Volume 3 – Arco 14

Capítulo 154: Herói Local

Quando se deram conta, Fox já imitava o ritmo de Reiji, comendo e bebendo com a mesma voracidade contagiante.  

Pratos vazios se acumulavam diante de ambos, formando pequenas torres improvisadas que ameaçavam desabar a qualquer instante. Copos e canecas se empilhavam como se participassem de algum tipo de competição silenciosa entre os dois, e ainda assim eles continuavam pedindo mais porções, mais carne, mais pão, mais bebida, como se meses de fome estivessem sendo pagos ali, em uma única manhã. 

Camille, mesmo acostumada a lidar com clientes de apetite generoso, foi pega desprevenida. Precisou chamar algumas pessoas da vila para ajudá-la antes que ficasse soterrada pelos próprios pedidos. Jovens e adultos se apresentaram voluntariamente, assumindo bandejas, limpando mesas e organizando a entrada enquanto ela se concentrava exclusivamente naqueles dois que, a cada minuto, pareciam mais determinados a transformar o desjejum em um verdadeiro banquete. 

Como Reiji e Fox não demonstravam intenção alguma de partir tão cedo, a taverna, que inicialmente havia sido fechada só para eles, acabou reabrindo suas portas ao público geral. Ainda assim, Camille reservou a mesa principal apenas para os dois. 

Ninguém ousava ocupá-la; as pessoas se aproximavam apenas para cumprimentar Fox, agradecer-lhe, desejar-lhe saúde. Eram visitas rápidas, educadas, e muitas vezes emocionadas, sempre breves o suficiente para não interromper demasiado o apetite avassalador dos rapazes. 

Finalmente, o Ancião retornou. Caminhou até eles com passos medidos e sentou-se ao lado, com dignidade tranquila. Não pediu nada, talvez por educação, talvez por hábito, e recebeu de Camille uma caneca de licor forte, servida com respeito quase cerimonial. Ele ergueu o copo num gesto de agradecimento e apenas observou os dois comendo antes de falar. 

— Espero que nossa recepção esteja sendo do seu agrado, jovem Herói. 

Fox engoliu mais um ovo frito antes de responder, ainda limpando os lábios com as costas da mão. 

— Perdão, meu senhor, mas... por que está me chamando de “Herói”? 

Reiji, sem cerimônia e sem parar de mastigar, respondeu por ele: 

— Foi por você ter matado aquele urso. 

Fox piscou algumas vezes, incrédulo. 

— É sério? 

Ah, sim — disse o Ancião, com a voz carregada de gravidade. — Aquele demônio... depois que tomou gosto pela carne humana, tirou tantas vidas de nosso vilarejo. Nem sequer podíamos enterrar nossos mortos. Ele os levava, destruía tudo, e deixava para trás apenas medo. 

A lembrança escureceu o olhar do velho. 

Camille aproximou-se novamente, colocando novas refeições sobre a mesa com naturalidade. 
— Estávamos cogitando preparar uma recompensa para quem o matasse — explicou —, ou até nos afiliarmos ao Império para conseguir proteção. Já estávamos desesperados. 

O Ancião assentiu e continuou: 

— Então este homem — Apontou para Reiji — apareceu carregando o corpo do urso... e você. Ele insistiu tanto que o mérito era todo seu, que nós... bem, precisamos confirmar. É verdade? 

Fox sentiu um nó na garganta. 

— F-foi... — respondeu com honestidade desconfortável. — Mas eu lamento muito. Eu não o matei pensando em ajudar vocês. Eu fiz por mim mesmo. Só por mim. 

O Ancião sorriu, sem zombaria, com compreensão profunda. 

Ora, isso não importa! — declarou com energia surpreendente para alguém de sua idade. — Pense em uma jovem presa em uma torre. Você a salva, sem saber quem ela é. E, por acaso, ela é a princesa de um reino cujo rei e rainha já pereceram. Não seria desmerecedor que você se tornasse rei, mesmo sem conhecer a história dela. Seus atos são mais importantes que suas razões! 

— Não foi isso que aconteceu — disse Fox, tentando se manter fiel ao que sentia. — Foi mais como... se eu tivesse entrado na torre apenas para me esconder da chuva. 

O Ancião riu baixinho, sem discordar. 

— Pode ser, pode ser... — Tomou todo o licor de um gole só e bateu a caneca contra a mesa com força. — O quarto onde você estava era agradável para você? 

— Ah, sim, senhor! — respondeu Fox rapidamente. — Muito obrigado! Era simples, mas... acolhedor. 

O sorriso do Ancião vacilou, e por um instante sua voz perdeu a firmeza. 

— Aquele era o quarto do meu filho. Depois que aquele demônio o matou, eu não tive coragem de mexer em nada. Não troquei o piso, não arrumei a janela. Apenas o deixei como ele deixou, como uma lembrança... que doía demais para tocar. 

Fox permaneceu em silêncio, sentindo o peso daquele testemunho cair sobre ele como um manto frio. 

— Você pode não se considerar um Herói — continuou o Ancião —, e talvez não seja, de fato. Mas não é assim que o vemos. Para nós, tirou de nossas costas aquilo que nos roubava a esperança. A dor, o medo, o sofrimento... tudo se foi com aquela criatura. E por isso... somos gratos a você. Eu sou grato a você. 

Fox sentiu o coração apertar. Não tinha coragem de estragar a alegria que iluminava os rostos daquelas pessoas. Ainda que por dentro estivesse em conflito, ainda que não se sentisse digno, não queria esmagar a felicidade genuína que os envolvia. 

