Volume 1 – Arco 3
Capítulo 22: Tempos de Fogueira II.
Parecendo que um tsunami fora jogado contra seu rosto, Zudao despertou, assustado e tentando não se afogar. Pela maneira como fora encarado pelo grupo, se envergonhou ao perceber que fora atingido por menos que meio copo de água.
Ainda tentando manter a boa aparência, torcendo para todos esquecerem e não comentarem sobre seu surto, ele se levantou, arrumando a roupa o melhor que podia.
— Posso ver que estão todos bem... — disse ele, levantando o nariz. — Posso presumir que o vampiro foi derrotado e o clérigo entregou nossa recompensa.
Xin entregou-lhe o cajado que foi pego rapidamente. Aproveitou para explicar o que realmente havia acontecido.
Ignorando todos os gestos de sua escrava, Zudao pôde ver o vampiro conversando com Kaji em sua forma de fogueira.
— O QUE AQUELA VIL CRIATURA ESTÁ FAZENDO AQUI?! — reclamou, batendo os pés até a fogueira. — E AINDA CONVERSANDO COM DEMÔNIOS, PELO QUE VEJO! — Kaji o encarou com desaprovação.
Erina colocou sua mão sobre o ombro do idoso. Não estava vestindo sua armadura, mas seus dedos pareciam tão pesados quanto. Zudao se obrigou a ouvi-la.
Tinha medo dela.
Erina foi breve, explicou sobre a traição do clérigo e como Sebastian havia os ajudado. Garantiu que o vampiro não iria lhes fazer nenhum mal. Em seguida apresentou Kaji, seu serviçal e amigo fiel.
— Não ouse ofendê-lo novamente. Ainda estou tentando aceitá-lo em nosso grupo; não faça com que eu me arrependa — enfatizou, apertando seus dedos até ouvir um pequeno estalo no ombro do idoso.
Deixá-lo-ia ferido por alguns minutos, até Kenshiro e Takashi retornarem com a caça.
Zudao se distanciou. Queria lamber suas feridas.
Xin quis se aproximar da fogueira, mas sentiu que era sua obrigação cuidar de seu mestre.
Erina chegou a pensar ter exagerado em sua advertência, Kaji rapidamente a mostrou as possibilidades de conflitos que ela efetivamente conseguiu evitar.
Encarou o elemental com um sorriso travesso que foi rapidamente retribuído.
“Você sempre sabe o momento certo de entrar em minha cabeça”, disse Erina em sua mente.
“Eu tento meu melhor!”, respondeu Kaji, dentro de sua cabeça.
— A conversa é tão pessoal que não posso nem ouvi-la? — perguntou Sebastian, sempre observador.
— Você é mesmo detentor de um vasto conhecimento — Sentou-se à fogueira —, ou está apenas tentando me impressionar?
— Acredito que descobrirá em breve — Sorriu orgulhoso.
Sem saber ao certo o tempo que demoraria para a comida chegar, Erina decidiu passar aquele tempo conhecendo seu mais novo membro.
— Conheceu muitos Descendentes?
— Vocês foram os primeiros os quais eu tive a honra. Li muitos livros e histórias a respeito de seus feitos. Pergunto-me, o que é verissímil e falácia.
— Eu me pergunto a mesma coisa...
— Ah, sim. Vossa senhorita não é uma Descendente de sangue, não é? Casou-se com um.
— Sou uma Waltz. Última da minha linhagem.
— Os feitos de sua família são tão impressionantes quanto de qualquer Descendente!
— Obrigada.
— No entanto, sua força... Nunca vi ou ouvi nada parecido. De onde ela vem?
Percebendo como sua mestra estava desconfortável em compartilhar tal informação, Kaji foi ao seu resgate.
— Acredito que antes de exigir sobre o passado dos outros, seja mais apropriado falar sobre o vosso.
“Obrigada, Kaji”.
Sendo pego de surpresa, Sebastian demorou um pouco até conseguir formar novas palavras.
— Ora, essa minha língua solta! — Tentou tampar seu rosto, estava embaraçado. — Peço desculpas, as vezes eu me esqueço em como eu posso ser... enxerido. — Levantou de seu lugar. — Acho melhor eu aproveitar e me desculpar com o idoso. Não quero ter problemas com ninguém da nossa família.
