Volume 3 – Arco 14

Capítulo 152: Demônio

Fox seguia correndo sem rumo, sem qualquer plano. 

Seu acampamento havia sido destruído e, mesmo que conseguisse sobreviver, não fazia ideia do que o aguardaria no dia seguinte. Nada disso importava agora. O presente exigia toda a sua atenção, e nele existiam perigos muito maiores. 

— GROOOARRR! 

O urso, ferido, furioso e agora completamente tomado pela necessidade de terminar aquilo, avançou atrás dele. Suas patas golpeavam o solo com força descomunal, levantando lama, quebrando galhos, destruindo tudo no caminho. 

Ambos queriam acabar com aquilo. 

Um precisava sobreviver. 

O outro precisava matar. 

E a chuva continuava caindo. 

Mesmo ardiloso, desviando com instinto aguçado das moitas mais fechadas e passando por entre brechas tão estreitas que nenhum outro animal daquele porte ousaria enfrentar, o urso avançava como uma força da própria natureza. Era como assistir a uma avalanche viva: cada passo arrancava raízes, cada ombro derrubava galhos, cada investida abria um novo rastro de destruição na floresta. Nada o parava. Nada o desacelerava.  

Ele seguia Fox como se seu corpo maciço fosse um projétil lançado apenas para matar. 

Fox, arfando, sentia o ar raspar dentro dos pulmões como se estivesse aspirando fumaça.  

O terror queimava nele quando olhava por cima do ombro e via aquela criatura colossal, aquele demônio de olhos vermelhos como carvão incandescente, vindo em sua direção.  

O chão tremeu sob seus pés. E então, no pior momento possível, ele tropeçou. 

Uma raiz elevada, escondida sob folhas molhadas, agarrou seu tornozelo como se a floresta também conspirasse contra ele. Fox caiu com brutalidade, rolando pela lama, arrastando folhas, detritos e sangue. Deslizou alguns metros pela força da queda até parar de bruços, gemendo, tentando puxar ar sem que a dor o apagasse. 

Quando tentou apoiar o pé para se levantar, sentiu algo estalar dentro dele, e o mundo ficou branco, atravessado por um clarão agudo de pura agonia. 

Seu pé estava quebrado. 

Fraturado por completo. 

Uma sentença cruel em meio à perseguição. 

Não conseguiria fugir muito mais. Talvez nem alguns passos. 

Então reconheceu algo familiar entre a chuva e a neblina. 

Fox avistou uma pequena árvore, torta, e com uma marcação discreta que ele próprio fizera nos primeiros meses em que vivera ali. Um entalhe que só ele reconheceria: três riscos diagonais e um círculo no centro.  

Sua lembrança mais antiga naquela floresta. Sua primeira tentativa de mapa. Suas primeiras estratégias. Seu desespero transformado em planejamento. 

Arrastou-se até ela como se sua sobrevivência dependesse disso, e dependia. 

Usando os cotovelos, os joelhos, o que restava de força nos braços. A lama grudava nos ferimentos; a chuva ardia como ácido. Ele continuou até encostar as costas na pequena árvore marcada. 

Virou-se com dificuldade para encarar o grande animal. 

O urso, finalmente, parecia ter vencido.  

Respirava com força, o torso subindo e descendo em ondas pesadas, cada bufada produzindo uma nuvem de vapor quente no ar frio. Porém, no lugar de avançar imediatamente, ele parou a alguns metros, observando Fox. A cabeça inclinada. Um olhar quase suspeito. Como se algo, instintivamente, o segurasse por um momento. 

Fox estava exausto. Cansado. Cheio de dor. E mais do que tudo, queria que aquilo acabasse, de uma forma ou de outra. 

— O que está esperando?! — gritou, com a voz rouca, misto de desafio e agonia. — Vamos! Me ataque, me estraçalhe, me mate! 

Levantou o pequeno resquício de sua adaga. Já não era arma. Era apenas um graveto com sem sua lasca de pedra irregular ainda presa. Mesmo assim, Fox o pressionou contra o próprio peito. Desceu lentamente até a barriga, abrindo uma pequena ferida, apenas o suficiente para que o sangue escorresse. 