Lembrou-se das palavras de Reiji. 

E decidiu segui-las. 

Sem dizer mais nada, continuou comendo até, finalmente, sentir-se saciado pela primeira vez em muito, muito tempo. 

(...) 

Já estava completamente de noite quando mestre e aprendiz decidiram finalmente se retirar.  

A taverna continuava viva, iluminada pela luz amarelada das lamparinas e preenchida pelos risos das pessoas que ainda celebravam a vitória contra o urso. O ar tinha cheiro de madeira aquecida, bebida fermentada e comida recém-servida, como se o dia inteiro tivesse sido dedicado apenas àquele momento de alívio coletivo. 

Antes de partir, Reiji dirigiu-se ao balcão com passos firmes. Camille, ainda tomada pelo cansaço da correria do dia, aproximou-se com um sorriso orgulhoso. Foi então que Reiji colocou sobre o balcão uma pequena bolsa amarrada com uma corda simples. Era seu pagamento, ou melhor, sua tentativa de compensar o que ele e Fox haviam consumido. 

Camille franziu a sobrancelha, receosa de abrir aquilo na frente deles. Diante do olhar insistente do homem, desamarrou a bolsa com cuidado. O que viu fez seu coração quase parar. 

Dentro dela, repousava o maior diamante que já vira em toda a sua vida. Tão puro, tão brilhante, que parecia conter luz própria. Era mais valioso do que toda a renda anual da vila, provavelmente mais do que a renda de várias vilas somadas. 

Camille levou a mão à boca, sem conseguir dizer uma palavra sequer. Reiji não esperou agradecimentos; apenas assentiu com tranquilidade, como se aquilo fosse apenas um gesto natural. 

Reiji e Fox partiram então pela estrada silenciosa, iluminada apenas pela lua crescente que recortava o céu.  

***

Caminhavam sem pressa, o som dos passos ecoando na terra firme. Reiji seguia à frente, com postura segura, e Fox logo atrás, observando as sombras alongarem-se aos lados da estrada. 

Foi Reiji quem quebrou o silêncio: 

— Você não me respondeu lá na taverna. 

Fox levantou a cabeça, um pouco confuso. 

— Oi? 

— “Como é ter seu sonho finalmente conquistado?” 

Ah. A pergunta. Aquela que Fox havia evitado, consciente ou não. 

Ah... eu... eu não sei. Não sinto que foi conquistado de fato. 

A resposta saiu baixa, quase tímida, como se estivesse confessando algo proibido. 

— E por que não? — perguntou Reiji, ainda andando. 

— Eu... — Fox respirou fundo. — Eu não me sinto um Herói. Não sinto que fiz grandes feitos. Ou ao menos... não tive nenhuma intenção com eles. 

Ao ouvir isso, Reiji parou. Virou-se totalmente em direção ao aprendiz, encerrando a caminhada e obrigando Fox a encarar seus olhos sérios.  

A noite estava silenciosa, e até os insetos pareciam ter parado para ouvir. 

— Sobre ser um Herói... — começou Reiji com voz firme — você nunca vai se sentir satisfeito. Nunca. Mesmo que faça o bem, mesmo que salve vidas, mesmo que arrisque tudo, sempre haverá aquele pensamento incômodo, aquela sensação de que faltou algo. Que poderia ter feito diferente. Que poderia ter feito melhor. Ou que não fez o suficiente. 

Fox engoliu em seco. 

— E como eu faço? — perguntou ele, quase suplicando por uma resposta que pudesse preencher aquele vazio. — Você sabe... para ficar satisfeito? 

Reiji soltou uma risada curta, não de deboche. Era a risada de alguém que já tinha buscado aquela resposta muitas vezes, e falhado. 

— Eu não sei — admitiu com franqueza. — Mas você terá todas as oportunidades para descobrir isso por conta própria. 

Sem dizer mais nada, virou-se novamente e voltou a caminhar, deixando que Fox absorvesse cada palavra. 

— Parece que o destino está ao seu lado, afinal. Você já salvou mais pessoas do que eu… 

Fox franziu a sobrancelha. 

— Quantas pessoas você salvou, mestre? 

— Eu e meu irmão sempre andamos juntos, então vou dividir o número, tudo bem? 

— Acho que sim... — respondeu Fox, mesmo sem entender. 

— Só você — disse Reiji, sem hesitar. — Eu salvei só você. 

Os passos de Fox pararam. O mundo pareceu perder o som por um instante. Seus pensamentos foram jogados para longe, como folhas ao vento. As memórias de sua vila, de seus vizinhos, das perdas, dos corpos, do terror que assolou sua infância... tudo voltou à tona. 

Quantas vezes Reiji e seu irmão Kenzou haviam visto algo assim? Quantas aldeias destruídas? Quantos lares perdidos? Quantas crianças... perdidas? 

Talvez ali estivesse a razão. 

A razão pela qual Reiji não o abandonou de verdade. 

A razão pela qual Kenzou também o acolheu. 

A razão pela qual os dois decidiram aceitá-los como aprendizes, mesmo sem garantias de que valeria a pena. 

Talvez eles vissem nele aquilo que nunca puderam salvar antes. 

Sem coragem para fazer qualquer outra pergunta, sem força para insistir, Fox apenas respirou fundo e voltou a caminhar atrás de Reiji.  

O peso no peito ainda existia, algo novo se misturava a ele, como uma centelha de propósito, uma expectativa silenciosa. 

Seguiu adiante, ansioso, nervoso e esperançoso pelo que o amanhã poderia lhe reservar. 

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