Volume 3 – Arco 14

Capítulo 156: Encontro Mágico

Mesmo com o metal brilhando ao sol, com o peso real da katana agora pendendo em sua cintura, tudo parecia estranhamente vazio. O som das palavras que selaram aquela separação ecoava em sua mente, queimando-lhe por dentro. 

Ainda confuso, perdido e emocionalmente ferido, Fox decidiu seguir até a Capital. Talvez lá, entre burocratas, guardas e aventureiros, pudesse encontrar algum sentido, ou ao menos algum caminho, para decidir por conta própria o rumo que deveria seguir dali em diante. 

A jornada foi silenciosa. E longa. Extremamente longa. 

Ele não parou sequer uma vez para descansar. A cada passo, sentia o peso do que perdera e do que poderia carregar agora. 

Quando finalmente se aproximou da Capital, ouviu alguns viajantes conversando em tom alarmado. Falavam de um enorme meteoro que supostamente havia caído ali perto, destruindo quase completamente toda a floresta da região. 

Fox não deveria desviar-se do caminho. Porém algo dentro dele o empurrou para uma vereda lateral. 

Um pouco cético consigo mesmo, decidiu investigar apenas para saciar a curiosidade. No mínimo, poderia descontar parte de sua frustração em algum treino improvisado entre destroços. 

Quando chegou, viu que a floresta realmente estava devastada, de um jeito que não imaginara. 

Não havia uma cratera. Não havia sinais de impacto. 

Era como se dezenas de terremotos tivessem sacudido o local enquanto furacões arrancavam árvores inteiras do chão. O caos não tinha um ponto central, parecia espalhar-se como ondas violentas que tinham varrido tudo sem deixar padrão algum. 

Fox se agachou e começou a estudar o solo, tentando entender o que, de fato, havia acontecido. A terra estava revolvida, quente em alguns pontos, fria em outros, como se duas forças opostas tivessem colidido ali. 

Foi então que uma voz masculina surgiu logo atrás dele: 

— O estrago foi feio, não é? 

Fox se levantou de imediato, o corpo inteiro reagindo antes da mente. Virou-se com a mão já escorregando em direção à empunhadura da katana, pronto para sacá-la ao menor sinal de perigo. 

Não queria ferir um civil ou um inocente por impulso. Também não permitiria que qualquer estranho se aproveitasse de sua guarda baixa, não naquele estado emocional. 

— Quem é você? — perguntou Fox, em um tom duro e autoritário. 

O homem trajava um longo manto branco adornado com detalhes que lembravam runas, símbolos que Fox não reconhecia. O capuz ocultava parcialmente seu rosto, sua postura era tranquila, quase despreocupada. 

— Perdoe minha indelicadeza — disse ele, retirando o capuz com um gesto lento. — Eu me chamo Silas Tesla. Ouvi muitas coisas boas a respeito de você, Fox, a Raposa Flamejante. 

O título o fez encará-lo com ainda mais confusão. 

Fox relaxou apenas o suficiente para não transparecer hostilidade imediata. O homem não emanava ameaça alguma, mas havia algo nele, algo estranho, difícil de definir. 

— Não sei quem decidiu esse título — murmurou Fox. — O senhor causou toda essa destruição apenas para conversar comigo? 

Silas sorriu de forma breve. 

— Não. Foi apenas uma coincidência que tenhamos chegado juntos. E já que estamos aqui, pensei que poderíamos nos ajudar. Saciar nossas dúvidas, o que acha? 

Fox bufou, desviando o olhar. 

— Certamente suas dúvidas são maiores que as minhas, Silas. Eu não estou tão interessado assim... 

Virou-se, já preparando-se para partir. Ainda estava de luto pela ruptura com Reiji Torison, e sua mente não tinha espaço para enigmas de estranhos. 

— Mesmo que essa destruição tenha sido causada por Kenzou Torison? 

Fox congelou. 

Virou o rosto lentamente, como se temesse encontrar a confirmação daquilo que ouvira. 

— Como você...? 

Silas estendeu as duas mãos. O primeiro fio de eletricidade surgiu entre os dedos, depois outro, e mais outro, até que a corrente percorreu seus braços e inundou seu corpo inteiro. 

— Permita-me mostrar...

PAH! Grrrrooom! 

A palma fora precursor do trovão 

E, no mesmo instante, o mundo se apagou. 