A chuva espalhou o líquido vermelho pelo seu abdômen, carregando o cheiro tão forte, tão tentador, direto ao focinho do urso. 

E isso bastou. 

O cheiro era anestesiante, quase inebriante, e o animal reagiu na mesma hora. 

Começou a caminhar novamente, ansioso, salivando de forma grotesca. Babava tanto que fios espessos pendiam de sua boca, balançando a cada passo. Seu sorriso era largo, animalesco, transparente em sua intenção de matar. 

Não era maior que o de Fox. 

Porque naquele instante, naquele exato local, naquele ponto marcado meses antes... 

Trick!

O urso pisara no lugar exato que Fox precisara. 

FWOOSH...THUNK! 

O som cortou a floresta inteira. 

Uma tora de madeira colossal, lascada e afiadas por meses até se transformar num enorme espeto brutal, despencou do alto das árvores. Ela desceu guiada por uma grossa corda de fibras naturais que Fox havia tecido com paciência e desespero. 

O impacto foi devastador. 

A tora atravessou o torso do animal com violência, empalando-o do ombro ao estômago. O chão vibrou com o golpe, e o urso soltou um rugido rouco que se dissolveu no ar antes mesmo de ganhar força. 

Desde o primeiro dia em que o vira naquela floresta, o dia em que entendeu que não estava apenas perdido, estava sendo caçado, Fox dedicou cada recurso que tinha, cada momento de descanso roubado, cada golpe de pedra, cada fibra, cada segundo solitário para criar aquela armadilha. Era sua obra-prima. Seu último trunfo. 

Ele a perdera na confusão da floresta. 

Ou acreditara ter perdido. 

Até agora. 

O animal permaneceu parado, completamente estático. Seus olhos, agora opacos, encararam Fox, o primeiro humano, a primeira presa, a primeira criatura viva que conseguira se sobressair a ele. 

Mesmo atordoado, Fox conseguiu se erguer. Seus joelhos tremiam, o pé quebrado latejava como se estivesse sendo esmagado a cada batida do coração.

Ficou frente a frente com o demônio que transformara aqueles dois anos de sobrevivência em um verdadeiro inferno. Um inimigo que moldou sua força, sua estratégia, sua resistência, sua vida. 

Com a mão tremendo, Fox tocou gentilmente a fuça do animal abatido. Não por piedade, por respeito. Pelo reconhecimento brutal de que sem aquele monstro, ele nunca teria se tornado quem era agora. 

Depois, virou-se e começou a mancar para longe. Cada passo deixava um rastro de sangue no chão. Os ferimentos não paravam de sangrar, e a dor era tão intensa que ameaçava arrancar sua consciência. 

Precisava se tratar. Plantas medicinais. Folhas de cicatrização. Raízes analgésicas. 

Sua vida ainda pendia por um fio, e a floresta continuava ali, indiferente, observando. 

— GROOOARRR! 

Aquele rugido, profundo e rasgado, fez o ar inteiro vibrar. 

Fox virou-se instintivamente, mesmo com a mente zonza e o corpo no limite.  

E viu. 

O urso ainda estava vivo. 

A criatura, que deveria estar morta, que deveria ter tombado de uma vez por todas, arrastava-se pelo chão encharcado com uma determinação antinatural.  

A tora continuava empalada em seu torso, fincada tão profundamente que atravessava carne, músculos e ossos; e mesmo assim, mesmo com as entranhas escorrendo como serpentes rubras pela lama, ele ainda avançava, empurrando o próprio corpo para frente centímetro a centímetro. 

Era um demônio. 

Um monstro que recusava morrer. 

A personificação viva, ou quase viva, do tormento que o acompanhara por dois anos. 

Fox tentou correr.  

Tentou realmente.  

Seu corpo sacudiu-se com o impulso, mas sua perna traiu-o imediatamente. O pé quebrado, que já mal aguentava seu peso, simplesmente desistiu. A dor explodiu da sola até o joelho, cortante como se ossos estivessem raspando uns nos outros. 

Ele avançou, meio correndo, meio mancando, meio se arrastando, movido por puro desespero. A verdade era cruel e evidente: ele não era mais rápido que o urso. Nem mesmo naquele estado miserável o animal deixava de ser uma ameaça letal. 

