Volume 3 – Arco 14

Capítulo 153: Salvo

No dia seguinte, despertou lentamente, sentindo antes de tudo a estranha sensação de ter um teto sobre sua cabeça.  

Por alguns instantes permaneceu imóvel, encarando o madeiramento acima de si como se precisasse confirmar que aquilo não era um sonho.  

Acordar protegido, abrigado de verdade, parecia quase irreal depois do que enfrentara. 

Não conseguia, porém, lembrar-se de como fora parar ali. A memória era nebulosa, fragmentada em pequenas cenas desconexas. Por isso, antes mesmo de tentar se levantar, começou a estudar o ambiente ao redor, assim como a condição de seu próprio corpo. 

O quarto onde se encontrava parecia ter sido construído inteiramente com madeira simples. Não havia qualquer acabamento elegante, nenhum detalhe que sugerisse luxo; provavelmente utilizaram troncos da floresta próxima, cuidadosamente trabalhados apenas o suficiente para formar paredes firmes.  

A pequena janela estava fechada, mesmo assim, o vento atravessava as frestas, produzindo uma espécie de assobio constante. Aquele som, ainda que suave, criava uma pequena sinfonia irritante aos ouvidos já fatigados de Fox. 

Não havia quadros pendurados, flores secas, enfeites ou qualquer elemento que trouxesse vida ao lugar.  

Era um cômodo completamente desprovido de personalidade, composto apenas pelos elementos necessários: a cama onde repousava, um criado-mudo simples e um baú antigo no canto. A conclusão era óbvia: tratava-se de uma casa ou quarto destinado a hóspedes, um espaço deixado de lado, utilizado apenas quando necessário. 

A cama não era exatamente confortável; o colchão parecia gasto e os lençóis eram ásperos. Ainda assim, comparado ao chão frio da floresta, aquilo era um verdadeiro paraíso. No estado em que se encontrava, a superfície parecia tão acolhedora que ele chegou a ter a impressão de estar deitado sobre uma nuvem. 

Seu corpo, contudo, denunciava a verdade. Cada músculo ardia, cada articulação reclamava e a pele pulsava graças aos inúmeros hematomas e ferimentos acumulados, não apenas pelos acontecimentos da noite anterior, por todo o período que sobrevivera sozinho. 

Fox estava tão enfaixado que poderia facilmente ser confundido com uma múmia. A maior parte de seu torso estava revestida de bandagens limpas, e até sua cabeça fora envolta, deixando apenas metade de sua visão disponível. Um dos olhos permanecia completamente tampado, o que tornava sua percepção de profundidade incômoda e sua mobilidade ainda mais difícil. 

Somente ali, com mais calma, percebeu que vestia roupas novas. As antigas haviam sido reduzidas a tiras pelo ataque do urso, e ele agradeceu silenciosamente por alguém ter tido o cuidado de trocá-lo enquanto estava inconsciente. 

No criado-mudo, uma pequena tigela com comida e uma jarra d’água estavam cuidadosamente dispostas. Havia também uma colher e um copo, o que deixava clara a evidência: alguém o alimentara enquanto dormia, preocupado o suficiente para garantir que não desfalecesse de fome ou sede. 

O mais sensato seria permanecer ali, repousando até que seu corpo atingisse um estado minimamente melhor. Porém, Fox nunca fora capaz de ficar parado por muito tempo, principalmente sozinho, sem qualquer ideia de onde estava ou quem o ajudara.  

A inquietação falou mais alto que a dor. 

Apoiando-se nas paredes, começou a caminhar lentamente em direção à porta. Cada passo exigia esforço, especialmente porque seu pé ainda estava quebrado e protestava com dores agudas. 

O piso de madeira rangia sob qualquer movimento. As tábuas estavam um pouco soltas e bambas, como se tivessem sido colocadas às pressas ou já tivessem muitos anos de uso.  

Percebeu que precisaria caminhar com cuidado, caso contrário poderia facilmente tropeçar ou provocar um estalo alto o bastante para chamar atenção. 

Ao abrir a porta, deparou-se com a sala principal vazia. Não havia sinal de ninguém por perto; ao menos pôde observar com mais clareza o restante daquele novo ambiente.  

Diferente do quarto simples e quase abandonado, o restante da casa era bem mais acolhedor. Ele reconheceu uma cozinha organizada, uma sala de jantar com cadeiras alinhadas, uma área de estar com alguns móveis gastos, um hall de entrada e uma escada que provavelmente levava a outros quartos. 

Não quis perder tempo ali. Não desejava nem por um segundo pensar que haviam cuidado dele, mas o deixado deliberadamente num cômodo menos agradável. Não queria começar a ter pensamentos hipócritas e egoístas, ainda que eles surgissem naturalmente. 

Com passos arrastados, seguiu até a saída. 

