Volume 3 – Arco 14

Capítulo 155: Rompimento

Fazia anos desde que Fox passara a acompanhar Reiji em suas jornadas.  

O tempo, implacável e silencioso, moldara seu corpo e espírito. Agora, ele já era um homem adulto, mais forte, mais calejado e mais consciente do peso do mundo. 

Ambos seguiam suas vidas longe dos próprios irmãos. Não por falta de amor, pois o destino os empurrara para frentes diferentes, cada qual com sua carga, seus desafios e responsabilidades. Comunicavam-se apenas por cartas, muitas vezes entregues por mensageiros cansados que chegavam em momentos inesperados, trazendo fragmentos de vida em meia dúzia de linhas. Ainda assim, mesmo essas poucas palavras eram suficientes para reacender aquela saudade que ardia profunda no peito de ambos. 

Eles entendiam que não podiam retornar. Cada um possuía sua missão, compromissos tão sérios que não podiam ser interrompidos, adiados ou abandonados. A honra e o dever falavam mais alto que o coração, e seguir adiante era a única escolha que lhes restava. 

Naquela altura, Reiji já havia recebido o título de herói imperial, consagrado como o Melhor Espadachim do Império. A fama o seguia como uma sombra: onde quer que entrasse, olhares se viravam, cochichos surgiam, e o peso das expectativas crescia. 

Missões separadas tornaram-se rotineiras: às vezes por necessidade, outras por conveniência.  

Não importava quanto tempo permanecessem longe, sempre acabavam se reencontrando em alguma cidade poeirenta ou vila tranquila, dividindo os lucros, as histórias e, ocasionalmente, os méritos. Havia missões em que Reiji deixava tudo para Fox, como forma de reconhecimento silencioso. Havia outras em que assumia tudo para si, e Fox entendia que era melhor assim. 

Havia uma coisa que Reiji jamais compartilhava, algo absolutamente inegociável: as conversas oficiais com o Império. 

Todos os assuntos envolvendo o Império eram tratados sem a presença de Fox. 

Esse território era exclusivo dele, como se houvesse um segredo, uma responsabilidade ou um peso que não podia dividir, nem mesmo com quem considerava um familiar de alma. 

Mesmo sendo seu aprendiz, o jovem era colocado de lado, muitas vezes confundido com um simples escudeiro, um ajudante silencioso que carregava sacolas e montava acampamento.  

Isso nunca o incomodara ao ponto de gerar conflito, mas havia uma pontada discreta, um incômodo abafado, que surgia com frequência quando nobres e oficiais falavam com ele como se não existisse valor algum por trás do título de aprendiz. 

***

Numa determinada noite, enquanto descansavam próximos da estrada, o silêncio entre eles era diferente.  

O acampamento estava montado com cuidado: as brasas do fogo crepitavam baixas, lançando luzes laranjas sobre as árvores, e o vento frio trazia o cheiro de terra úmida. Fox havia preparado a refeição com esmero: carne temperada, legumes assados e chá quente. Seu mestre mal havia tocado na comida. 

Reiji estava inquieto. O olhar distante, a postura tensa, a respiração lenta demais para alguém acostumado a viver em alerta. Ele mexia nos talheres sem intenção de usá-los, como se sua mente estivesse quilômetros longe, enroscada em pensamentos que não se desfaziam nem com a calma da noite. 

Fox, por sua vez, conhecia bem aquele comportamento. Aprendera, ao longo dos anos, que forçar Reiji a falar era inútil, e até desrespeitoso. Seu mestre nunca revelava nada antes da hora, e tentar arrancar suas preocupações era como tentar cortar pedra com as mãos. 

Por isso, permaneceu em silêncio. Observava o fogo, ouvia o canto distante de algum animal noturno e esperava. Sabia que, se Reiji desejasse compartilhar algo, o faria quando estivesse pronto. E se não desejasse... então era melhor respeitar o fardo que ele carregava, mesmo sem entender sua forma ou peso. 

A noite avançava lentamente, e o mundo parecia suspenso, como se aguardasse a palavra que ainda não havia sido dita. 

— Sabe que não precisa continuar me seguindo, não é? — disse Reiji enfim, rompendo o silêncio da noite com uma voz pesada, carregada de algo que Fox não conseguia identificar de imediato. 

Fox ergueu os olhos, ainda segurando a colher que já não levava à boca há algum tempo. 

— Eu sei, meu mestre — respondeu, sem hesitar. — Mas enquanto não me expulsar, eu o seguirei. 

Reiji virou apenas o rosto, deixando o fogo iluminar um lado de sua expressão. 

— É o que quer? 

