Volume 1 – Arco 3

Capítulo 21: Portões do Inferno.

Deixando a caverna, foram recebidos por inúmeros salteadores cercando a entrada, afastados a uma distância segura, mas tampando qualquer rota de fuga. Todos ansiosos pela promessa dos espólios de suas novas vítimas. 

O líder deles, destacado por seus equipamentos de qualidade — deixava o melhor apenas para si —, possuía um rosto familiar; era o próprio clérigo que os guiara. Com um sorriso transparente e olhar malicioso, tinha orgulho de se revelar. 

— Vejo que fizeram amizade com a vil criatura. Neste caso, serei o herói desta história — seus homens riam de seu deboche. — Aventureiros... tão egoístas. Tão fáceis de enganar. 

Para alguns do grupo, uma surpresa terrível; para outros, um infortúnio previsto. 

Kenshiro deu alguns passos à frente, sem medo de encará-lo. 

— Precisará de mais homens se quiser nos enfrentar! 

Ah, eu acho que não... 

Puf! Fssss! Puff! Whoosh! Puf!  

Pequenas bombas foram posicionadas na entrada. Feitas para explodirem em conjunto caso alguém se aproximasse. As pequenas explosões aos pés do grupo não foram fortes o suficiente nem para abalar o equilíbrio, apenas levantaram uma fumaça esverdeada, cobriu o local como uma névoa. 

Ninguém do grupo fora ferido e a fumaça não aparentava ser corrosiva ou venenosa, só possuía um cheiro azedo. 

Sentindo-se tonto e vendo a imagem dos salteadores se duplicar, o casal encarou-se assustado. Sabiam o que haviam inalado. Não tinham muito tempo. Com a risada conjunto de seus inimigos, parecendo crescer em sua mente, Erina teve certeza. 

— VOLTEM PARA A CAVERNA, AGORA! — ordenou, desesperada. 

Confusos e preocupados, nunca viram o casal demonstrar um medo tão genuíno. Obedeceram sem pestanejar; não fora necessária a lembrança de Kenshiro os disciplinando anteriormente. 

Takashi foi o primeiro a entender o motivo da preocupação. Logo em seu primeiro passo, caiu ao chão. Sua perna havia ficado rígida, não conseguia nem a dobrar. Sentia a dormência subindo para o restante de seu corpo. 

Um bandido, astuto e oportunista, aproveitou a chance de começar a semana com seu bolso cheio. Tinham o direito de escolher 1 equipamento daqueles que matassem. Disparou a seta de sua besta com tranquilidade, seu alvo não iria fugir. 

A seta voou rapidamente.  

Todos estavam preocupados demais em fugir para prestar atenção nela. Um único, e sutil , som do corte do vendo era seu sussurrante delator. 

Shink! A seta penetrara na carne. 

Takashi viu o sangue escorrendo rapidamente, assustado ao constatar que rasgara um vaso sanguíneo. 

— Kenshiro! — gritou Takashi, para seu salvador. 

Os instintos do espadachim fizeram-no entrar na frente de seu subordinado. Rápido o suficiente para salvá-lo com seu corpo; lento demais para defletir a seta com sua espada. 

Kenshiro também fora pego de surpresa, não imaginava que bandidos teriam equipamentos de qualidade o suficiente para penetrar tão fundo em sua armadura de couro. 

Percebendo que Takashi estava incapacitado, fosse pelos seus membros ou pelo choque, Kenshiro carregou-o consigo. 

— Seus malditos, aqueles dois são meus! — berrou o oportunista, ao ver que seus companheiros começaram a mirar em seu alvo. 

Antes que outro projétil pudesse os ferir, Kenshiro conseguiu chegar até a caverna, onde Erina tampou a entrada com seu grande escudo. 

Carregara Zudao consigo ao constatar seu abandono por seu marido. Perdoara-o apenas pela circunstância de ter salvado Takashi. 

Do lado de fora, rindo vitoriosamente, o líder se vangloriava. 