Ao cruzar a porta principal, foi recebido por uma lufada de ar quente e pelo brilho do sol, tão intenso que machucava seus olhos já sensíveis. Precisou piscar diversas vezes até que a visão se estabilizasse, embora ainda ardente, o suficiente para enxergar claramente. 

E foi então que percebeu onde estava: diante de um vilarejo três vezes maior que sua vila natal. Um lugar vivo, movimentado, e completamente desconhecido para ele. 

As pessoas do vilarejo deveriam estar ocupadas com suas atividades diárias. E havia, de fato, muitos corpos em movimento: cabeças indo de um lado para o outro, passos apressados, braços carregando ferramentas, sacolas, crianças.  

Porém, no instante em que Fox surgiu à luz do sol, foi como se todo o mundo ao redor tivesse simplesmente congelado. Uma estranha quietude tomou conta da rua. Todos pararam ao mesmo tempo, como se algum encanto tivesse sido lançado sobre o lugar. 

Centenas de olhos voltaram-se diretamente para ele. 

Fox sentiu o estômago afundar, uma tensão súbita percorrendo sua espinha. 

— Eh... olá? — disse timidamente, levantando uma das mãos em um cumprimento hesitante, quase infantil. 

Por um segundo, o silêncio se intensificou. E depois... 

— Aaaaaaahhhh!!! 

O grito coletivo explodiu no ar, carregado de euforia. Alegria pura, vibrante, quase ensurdecedora. Parecia que o vilarejo inteiro havia prendido a respiração até aquele exato momento. 

Alguns soltaram o que carregavam; cestos de legumes e ferramentas de metal caíram no chão sem qualquer cuidado. Outros estacionaram seus animais às pressas, e pais tentavam impedir que seus filhos corressem em direção ao estranho recém-acordado. Em questão de segundos, uma multidão se formou ao redor de Fox, envolvendo-o como um mar de rostos sorridentes. 

Entre aplausos barulhentos, cumprimentos calorosos, apertos de mão entusiasmados e abraços que quase ignoravam seu estado debilitado, surgiram até donzelas que se inclinavam para beijá-lo na bochecha, como se estivesse diante de algum herói lendário que retornava triunfante de uma guerra distante. 

Atônito, Fox não soube como reagir.  

Seu corpo doía, sua mente estava confusa, e nada daquilo parecia fazer sentido. Limitou-se a agradecer de forma educada, acenando a cabeça de tempos em tempos para não parecer rude, mesmo que não entendesse absolutamente nada do que estava acontecendo. 

Então, subitamente, a multidão abriu espaço. Como água abrindo caminho para um barco, as pessoas se afastaram, criando um corredor para permitir a passagem de um senhor de idade.  

Ele era um pouco mais baixo que a maioria, caminhava com passos lentos e firmes, e carregava a dignidade silenciosa de alguém respeitado por todos. Pelas roupas e pela maneira como cada morador parecia se curvar diante dele, Fox compreendeu que aquele era o Ancião do vilarejo. 

— Vejo que despertara — disse o senhor, aproximando-se e oferecendo um sorriso suave. — Meio cedo para seus ferimentos, devo dizer, mas acho que eu não deveria me surpreender... 

Fox piscou, tentando entender. 

— Perdão, meu senhor — respondeu com respeito —, mas acho que não... 

O Ancião ergueu a mão como quem interrompe um assunto que já conhece. 

Ah, claro! Vamos levá-lo até ele. Por favor, me acompanhe. 

Antes que pudesse protestar, Fox foi gentilmente empurrado pelos cidadãos, conduzido como uma folha arrastada pela correnteza humana que seguia o Ancião. 

A caminhada levou-os até uma pequena taverna com uma placa de madeira simples onde se lia: Lírio Dourado 

A construção parecia antiga, porém bem cuidada, e exalava o cheiro familiar de madeira, comida quente e bebida forte. 

O senhor abriu a porta e fez um gesto educado para que Fox entrasse primeiro. 

— Fique à vontade — disse o Ancião. — Logo, logo voltarei para vê-los. 

Assim que seus olhos se acostumaram ao ambiente, Fox percebeu que a taverna era tão humilde quanto a de seu antigo vilarejo.  

Havia barris e garrafas de bebida empilhados nos cantos, e as mesas e bancos eram inteiramente feitos do mesmo tipo de madeira que sustentava a estrutura do lugar. As poucas decorações presentes eram pequenas flores silvestres, provavelmente colhidas ali mesmo, arrumadas em jarros improvisados. 

A taverneira trabalhava arduamente, suando enquanto atendia seu único cliente. Um homem alto, de ombros largos, que parecia beber litros de cerveja como se aquilo fosse necessário para mantê-lo vivo. Seu apetite era igualmente impressionante: pratos vazios se empilhavam ao seu lado, testemunhando que aquela montanha de comida consumida não fora suficiente para saciá-lo. 

Quando Fox o reconheceu, sua expressão travou. 