E então, o pior cenário possível surgiu. 

Fox atingiu uma encosta. 

Um paredão de pedra úmida, quase lisa, onde a chuva batia e escorria sem dar qualquer chance de aderência. Era como uma porta fechada, um corredor estreito terminando em nada. 

À esquerda, a mata fechada tornava impossível avançar. À direita, o terreno cedia sob os pés. E fosse qual fosse a direção, ele sabia que o urso seria mais rápido e o alcançaria. 

E se tentasse escalar... precisou apenas tocar a pedra para perceber: era impossível. A superfície escorregava como sabão sob seus dedos. 

O urso, mesmo moribundo, continuava a avançar. O som de suas patas arrastando no chão era grotesco, misturado ao bater lento, pesado e úmido de suas vísceras caindo e sendo puxadas consigo.  

Aquilo era o fim. 

E Fox sabia. 

Ele morreria ali. 

Entretanto... morreria lutando. 

Respirando fundo, sentindo o ar gelado preencher seus pulmões ardentes, ele trouxe o que restava de dignidade para o corpo destruído que habitava. Endireitou-se na medida do possível, apesar das dores que latejavam como brasas sob a pele. 

Segurou seu graveto, sua espada imaginária, sua última companheira, e posicionou-o à altura da cintura, exatamente com o Herói dos contos que sua mãe lhe narrava antes de dormir. 

Por um instante, quase pôde ouvi-la: 

“Erga sua lâmina com coragem, meu pequeno Herói.” 

Assim o fez. 

Não havia medo em seu rosto. Nem desespero. Nem hesitação. 

Fox simplesmente aceitou. 

Aguardou o momento exato. 

Viu o urso se aproximar, lentamente, arrastando-se como uma montanha viva. Seus dentes ainda brilhavam sob a chuva, e mesmo estraçalhados, ainda eram capazes de partir um crânio ao meio. 

Quando o monstro finalmente empurrou o focinho para frente, pronto para abocanhar sua cabeça em uma única mordida… 

Fox moveu-se. 

— IMPULSO! 

Seu corpo inclinou-se para frente num gesto fluido, quase elegante, algo impossível para alguém tão exausto, e mesmo assim, ele fez. Desviou dos dentes com um giro mínimo do tronco, sentindo a respiração quente e fétida da criatura passar raspando por sua orelha. 

E então, contra toda lógica, aconteceu o impensável. 

Faíscas estalaram no ar. 

Pequenos pontos de luz dançaram entre seus dedos, surgindo do nada, como brasas vivas de um fogo recém-acordado. A luz se espalhou pela extensão de sua “espada”, envolvendo o graveto velho e rachado em uma cintilação dourada e quente. 

Não podia ser real. Devia ser delírio. E mesmo assim… estava ali. 

O graveto, simples, inútil, ridículo, transformou-se por um instante em algo mais. Algo que lembrava uma lâmina. Uma arma digna dos contos. E Fox, mesmo sem entender, mesmo sem pensar, confiou. 

Ele avançou, perfurando o peito do urso com precisão. 

A ponta luminosa atravessou pele, músculos, ossos e carne até alcançar o coração da criatura. Um impacto surdo ecoou, algo entre um estalo e um suspiro final. 

O urso parou. 

Arregalou os olhos. 

Morreu. 

A tora atravessada em seu corpo manteve seu peso colossal inclinado para trás, evitando que caísse por cima do garoto e o esmagasse. Era como se o próprio mundo, por um segundo único, tivesse conspirado para poupá-lo. 

Finalmente, o inferno havia terminado. 

E Fox, exausto além de qualquer limite humano, deixou a força escorrer de seus membros. 

A visão foi se desfocando, tilintando como vidro trincado. 

O som da chuva ficou distante, abafado, como se estivesse ouvindo debaixo d’água. 

Ele tombou. 

Seu corpo encontrou o chão frio e encharcado, e Fox sequer sentiu o impacto. Seu mundo apagou-se antes mesmo de tocar a terra. 

Finalmente, descanso. 

Ou morte...

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