— Vocês só estão atrasando o inevitável! Logo não poderão mais se mover, e nós faremos bom usos de seus equipamentos, e de seus corpos... Se quiserem, podem se matar. Sei que o interior de vocês continuará quente, para a maioria de nós... 

Seus subordinados riam e chiavam entre si. Fazia tempo desde a última vez que tocaram em uma mulher. Para os mais desesperados, os corpos masculinos serviriam. 

Porcos... 

Kenshiro foi rapidamente curado. Pôde perceber que a magia de sua esposa estava enfraquecida. 

— Que merda é essa? — perguntou Takashi, caído e imóvel no chão. 

— Sebastian, existe alguma outra saída? — perguntou Kenshiro, focado em encontrar uma solução. 

— Há uma abertura no teto da minha câmara, mas é pequena demais para nós passarmos. 

— Talvez Erina possa abri-la... 

— Não posso, não... — Todos encararam-na. — Já estou paralisada — Sequer conseguia virar seu rosto. 

Xin tentou gesticular algo, seus dedos estavam rígidos demais para movê-los. 

Concluindo que restava pouco do que se fazer, Takashi armou seu arco o melhor que pôde, só precisaria se concentrar para mover 1 dedo. 

“Eu posso, ao menos, eliminar um deles”, pensou. 

Kenshiro possuía uma resistência maior que todos de seu grupo, mas a seta que o atingira fizera os efeitos acelerarem. Sentindo seus dedos ficarem dormentes, sabia que em poucos minutos seria o próximo a ficar paralisado. 

“Se todos estiverem próximos, poderia eliminá-los. Mas... os atiradores não irão se aproximar”, tentava criar um plano de ação. 

Sebastian percebeu ser o único ainda imaculado, não sentia nenhum dos efeitos. Tinha conhecimento que aquilo não era algo característico de sua raça, havia feito algo que o deixara imune ou resistente aos sintomas. 

Jogando sua bolsa ao chão, começou a revirá-la. Ignorava os frascos vazios e anotações; concentrava-se nas plantas e remédios caseiros. 

— O que está fazendo? — perguntou Kenshiro, esperançoso. 

— Acho que eu possuo o antídoto! 

— Não vai dar tempo — disse Erina —, sinto eles se aproximando... 

Todos se calaram. 

Shh-shh-shh... o som dos passos sobre a grama ficava maior. 

Mesmo com o antídoto, não sabia ao certo o tempo que levaria para fazer efeito.  

Ainda que demorassem para retirar seu grande escudo, Erina acreditava não ter tempo o suficiente. 

Ao menos, pensava ela, não o suficiente para garantir que todos de seu grupo saíssem ilesos. 

Sem alternativas, Erina utilizou o máximo de sua força para encarar o seu marido; conseguira apenas vê-lo com um de seus olhos. Seu olhar refletia seus pensamentos. Kenshiro concordou.  

Era hora de convocar o membro mais forte do grupo para a batalha. 

— KAJI, ATENDA AO NOSSO CHAMADO! 

***

Do lado de fora, o falso clérigo terminava seu discurso vitorioso. 

— ... Então não sintam vergonha de terem perdido para mim: Rodrigo, o mestre dos planos infalíveis! 

Apenas o silêncio fora emitido pela caverna. 

Pressupondo que todos tivessem tirado a própria vida, ou que estavam paralisados, Rodrigo autorizou seus homens a retirarem o escudo. 

Quatro deles tentaram, um de cada ângulo, parecia estar preso às pedras, como se fizesse parte da própria estrutura da caverna. 

Qualé seus molengas? Parecem até bixas! — gritava Rodrigo, desacreditado nas afirmações de seus homens. — Quatro marmanjos desses, não dão conta de uma mulher? 

Os demais riram de sua gozação. 

Respirou fundo, queria gargalhar de orgulho de suas próprias chacotas. 

