Volume 2 – Arco 12

Capítulo 124: Grito Silencioso

O pátio central da vila fervilhava de música, gargalhadas e o perfume adocicado de frutas e especiarias. As tochas presas em suportes de ferro oscilavam com o vento noturno, projetando sombras dançantes nas paredes das tavernas e sobre os rostos sorridentes. 

No meio daquele caos festivo, Xin girava. 

A princípio, seus movimentos eram contidos, quase hesitantes. Tentava escapar da dança, alegando não saber os passos, tropeçando nos próprios pés ou rindo nervosamente para disfarçar.  

Zhen, com seu sorriso calmo e a serenidade de quem já dançara mil vezes com o destino, conduzia-a com firmeza e delicadeza. 

— Um passo de cada vez — murmurou ele, a voz tão baixa que só ela podia ouvir. 

Pouco a pouco, Xin se entregou. 

Os passos tornaram-se naturais, os risos mais soltos, e o brilho em seus olhos, incontrolável. 

Não se dava conta de que já não fugia, agora corria ao encontro do ritmo, dos giros e do toque suave das mãos de Zhen sobre as suas. A melodia envolvia-os como uma brisa quente, e a multidão ao redor começou a desaparecer. 

O monge, de expressão serena e sorriso contido, sabia exatamente o que estava fazendo. Cada passo que escolhia, cada volta que a fazia dar, era uma estratégia sutil para libertá-la de si mesma. 

Ele conhecia o peso que Xin carregava: o trauma, a perda, o medo constante de se permitir viver. E naquela noite, entre risos e notas de flauta, ele queria apenas lembrá-la do que era sentir alegria sem culpa. 

Seus corpos moviam-se com leveza, seus rostos, tão próximos, denunciavam uma tensão silenciosa. Em cada fim de música, os lábios de ambos pareciam se buscar, e o ar entre eles se tornava denso, elétrico.  

Zhen, contudo, jamais daria o primeiro passo. Não por falta de desejo — por respeito. Sabia que o passado dela era cheio de mãos que não pediram permissão.

E ele jurara nunca ser uma delas. 

Xin, alheia ao cuidado, apenas sorria. 

A cada canção que terminava, era a primeira a girar de volta, a arrastar Zhen consigo para outra dança antes mesmo que os músicos retomassem o ritmo. Era como se temesse o silêncio. Como se, ao parar, tudo o que reprimira, dor, solidão, lembranças, voltasse a gritar. 

Mas tudo mudou quando a multidão abriu espaço. 

A melodia diminuiu, os acordes se tornaram mais lentos, e todos se voltaram para o centro da praça. 

Ali estavam Kenshiro e Erina. 

Eles se moviam como se o mundo tivesse sido feito para acompanhá-los. Cada gesto era preciso, cada olhar, um diálogo silencioso.  E a perfeição de seus movimentos era tamanha que os próprios músicos, inspirados, mudaram o compasso da canção para segui-los. 

Erina girava com sua roupa casual rodopiando em ondas, e Kenshiro a acompanhava com passos firmes, como se os dois compartilhassem o mesmo coração. 

Havia paixão ali, mas também respeito, entrega, cumplicidade. 

Era a dança de quem já enfrentara a morte e ainda assim escolhera viver, enlaçados um ao outro.

Os risos cessaram. As conversas, também. A vila inteira observava, hipnotizada. 

Zhen e Xin pararam no mesmo instante, os olhos fixos no casal. 

Mesmo os mais céticos pareciam acreditar, por um momento, que havia algo divino naquela união; uma harmonia impossível, como o encontro entre fogo e água. 

Quando a música finalmente terminou, Kenshiro segurou Erina pelas costas, inclinando-a até quase tocar o chão. 

O silêncio durou um segundo, depois outro — e então, o beijo. 

Foi breve, o suficiente para incendiar a praça. 

O público irrompeu em aplausos, gritos, gargalhadas. Crianças batiam palmas, velhos choravam discretamente, e até os músicos riam entre si. 

Erina e Kenshiro se levantaram, sorrindo, constrangidos pela própria ousadia. 

Poderiam ter dançado de novo — todos queriam que dançassem —, preferiram recuar. Agora, era a vez das músicas lentas. 

Os casais se formaram outra vez, e o ar se encheu de suspiros. 

Zhen estendeu a mão para Xin, que a aceitou sem hesitar desta vez. Ele a puxou suavemente para perto, os corpos se ajustando ao novo ritmo, mais íntimo e terno. 

— Sabe... — murmurou ele, quase sussurrando contra o cabelo dela —, acho que já posso conversar com você agora. 

