Volume 3 – Arco 14
Capítulo 147: Doce Infância
Mesmo que você acredite conhecer cada integrante deste grupo, há alguém cuja importância passou despercebida por todos.
Acredite: trata-se de uma pessoa com um passado tão profundo quanto o de qualquer um aqui, alguém cujo destino merecia ser grandioso e memorável.
Seria injusto que uma pessoa assim permanecesse sem ser verdadeiramente conhecida.
Afinal... esta história deveria ser sobre ela.
***
Em um pequeno vilarejo situado às margens de um rio sereno, onde a água refletia a luz da lua como uma fita prateada ondulando na escuridão, uma família humilde se preparava para dormir.
A casa simples, feita de madeira gasta e marcada pelos anos, rangia suavemente a cada vento noturno, como se respirasse junto com os moradores.
O pai já estava deitado em sua cama estreita, com as mãos entrelaçadas sobre o peito, aguardando com paciência o retorno da esposa. Ele escutava, a poucos cômodos dali, a voz dela ecoando suavemente enquanto lia mais uma história para os dois filhos; uma rotina que, apesar da pobreza, era o maior tesouro daquela família.
— “...e assim, o Herói retornou para casa, exausto e agradecido após derrotar o grande vilão.” E fim — concluiu a mãe, fechando o livro com cuidado, como se fosse um artefato precioso.
— Mais uma vez! — pediu o caçula, com o brilho ansioso nos olhos e um sorriso sapeca no rosto ainda manchado de poeira do dia.
— Fox, pare de importunar a mamãe! — repreendeu o mais velho, cruzando os braços e tentando manter uma postura séria, como se fosse muito mais velho do que realmente era.
— Wolf, seja gentil com seu irmão — pediu a mãe, lançando um olhar terno que afastava qualquer sombra de irritação.
— Sim, mamãe... — respondeu Wolf, baixando o olhar e respirando fundo, sempre esforçando-se para ser o equilíbrio da casa.
Wolf, apesar da pouca idade, carregava em si a responsabilidade de alguém que conhecia a importância de ser forte. Tentava ser a maturidade que faltava ao irmãozinho; havia momentos em que se portava quase como um adulto, ainda que seu corpo infantil não ostentasse sequer um fio de pelo no peito.
Fox, por outro lado, vivia despreocupado. Ele tinha a confiança quase ingênua de que Wolf sempre estaria ali — para defendê-lo, protegê-lo e tirá-lo das enrascadas que costumava se meter. E quando nem o irmão conseguia suavizar as broncas, ele sabia que a mãe o acolheria com aquele carinho capaz de dissipar qualquer tristeza, sempre acompanhada de palavras doces que pareciam curar tudo.
Fox era, sem dúvidas, um garoto mimado; não por mal, mas porque os pais, conscientes dos erros cometidos com o primogênito, desejavam impedir que a mesma rigidez recaísse sobre ele.
Wolf jamais os culpou pela ausência ou pelas falhas do passado. Ele sempre entendeu, com uma maturidade silenciosa, que seus pais faziam o melhor que podiam dentro das limitações da vida que levavam.
Aquela família pobre possuía apenas um único livro: um conto infantil e fantasioso sobre um Herói que enfrentava o mal. Era o único portal para aventuras além do vilarejo, a única janela para mundos que eles jamais conheceriam. Porém, algo peculiar acontecia: embora o Herói permanecesse sempre o mesmo, seus inimigos mudavam, as donzelas que salvava nunca eram as mesmas, e até o reino que ele visitava se transformava a cada leitura.
Era como observar uma história viva, que crescia e se expandia noite após noite.
E, apesar de tudo, por mais perigos inimagináveis que o Herói já tivesse enfrentado, sempre surgia outro desafio esperando por ele na próxima vez que o livro fosse aberto.
A razão para aquilo era evidente, e Wolf sabia bem: as páginas estavam tão desgastadas pelo tempo e pelo manuseio constante que boa parte do texto se tornara ilegível. A mãe não lia; ela recriava. Preenchia as lacunas com a própria imaginação, dando nova vida a cada aventura.