HAHA- WOOOOOOOO!!! Sua risada foi cortada por um apito grave que surgiu em suas costas que rapidamente ecoou por toda mata atingindo o coração de cada salteador. 

Nas sombras das árvores, erguia-se uma criatura luminescente. Grande o bastante para ser criada uma lenda a seu respeito; terrível o suficiente para aterrorizar os sonhos daqueles que o vissem; zangada demais para agir com prudência. 

Sua armadura, tão negra que roubava a luz ao seu redor, brilhou resplandecentemente até chegar em um dourado avermelhado. Os pequenos buracos, espalhados por toda a armadura, eram os responsáveis pelo seu apito tenebroso; quando o fogo de seu interior ardia fervorosamente, o ar escapava com violência, criando um timbre que remetia a sua ira. 

Rodrigo acreditava estar diante de um demônio. 

Ingênuo. Preferiria que fosse um. Para seu deleite, veria os Portões do Inferno abrindo para ele e seus homens. 

Através de seu elmo, cujas únicas aberturas estavam na região da boca — semelhantes às grades de uma prisão —, Kaji fez questão de esquentar duas esferas avermelhadas para simbolizar seus olhos. 

Ele estava olhando para Rodrigo. 

A armadura de Kaji remetia a uma prisão. Sua fúria estava contida, mas o elemental faria questão de despejá-la naqueles que ameaçavam sua família. 

Não entendendo a magnitude daquele que estava diante deles, os salteadores só puderam gritar em desespero. 

Ignorando seus arredores — acreditava que seus mestres estavam seguros por tê-lo convocado —, berrou em frenesi. Seus gritos enfurecidos, misturados ao apito que exalava de seu interior, profetizaram o destino de seus inimigos. 

***

Dentro da caverna, enquanto tentavam ignorar os gritos, labaredas e explosões, o grupo recebia o antídoto administrado por Sebastian. 

— Kaji parece um pouco... bravo, não é? — comentouTakashi, amedrontado. 

— Não — disse Kenshiro. — Ele só está se divertindo. Afinal, faz 4 meses desde a última vez que ele fora convocado. 

— 4 meses? Está dizendo que...? 

— Os Portões do Inferno se abriram novamente... 

Kenshiro demonstrou um sorriso simplório, não estava impressionado. 

Erina mantinha-se concentrada em tampar a entrada o melhor que podia. Seu escudo estava quente o suficiente para suas mãos se queimarem, mesmo com suas manoplas grossas; sua magia curativa havia retornado, curando e aliviando suas dores.  

Não podia abrir uma fresta sequer, do contrário, todos queimariam. 

Xin pôde voltar a mover suas mãos, ainda que lentamente. Perguntou ao vampiro como havia descoberto tal antídoto. 

— Na verdade — disse ele, orgulhoso —, concluí que algo do meu café da manhã me protegeu, pois fui o único que não fui afetado. 

Surpreendentemente, seu chá matinal continha as ervas que anulavam os efeitos daquela paralisia. Misturou rapidamente à água e deu para todos beberem. Desculpou-se pelo gosto amargo. 

Ainda aguardando o término do combate, Sebastian aproveitou para passar uma pomada em sua pele. Xin questionou se precisavam passar também. 

— É apenas um óleo que costumo passar para me proteger do sol. Imagino que o calor desse “Kaji” poderá me afetar. 

— Então é verdade que vocês se queimam? — perguntou Kenshiro, querendo saciar uma dúvida infantil. 

— Veja, o sol queima todos nós, independente da pele ou da raça. Eu só preciso de um pouco mais de proteção que vocês. 

— Poderia explicar? 

Graças a sua idade milenar, atrelada à suas experiências pessoais, Sebastian possuía sabedoria, conhecimento e paciência para compartilhar o que sabia. Porém... 

— Chega — disse Erina, encerrando todas as conversas. — Parece que acabou. 

Os gritos haviam se encerrado. 

Movendo seu escudo, Erina acabou destruindo parte da entrada, ampliando-a um pouco. 