Não houve dor, nem vento, nem deslocamento, apenas um apagar absoluto, como se alguém tivesse fechado os olhos do próprio universo. 

Então, gradualmente, a luz retornou. As cores voltaram. O som voltou a preencher o espaço. 

E a floresta... estava intacta. Viva. Inteira. 

Como se nada tivesse acontecido. 

— Mas... como...? 

A voz de Fox saiu quase trêmula. Seus olhos percorriam o cenário intacto ao redor; árvores renascidas, folhas vibrantes, pássaros cantando como se nunca tivessem parado.  

Nada fazia sentido. 

— É só uma projeção criada por Estamina e Mana — explicou Silas com naturalidade, como se estivesse falando de algo trivial. 

— Quem? — perguntou Fox. 

— Você vai conhecer depois. 

Fox se aproximou de um tronco robusto, tocado pela luz dourada que filtrava entre as folhas. Ele estendeu a mão… e seu braço atravessou o tronco como se fosse feito de fumaça. A sensação foi gelada, ao mesmo tempo estranha e indescritível.  

Era ilusão. Era magia. 

Era a primeira vez em sua vida que Fox via magia real, não apenas relatos em livros, histórias antigas ou rumores distantes. Não era uma espada, nem fogo, nem técnica. Era algo diferente. Algo que ignorava regras. Algo que dobrava o mundo com um estalar de dedos. 

Ele ficou confuso, assustado e maravilhado ao mesmo tempo. 

Silas o observava com um leve sorriso no canto dos lábios, como alguém que vê uma criança descobrindo um truque pela primeira vez. 

— Chega de brincadeiras — disse Silas. — Vamos ver o que realmente nos interessa. 

A floresta inteira estremeceu. 

Fox sentiu o chão mover-se sob seus pés. Ficou cambaleando, tentando se equilibrar. Era inútil; o mundo estava se deslocando como se fosse puxado por mãos invisíveis. O cenário deslizava, distorcia-se e se realinhava. Árvores se misturavam como pinceladas num quadro que estava sendo redesenhado a cada segundo. 

Moveram-se por quilômetros, rápido demais para ser real, lento demais para ser teleporte.  

Até que pararam. 

E ali estava alguém caminhando pela floresta. A figura se movia com pressa, desviando de galhos, tropeçando em raízes, como se fugisse de algo que respirava atrás de si. 

— Kenzou! — disse Fox, o coração apertando imediatamente.  

Ele reconheceu no mesmo instante. 

Era impossível esquecer o irmão de Reiji. Eles eram parecidos.  

Agora o rosto de Kenzou parecia mais duro, mais tenso, mais envelhecido por algo que não era o tempo. Seu corpo estava mais definido, também mais desgastado. 

O que realmente chocou Fox foi a expressão dele. 

— Ele... está com medo — murmurou Fox, quase sem acreditar. 

O único que chegara a rivalizar Reiji. Um guerreiro de sangue frio e determinação inabalável. Com medo. 

— Ele está sendo perseguido — explicou Silas, sem desviar os olhos. 

Antes que Fox pudesse formular outra pergunta, a projeção destacou duas figuras. 

Kenzou agora estava envolto por uma aura verde, serena, firme, quase científica. A outra figura, a que o perseguia, era uma aura avermelhada, vibrante, pulsante. 

Eles tentaram se aproximar do perseguidor. 

Não havia rosto. Não havia corpo. Não havia nada além de uma sombra, um vulto negro que parecia engolir luz. Nem mesmo a projeção conseguia definir se aquilo era humano. 

— Quem é esse? — perguntou Fox, a mão involuntariamente indo para a katana, mesmo sabendo que aquilo era só uma ilusão. 

— Eu não sei — disse Silas. — Mas é alguém capaz de usar magia para esconder toda a sua presença. 

— É possível algo assim? 

— Até o presente momento, eu pensava que não. 

Silas suspirou, desapontado, e Fox percebeu que aquilo tudo era tão novo para ele quanto para si. 

— Infelizmente, não há nada mais útil a ser visto aqui — afirmou, pronto para encerrar a projeção. 

Fox agarrou seu pulso. Não com força, com desespero. 

— Não! Por favor. Eu preciso ver. 

Silas estreitou os olhos. 

— Sabe qual vai ser o resultado.

— Mesmo assim. 

O silêncio entre os dois durou três longos segundos. 

Então, contrariado, Silas relaxou os dedos. 

