Volume 3 – Arco 14

Capítulo 149: Mestres

Despertaram horas depois, quando o sol já havia se erguido no céu e espalhava seus primeiros raios dourados sobre a terra.  

A claridade invadia suavemente o interior da pequena tenda improvisada onde estavam, forçando-os a piscar algumas vezes até conseguirem realmente abrir os olhos. Era como se o corpo inteiro deles estivesse pesado, envolto por uma névoa de cansaço.  

Não faziam ideia de quanto tempo haviam dormido; minutos, horas, talvez mais. Depois de tudo o que tinham vivido, o tempo parecia ter perdido o sentido. 

Ao olharem ao redor, perceberam que não reconheciam o local. Nada lembrava o vilarejo onde cresceram. No lugar das casinhas simples, do rio próximo, dos vizinhos conhecidos... havia apenas uma floresta densa, cheia de árvores altas que formavam um teto natural de folhas.  

O vento balançava as copas, fazendo-as produzir um murmúrio constante, quase um sussurro profundo da natureza. 

O chão estava coberto de folhas secas, galhos e pequenas raízes salientes. Era evidente que o acampamento fora montado às pressas; uma fogueira parcialmente apagada, duas mochilas jogadas próximas a uma grande pedra, e alguns tecidos estendidos para improvisar abrigo. 

Confusos, Fox e Wolf tentaram dar um passo para fora, movidos pela ansiedade e pela estranheza do lugar, assim que avançaram foram imediatamente barrados pelos dois espadachins que os haviam encontrado na noite anterior. 

— Pensam que vão aonde? — perguntou um deles, num tom de aviso, sem agressividade. 

Assustados pelo movimento brusco, os irmãos se inclinaram para trás e, instintivamente, agarraram dois gravetos do chão, como se fossem armas capazes de oferecer alguma proteção. 

O outro espadachim ergueu uma sobrancelha, claramente descontente. 

— É sério que vocês pensam que isso é o suficiente? — questionou, com o tom misto entre cansaço e sarcasmo. 

Wolf, percebendo que aquilo era ridículo e que estaria apenas se enganando ao achar que poderia se proteger com aquilo, jogou o graveto no chão com irritação e resignação. 

Fox manteve o seu, segurando-o com força enquanto se escondia atrás do irmão mais velho, como se o pedaço de madeira fosse a única coisa que o separava de mais uma tragédia. 

— Por que sequestraram a gente? — disparou Wolf, com a voz alta e cheia de tensão. — Quem são vocês? O que vocês querem?! 

O espadachim de aparência mais descontraída suspirou profundamente, passando a mão no rosto. 

— Relaxa, moleque! Céus... — murmurou, como se já estivesse cansado daquele tipo de acusação. 

Os dois se afastaram e caminharam até a fogueira. Ambos carregavam alguns coelhos recém-caçados, pendurados pelos pés. Seus movimentos eram tranquilos, seguros, como quem está acostumado a sobreviver na floresta por longos períodos. 

— Não sejam tímidos, podem vir! — disse o mais falante, apontando para o espaço ao lado do fogo. 

Os irmãos hesitaram, ainda desconfiados, ainda com medo, ainda tentando entender quem eram aqueles homens. Mas a fome, que já latejava como uma dor real em seus estômagos, acabou vencendo a resistência. Lentamente, com passos cautelosos, sentaram-se próximos aos dois espadachins. 

Agora, com mais luz e menos caos, finalmente puderam observar os dois desconhecidos com atenção. 

Ambos tinham rostos semelhantes; olhos afiados, mandíbula firme, traços marcados pelo esforço físico. Possuíam corpos fortes, treinados, de quem vive em constante movimento e batalha. Era evidente que tinham algum laço de sangue próximo, provavelmente irmãos. 

Apesar das espadas afiadas, não usavam armaduras; estranho para guerreiros daquele nível. Usavam apenas roupas leves e resistentes, feitas para mobilidade, não para defesa. 

O mais sério dos dois deu um pequeno aceno com a cabeça. 

— Permitam que nos apresentemos. Eu me chamo Kenzou Torison — disse com voz firme, apontando brevemente para si — e esse é Reiji Torison. Somos irmãos, assim como vocês dois. 

Reiji abriu um sorriso largo, esperando alguma reação dos garotos. Fox e Wolf apenas piscaram, sem demonstrar surpresa alguma. 

A falta de impacto claramente o incomodou. 

— É sério que vocês não conhecem os Descendentes? — perguntou, cruzando os braços. 

Os irmãos negaram com a cabeça ao mesmo tempo. 

Reiji soltou um longo suspiro.  

— A vila de vocês era mesmo afastada… 

Foi então que, ao ouvir a palavra vila, Fox congelou por um instante. 

A dor voltou como uma lâmina atravessando seu peito. Sua garganta fechou, sua visão ficou turva e as lágrimas brotaram sem aviso, deslizando por suas bochechas enquanto ele apertava os punhos com força. 

Wolf também sentiu a ferida abrir, de um jeito diferente. A tristeza dele se transformava em ódio, de si mesmo. Irritado por se sentir fraco, inútil, incapaz de fazer algo quando sua família precisou. Ele cerrou os dentes até quase machucar a mandíbula. 