O vampiro deixou a fogueira ainda sem jeito.
— Será que eu peguei pesado? — perguntou Kaji.
— Não sei. Acho que ele ainda está se adaptando ao convívio com pessoas novamente. Vai saber quanto tempo ele ficou isolado...
— Vamos saber da história dele em algum momento.
— Sim.
Como não havia ninguém por perto, Kaji tentou conversar abertamente.
— A senhorita não está bem — comentou.
— Você está em minha mente, sabe o que eu sinto. Sabe pelo que eu passei. Pelo que estou passando...
— Sim, eu sei. E sei da importância de conversar sobre isso. Falar sobre isso.
— Eu tenho você e o Kenshiro, não é?
— Sempre.
Sem trocar mais nenhuma palavra, os dois compartilharam pensamentos e sentimentos. Erina permitiu que algumas lágrimas fossem derrubadas; tristeza, rancor e alegria. Em poucos e simples segundos, levaram uma conversa duradoura de horas.
Retornou a realidade quando Kenshiro apareceu em seu campo de visão, o recebendo com um abraço caloroso.
—Erina?! Está tudo bem? — perguntou Kenshiro, envergonhado.
— Só senti sua falta...
— Não demoramos nem 20 minutos — comentou Takashi, intrigado com o comportamento peculiar de Erina.
Kenshiro encarou seu serviçal, em um único instante, toda a conversa com Erina foi repassado em sua cabeça. Entendendo a razões de sua esposa, abraçou-a adequadamente.
(...)
Todos já estavam reunidos. A carne foi colocada ao fogo e rapidamente feita.
— Vamos lá! Cadê a bebida? — perguntou Zudao.
— Essa noite não — disse Erina.
— Como assim?! Eu fiquei acordado apenas para isso!
— Anteriormente foi uma festa, um momento de descontração para todos se sentirem à vontade e compartilhassem outros lados. Hoje, teremos uma simples conversa.
— HM! Então isso não me interessa!
Ignorantemente, foi até sua cama — ficava mais afastada de todos — e se forçou a dormir. Ainda que estivesse fingindo, igual da primeira vez, ninguém estava se importando com sua presença ou falta; não faria diferença.
— E pensar que ele fez aquele alvoroço todo... — comentou Takashi.
— Bem, acho que é isso... Boa noite — disse Erina, ajeitando-se para dormir junto de seu marido.
— Esperem, não íamos ter uma conversa? — perguntou Takashi.
— A conversa não é com a gente. Hoje foi mais pesado do que pensávamos, espero que entendam.
Não havia como forçar ela ou Kenshiro a permanecer acordados com eles. Despediram-se do casal, desejando que tivessem uma boa noite de sono e que acordassem mais dispostos no dia seguinte.
Sebastian perguntou-se se sua conversa anterior com Erina provocou a sua saída.
(...)
A carne acabou rapidamente.
Sebastian foi o que mais comeu, não desperdiçava um único pedaço, independente do ponto da carne.
— Você... parece estar com fome... — disse Takashi, imaginando o que o vampiro conseguiria fazer com um corpo humano.
— Sim — falava ainda com a boca cheia. — Eu preciso comer uma grande quantidade de carne para abastecer minhas energias.
Xin, igualmente incomodada, perguntou se existia diferença entre as espécies que poderiam nutri-lo mais rapidamente.
Engolindo, grossamente, um grande pedaço de carne, Sebastian refletiu antes de responder.
— Entendo onde querem chegar. Vou revelar um segredo para vocês, espero que escutem com atenção e acreditem em mim.
Deixando a comida e a água de lado, todos inclinaram-se para ouvi-lo. Kaji manteve-se atento, dependendo do que fosse, iria rapidamente informar o casal e acordá-los.
— Eu não me alimento de humanos. Pelo menos, não mais.
Os três encararam-no, desacreditados.
Xin foi a primeira a acusá-lo, lembrava-se de tê-lo visto com sangue humano na boca em seu primeiro encontro. Além da marca de mordida no pescoço daquele em que esteve sentado.
— Sim, eu admito ter provado o sangue, apenas para relatar que meu experimento fora um sucesso.
— O que está dizendo? — perguntou Takashi.
— Kaji pode confirmar o que eu irei falar...
