Volume 3 – Arco 14

Capítulo 151: Inferno

Dois anos se passaram. 

Dois anos imersos na vastidão selvagem de uma floresta que parecia não ter fim, onde o canto dos pássaros era o único som suave existente e tudo o mais parecia querer matá-lo ou expulsá-lo dali.  

Dois anos sem qualquer sinal de civilização, sem muros, sem ruas, sem vozes humanas, apenas o farfalhar constante das árvores, o vento frio deslizando pelas folhas e o olhar vigilante de criaturas que habitavam aquele território muito antes de sua chegada. 

Reiji Torison tinha um método próprio para moldar discípulos. Um método duro, quase cruel. Ele preferia deixar a natureza assumir o papel de instrutora, e a natureza não tinha piedade. 

Nunca aparecia para impedir um ataque iminente. 

Nunca surgia para alertar Fox sobre a fruta de coloração suspeita que ele estava prestes a experimentar. 

Não interferiu quando o garoto foi cercado por lobos famintos, nem quando caiu no rio e quase foi arrastado pelas correntezas violentas. 

Fox aprendeu nas piores situações que, sob a tutela de Reiji, sobreviver era o verdadeiro treinamento. 

Wolf não estava ali. 

Seu irmão havia sido levado por Kenzou Torison logo no início, para receber um treinamento próprio, afastado, longe dos olhos de Fox. 

A separação foi brusca. Sem explicações. Sem despedidas adequadas. Apenas a certeza de que cada um teria de enfrentar algo, e que nenhum dos dois seria o mesmo quando se reencontrassem. 

Abandonado à própria sorte, Fox passou dias acreditando que estava completamente sozinho. 

Sozinho nos caminhos, nas noites geladas, no medo constante. 

Na verdade, não estava. 

Havia um urso naquela floresta. Gigantesco. Velho o bastante para ser rei ali. Forte o suficiente para dividir árvores ao meio. E pior: ele já havia provado o sangue de Fox. 

Desde aquele dia, um encontro que quase lhe custou a vida, o animal passou a persegui-lo. Não por fome, não por necessidade, por puro instinto predatório, misturado a algo pessoal, como se marcasse Fox como uma presa que precisava caçar, uma presa que ousara escapar. 

O garoto era desejado como refeição. 

E sabia disso. 

A floresta era como um labirinto natural, cercado por encostas íngremes demais, rochas instáveis, barrancos molhados e escorregadios que não ofereciam qualquer chance real de fuga.  

Muitas noites, para sobreviver, Fox teve de se equilibrar no topo das árvores, temendo que a água subisse ou que o urso rondasse seu acampamento em busca de sua trilha. 

Seu pequeno acampamento era tudo o que tinha, uma estrutura simples, mal feita, construída com mãos tremendo de frio e medo. Era ali que guardava seus poucos tesouros: água limpa, comida seca, ferramentas improvisadas, pedaços de madeira que serviam como armas. 

Um abrigo frágil, ainda assim, o único ponto onde se sentia um pouco menos vulnerável. 

Até o dia em que o urso apareceu novamente. 

Ele não veio à noite. 

Nem tentou se esconder. 

Surgiu com passos lentos e pesados, esmagando galhos sob suas patas enormes. 

Seus olhos, duas esferas escuras e ferozes, encontraram os de Fox por uma fração de segundo, e não havia fome ali. Havia provocação. 

Com um único golpe, destruiu tudo. Arrancou as estruturas, espalhou as peles, rasgou os recipientes de água. Não comeu nada. Não bebeu nada. Não levou nada. 

Fez apenas para mostrar poder. 

Para deixar claro que Fox jamais descansaria, jamais teria paz, enquanto ele estivesse respirando naquele território. 

Fox, uma criança ainda, com a alma marcada por anos de terror, entendeu o recado. 

Seu coração batia rápido. A respiração doía. 

A compreensão veio clara como luz: aquele seria o último dia naquele inferno, estivesse vivo ou morto ao fim dele. 

Ele não fugiria mais. Não seria caçado mais. Não se curvaria mais. 

Se o urso queria seu sangue, então, Fox faria com que fosse a última vez que aquele monstro o provasse. 

Ainda era apenas o meio do dia, mas o céu dizia o contrário. 

As nuvens, espessas como blocos de ferro, cobriam todo o firmamento, criando uma escuridão pesada que esmagava até o ar. A chuva caía sem piedade, grossa, constante, transformando o solo em lama escorregadia e pintando a floresta com tons de cinza e marrom.  

