarregada, começou a se entregar. 

E Fox dormiu. Um sono pesado, profundo, quase imediato. 

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