Volume 2 – Arco 12
Capítulo 122: Instáveis
Depois de tanto beber, Gurok sentiu que o peso do hidromel exigia seu tributo. Pediu licença com um aceno breve e se afastou, cambaleando até o limite da clareira, onde a mata se tornava mais densa e o ar, úmido e pesado.
Nenhum banheiro humano jamais o comportaria, e ele sabia disso. A terra fria sob seus pés descalços o fez estremecer levemente, uma sensação que o trouxe de volta à consciência, ainda que parcialmente.
Assim que abaixou o zíper, uma sensação incômoda o percorreu como um arrepio subindo pela espinha.
Estava sendo observado.
— Isso seria algum tipo de fetiche? — murmurou, sem sequer olhar para trás, com um meio sorriso desconfiado.
— Está sempre em alerta? — perguntou uma voz serena, ligeiramente rouca, vinda da sombra de uma árvore próxima.
Ren se aproximou lentamente, encostando-se ao tronco coberto de musgo, os braços cruzados e o olhar perdido entre as folhas. A luz do fim da tarde filtrada pelos galhos, riscava o chão com feixes alaranjados, desenhando um cenário quase onírico.
Gurok virou-se de lado, ficando de costas para o homem.
— Essa jornada me mostrou que não podemos nos permitir abaixar a guarda — disse com firmeza, havia um peso oculto na voz, algo que o álcool não disfarçava.
— E aquilo que eu vi lá na taverna? — provocou Ren. — Você bebeu pelo menos seis barris. E ainda assim, nem parece afetado.
Gurok bufou.
— Uma única gota de hidromel já é o suficiente para alterar meus sentidos. — Fechou o zíper e se virou, endireitando os ombros largos. — E posso ter exagerado um pouco, admito. Contudo, se um combate acontecer, estarei preparado.
Ren soltou uma risada breve, propositalmente alta o bastante para que o orc a ouvisse.
Gurok respondeu com um resmungo baixo e se sentou pesadamente no chão, apoiando as costas em uma pedra.
— Então comece — disse, ajeitando-se. — A entrevista.
Ren se aproximou um pouco mais, deixando a luz do sol tocar parte de seu rosto.
— Ela já começou, paladino.
— E como estou indo? Eu passei?
— Ainda não. Mas está indo bem — respondeu com aquele tom enigmático que Gurok não sabia se admirava ou odiava.
O silêncio se instalou por longos segundos, quebrado apenas pelo som dos insetos e do vento passando entre as folhas. Gurok fechou os olhos, imaginando que Ren o observava, não como um avaliador, como alguém tentando decifrar algo mais profundo.
— E aí? O que mais quer saber? — perguntou, impaciente.
— Só estava pensando... — Ren começou, com voz baixa. — Como um orc foi parar aqui? A fronteira do Lamaçal é fortemente protegida. Não há brechas, nenhum ponto cego. E mesmo assim, você está aqui...
Gurok rosnou, virando seu rosto.
— Está insinuando alguma coisa? Está suspeitando de mim?
Ren deu de ombros, sem desviar o olhar.
— De você, não. Mas talvez da pessoa que o trouxe. Contrabandistas, talvez. Todos os que tentaram atravessar foram mortos. E os bebês orcs... — fez uma pausa, o olhar distante — ...nunca foram poupados. Mas parece que com você foi diferente.
O orc inspirou fundo.
— Se quer saber da minha origem, nem eu nem meu pai adotivo sabemos. Fui deixado à porta dele, e ele resolveu me criar. Simples assim.
— Talvez não tão simples — replicou Ren, abaixando o tom. — Sua natureza violenta foi contida. Isso não é pouca coisa. — Fitou-o com um meio sorriso melancólico. — É um fato. Assim como a ganância humana ou a arrogância dos elfos.
Gurok desviou o olhar, encarando o vilarejo à distância. As luzes das fogueiras tremeluziam, e o som de risadas ecoava pelo início daquela noite.
— Parece que o mesmo se aplica aqui — disse. — Um lugar sem moedas, sem acúmulo de riquezas. Muito diferente de Altunet...
Ren se endireitou, os olhos brilhando brevemente sob o luar.
— Entendo... então foram vocês.
Antes que Gurok pudesse responder, Ren já segurava um jornal amarrotado. Ele não viu quando o homem o tirou — nem ouviu o farfalhar do papel. Era como se Ren tivesse simplesmente feito o jornal aparecer.
Gurok sentiu um arrepio.
As manchetes falavam de Altunet e o “Golpe Democrático”.
Ren soltou o jornal, que caiu devagar, girando até repousar sobre a terra úmida.
— Nesse caso, acho que a entrevista terminou — disse, já se virando em direção à vila.
— Simples assim?
— Se Kenshiro e Erina foram capazes de tramar um golpe contra uma cidade inteira por você... — Fez uma pausa breve —, então deve ser de confiança.
— Havia outros motivos, não apenas... — Tentou argumentar Gurok.
— Está tudo certo, você já passou.