Cada gota parecia ecoar como um prenúncio de fim, e Fox já não tinha mais nada a perder. 

— GROOOARRR! 

O rugido do urso ecoou como um trovão dentro da tempestade, fazendo até as árvores estremecerem. 

A criatura ergueu-se nas patas traseiras, enorme, monstruosa, quase tocando as folhas mais baixas ao se levantar. Uma muralha viva de músculos e fúria, encarando o garoto como se ele fosse um desafio, não uma presa. 

Correr? 

Lutar? 

Era isso que o urso esperava. 

Era isso que a natureza exigia. 

Fox respirou fundo. 

O peito queimava, o corpo inteiro tremia. Havia decisão em seus olhos. Uma decisão forjada por dois anos de medo, de fome, de frio, de solidão. Uma decisão que substituiria para sempre o menino que um dia ele fora. 

 AAAARRRGHH! 

Ele gritou aos céus com toda a força que tinha, um grito que misturava ódio, dor e libertação. A chuva escorria por seu rosto, disfarçando lágrimas que ele não admitiria nem para si mesmo. 

E então correu. 

Correu direto contra o monstro. 

Os olhos do urso brilharam com satisfação, como brasas que se reacendiam, finalmente, a iguaria voltara para ele. Poderia sentir novamente o sabor do sangue quente daquela pequena criatura que tanto ousara sobreviver. 

Erguido, esperou apenas o tempo necessário para que Fox se aproximasse o suficiente, calculando o momento exato. Com um único movimento, poderia esmagá-lo como o inseto frágil que acreditava que o garoto era. 

Qualquer outro teria recuado. 

Qualquer outro teria tentado contornar, distrair, ganhar tempo. 

Mesmo Fox sabia disso, sabia que seria mais seguro fugir pela milésima vez, esconder-se em outra árvore, esperar outra noite. 

Ele não fugiu. 

Não dessa vez. 

O urso então desceu, lançando todo o peso e força que possuía em um golpe devastador, pretendendo pôr fim àquele ciclo de caça de uma vez por todas. 

Fox deslizou pelo chão. 

A lama, a chuva, o desespero, tudo se combinou e permitiu que seu corpo deslizasse como uma pequena sombra viva, passando entre as patas gigantes até surgir atrás do monstro. 

Em um salto, escalou suas costas, agarrando-se ao pelo grosso que o encharcava. 

Com sua pequena faca improvisada, um graveto reforçado e uma pedra lascada que ele mesmo afiara por dias, Fox começou a golpear. Movimentos rápidos, desesperados, mergulhados na fúria e necessidade pura. Perfurações curtas, profundas, repetidas, como picadas de inseto que sangravam mais e mais. 

O urso enlouqueceu. 

Gritou, pulou, agitou-se como se estivesse pegando fogo. Girou o corpo, sacudiu-se violentamente, tentando arrancar o garoto como se fosse um parasita grudado em sua pele. Fox se manteve firme, prendendo dedos e pernas, quase se fundindo ao animal. 

Quando sentiu os cortes aumentarem, quando o ardor se espalhou por suas costas, o urso optou por algo mais brutal: jogou-se no chão. 

Rolou pelo acampamento destruído, esmagando tudo sob seu peso. Rolou sobre pedras, troncos, raízes. Empurrou suas costas contra árvores, arrastando Fox junto, raspando o garoto contra cascas ásperas que cortavam sua pele aberta. 

O próprio urso se feriu. Aquilo não importava. Ele queria arrancar o garoto de seu corpo nem que precisasse destruir a si mesmo no processo. 

Finalmente, os dedos de Fox fraquejaram. 

Sua cabeça bateu com violência contra uma pedra escondida na lama, fazendo a visão dele escurecer por um segundo. 

Quase desmaiou. Quase soltou. 

Algo, talvez medo, talvez raiva, talvez sua promessa silenciosa de não fugir mais, o fez despertar no mesmo instante, agarrando-se novamente aos pelos escorregadios. 

Não adiantou. 

O urso foi mais rápido. 

Com um movimento feroz, virou-se e abocanhou o ombro do garoto. Os dentes enormes perfuraram carne e músculo com facilidade, arrancando Fox das costas como se fosse nada. 

Jogou-o no chão com violência, fazendo lama e sangue salpicarem ao redor.  

E antes que o garoto pudesse recuperar o fôlego, o monstro o prensou contra o solo com suas patas pesadas, esmagando seu pequeno corpo. 

