Volume 3 – Arco 14

Capítulo 148: Infância Perdida

Ainda no meio da madrugada, quando a escuridão parecia mais espessa e o silêncio do vilarejo mais absoluto, Fox e Wolf foram arrancados do sono por um estrondo violento.  

Logo em seguida vieram gritos. Gritos cheios de desespero, como se a própria noite tivesse sido rasgada ao meio. 

Fox, ainda meio perdido, com o coração disparado e a mente tentando se agarrar à realidade, mal teve tempo de piscar antes de ver seu irmão.  

Wolf saltou da cama como se não estivesse dormindo segundos antes. Seus pés tocaram o chão com rapidez, e ele correu até a janela, erguendo a mão para afastar a cortina apenas o suficiente para observar o lado de fora sem ser visto. 

— O que f... — Fox começou, tentando formar uma pergunta, a frase mal saiu de sua boca. 

SH! — Wolf sibilou, com urgência feroz. 

Antes que Fox pudesse dizer qualquer outra coisa, Wolf avançou e tampou a boca do irmão com uma firmeza assustadora. Não era uma bronca, não era um gesto de impaciência; era sobrevivência.  

O olhar dele dizia tudo: qualquer som significava morte. 

Os olhos de Wolf correram rapidamente pelo quarto, avaliando cada canto como se estivesse procurando a única chance de salvação, até parar no armário de madeira, grande o suficiente para talvez abrigar os dois garotos se ficassem encolhidos. 

Sem perder um segundo, Wolf o puxou pelo braço e o empurrou para dentro do móvel. Fox obedeceu em meio aos tropeços, sentindo o coração martelar no peito como se quisesse escapar dali sozinho. Wolf entrou logo atrás, fechando a porta com cautela.  

A escuridão dentro do armário era quase absoluta. 

Ainda com a mão tampando a boca do irmão, Wolf aproveitou para fazer o mesmo consigo mesmo, abafando qualquer ruído involuntário. 

— Mmmf! Humf... — Fox tentou questionar algo. 

Wolf lançou-lhe um olhar tão duro, tão penetrante, que Fox congelou imediatamente. 

O mais velho não estava apenas dizendo “cala a boca”; estava dizendo “não respire errado ou morremos”.  

A intimidação funcionou e Fox se calou por completo, tremendo. 

Pouco tempo depois, passos pesados ressoaram pelo corredor, ecoando no soalho velho da casa como marteladas. Aproximavam-se do quarto. Fox sentiu suas pernas formigarem de medo, e cada segundo parecia uma eternidade. 

— Crianças! Precisamos sair agora! — chamou uma voz conhecida. 

Era a mãe. 

Alívio e confusão tomaram conta de Fox ao mesmo tempo. Ele sentiu o corpo relaxar instintivamente; queria correr até ela, queria abrir a porta, queria avisá-la de onde estavam. Mas, ao mesmo tempo, a mão forte de Wolf ainda o segurava no lugar, como se tivesse conhecimento de algo que Fox não sabia. 

Obedecer a sua mãe ou obedecer a seu irmão? 

A contradição o destruiu por dentro. 

Quando Fox olhou para Wolf, percebeu algo que o deixou paralisado: lágrimas. 

Lágrimas silenciosas escorriam do rosto do irmão, que mantinha os olhos apertados, como se ver fosse pior do que ouvir. Era a primeira vez que Fox via Wolf naquele estado, frágil, humano, apavorado. 

Antes que Fox pudesse reagir, Wolf o puxou para mais perto, afastando-o das frestas do armário, impedindo-o de ver o que estava acontecendo do lado de fora. 

— Crianças? Ahh...! — a voz da mãe se transformou em um grito curto, abrupto. 

O som do corpo dela caindo ao chão foi seco, brutal. Algo dentro de Fox quebrou naquele instante; ele quase abriu a porta, quase jogou tudo para o alto para ir até ela. Mas então vieram outros sons, úmidos, repetitivos, terrivelmente familiares, parecendo lâminas perfurando carne. 

E, entre os ruídos, ouviram-se grunhidos. 

Não humanos. 

Wolf diminuiu a pressão sobre a boca do irmão, apenas o suficiente para deixá-lo respirar melhor, e retirou lentamente a mão que tampava a visão dele. Fox pôde ver através de uma pequena fresta e compreendeu. 

Renascidos. 

Três deles. 

As criaturas se contorciam de forma grotesca enquanto esfaqueavam o corpo da mãe já caída. Era um movimento rítmico, desajeitado, incessante, como se matar fosse tudo o que sabiam fazer.  

Fox sentiu o estômago se revirar, o peito se afundar, o mundo parar. Sua garganta queimou, nenhum som escapou. Wolf o havia poupado de ver o golpe que tirou a vida dela, mas não conseguira, e nem podia, poupá-lo da cena que vinha depois. 

Tinha a certeza de que se tentasse impedir seu irmão caçula de identificar o que eram aqueles sons terríveis, seriam descobertos pela brusca movimentação. 

Quando os Renascidos se certificaram de que ela estava morta, ajoelharam-se diante do corpo. Suas bocas rasgadas se abriram, e eles começaram a devorar parte por parte com violência animal, arrancando a carne à força.  