Gurok se levantou rapidamente, correu tentando alcançar o homem,mas o álcool cobrou seu preço. Em meio aos passos trôpegos, tropeçou nos próprios pés, deslizando pelo chão e aterrissando de cara na terra. Escorregou alguns metros até parar aos pés de Ren.
O espadachim olhou para baixo, cruzando os braços.
— Pelo seu desespero, parece até que queria reprovar na entrevista... — Agachou-se, o tom agora mais suave. — O que lhe incomoda tanto?
Gurok respirou fundo, a voz pesada.
— Eu não sou como os outros. Não sigo Erina porque ela me inspira ou me faz sentir algo... Eu a sigo porque tenho uma dívida. E preciso pagá-la.
Ren observou o orc com atenção.
— Sim, dá pra perceber que você não é tão... sentimental como os outros.
Gurok abaixou o olhar.
— Não os culpo. Só... Sou o único que tem uma vida fora desse grupo. Alguém que me espera. E isso... isso é...
— Injusto? — completou Ren.
— Sim.
Um pequeno sorriso brotou no rosto do espadachim.
— Preferiria que sua vida fosse destruída também?
— Não foi isso que eu disse!
— Eu sei — Ren riu, de forma genuína. — Desculpa.
Gurok suspirou.
— Sempre achei que tudo o que vivi em Altunet fosse o auge da minha vida, a batalha mais difícil. Mas essa jornada... Sinto que minha dívida nunca será paga.
Ren o observou por um momento, o olhar perdido em algo que Gurok não conseguia decifrar.
— E isso te incomoda tanto por quê?
— Porque só quando eu pagar minha dívida, poderei voltar para casa. Voltar pra Lois.
Ren ficou em silêncio, depois se levantou devagar.
— Bem, sinto em dizer, mas você continua aprovado. E não poderei deixá-lo voltar para Altunet... ainda não.
— Eu posso morrer... posso nunca mais vê-la...
— Sim — O olhar de Ren se perdeu por um instante, e um brilho quase imperceptível de tristeza atravessou seu rosto. — Por isso, dê o seu melhor.
Fez uma pausa e murmurou algo, quase para si mesmo:
— Erina e Kensh... não. Lois conta com você.
Ren virou-se e caminhou de volta para a vila, desaparecendo entre as sombras.
Gurok ficou sozinho, com o som distante das celebrações ecoando pela mata. O vento soprou frio, e ele sentiu o peso de seu juramento mais forte do que nunca.
Jamais teria coragem de trair Erina — nem a si mesmo.
Sua única escolha era continuar, se fortalecer e garantir que ninguém perecesse antes do fim da jornada. Somente assim poderia voltar para Lois com orgulho... ou, ao menos, em paz.
***
Vendo a empolgação de Soren brincando com as crianças, Takashi se permitiu afastar-se um pouco. Precisava de um momento de silêncio — apenas ele e o arco.
Encostou-se em um tronco retorcido, o sol filtrando-se entre os troncos das árvores, deixando faixas avermelhadas sobre o chão coberto de folhas úmidas.
Observou o arco com atenção, como quem tenta decifrar um velho amigo que já não fala há tempos.
Ser o Flecha Fantasma era muito diferente do que imaginara. Pensava que ouviria os ecos de seus antecessores — vozes sussurrando sabedoria antiga, talvez um coro de espíritos o guiando.
Mas não.
Tudo o que recebia era poder, e conhecimento que surgia sem aviso, derramando-se em sua mente quando o arco julgava apropriado.
Sem explicações, sem consolo.
Não sabia se devia agradecer ou se amaldiçoar.
A lembrança de que precisaria encontrar seu sucessor o assombrava de tempos em tempos. Era uma ideia que ele empurrava para longe, por medo do que ela implicava.
— É um belo arco — disse uma voz calma à frente dele, quebrando o silêncio.
— Q-que é isso?! — disse Takashi dando um sobressalto.
Ren estava encostado a poucos passos de distância, um sorriso leve no rosto, as mãos nos bolsos do manto.
— Perdão! — Riu baixo. — Não queria te assustar.
Takashi respirou fundo, tentando disfarçar o nervosismo.
— Não, tudo bem. Fui eu que não percebi sua aproximação.
— O que está fazendo? — perguntou Ren, apontando com o queixo para o arco.
— Como?
— Está encarando ele há um bom tempo. Não parece que precise de reparos. Estava apenas... admirando-o?
Takashi baixou os olhos para a madeira escura e polida.
— Quase isso.
Ren se aproximou um pouco mais, cruzando os braços.
— Parece que você tem um certo... hiperfoco nele. Quer que eu os deixe a sós?
Takashi piscou, confuso por um instante, até entender a provocação.
Guardou o arco rapidamente, sentindo o calor subir-lhe às orelhas.
— Ah, não... me perdoe. Acho que é mais forte do que eu.
— Você é bem comunicativo, para um elfo — comentou Ren, meio divertido, meio observador.
— Não conheço outros elfos — respondeu Takashi, dando de ombros. — E nem sempre fui assim. Há meses eu tentaria me manter calado, frio e misterioso.
— E o que mudou?
Takashi pensou um pouco antes de responder.