— Reiji Torison?! 

O homem levantou o olhar, sorrindo como se encontrasse um velho amigo. 

— Olá, meu jovem. Queira se sentar. Já pedi para Camille preparar seu café da manhã. 

Camille, a taverneira, uma mulher alta e musculosa, muito mais forte do que qualquer pessoa que Fox imaginava trabalhar atrás de um balcão, ergueu o polegar em aprovação e ainda lhe deu uma piscadela divertida, como se o conhecesse há anos. 

Ainda completamente confuso, Fox se aproximou e sentou-se ao lado de Reiji. 

Fox não sabia ao certo o que sentir ao vê-lo ali, tão perto, tão real.  

Uma parte de si queria sorrir, celebrar o reencontro e o simples alívio de finalmente encontrar alguém conhecido depois de tanto sofrimento. Outra parte, uma muito maior e mais profunda, fervia com uma mistura de raiva, frustração e abandono.  

A última lembrança que tinha daquele homem era justamente o momento em que ele o havia deixado sozinho na floresta, ferido, perdido, sem respostas. Aquilo se repetira inúmeras vezes em seus sonhos, cada lembrança mais amarga que a anterior. 

Porém, mesmo com todo o turbilhão em seu peito, Fox hesitou. Não sabia se gritava, chorava, questionava, ou simplesmente virava as costas. Tentou buscar palavras, qualquer frase que fosse capaz de expressar a agonia acumulada durante aqueles dois longos anos; a dor física, a solidão, o medo constante e, principalmente, a sensação cruel de ter sido descartado. 

Contudo, antes que pudesse sequer abrir a boca, foi Reiji quem tomou a dianteira: 

— Como é ter seu sonho finalmente conquistado? 

A pergunta atingiu Fox com a força de um soco. 

— Como é? — repetiu, confuso, sem saber se era uma provocação, um elogio ou uma pergunta sincera. 

Camille aproximou-se naquele instante, interrompendo o silêncio pesado que pairava entre os dois. Com a eficiência de quem trabalhava ali há décadas, colocou diante dele um copo de leite fresco, ainda formando pequenas gotas de orvalho na superfície, junto de um prato caprichado com pão quente, ovos perfeitamente preparados e tiras de bacon dourado. 

Fox sentiu o aroma da refeição invadir suas narinas como uma onda avassaladora.  

O cheiro do pão recém-assado, dos ovos amanteigados e, sobretudo, do bacon crocante, salgado, irresistível, trouxe uma lembrança agridoce. Ele raramente tivera oportunidade de comer algo tão saboroso em sua antiga vila. Bacon era um verdadeiro luxo, quase inacessível. E ali estava, colocado à sua frente com uma generosidade que o deixou desconcertado. 

— Eu... não posso aceitar — murmurou, tentando afastar o prato com delicadeza. — Não tenho nenhum dinheiro comigo. 

Camille riu de leve, balançando a mão como se aquilo fosse irrelevante. 

— Não se preocupe! — disse ela com um sorriso tão grande que parecia iluminar a taverna inteira. — É por nossa conta. Veja isso como nossa maneira de agradecer ao nosso Herói... 

Herói. 

A palavra ecoou dentro de Fox como se tivesse sido dita aos gritos. Ele ficou completamente sem reação. Não sabia se deveria negar, corrigir, ou simplesmente aceitar que aquela gente o via de uma maneira que ele mesmo não entendia. 

Camille não insistiu. Voltou apressadamente para a cozinha, onde ainda precisava lidar com a sequência interminável de refeições exigidas por Reiji. Os sons de panelas, fogo e madeira sendo cortada ao fundo preencheram o espaço, mas para Fox tudo soava distante. 

Então, inesperadamente, algo quente rolou por seu rosto: uma lágrima solitária, tão silenciosa quanto a dor que carregava há anos. Ela caiu sobre a mesa de madeira, espalhando-se em uma pequena mancha escura. 

Reiji, observando-o com uma calma quase desconcertante, pegou um garfo e uma faca. Com cuidado, colocou os talheres nas mãos trêmulas do jovem. 

— Coma — disse de maneira firme, não agressiva. Era uma ordem carregada de cuidado. 

— Mas eu... — Fox tentou protestar, sua voz oscilando entre culpa e vergonha. 

— Apenas. Coma — repetiu Reiji, desta vez mais baixo, porém ainda mais decisivo. 

Não havia espaço para discussão. 

Sem encontrar forças para resistir, Fox obedeceu. 

O primeiro pedaço tocou sua língua, e imediatamente seu corpo inteiro pareceu despertar. Estava delicioso, tão delicioso que doeu. Cada mordida trazia não apenas sabor: memórias, medos, esperanças e a sensação quase infantil de finalmente ser acolhido, mesmo que não compreendesse o motivo. 

Ele comeu. E, pela primeira vez em muito tempo, sentiu-se humano novamente. 

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