— Não! Jamais! — disse Fox, rápido demais; quase desesperado, como se aquela pergunta tivesse acertado um ponto sensível dentro de si. 

— Por que não? 

Aquela pergunta caiu como uma pedra.  

Não era uma provocação, tampouco parecia ter segundas intenções. Era algo mais profundo, algo que exigia que Fox realmente olhasse dentro de si. Ele pousou os talheres sobre o prato e respirou fundo, empurrando-o para o lado. Sabia que a conversa não seria leve. 

O semblante de Reiji tornara-se sério, sério o bastante para que Fox percebesse que não poderia tratar aquilo como uma conversa comum. 

— Eu não me sinto preparado para agir sozinho — admitiu, encarando as próprias mãos. — Mesmo que eu aceite algumas missões aqui e ali... eu sinto que o senhor sempre estará lá, em algum lugar, pronto para me ajudar se eu precisar... 

Reiji, então, perguntou: 

— Você... realmente acha que eu teria impedido a sua morte... naquela noite? 

Fox ergueu o olhar, confuso. 

— Qual noite? 

— A do urso. 

Fox congelou.  

A lembrança o atingiu como um golpe direto no peito. Mesmo agora, sendo muitas vezes mais forte e habilidoso do que era naquela época, ainda podia sentir o cheiro da respiração daquele monstro, ouvir as patas esmagando o chão, sentir o medo queimando dentro de sua carne. 

— É claro que você iria me salvar! — respondeu Fox, quase indignado. — Não tente me convencer do contrário. 

Reiji suspirou, muito devagar. 

— Se aquilo tivesse acontecido no primeiro ano, talvez — murmurou. — Mas no segundo ano... eu aparecia uma vez por semana apenas para ver se você ainda estava vivo. Foi pura sorte que aquele dia coincidiu com a minha chegada. Se tivesse sido um dia antes ou depois... você teria morrido pelos seus ferimentos. 

Fox ficou imóvel.  

Cada palavra caía mais pesada que a anterior. Ele não sabia como reagir; se deveria ficar furioso, decepcionado, triste ou apenas aceitar o que estava ouvindo. 

— Por que está fazendo isso? — perguntou, a voz falhando um pouco. — Por que quer tanto que eu te odeie ou que eu pense mal de você? 

Reiji mexeu na brasa com um graveto, sem pressa. 

— Eu não quero isso. Só quero que você seja mais realista. Você já é um adulto, Fox. E ainda fala, age e pensa como se estivesse preso dentro de um conto de fadas... 

Fox sentiu algo estourar por dentro: frustração, talvez dor, talvez cansaço emocional. Levantou-se tão rápido que o prato ao seu lado virou na grama, espalhando parte da refeição.  

A chama iluminou seu rosto, revelando sua indignação. 

— E qual é o problema disso?! — gritou, incapaz de segurar o turbilhão que o dominava. — Eu tenho esperança, mestre! Se eu tenho que escolher entre tudo ser obra do destino ou só coincidência, então prefiro acreditar que as coisas aconteceram por alguma razão! Não quero viver pensando que tudo é caos e nada mais! 

Não era sua intenção ser grosseiro. Nunca foi. Fora a única forma que ele encontrou para ser ouvido de verdade. 

— O senhor me salvou dos Renascidos — continuou, a voz firme, porém trêmula. — Pode ter me abandonado numa floresta contra aquele urso, mas apareceu exatamente no dia em que eu finalmente tive coragem de enfrentá-lo e matá-lo. No dia seguinte, fui cuidado por uma vila inteira, recepcionado como um herói, recompensado por algo que eu nem sabia que era importante para eles... 

E Fox seguiu, contando cada episódio, cada desventura, cada reviravolta que sua vida tomara até aquele momento. Uma sequência absurda de coincidências, encontros improváveis e chances que, por lógica, jamais deveriam ter acontecido. Histórias que, juntas, pareciam formar o esqueleto de uma grande narrativa feita para alguém muito mais especial do que ele próprio acreditava ser. 

Fox deveria ter morrido dezenas de vezes. E, ainda assim, estava ali. 

— ...então, me perdoe, mestre — disse, com o peito arfando e a voz quase quebrando —, eu sou muitas coisas... mas não sou realista! 

Quando o eco de suas próprias palavras desapareceu entre as árvores, Fox sentiu suas pernas fraquejarem um pouco. Baixou o olhar, envergonhado por ter se dirigido daquele jeito ao homem que considerava seu guia, seu protetor, seu mestre. 

E, naquele instante, o silêncio entre eles voltou, agora carregado de tudo o que fora dito e do que ainda precisava ser compreendido. 

