Volume 3 – Arco 14
Capítulo 150: Condenado
— Aonde estamos indo? — perguntou Fox, cambaleando na trilha estreita que serpenteava pela floresta.
Ele lutava para manter o equilíbrio enquanto a pesada mochila, carregada de suprimentos e ferramentas que seu mestre, Reiji Torison, preparara especialmente para a jornada, puxava seus ombros para trás a cada passo. O peso parecia aumentar cada vez que o terreno se tornava mais irregular.
A alguns metros adiante, Reiji caminhava com a tranquilidade de quem conhecia cada raiz exposta e cada desnível do solo. Fox, por sua vez, fazia um esforço quase desesperado para colocar os pés exatamente sobre as marcas deixadas por seu mestre, como se pisar fora delas pudesse significar ser engolido pela mata.
Reiji respondeu sem sequer inclinar o rosto para trás, a voz grave se misturando ao canto distante dos pássaros:
— Estou te levando para o lugar onde você irá treinar.
Fox sentiu um estalo de expectativa percorrer seu corpo. Seus olhos se iluminaram, e ele abriu um sorriso largo, quase esquecendo do peso da mochila por um instante.
— Ahh! Demais! — exclamou com a empolgação desajeitada de uma criança cheia de energia e sonhos. — O que você irá me ensinar?
— Eu? Nada.
A resposta atingiu Fox como um golpe frio.
Por um momento, ficou observando a nuca de Reiji, esperando, implorando, para que aquilo tivesse sido uma provocação, uma brincadeira seca comum do velho mestre.
Reiji continuou andando, completamente sério.
Confuso e um pouco inseguro, Fox decidiu se calar e seguir em silêncio, enquanto sua mente tentava montar algum sentido naquela resposta. O vento balançava as folhas acima deles, e o som apenas parecia deixar o silêncio de Reiji ainda mais pesado.
Depois de alguns minutos, sem conseguir conter sua curiosidade crescente, Fox abriu a boca novamente:
— E quanto ao Wolf? — perguntou, tentando manter a voz firme. — Ele terá um treinamento parecido com o meu?
— Isso quem decidirá é o mestre dele — respondeu Reiji. — Mas imagino que seja similar, sim.
Fox mordeu o lábio inferior, refletindo. A ideia de que ele e seu irmão passariam por provações equivalentes reacendeu um espírito competitivo que sempre dormia perto da superfície.
— E qual será o mais difícil?
A pergunta veio carregada de entusiasmo.
Fox avançou um pouco, quase tropeçando numa pedra, imaginando o que enfrentaria e o que Wolf enfrentaria. Queria se provar. Queria impressionar seu irmão. Talvez até superá-lo, nem que fosse só um pouco.
Reiji, no entanto, não respondeu. Ele simplesmente desacelerou até parar completamente no meio da trilha, como se algo invisível tivesse bloqueado seu caminho.
O silêncio que se seguiu pareceu se estender por tempo demais.
Fox engoliu seco, olhando primeiro para as costas de Reiji e depois para a floresta ao redor. Nada acontecia. Nenhum movimento, nenhuma explicação.
Reunindo coragem, ele se aproximou devagar, passo a passo, até alcançar o lado de seu mestre.
Foi então que percebeu o motivo da parada: diante deles, o terreno descia abruptamente. Tratava-se de uma encosta consideravelmente inclinada, íngreme o suficiente para que qualquer passo em falso não resultasse apenas numa escorregada, mas numa queda livre destruidora.
Fox sentiu o estômago afundar junto com a visão da ribanceira.
— Sua mochila.
A voz firme de Reiji não deixava margem para questionamentos.
Fox prontamente a retirou das costas, sentindo um alívio imediato nos ombros, que latejaram com a liberdade repentina. Ele a entregou sem pensar duas vezes, quase como um reflexo condicionado de obediência ao próprio mestre.
Reiji segurou a mochila com uma mão, abrindo-a com a outra.
A expressão dele permanecia neutra, quase impassível, enquanto examinava o interior como quem avalia um equipamento vital em uma missão que não permite erros. Fox observava tudo em silêncio, tentando interpretar cada microgesto.
Lá dentro estavam os mantimentos preparados para sua sobrevivência: ferramentas básicas, precisamente organizadas; alimentos duráveis embalados de forma prática; filtros próprios para coletar água da chuva; materiais para levantar pequenos acampamentos; ervas secas; pederneiras e instrumentos para facilitar o acendimento de fogueiras mesmo sob chuva forte.