Ela o olhou, curiosa, mas o monge desviou o olhar, fingindo acompanhar a música. Talvez ele quisesse dizer algo sobre sentimentos, ou talvez quisesse apenas ouvi-la. De qualquer forma, não importava. Naquele instante, Xin não queria entender nada, apenas continuar dançando. 

E, por alguns minutos preciosos, foi como se o mundo inteiro tivesse desaparecido, e só existissem os dois, respirando em harmonia com a música, sob as luzes douradas da festa e o olhar invisível de Ren, observando à distância, silencioso como um fantasma entre os vivos. 

— Aqueles dois sabem fazer um show, não é? — comentou Xin, com o olhar ainda preso em Kenshiro e Erina, que agora descansavam entre risos e aplausos. 

— De fato — respondeu Zhen, sorrindo de leve. A risada que lhe escapou foi curta, sincera, quase nostálgica. — Seja no combate ou no dia a dia, eles sempre acabam sendo o destaque. 

O som das flautas e tambores diminuía, transformando-se num ritmo suave, quase íntimo. Casais balançavam lentamente, abraçados sob o brilho trêmulo das tochas. 

— Se me permite dizer... — continuou Zhen, desviando o olhar para ela. 

— Sim? — respondeu Xin, distraída, ainda tentando disfarçar o calor que sentia nas bochechas. 

— Você é quem mais se destaca para mim. 

A frase a atingiu como um golpe súbito, mesmo que dita com delicadeza. 

— Sei... — respondeu, arqueando uma sobrancelha, tentando disfarçar o nervosismo com sarcasmo. 

Zhen não respondeu de imediato. O silêncio entre eles foi preenchido apenas pelo som dos passos, o atrito dos tecidos, o ritmo lento da música. 

Enquanto dançavam, Xin ainda queria acreditar que aquilo era só mais uma das tentativas do monge de brincar, de provocar. Ele fazia isso às vezes — um flerte leve, um elogio inocente — e ela fingia se irritar, só para esconder o quanto aquilo a fazia sorrir por dentro. Mas, dessa vez, havia algo diferente no olhar dele. 

— Eu estou falando sério, Xin — disse Zhen, baixando o tom de voz, a ponto de ela sentir o calor de sua respiração contra o rosto. 

— Você é bem insistente, não é? — respondeu, forçando uma risada que soou mais frágil do que pretendia. — Não consegue só... aproveitar o momento? 

— É o que eu estou tentando fazer — disse ele, firme, embora o olhar carregasse uma melancolia serena. — Você que não está. 

— Do que você está falando? — perguntou ela, sentindo a irritação crescer. — O que você pensa que a gente é? Algum tipo de casal agora? 

Zhen não respondeu. 

O silêncio dele a desarmou mais do que qualquer palavra poderia. 

Foi então que Xin percebeu, ou talvez finalmente aceitou perceber, a forma como ele a segurava. A mão dele estava há várias danças repousada sobre sua cintura, firme, mas gentil. 

Estavam tão próximos...

Próximos o suficiente para que o perfume leve que ela usava se misturasse ao incenso que sempre acompanhava nas vestes do monge. 

A música continuava, Xin já não ouvia. Sentia o coração pulsar em um ritmo que nada tinha a ver com a melodia. 

A ideia de ter formado um par com Zhen, de ter se deixado conduzir, de ter gostado — gostado mesmo — da segurança de seus braços, da maneira como ele a olhava como se ela fosse mais do que o que aparentava ser... era algo que ela não estava pronta para aceitar. 

Era íntimo demais. Pessoal demais.  

Perigoso demais. 

Afastou-se de repente, como se o simples toque queimasse. 

O olhar que lançou para ele foi frio, calculado — o tremor em seus lábios a denunciava. 

— Foi você que confundiu as coisas, Zhen — A voz dela soou firme, frágil nas bordas. — Eu não dancei com você porque gosto de você. Só o fiz porque era alguém conhecido, que me fazia sentir à vontade no meio de tanta gente. 

Deu um passo para trás, respirando fundo. 

— E agora... — Virou-se, escondendo o rosto atrás do cabelo, tentando conter a emoção que ameaçava escapar. — Agora eu não estou mais à vontade ao seu lado. 

O som das palavras caiu entre eles como uma pedra na água, criando círculos que demoraram a desaparecer. 

Por um instante, até a música pareceu se perder. 

Zhen permaneceu parado no centro da pista, a mão ainda suspensa no ar, como se o corpo se recusasse a aceitar que o momento havia acabado. 