Vendo aquilo, Kenzou lançou um olhar reprovador para o irmão, culpando-o por tocar no assunto de forma tão descuidada.  

Tentando quebrar o clima pesado, aproximou-se um pouco mais e ofereceu a carne de coelho recém-preparada. 

Fox e Wolf aceitaram. Comer era difícil; o gosto parecia amargo, não pela comida em si, mas pelo que haviam perdido. 

— Eu lamento pelo que aconteceu — disse Kenzou, com sinceridade evidente em cada palavra. — Não conseguimos chegar a tempo e... falhamos. 

Reiji abriu a boca, tentando dizer algo que soasse reconfortante, algo que aliviasse a dor ou a culpa. Nenhuma palavra veio. Não havia nada que pudesse desfazer o que os garotos tinham visto, ou aquilo que perderam. 

— O que aconteceu lá? — perguntou Wolf, com a voz tensa, quase embargada. — Com as pessoas e... os monstros? 

Kenzou desviou o olhar por um instante, refletindo. Ele poderia mentir, suavizar a verdade, inventar algum consolo artificial, mas sabia que nada disso mudaria o que aqueles dois garotos haviam visto. 

Era impossível ajudar duas crianças que viram a própria mãe morrer diante de seus olhos se ele começasse com falsidades. 

Ele respirou fundo. 

— Todos do vilarejo acabaram morrendo, exceto vocês dois — disse com firmeza, embora sua expressão carregasse tristeza. — Também eliminamos todos aqueles monstros, os Renascidos. 

A simples palavra trouxe lembranças que Wolf gostaria de esquecer. 

— “Renascidos”, o ancião havia falado sobre eles — comentou, apertando as mãos sobre os joelhos. — Ele disse que não importa quantas vezes os matem, eles sempre voltam. 

— Ele não estava mentindo — respondeu Reiji, com o tom mais sério do que antes. — Nós os enterramos para que não voltem, torcendo para que enfim descansem, mas... às vezes isso não funciona. 

Fox ergueu a cabeça, confuso e assustado. 

— “Enterrar”? — perguntou com hesitação. — Vocês os enterraram... junto da mamãe? 

— Sim — responderam os dois espadachins em uníssono, sem esconder o desconforto. 

Fox sentiu o estômago embrulhar. A ideia da mãe dele estar no mesmo solo que aqueles seres repulsivos, aqueles que destruíram tudo, era difícil de suportar.

Uma parte dele queria gritar, outra queria negar, outra só queria esquecer. 

Wolf, por outro lado, respirou fundo, sentindo um gosto amargo na boca.  

Ele entendia. Não gostava, mas entendia. Alguém precisava impedir que aqueles monstros se levantassem de novo, e isso incluía tratar todos os corpos da mesma maneira. 

— E o que acontece agora? — perguntou, tentando manter a voz firme. 

Kenzou se ajeitou, como quem finalmente tomava uma decisão. 

— Vamos levar vocês até uma cidade — disse com clareza. — Uma cidade grande, cercada por muralhas. Lá estarão seguros. 

Os olhos de Wolf se estreitaram em desconfiança. 

— Você quer dizer... nos levar para um orfanato? 

— Sim. 

A palavra caiu como uma pedra fria no peito dos irmãos. 

Antes que alguém pudesse dizer mais alguma coisa, Wolf se levantou de súbito. Sua respiração acelerou, seus olhos ficaram marejados de determinação. 

Ele deu um passo para trás, então caiu de joelhos com força suficiente para fazer um som seco contra o solo. Sem hesitar, inclinou-se e bateu a cabeça contra a terra compacta. 

— POR FAVOR! ACEITE A GENTE COMO SEUS DISCÍPULOS! 

Kenzou e Reiji congelaram. O pedido surgiu tão abruptamente que levou alguns segundos para que qualquer um deles reagisse.  

Eles se entreolharam com expressão descrente, quase chocada. 

— Meu jovem, por favor, levant... — começou Kenzou. 

— POR FAVOR! — gritou Wolf, interrompendo-o, com uma urgência que vinha de um lugar muito mais profundo do que simples desespero. — Nem que apenas o Fox, meu irmão! Ele... ele sempre quis ser um Herói como vocês! Eu sei que lá… o sonho dele nunca irá se realizar! 

Fox arregalou os olhos, completamente pego de surpresa. 

Ele cresceu acostumado a ouvir sermões, broncas, advertências, críticas, não declarações de fé. Ele nunca imaginou que Wolf, especialmente ele, levasse a sério aquelas conversas noturnas, aqueles devaneios sobre se tornar um Herói. 

Não imaginava que seu irmão o escutava, muito menos que acreditava nele. 

Enquanto Fox tentava processar aquilo, Kenzou e Reiji voltaram a se encarar. 

O silêncio entre os dois não era de indiferença; era de peso. Sabiam o que a decisão significava. 

Responsabilidade. Risco. Mudança de rumo. 

E ao mesmo tempo... compaixão. 

Não sabiam qual seria a escolha certa, mesmo já tendo se decidido. 

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