Com a história enfim encerrada, a mãe se inclinou com ternura para depositar um beijo na testa dos dois filhos. Cada um já estava deitado em sua respectiva cama no beliche que o pai havia construído com as próprias mãos — simples, firme e cheio de amor.
— Durmam bem, minhas crianças — disse ela, numa voz tão suave quanto o vento que passava pelas frestas da janela.
— Você também, mãe — responderam ambos, em perfeita harmonia, antes que o silêncio da noite envolvesse a casa inteira.
(...)
No silêncio pesado da madrugada, quando até o vento parecia respeitar o descanso do vilarejo, Fox se remexia inquieto em sua cama superior. Virava-se de um lado para o outro, amassando o cobertor, mudando de posição a cada poucos segundos, como se algo dentro dele estivesse prestes a explodir.
O velho beliche rangia a cada movimento, denunciando sua agitação. Por mais que ele tentasse fechar os olhos e controlar a respiração, o sono simplesmente não vinha.
— Ei! Wolf, está dormindo? — sussurrou ele, embora sua voz não fosse nem de longe tão baixa quanto pretendia.
— Estou... — respondeu o irmão, com um tom que misturava cansaço e ironia.
Fox franziu a testa na escuridão.
— Então como está me respondendo? — retrucou, inclinando-se para fora das cobertas como um animal curioso.
— É que eu sou foda... — rebateu Wolf, com aquela arrogância brincalhona que sempre usava para provocar.
— Haha... Para com isso! — Fox deu uma risada abafada, tentando se conter para não acordar os pais no cômodo ao lado.
Sabendo que o irmão não deixaria aquilo barato, Fox apoiou as mãos nas bordas da cama e se inclinou para frente até conseguir olhar para baixo. Seu rosto despontou no escuro como o de alguém que tinha algo sério na cabeça, embora suas feições de menino ainda denunciassem ingenuidade.
— O que foi agora, Fox? — perguntou Wolf, virando-se lentamente na cama de baixo. Seus olhos mal se abriam, mas a irritação estava clara no som da voz.
— Acha que algum dia iremos sair desse vilarejo? — indagou o caçula, com uma sinceridade tão pura que fez o ar parecer mais denso.
A pergunta pegou Wolf desprevenido.
Era o tipo de pensamento que jamais havia cruzado sua mente; sua vida inteira tinha se resumido àquela casa, ao rio próximo, ao trabalho duro dos pais e às histórias intermináveis da mãe.
Nunca imaginara qualquer coisa além daquilo.
Depois de alguns segundos em silêncio, respondeu:
— Não sei. Talvez. Por que quer saber?
Fox deixou escapar um suspiro carregado de expectativa.
— Eu quero ser que nem o Herói do livro da mamãe! — disse com brilho nos olhos, embora na penumbra quase não fosse visível. — Quero viajar pelo mundo e salvar o máximo de pessoas que eu conseguir!
Wolf murmurou um “hm” sonolento e ergueu uma sobrancelha.
— É claro que isso vai acontecer... — respondeu, mais para acalmá-lo do que por acreditar de verdade.
Virou-se e puxou o cobertor até o queixo, claramente decidido a encerrar o assunto.
— Ei! Eu estou falando sério! — Fox insistiu, ofendido pela aparente falta de interesse.
— E eu concordando... — rebateu Wolf, já acomodado. — Agora durma.
Fox bufou e voltou a se deitar, embora a inquietação ainda pulsasse nele.
Por alguns segundos, o silêncio retornou. Mas a curiosidade do caçula era indomável.
— E você, Wolf? O que gostaria de ser? — perguntou com a voz baixa, quase tímida.
Dessa vez, não houve resposta.
Nenhuma palavra. Nenhum ruído. Só o som distante do rio correndo lá fora e a respiração lenta do irmão, que talvez estivesse fingindo dormir, ou talvez não.
Fox compreendeu imediatamente.
Wolf não daria qualquer dica sobre seus desejos.
Se é que ele tinha algum além de sobreviver ao dia seguinte.
Com um suspiro resignado, o caçula virou-se para o lado, abraçou o travesseiro e finalmente se rendeu ao silêncio da noite.
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