Os olhos dele, antes calmos, agora refletiam algo mais profundo — compreensão. Talvez soubesse que ela não o rejeitava por desprezo, mas por medo. 

Não ousou tentar alcançá-la. 

Não disse nada. 

Xin caminhou para fora do palco, os passos rápidos, quase tropeçando nas próprias emoções. 

As luzes das tochas balançavam com o vento, projetando sombras longas que a acompanhavam, como se o mundo inteiro observasse sua fuga silenciosa. 

Zhen não se permitiu dançar a próxima música, mesmo que outra mulher se oferecesse para ser seu novo par, apenas ficou ali, imóvel, tentando entender se o erro fora o que dissera... ou o que sentira. 

(...)

Mesmo livre de todo o ciclo de dança, Xin não parou de caminhar. Seu corpo ainda vibrava no ritmo da música, mas o coração estava fora de compasso. 

Os risos e as vozes que vinham da praça pareciam distantes, abafados, como se uma parede invisível a separasse de tudo aquilo. 

Entrou por um beco estreito, onde o som das festividades era apenas um eco distante. O chão ainda estava úmido da noite anterior, o cheiro de madeira velha e terra a envolvia como um manto pesado. 

Sem conseguir conter o turbilhão dentro de si, parou no meio do beco, respirou fundo e gritou. 

MMMHHHNNNNN!!! 

Tapou a boca com força, abafando o próprio som, como se quisesse impedir que o mundo ouvisse o que ela mesma não queria sentir. O grito saiu rouco, rasgado, carregado de frustração, de vergonha e de algo que ela se recusava a nomear. 

— Já passou? — perguntou uma voz atrás dela, calma e firme. 

Xin virou-se tão rápido que quase perdeu o equilíbrio. 

Ren estava ali, apoiado contra a parede, braços cruzados, olhar sereno, como se já estivesse esperando por ela há horas. 

AHHHHHHH!!! — O segundo grito, o de susto, veio mais alto, tão alto que Ren levou a mão ao ouvido, estremecendo. 

— Eu perguntei se já passou, mas pelo visto, não — disse ele com leve ironia, massageando a têmpora. 

— Por que você me perseguiu?! — esbravejou ela, as lágrimas começando a brotar de novo. 

— Persegui? — Ren descruzou os braços e deu um passo à frente. — Eu apenas queria entender por que alguém deixaria uma festa tão viva... ainda mais alguém que parecia estar se divertindo tanto com seu parceiro. 

— Ele pisou no meu pé. 

— Sei... — Ren inclinou levemente a cabeça. — E o discurso apaixonado veio antes ou depois disso? 

— Que discurso?! 

— O que você fez antes de virar as costas — Seus olhos encontraram os dela, penetrantes, mas sem dureza. — Foi bonito, quase convincente. E na verdade foi você quem pisou no pé dele, Xin. 

Ela piscou, confusa, até perceber o que ele queria dizer. 

— Como você...? 

— Você pode ter se virado para que ele não percebesse — continuou Ren —, mas acabou ficando de frente para mim. Eu vi suas lágrimas caindo. 

Aquela frase a desmontou. 

Xin tentou rir, procurou qualquer desculpa que pudesse transformar aquilo em brincadeira, mas nada veio. As palavras travaram na garganta, e quando desistiu de lutar contra o silêncio, as lágrimas desceram de vez. 

Cobriu o rosto com as mãos e afundou o corpo no chão, os joelhos recolhidos, como se quisesse desaparecer dentro de si mesma. 

O choro era contido, sincero. Não o tipo que buscava piedade, e sim alívio. 

Ren permaneceu quieto. 

Deixou o tempo correr um pouco, observando-a. 

Não havia julgamento em seu olhar, apenas uma tristeza discreta, uma familiaridade amarga, como se já tivesse visto aquela dor muitas vezes antes — talvez até sentido. 

Quando o som dos soluços começou a diminuir, ele respirou fundo e deu um passo à frente. 

— Vamos voltar — disse, estendendo a mão para ela. — Antes que mais alguém apareça e consiga vê-la assim. 

Xin hesitou por um momento, olhando para a mão dele, depois para o chão. 

Mas a oferta não vinha com pena nem com exigência. Era apenas um gesto humano, simples e direto. 

Com um último suspiro, aceitou. 

A mão de Ren era quente, firme. Assim que a ajudou a se levantar, ele a soltou. Não tentou passar o braço sobre seus ombros, nem segurar sua mão novamente. Apenas se colocou ao lado dela, caminhando em silêncio. 

Ren não estava ali para se aproveitar daquela jovem e frágil mulher, queria ajudá-la a se recompor. 

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