Antigamente, em tempos imemoriáveis, espécies híbridas entre humanos e animais eram comuns. Quanto mais raros e poderosos fossem estes animais, igualmente poderosos eram os Híbridos.
Com a criação dos Caçadores, feras, Híbridos e simpatizantes foram caçados e mortos. Um extermínio sem igual foi feito. Inúmeras raças deixaram de existir, mesmo que a maioria delas sequer tivesse contato com qualquer civilização humana.
— ...Nem sempre os vampiros eram carniceiros, nós nos alimentávamos de animais assim como vocês. Porém algo mudou... talvez essa mudança tenha sido o motivo do extermínio de minha raça...
— Como pode ter certeza dessas coisas? — perguntou Takashi.
— Li muitos livros, revirei bibliotecas inteiras em busca desta resposta. Mesmos os arquivos mais detalhados não possuem qualquer pista sobre o assunto. É como se tivessem esquecido de documentar, ou que essa informação fora apagada da história.
Mas eu tenho certeza de que é verdade. Pois durante muito tempo eu trabalhei o meu paladar até conseguir sentir o gosto da carne animal. O que antes tinha gosto de lixo, agora é uma iguaria! Diferente da carne humana que agora me parece um monte de fezes...
— E quanto a carne élfica? — perguntou Takashi, retirando seu capuz e revelando-se.
Aquilo não foi surpresa para Sebastian. Na verdade, ele ficou surpreso ao descobrir que os elfos não conviviam mais com tanta naturalidade com o restante dos humanos.
— Ah, caro Flecha Fantasma, você não sabe, não é?
— O que?
— Está bem — disse Kaji, aumentando um pouco suas chamas para atrair a atenção de todos. — Agora que se conhecem melhor, está na hora de conversarmos!
Sentados ao redor da fogueira, Kaji fez seu rosto mágico se virar para cada um deles; todos enxergavam-no de frente, mesmo em ângulos contrários.
Embora estivessem céticos a respeito da conversa, fosse pela natureza brincalhona do elemental, ou por sua forma intimidadora de antes, Kaji se assegurou que era muito bom em conversar. Fora o serviçal de gerações dos Torison, responsável por criar e educar suas crianças. Considerado por muitos um segundo pai e mãe.
— Primeiro de tudo — dissertava —, quero que saibam: o que aconteceu hoje foi uma situação atípica. Erina e Kenshiro reviveram algumas situações desagradáveis, mas amanhã estarão bem. Por isso, peço que nenhum de vocês comentem a respeito.
Xin perguntou se poderiam saber sobre o assunto em questão. Não por curiosidade, por querer ajudá-los de alguma maneira.
— Não posso revelar nenhuma informação do qual meus mestres não se sintam confortáveis em compartilhar. Ainda estamos conversando sobre isso...
— Espere um pouco! — interrompeu Takashi. — Como você está “conversando” com eles?
— Senhor Sebastian? Gostaria de compartilhar o que sabe a respeito? — provocou Kaji.
Com um sorriso tímido, sabia que era uma pequena punição por ter descoberto sobre a conversa entre o elemental e Erina anteriormente.
— Pois bem... — Começou.
Todos os seres vivos possuem “ligações” entre si. Essas ligações são responsáveis por fazerem-nos importar com pessoas e objetos. Cada ligação é única e pode ser mais forte ou fraca dependendo de sua respectiva história.
Por exemplo: um filho se importará muito mais com a mãe que sempre esteve presente e cuidou dele com carinho do que com o pai que sempre esteve fora. Em outras palavras, a ligação de um é mais forte que com outro.
Ligações podem ser facilmente fortalecidas por sentimentos. Admiração, amor, mágoa, raiva... qualquer coisa que faça dois indivíduos se conectarem. Uma ligação não necessariamente significa algo bom.
Existem poucas formas de se quebrar esses laços, o principal sendo a indiferença e o perdão.
No caso dos Servos, eles possuem uma visão privilegiadas destas ligações, conseguindo utilizá-las para benefícios de seus mestres.
— Foi assim que Kaji conseguiu ouvir o pedido de socorro de seus mestres — concluía Sebastian. — Além de ser a maneira como ele está conversando com eles agora, enquanto dormem.
— Então... você está fazendo isso ao mesmo tempo?