— Que seja — murmurou. — Mas não diga que não avisei. 

E a projeção continuou. A floresta começou a tremer novamente. Kenzou continuou fugindo… 

A velocidade de Kenzou voltou de maneira abrupta, e Fox pôde ver com clareza o quanto ele estava rápido. Rápido o suficiente para parecer que estava utilizando o Impulso; estava forçando seu corpo a ultrapassar seus limites. 

Não apenas corria, rasgava a floresta como um raio, desviando das árvores com precisão milimétrica, saltando por troncos caídos sem perder um único instante. 

Não era apenas uma fuga. Fox sentiu isso imediatamente. 

Kenzou não corria apenas para sobreviver. Ele corria porque precisava chegar em algum lugar; algo mais urgente que sua própria vida o empurrava para frente. 

Ele corria em direção à Capital. 

“Por que você não foi até seu irmão, Kenzou?” A pergunta ecoou dolorosamente na mente de Fox. “Por que escolher a Capital? O que há lá que é mais importante do que irmão? O que você encontrou em sua jornada?” 

E então, um pensamento ainda mais sombrio o atingiu como uma faca gelada atravessando suas costelas: 

 Onde está Wolf? 

Seu estômago se revirou. A garganta secou. A ausência do dele naquela visão fazia tudo ganhar um peso terrível. 

Fox percebeu, então, pequenas gotas escuras flutuando atrás do rastro de Kenzou. Não era suor, nem respingos de chuva inexistente: era sangue fresco salpicando folhas, galhos e raízes. 

Kenzou estava ferido. 

E ainda assim continuava correndo como se sua vida e de outros dependessem daquilo, ignorando dor, ignorando exaustão, ignorando tudo. 

De repente, a aura avermelhada que representava seu perseguidor desapareceu. 

Fox arregalou os olhos. 

— Não — murmurou. 

E reapareceu um pouco à frente de Kenzou, interrompendo seu caminho de maneira abrupta, obrigando-o a frear no último instante. 

Kenzou ergueu sua espada num movimento desesperado, rápido o suficiente para salvar a própria vida ou ao menos evitar um corte fatal. O impacto do ataque inimigo o projetou vários metros para trás, arrastando folhas e terra com violência. 

Os dois começaram a conversar. Ou pelo menos pareciam conversar. 

Nem a projeção mais avançada de Silas era capaz de captar vozesexpressões labiaissombras sutis. 

Para Fox, era como assistir a uma peça muda num teatro arruinado. 

Kenzou moveu os pés, recuando, baixando o centro de gravidade.

Ele assumiu sua postura de combate, firme, agressiva, precisa, a mesma que Fox vira tantas vezes em Reiji. 

Por fim...

A projeção começou a se desfazer. 

Primeiro como rachaduras na imagem. Depois como se estivesse sendo corroída por dentro, incapaz de acompanhar a velocidade, a brutalidade e a violência que ambos alcançavam. 

A ilusão vibrava, distorcia, estilhaçava-se. 

Até sumir. 

Fox terminou ajoelhado no chão real, encarando a floresta destruída de verdade, agora mais silenciosa e carregada do que antes. O contraste entre o que vira e o cenário atual era como uma punhalada. 

Silas respirou fundo. 

— Aqui jaz Kenzou Torison — disse, com uma tristeza calculada. — Não sei ao certo o nível dessa luta, mas posso afirmar que senti a reverberação dela lá da AMA. E aqui... não restou quaisquer restos mortais. 

Fox apertou os punhos, o coração pesando como chumbo. 

— Existe esperança de ele… ter ao menos derrotado seu adversário. 

Silas arqueou uma sobrancelha. 

— Improvável. E... quer mesmo acreditar nisso apenas para dormir mais tranquilo à noite? 

Fox abaixou a cabeça. 

Sem a certeza da morte do inimigo, o mais prudente era supor que aquele ser ainda estava à solta. Em algum lugar. Talvez observando alguém. Talvez caçando alguém. 

— Você sabe de algo? — perguntou Fox, a voz embargada. 

Silas suspirou, sentou-se ao seu lado, o peso da situação refletido em seus ombros. 

— Não mais do que você, eu suponho — disse ele, com honestidade crua. 

E então os dois ficaram ali. Em silêncio. Apenas ouvindo o vento passar pela floresta devastada, carregando consigo a sensação de morte... e a certeza de que algo terrível havia começado naquele dia. 