Tentou sentar-se novamente em seu lugar, respirando fundo, tentando convencer a si mesmo de que todo aquele discurso inflamado havia sido apenas uma explosão momentânea, talvez até uma ilusão, uma fantasia criada pelo calor do momento.  

Por um instante, desejou acreditar que sua mente havia exagerado tudo, que não havia levantado a voz contra seu mestre, e que a conversa não tinha tomado rumos tão delicados. 

Antes que pudesse organizar completamente seus pensamentos, Reiji quebrou o silêncio: 

— Talvez você esteja certo, meu aprendiz — disse ele, com uma serenidade que Fox raramente ouvira. — Talvez... seja eu quem deva aprender mais com você. 

Fox piscou algumas vezes, confuso.  

Era inesperado ouvir aquilo de Reiji; alguém tão rígido consigo mesmo, tão exigente com aqueles ao redor, tão acostumado a trilhar o mundo com uma certeza inabalável. Não havia ironia em sua voz. Nenhum traço de deboche. Apenas honestidade. 

Reiji estendeu a mão, puxou para si o prato derrubado anteriormente e pegou um pouco da comida que restara intacta. Comeu devagar, saboreando cada pedaço como se quisesse demonstrar, da única forma que sabia, que apreciava aquele esforço feito por Fox. 

Então sorriu. 

Não um sorriso protocolar, nem um sorriso forçado para tranquilizar o aprendiz, um sorriso verdadeiro, calmo, profundo, iluminado pelo fogo baixo do acampamento. Era um sorriso que Fox nunca havia visto antes, um sorriso que quase o desconcertou. 

— Talvez meus sonhos também se realizem... — disse Reiji, quase em tom de confidência. — Talvez, um dia, eu consiga ter finalmente uma família. 

Fez uma pausa, encarando o fogo com um olhar distante, como se estivesse observando algo muito além da chama. 

— Apesar que... talvez eu já tenha um filho, de certa forma... 

O mundo pareceu desacelerar ao redor de Fox. Ele virou-se para o mestre quase de imediato, com os olhos arregalados, sentindo misto de vergonha, surpresa e uma felicidade que não ousava demonstrar abertamente.  

A frase ficara ecoando dentro de sua mente, girando, se repetindo, como se seu coração tentasse absorver aquelas palavras preciosas antes que elas escapassem. 

Quis perguntar. Quis confirmar. Quis ouvir Reiji repetir aquilo, explicar, desenvolver, contar-lhe o que realmente sentia. Sempre acreditara que seu mestre era um enigma, agora sentia que talvez conhecesse uma parte dele que ninguém mais conhecia. 

Entretanto, antes que pudesse formular qualquer pergunta, Reiji já havia terminado de comer. Limpou as mãos com um pano, deu-lhe um último olhar breve e então se virou para deitar, cobrindo-se com o próprio manto e encerrando qualquer possibilidade de conversa adicional. 

Fox permaneceu sentado por alguns segundos, sentindo o coração bater forte contra o peito.  

O silêncio da noite parecia diferente, mais leve, mais acolhedor. A chama tremeluzia, e o vento frio já não parecia tão cortante quanto antes. 

Com o peito aquecido, Fox sentiu, talvez pela primeira vez, que podia se aproximar de verdade de seu mestre. Não como um garoto perdido que buscava um salvador; como alguém que começava a ocupar um espaço genuíno na vida de Reiji. 

E naquela noite, enquanto o fogo crepitava em ritmo lento e a estrada escura os observava, Fox deitou-se com a sensação reconfortante de que algo havia mudado. Algo profundo. Algo que aproximara os dois não por destino, não por coincidência, mas por escolha. 

***

No dia seguinte, Reiji partira em uma missão sozinho.  

Não era sua primeira missão solitária, mas era a primeira vez que saía com o coração pesado, carregando uma mistura de angústia, confusão e a sensação amarga de que algo definitivo havia sido rompido na noite anterior. Fox ficara em silêncio enquanto ele partia, e aquilo doía mais do que qualquer despedida verbal. 

Ao final da missão, Reiji retornou não com tesouros, informações ou troféus. Retornou com uma bebê nos braços. 

Pequeno, frágil, envolta em mantas sujas e com um choro fraco que mal parecia ter força para existir. Reiji não sabia explicar exatamente como aquilo acontecera; apenas que não podia deixá-lo para trás.  

O dever chamou-o em uma direção inesperada, e ele atendeu. 

Naquele mesmo dia, Fox recebeu sua armadura e sua katana.  

Itens que deveriam marcar sua ascensão, sua independência, sua maioridade como guerreiro, mas que também foram entregues como símbolo do fim. O gesto que, oficialmente, cortava seu vínculo com Reiji de maneira definitiva. 

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