Não importava que seus corpos não pudessem digerir nada; ainda assim mastigavam, engoliam e, em seguida, vomitavam. Era parte de seu instinto, parte de sua existência corrompida. 

Fox e Wolf apenas assistiram, imóveis, tentando não respirar alto, tentando não pensar, tentando não enlouquecer. 

Os garotos não sabiam quanto tempo teriam de esperar até que os monstros se fossem. Podia ser minutos, podia ser horas. Não tinham alternativa. Qualquer movimento, qualquer ruído, e o destino deles seria exatamente o mesmo. 

Então fecharam os olhos, encolheram os corpos e resistiram, lutando contra os sons horrendos que ecoavam tão perto deles que parecia impossível que ainda estivessem vivos. 

(...) 

Quase uma hora havia se passado desde que os sons macabros começaram.  

Para Fox, aquele tempo parecia uma eternidade distorcida, um intervalo em que a própria noção de minutos e segundos havia se dissolvido. O armário estava quente, abafado, sufocante, comparado ao que havia lá fora, era o único abrigo seguro que restava. 

Fox fechara os olhos, procurando desesperadamente apagar as imagens que ainda ecoavam em sua mente. Ele se aproximou mais de Wolf, encostando sua cabeça no ombro do irmão, como se o simples contato físico fosse suficiente para empurrar o terror para longe. 

Wolf não piscou. Seu olhar permanecia fixo na pequena fresta, como se seus olhos fossem pregados ali. Ele não tinha mais lágrimas; todas haviam sido gastas, arrancadas dele à força.  

Ainda assim, assistia à cena imóvel.  

Queria, precisava, guardar aquela imagem, mesmo que o rasgasse por dentro.  

Talvez fosse seu jeito de não esquecer. Talvez fosse sua forma de prometer algo. Ou talvez fosse apenas choque. 

Então, surgiram novos passos. 

Passos leves, rápidos, quase elegantes. Totalmente diferentes dos movimentos arrastados dos Renascidos.  

O coração dos garotos disparou.  

“Quem poderia ser?” 

Eles mal tiveram tempo de considerar qualquer possibilidade quando...

SHINGS! 

O som metálico cortou o ar como um relâmpago. Três golpes, limpos, precisos, e os corpos dos três Renascidos tombaram sobre o da mãe, como bonecos sem vida, derrubados por mãos habilidosas. 

Duas figuras entraram no quarto.  

Altas, firmes, com postura de quem estava acostumado a enfrentar o impossível. Dois espadachins, ambos com lâminas ainda brilhando com o reflexo da lua que entrava pela janela quebrada. 

Os irmãos ficaram totalmente imóveis. A respiração deles quase parou. Não sabiam se aqueles estranhos eram salvadores… ou apenas outro tipo de ameaça. 

— Droga, chegamos atrasados... — murmurou um dos espadachins, a voz carregada de frustração e culpa. 

— Ao menos esses Renascidos não irão mais causar problemas — respondeu o outro, observando os corpos caídos. 

— Você quer dizer, causar mais problemas. 

— Isso. 

Eles começaram a mover os cadáveres dos Renascidos com movimentos práticos, como quem havia repetido aquele ato muitas vezes antes. Não havia medo neles, apenas cansaço e determinação. 

— É uma pena que tenhamos que enterrá-los juntos... — comentou o primeiro, olhando para os corpos amontoados. 

— Não importa. Já estão mortos. Precisamos enterrá-los para que não voltem novamente — respondeu o segundo, com uma firmeza que deixava claro que aquilo era rotina. 

Quando suas mãos tocaram o corpo da mãe dos garotos, algo dentro de Wolf e Fox finalmente se rompeu. 

— Larguem ela! — gritaram, emergindo do armário como se a dor e o instinto tivessem empurrado seus corpos para fora. 

Os dois espadachins se viraram de imediato.  

A expressão deles, antes rígida, se transformou em um misto de choque e alívio ao ver as crianças vivas. As espadas escaparam de suas mãos e caíram no chão com um som surdo enquanto ambos se ajoelhavam. 

Sem hesitar, envolveram os garotos em um abraço forte, protetor, urgente, sincero. 

Para Fox e Wolf, ser abraçado por dois completos estranhos foi estranho no início; seus corpos estavam tensos, seus músculos rígidos como cordas esticadas. Mas havia algo caloroso naquele gesto, algo que atravessou o terror acumulado nas últimas horas. Algo humano. 

O calor de braços fortes, a sensação de segurança depois do horror absoluto, era tão reconfortante que suas pálpebras pesaram imediatamente. 

Fox foi o primeiro a ceder. Sua cabeça tombou para o lado, e ele adormeceu quase no mesmo instante em que o espadachim o puxou um pouco mais perto, como se temesse que o garoto pudesse se afastar. 

Wolf, no entanto, desconfiado por natureza, ou talvez por necessidade, tentou se desvencilhar. Seus olhos se arregalaram quando percebeu um brilho suave emanando da palma da mão do homem que o abraçava. 

Uma luz tênue, cálida, que se espalhou pela pele dele como se fosse um sopro de tranquilidade. 

Antes que Wolf pudesse questionar, lutar ou sequer formular um pensamento coerente, o peso do sono o dominou. Sua cabeça caiu contra o peito do espadachim, e a escuridão finalmente o acolheu. 

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