— Sim e não — disse Kaji. — Ao mesmo tempo que estou 100% aqui com vocês, eu estou dando toda a minha atenção para Mestre Kenshiro e Madame Erina.
— Parece complicado...
— Para vocês, humanos, é algo impossível. Para um ser mágico como eu, é tão natural quanto caminhar usando as duas pernas de maneira automática.
Xin perguntou se existia algum propósito para saberem desta informação.
— Sim. Essa ligação, é o que Erina quer estabelecer com vocês — Todos se surpreenderam. — Não quer dizer que conseguirão ler a mente uns dos outros, mas entenderão rapidamente o que devem fazer em situações de conflito, sem que Erina precise dar qualquer ordem.
Pode parecer estranho ou até inapropriado, mas essa ligação acontece naturalmente no meio militar. Oficiais que possuem as melhores ligações com seus soldados são os que possuem as melhores estatísticas de vitórias nos campos de batalhas, mesmo em desvantagem.
Em silêncio, cada um deles refletiu sobre o assunto.
— E por que está nos dizendo agora? — perguntou Takashi. — Por que Erina e Kenshiro não podem dizer eles mesmos sobre isso?
— Porque nenhum de vocês foi admitido ainda.
Takashi encarou aquilo com confusão.
— Apesar de dois de vocês terem sido convidados, ainda não mostraram que merecem estar conosco. Até lá, vocês são meros... companheiros passageiros.
Sebastian permaneceu neutro. Em sua percepção, os companheiros passageiros eram todos do grupo.
Takashi se sentiu ofendido. Não tinha apenas jurado lealdade, como também fora ameaçado de morte por Kenshiro. Antes de sequer questionar, Xin foi a primeira a falar.
Ela havia compreendido o motivo daquela conversa.
Kenshiro soava com desinteresse em relação a qualquer membro, enquanto Erina parecia se importar verdadeiramente com cada um deles; ao ponto de não conseguir estabelecer aquela conversa, por medo de ferir os sentimentos deles.
Entretanto, aquilo foi uma informação valiosa para Xin, pois isso significava que Erina estava interessada nela como membro de seu grupo.
Olhando por este lado, Takashi se acalmou.
— Posso presumir, pelos segredos — dizia Sebastian —, que essa não é uma jornada comum. E qualquer informação, por mais mínima que seja, deve ser preservada. Ou seja... se qualquer um de nós, souber de qualquer coisa e deixar o grupo, precisará ser silenciado.
— Precisamente — disse Kaji. — Atualmente, apenas Takashi corre risco de vida. Ele não pode deixar o grupo, mas também não provou ser merecedor de nossa confiança.
Takashi engoliu em seco. Sabia que nunca venceria ou escaparia das lâminas do espadachim.
— Então não há com o que se preocupar! — disse Sebastian, alongando-se. — Takashi é o Flecha Fantasma, Xin e eu poderemos sair quando quisermos. E temos tempo de sobra para provarmos nosso valor. Além de que... temos o grande Kaji para nos defender de qualquer mal!
O comentário de Sebastian, embora ingênuo, trouxe calma para os corações de Xin e Takashi.
Era sua intenção.
— Sim — disse Kaji —, temos tempo...
(...)
Com todos finalmente a par de suas posições e deveres, a conversa fora encerrada.
O rosto Kaji desapareceu na fogueira; ainda conversaria o restante da noite com o casal. Informou a eles sobre toda a conversa que teve.
Os três se prepararam para dormir.
Takashi ainda possuía dúvidas em sua mente sobre suas habilidades; Sebastian pouco se importava, nada poderia ser tão grave para o abalar; e Xin mantinha-se neutra, mesmo os sentimentos de esperança e conforto que teve naquela noite parecia não ter sido captados por ela.
Com o fogo diminuindo de intensidade, todos caíram no sono.
Apoie a Novel Mania
Chega de anúncios irritantes, agora a Novel Mania será mantida exclusivamente pelos leitores, ou seja, sem anúncios ou assinaturas pagas. Para continuarmos online e sem interrupções, precisamos do seu apoio! Sua contribuição nos ajuda a manter a qualidade e incentivar a equipe a continuar trazendos mais conteúdos.
Novas traduções
Novels originais
Experiência sem anúncios