Era, primordialmente, tudo o que alguém precisaria para sobreviver sozinho durante semanas, sem apoio externo, sem civilização, sem conforto.
Para muitas pessoas, aquela mochila teria valor maior que um baú de ouro. Para uma criança como Fox, representava segurança, talvez até esperança.
Fuush!
O som cortou o ar como um açoite.
Em um único movimento veloz, quase imperceptível aos olhos de Fox, Reiji balançou o braço e arremessou a mochila para cima.
Aberta. Totalmente aberta.
Fox viu, atônito, o objeto que tanto se esforçara para carregar ganhar os céus.
O conteúdo voou em todas as direções como chuva de objetos: pacotes de comida, cordas, pedaços de tecido, ferramentas, tudo despencando e rolando encosta abaixo, desaparecendo entre as árvores, entre pedras, entre a vegetação densa da floresta.
Seu coração desabou junto com os itens.
— O que vo...
A pergunta não chegou a nascer por completo. Antes que pudesse processar o que estava acontecendo, sentiu uma força esmagadora envolver seu pescoço.
Reiji o segurava.
Os dedos de aço comprimiram sua garganta, tirando-lhe o ar. Fox arregalou os olhos enquanto seus pés deixavam o chão, balançando no vazio.
O pânico subiu instantaneamente em sua mente infantil.
Reiji o ergueu com extrema facilidade, como se Fox não tivesse peso algum. Então, sem hesitar, levou-o até a beira da encosta.
Abaixo dele havia apenas a queda, uma queda longa e mortal.
As pedras úmidas brilhavam à distância, e a mata parecia se abrir num abismo escuro e profundo.
— A floresta que está abaixo de você — começou Reiji Torison, sua voz firme — não possui qualquer saída fácil. As encostas são íngremes e escorregadias demais para você escalar, e nenhuma árvore é alta ou próxima o suficiente para permitir que escape daqui dessa forma.
Fox mal conseguia respirar. Seus olhos lacrimejavam pela pressão e pelo medo. Observava o rosto sério, duro como uma máscara de guerra, e se perguntava, com uma pontada de desespero e outra de incredulidade, se realmente tinha tido sorte ou azar ao ser aceito como discípulo de alguém tão enigmático.
— Sobreviva — disse Reiji. — Esse é o seu treinamento.
O mundo parou.
Ou, ao menos, parecia ter parado quando Reiji abriu a mão.
Por um instante terrível, Fox acreditou que o tempo havia congelado. Ou talvez fosse sua mente, paralisada pelo terror absoluto, pela sensação gelada de que havia sido traído, sacrificado, descartado.
Era apenas uma criança, e estava sendo jogado para a morte nas mãos da pessoa que deveria protegê-lo.
Não era o mundo que havia parado.
Era ele.
Porque ainda estava caindo.
No alto da encosta, Reiji já se virava para partir, e quando o fez, o tempo voltou a correr normalmente.
A gravidade o puxou com violência, e sua visão começou a se embaralhar. O vento rugia em seus ouvidos como um animal selvagem, um som constante e brutal. Seu corpo girava sem controle, fazendo o céu e a encosta trocarem de lugar repetidas vezes, até que a náusea ameaçou subir. As pedras contra as quais ele esbarrava arranhavam seus braços e pernas, deixando riscos ardentes de dor, e pequenos impactos o faziam rodopiar ainda mais rápido.
Fox continuava caindo. Caindo. E caindo.
E o chão se aproximava.
Para sua sorte, ou talvez para seu azar, dependendo de como o destino pretendia brincar com sua existência, havia um imenso animal exatamente abaixo de onde caía.
Um urso colossal.
A criatura estava vasculhando o próprio território, irritado e curioso com a repentina barulheira que ecoara pelos galhos, folhas e pedras momentos antes. Era um som impossível de ignorar.
O que o urso certamente não esperava era que a causa daquele tumulto despencasse do céu e acertasse em cheio suas costas.
Fox atingiu o animal como um saco de pedras.
A queda não foi nem de longe amortecida, apenas desviada para algo marginalmente menos letal. Ainda assim, o impacto o deixou sem ar.
Ele rolou pelo solo logo em seguida, gemendo alto, braços e pernas ardendo, as roupas rasgadas, o corpo tremendo enquanto tentava entender se ainda estava vivo.