— A jornada. Eu vi coisas, conheci pessoas que... mudaram minha forma de ver o mundo.
Ren assentiu lentamente e sentou-se em um banco improvisado de pedra, indicando o lugar ao lado com um gesto.
Takashi hesitou, mas acabou se sentando também.
— Imagino que aquela capa que a jovem usa... — disse Ren, apontando discretamente para Xin ao longe —, seja sua.
— Sim. Era minha. Ela precisa mais do que eu.
Ren inclinou levemente a cabeça.
— O que aconteceu?
Takashi respirou fundo, os olhos perdendo o foco.
— Shenxi. Varelith. Foi o que aconteceu. Ela era de lá. Perdeu todos que conhecia.
— O monge... Zhen, não é? — perguntou Ren. — Parece estar sempre tentando alegrá-la.
— Sim. Deixamos que ele a incomode um pouco — respondeu Takashi, com um meio sorriso. — Assim ela não tem tempo para pensar em... você sabe.
Ren olhou para o chão, a voz agora mais baixa.
— Sim. Eu sei.
O silêncio que se seguiu foi denso, quase se tornando uma terceira companhia. O som distante das risadas de Soren com as crianças parecia vir de outro mundo.
Ren quebrou o silêncio primeiro.
— Mas, enfim... estamos na sua entrevista, afinal.
Takashi riu de leve.
— Meio que já tinha deduzido isso — Olhou para o vento que balançava as folhas. — Como estou indo? Já passei?
— Está indo bem — respondeu Ren, com um sorriso sutil. — Quase aprovado.
— Quase? O que falta?
Ren o encarou, firme, com aquele olhar que parecia atravessar a alma.
— Me diga você. Falta alguma coisa?
Takashi sentiu o rosto esquentar, desviando o olhar.
— B-bem... eu não sei ao certo. Tenho tanto a contar... por onde começo?
Ren abriu um pequeno sorriso.
— Pelo começo, talvez?
Takashi sorriu, ajeitando o cabelo.
— Pois bem... Você já ouviu falar do Flecha Fantasma?
E começou a contar.
Falou sobre a herança que nunca pedira, sobre a solidão que vinha com o título, sobre os espíritos que não respondiam.
Falou das perdas, dos erros, e das noites em que o poder parecia mais uma maldição do que um dom.
Ren ouvia em silêncio, o olhar fixo, a postura relaxada — mas algo em sua expressão denunciava que entendia mais do que dizia.
Takashi não sabia ao certo por que confiava tanto nele. Talvez fosse porque Erina e Kenshiro o faziam com tanta convicção. Ou talvez fosse apenas porque Ren, em silêncio, parecia já conhecer todos os segredos.
— E acho que é isso — terminou Takashi, coçando a nuca. — É tudo o que posso contar.
Ao menos teve o bom senso de omitir as histórias pessoais dos outros. Sabia que seria importante que cada um contasse a sua própria verdade.
Ren respirou fundo e sorriu.
— É... de fato, você está aprovado. Não consigo imaginar ninguém neste grupo mais fiel do que você. Com todo respeito... é quase fanatismo.
Takashi engoliu seco.
— Eu deveria mudar isso?
— Se fosse por outra causa, talves. Mas, nessa jornada... melhor ser fiel do que duvidar o tempo todo.
Takashi hesitou.
— Pra ser sincero, já duvidei deles. Mesmo depois de terem salvo minha vida.
Ren sorriu de lado.
— Não era dúvida. Era medo — A voz dele ficou mais branda. — Você só queria reforçar sua fé neles. E essas dúvidas te ferem porque você sabe o quanto já fora enganado e traído. Sua fé cega nos assassinos o deixou vulnerável, e você perdeu pessoas demais por isso.
O nome Kuroda ecoou na mente de Takashi, e o silêncio seguinte foi pesado como pedra.
Ren continuou, sem olhar diretamente para ele.
— E agora que encontrou outro grupo para confiar, teme que a história se repita. As dúvidas virão, sempre. O importante é não permitir que elas te paralisem quando o momento chegar.
Takashi respirou fundo. Sentiu algo aliviar dentro de si — um nó que há muito tempo o prendia. Talvez não fosse o pior dos companheiros, afinal. Talvez pensar demais fosse apenas parte de quem ele era.
— E quanto ao meu sucessor? — perguntou, quebrando o silêncio. — Tem algo a dizer?
Ren levantou-se, ajeitando o manto.
— Ah, o Flecha Fantasma... — disse, com um tom quase melancólico. — Se é obra do destino que você o encontre, então encontrará. Não se preocupe tanto com o “quando”.
Ren começou a se afastar, o vento movendo as folhas em seu caminho.
— Ren... — chamou Takashi. — Obrigado.
O espadachim apenas levantou uma das mãos em resposta, sem olhar para trás, caminhando em direção à vila.
Takashi ficou observando até que a figura desaparecesse entre as árvores, o som distante das crianças voltando a preencher o ar.
Sentindo-se mais leve, decidiu que era hora de voltar ao lado de Soren e as crianças. Precisava aproveitar de sua empolgação interna para dar um verdadeiro show a elas.
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