O urso não hesitou. 

Estava ferido, exausto, faminto e ali, debaixo de si, estava aquele que simbolizava tudo isso. 

A criança que escapara tantas vezes. 

A criança que ousara feri-lo. 

Com um rosnado baixo e cheio de desejo, o animal ergueu a pata, preparando-se para arrancar pedaço por pedaço e devorá-lo vivo. 

As garras do urso rasgaram o que restava das roupas de Fox como se fossem papel molhado. O tecido se abriu de imediato, espalhando fiapos encharcados na lama, enquanto as lâminas naturais do animal enterravam-se profundamente em sua pele.  

A dor veio como fogo. Cortante, quente, pulsando sob cada batida acelerada do coração. 

Sua pequena bolsa, a mesma que carregava seus poucos tesouros e que sempre mantivera presa ao ombro, rolou involuntariamente para frente de sua barriga graças ao impacto. 

E foi isso, apenas isso, que o salvou dos dentes do urso. 

A mandíbula se fechou sobre a bolsa em vez de sobre suas entranhas, rasgando couro e tecido com violência absurda. O objeto foi arrancado, jogado longe, escancarando o vazio que agora o separava de qualquer proteção. 

Fox tentou engatinhar. 

Tentou se arrastar. 

Tentou girar o corpo para escapar. 

Nada funcionou.

A pata pesada do urso o mantinha preso ao solo, afundando-o na lama fria, esmagando seu peito, bloqueando seus movimentos como se fosse uma prensa viva. 

Mesmo assim, a faca improvisada ainda estava em sua mão. 

E com ela, usou o que lhe restava de força. 

Voltou a perfurar o urso, desta vez sem hesitação, sem técnica, sem medo. 

Não podia mais perder tempo golpeando as patas, era inútil. Fox buscou instintivamente os pontos mais sensíveis, mais vulneráveis: o pescoço, onde o pelo se abria em tufos grossos; o torso, onde cada movimento do urso fazia a carne se tensionar. 

Enquanto isso, o urso continuava mascando furiosamente a bolsa destruída, acreditando, em sua selvageria instintiva, que estava devorando as tripas do garoto. O som era grotesco: couro sendo triturado, dentes raspando, respingos de saliva quente misturados à chuva gelada. 

A cada estocada, ele colocava tudo: dor, desespero, raiva, lembranças de dois anos de tormento. Queria machucar. Queria ferir profundamente. Queria que o urso sentisse cada segundo daquele pesadelo. 

Parecia estar surtindo efeito. 

A criatura soltou um rugido mais rouco, mais grave, sinal de que os ataques estavam incomodando, talvez até debilitando. 

Porém...

CRACK! 

A faca quebrou. 

A lâmina de pedra se partiu, voando para algum ponto invisível entre lama, chuva e folhas. Ficou apenas o graveto inútil em sua mão, tremendo, leve, ridículo diante daquela massa colossal de força. 

As próprias feridas do urso tornaram-se profundas demais. 

A dor finalmente o fez se afastar, dando passos pesados para trás, respirando de forma irregular. A criatura balançou a cabeça, expelindo sangue, o próprio e o que acreditava ser do garoto, e se ergueu novamente com dificuldade. 

Foi apenas um segundo. 

Um único segundo de espaço. Para Fox, que vivia no limite entre morrer e sobreviver desde que chegara naquela floresta, um segundo era tudo que precisava. Ele rolou para o lado, afastou-se da pata que o esmagava e cambaleou até conseguir se levantar. 

O corpo inteiro ardia, as pernas tremiam, e o sangue quente escorria pelos cortes abertos, misturando-se à chuva. 

Sua visão oscilava como se estivesse olhando através de água turva. 

Foi aí que a verdade o atingiu como um soco: Ele tinha sido ingênuo. Muito ingênuo. 

Pensar que poderia enfrentar aquela criatura cara a cara, que poderia vencê-la apenas com coragem, com uma pedra afiada, com o desespero de dois anos acumulado, isso era fantasia, quase loucura. 

Era preciso fugir. 

Viver um pouco mais. 

Respirar outro dia. 

Cuidar dos ferimentos ou morreria em poucos minutos. 

Fox correu. 

Correu floresta adentro, tropeçando, escorregando, movido mais pelo instinto de sobrevivência do que por força real. A chuva batia em seu rosto como agulhas geladas, e cada passo parecia ameaçar derrubá-lo. 

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