O urso virou a cabeça com lentidão, como se seu pescoço fosse feito de pedra e cada movimento exigisse a mesma paciência de uma montanha mudando de lugar. Seus olhos pequenos e sombrios encararam a figura minúscula e frágil que se contorcia diante dele. Apesar do impacto, o animal mal havia sentido o golpe; para ele, fora apenas uma coceira inesperada no ponto errado.
Com a língua grossa deslizando para fora da boca, o urso lambeu os dentes enormes, úmidos, brilhantes. O gesto era lento, deliberado, quase preguiçoso. Ele se preparava para apreciar o que, para ele, não passava de um aperitivo que surgira literalmente do céu.
Fox demorou alguns instantes para entender o que eram aqueles objetos duros que pressionavam suas mãos e joelhos enquanto tentava se erguer. Ao olhar para o chão, viu pontas ósseas, fragmentos quebrados, lascas esbranquiçadas misturadas à grama e à terra. Só quando seus olhos pousaram num crânio humano, parcialmente enterrado e ainda inteiro, o choque atravessou seu corpo como um raio.
Ele se levantou num salto instintivo.
E o urso fez o mesmo, ou ao menos a versão monstruosa disso.
— GROOOOARRRR!
O rugido explodiu pelo ar como um trovão surgindo do nada. Vibrou pelo solo, pelas árvores, pelas pedras, sacudindo folhas e ninhos. Era tão profundo que Fox sentiu sua barriga gelar, seus músculos travarem, seus instintos implorarem para fugir antes que sua mente entendesse o que estava acontecendo.
O grito da fera parecia despertar toda a floresta.
Quase no mesmo instante, árvores próximas começaram a se mover violentamente, como se estivessem sendo empurradas por gigantes invisíveis. Ramos se partiram, galhos voaram. Raposas, cervos, criaturas diversas, todas fugindo de algo que não pertencia àquele lugar. Não eram nativas daquele território.
Porque ali, naquela parte isolada e sombria da mata, existia apenas um verdadeiro dono.
O urso.
Rei absoluto daquele pequeno inferno, o único animal ali capaz de dominar tudo ao redor.
E suas refeições regulares eram claras como a luz do dia; pilhas de ossos humanos amontoados pelo chão diziam tudo. Ele caçava pessoas. E havia feito isso por tempo suficiente para transformar aquela clareira numa necrópole escondida da civilização.
Fox disparou floresta adentro. Suas pernas se moviam mais rápido do que sua consciência conseguia acompanhar. Ele tropeçava em raízes, saltava troncos caídos, raspava os ombros contra arbustos espinhosos.
O medo guiava cada passo, mais forte que a dor, mais urgente que o pensamento.
Quando finalmente alcançou uma árvore grossa, de tronco largo o bastante para ocultar seu corpo pequeno, escondeu-se atrás dela ofegante, pressionando as costas contra a casca áspera. Ajustou-se rapidamente, tentando ouvir algo além do som frenético de sua própria respiração.
Procurou entre as folhas o imenso animal.
E então notou que o urso não o seguia.
A criatura permanecia no ponto onde haviam se encontrado, parada como uma estátua viva.
Parecia completamente desinteressada em desperdiçar energia perseguindo uma presa que, à sua visão, talvez não compensasse o esforço, mesmo sendo um sabor que certamente apreciaria.
Com um bocejo lento e preguiçoso, o urso esticou todo o corpo, como se tivesse acabado de despertar de um longo descanso. Seus músculos ondularam como placas de pedra sob a pele espessa.
Em seguida, ergueu as enormes patas e, sem pressa, começou a escalar a encosta pela qual Fox caíra, usando as garras afiadas como ganchos. Cada cravada era firme, poderosa; ele conseguia sustentar seu peso monstruoso com facilidade assustadora.
Fox observou aquilo com o coração prestes a explodir.
O urso não estava indo atrás dele. Procurava refeições maiores, humanos adultos. Algo que não encontraria ali.
Sem ter um predador à sua espreita naquele momento, Fox finalmente se permitiu respirar.
Seu peito subia e descia como se estivesse tentando engolir a própria floresta. O ar entrava e saía com violência por sua boca, raspando sua garganta seca, ainda assim parecia insuficiente, como se cada inspiração fosse pequena demais para preencher o vazio de pânico dentro dele.