— “Wolf”, é seu irmão? — perguntou Silas, inclinando levemente o rosto. 

Fox respirou fundo antes de responder, sentindo o peso daquele nome apertar seu peito. 

— Isso. Era para ele estar junto de Kenzou. 

— Dois irmãos com dois irmãos, hm? — murmurou Silas, cruzando os braços, como se aquela coincidência despertasse algum tipo de interesse acadêmico em sua mente. 

— Basicamente — disse Fox, a voz mais baixa, tomada por um misto de incerteza e saudade. 

— E onde ele está agora? — insistiu Silas, com um tom mais sério desta vez. 

— Eu não sei… — Fox desviou o olhar para o horizonte destruído. — Teoricamente, eles deveriam estar nas Geleiras, mas... fazia algum tempo que não recebíamos nenhuma carta deles. 

— As Geleiras? — Silas levou a mão ao queixo, pensativo. — A trajetória é condizente. Talvez ele ainda esteja lá. 

— É... talvez — repetiu Fox, sem convicção. O eco de sua própria voz parecia fraco, quase infantil. 

Silas, percebendo isso, soltou um leve suspiro. 

— O problema — continuou ele — é que a muralha de Aranost impede qualquer um de passar. 

Fox repetiu o nome mentalmente. A muralha de Aranost. Um obstáculo tão colossal que era quase uma lenda. Ninguém atravessava. Ninguém escalava. Ninguém era tolo o suficiente para tentar. 

— Kenzou sabia um meio — murmurou Fox. — Mas agora... 

A última palavra morreu em sua boca. Não teve coragem, nem forças, para concluí-la. De repente, simplesmente dizer “agora ele está morto” tornaria tudo real demais. 

Silas não insistiu. Apenas aguardou, com respeito silencioso. 

— E quanto ao Servo da família Torison? — perguntou ele enfim. 

Fox ergueu uma sobrancelha, confuso. 

— Eu nunca o vi — respondeu. — Reiji nunca comentou sobre ele comigo, então julguei que não fosse assunto meu. 

Silas fez um aceno lento com a cabeça, absorvendo a informação. 

— Entendo

Então, ele se levantou com calma, espanando a poeira do manto e estendendo a mão para Fox. O gesto era simples, carregado de uma estranha solenidade. 

Fox hesitou antes de segurar aquela mão, quando o fez, sentiu uma energia sutil percorrer seus dedos, como se Silas estivesse constantemente canalizando alguma força invisível. 

— Lamento que nosso encontro tenha ocorrido em tais circunstâncias — disse Silas, com um sorriso triste e educado —, mas... tente enxergar esse momento como uma oportunidade. 

— Como? — Fox levantou lentamente. 

O mago abriu um sorriso mais amplo desta vez. Não era bem conforto, mas algo parecido com entusiasmo. 

— Fazia um tempo que eu queria encontrá-lo. — A voz dele soou estranhamente animada. — Acredito que você seja o exato tipo de pessoa que eu preciso no momento. 

Fox deu um passo para trás, desconfiado. 

— Do que você está falando? 

Antes que Silas pudesse responder, vozes começaram a ecoar ao longe, primeiro como murmúrios, depois como gritos abafados. O som metálico de armaduras, o tilintar de lanças e escudos, e então o estandarte vermelho e dourado tremulando entre as árvores destruídas. 

Fox reconheceu imediatamente. Soldados imperiais. E eles vinham rápido. 

— Sem tempo a perder! — anunciou Silas. 

SNAP! 

Uma aura azulada, tão pálida que quase parecia branca, explodiu sob seus pés, envolvendo ambos de maneira instantânea. Fox sentiu seu corpo ser comprimido, esticado e distorcido ao mesmo tempo, como se estivesse sendo puxado para dentro de um funil feito de luz. 

O cheiro da terra, o vento frio, o barulho dos soldados, tudo se dissolveu como tinta na água. 

Fox e Silas já não estavam mais ali. 

Apoie a Novel Mania

Chega de anúncios irritantes, agora a Novel Mania será mantida exclusivamente pelos leitores, ou seja, sem anúncios ou assinaturas pagas. Para continuarmos online e sem interrupções, precisamos do seu apoio! Sua contribuição nos ajuda a manter a qualidade e incentivar a equipe a continuar trazendos mais conteúdos.

Novas traduções

Novels originais

Experiência sem anúncios

Doar agora