O menino ficou ali, curvado, braços apoiados nos joelhos, tentando fazer o mundo parar de girar.
Ele estava assustado demais para se mover. Assustado demais para pensar. Assustado demais até para chorar, embora sentisse vontade de desabar no chão e implorar para aquilo acabar.
Queria que tudo fosse apenas um sonho ruim. Um pesadelo cruel do qual pudesse despertar suando, vivo, seguro, no conforto de sua cama simples. Queria abrir os olhos e ver sua mãe preparando o café, seu pai arrumando as ferramentas, seu irmão Wolf reclamando do horário. Queria uma manhã comum, banal, repetitiva; qualquer coisa que não fosse aquilo.
A lembrança de Wolf trouxe outra memória junto: a dos Renascidos. O que haviam feito. O que tiraram dele.
E a verdade veio como uma facada.
Não era um sonho.
Precisava aceitar isso.
Precisava encarar.
Precisava... crescer.
Se ainda desejava ser um Herói... então aquele momento seria seu divisor.
Com todo o corpo tremendo, apoiou-se no tronco rugoso da árvore que lhe servira de abrigo. A casca áspera arranhou suas palmas; a dor o ajudou a focar. Devagar, com as pernas cambaleantes como se fossem de outra pessoa, conseguiu se erguer.
Assim que ficou de pé, tomou uma decisão que surpreendeu até ele mesmo: voltar até o local onde havia encontrado o urso.
Cada passo parecia desafiar seu instinto de sobrevivência, que gritava para correr para o lado oposto.
O chão estava úmido, e suas sandálias, antes simples, agora quase inexistentes, haviam sido rasgadas no atrito contra a encosta durante a queda. Cada pedrinha lhe feria a sola, mesmo assim avançou.
Quando chegou ao ponto onde havia caído sobre o urso, tomou extremo cuidado para não pisar em nenhum osso. Havia muitos espalhados, e a visão deles o fazia engolir seco. Entre costelas partidas e fêmures rachados, entendia por que o urso dominava aquele território: havia se provado como predador supremo, não havia nenhum outro animal ou ser que o visse como uma presa.
Não havia toca. O urso dormia ao relento, como se nem precisasse de proteção. Aquele espaço era sua sala de jantar, seu pátio, seu trono grotesco.
Fox olhou ao redor.
Não encontraria nada útil ali.
Só ossos.
Só morte.
Decidiu seguir a trilha deixada pelos objetos que caíram de sua mochila. Caminhou alguns metros pela encosta e, para sua surpresa, encontrou um dos itens que havia despencado junto com ele. Agachou-se rapidamente, como se temesse que o objeto fosse evaporar se não o pegasse de imediato.
Era algo simples, pequeno, essencial.
Uma pequena adaga.
O metal estava frio ao toque, firme.
Fox a segurou com ambas as mãos, como se estivesse recebendo um pedaço de coragem materializada. Sem hesitar, guardou-a consigo. Aquilo poderia ser sua salvação, talvez sua única chance real, mesmo que mínima.
Continuou andando, tentando de forma quase inocente encontrar alguma parte da encosta que fosse menos inclinada, algum ponto possível de escalar.
A cada poucos passos, encontrava mais objetos: um pacote de comida amassado, um pano agora sujo de terra, um filtro de água rasgado. Pegava tudo o que podia carregar, enchendo os bolsos, abraçando itens contra o peito, até perceber que simplesmente não tinha mais espaço.
Era um amontoado desorganizado, difícil de segurar, quase ridículo, e ainda assim era tudo o que tinha.
E foi naquele momento que uma verdade dolorosa, necessária, o atingiu: Ele estava despreparado.
Muito despreparado.
Não apenas para uma floresta hostil, mas para qualquer situação que envolvesse sobrevivência, esforço físico, raciocínio rápido... vida real. A caminhada que tinha pela frente não seria apenas longa; seria transformadora, exaustiva, brutal.
Ainda tinha que aprender tudo.
Do mais básico dos fundamentos, manter um fogo aceso, construir abrigo, tratar ferimentos, até habilidades avançadas que seriam cruciais se quisesse sobreviver contra o urso, os Renascidos, ou a qualquer outro inimigo.
E se perguntou, com o olhar perdido entre as árvores:
“Quanto tempo isso irá levar? Quanto tempo até eu me tornar um sobrevivente... ou um Herói? Se é que isso acontecerá...”
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