“É um nome apropriado”, pensou Takashi ao vislumbrar o campo de batalha deixado por Kaji. Era uma descrição quase perfeita do que os soldados viram em Valéria. 

No meio do campo, esperando pacientemente, estava Kaji de braços cruzados. 

Todos encararam-no admirados e intimidados por sua forma imponente, representando toda a força destrutiva do fogo.  

Era de fato o mais forte dentre eles. 

Ainda com humildade, o elemental curvou-se quando o casal se aproximou. 

— Mestre Kenshiro, madame Erina, eu atendi vosso chamado. 

Se como fogueira, aparentava uma criança; um ser quadrúpede, assemelhava a um adulto; como guerreiro, era o mais experiente soldado e sobrevivente de inúmeras batalhas. 

Sua voz carregava uma dor oculta, o peso da sua verdadeira idade. 

— Agradecemos por ter-nos ouvido — Reverenciaram-se ao elemental. 

— Mantive o líder vivo, intocado. Exatamente como madame Erina queria. 

O grupo encarou aquela decisão com dúvida. 

O elemental apontou a direção de Rodrigo que se rastejava tentando uma fuga ingênua. 

Erina caminhou pacientemente até alcançá-lo, pisando rudemente em seu pé, quebrando-o. 

— Aaaaaaaahhhh!!!  

Todas as queimaduras de seu corpo foram causadas na tentativa de sua fuga; tentara, inutilmente, atravessar a barreira flamejante que o elemental havia posto ao redor dos bandidos. Barreira que Kaji apagara para melhorar a temperatura ambiente para seus mestres. 

Percebendo que não conseguiria fugir, Rodrigo desistiu. 

Erina caminhou mais um pouco, ficando à frente dele. Se ajoelhou para conversar. 

— ... 

Não conseguia imaginar as palavras adequadas para seu agressor. 

— Veja — Tentou Rodrigo —, eu sei que começamos com o pé esquerdo, mas... você viu como foi fácil te enganar? Tenho certeza de que serei útil no seu grupo singular. Eu... 

Shhh... — pediu Erina, gentilmente. 

Um pouco mais calmo, Rodrigo aquietou-se. 

— Você é de Favéria, não é? — perguntou ela, estranhamente emotiva. 

— Como você...? 

— O veneno... Desculpe-me, a “fragrância” que você utilizou, é algo que os moradores desenvolveram. Você é de lá, ou é filho de alguém? 

— Não, eu nasci em Favéria mesmo... consegui fugir quando tinha 8 anos. 

— E hoje você tem...? 

— 32, senhora. 

— E seus homens, também eram de lá? 

— A maioria, sim. Outros quiseram se juntar a nós. 

— 24 anos... Foi uma longa jornada que você fez até aqui. Nunca tentou arranjar um emprego, tentar uma vida comum? 

— Um morador de Favéria, jamais conseguiria, senhorita. Sobrevivi com o que eu podia fazer. Eu... 

— Entendo... — Seu tom mudou, estava fria. — Ao invés de tentar construir uma vida digna e respeitosa, você escolheu a pilhagem, a mentira, a enganação, o assassinato, o abuso de mulheres e crianças... 

— N-não! Eu... 

— Já que essa foi sua escolha, o tratarei adequadamente. 

Erina se levantou.  

Estava cansada em conversar com o verme. 

— Kaji — Ordenou —, marque-o. 

O elemental aguardava suas ordens atrás de Rodrigo. Sua fumaça quente escapava pelas frestas de sua armadura. 

O bandido tentou fugir novamente, foi pego por Kaji, agarrado na cabeça pela mão flamejante. 

Aahh! Aaaaaahhhhhhhhh!!!!! 

Apenas o metal em alta temperatura já seria o suficiente, Kaji fez questão de esquentá-lo ainda mais, fazendo o metal brilhar e a fumaça de sua mão ser atirada contra o restante do corpo de Rodrigo. 

Xin, Sebastian e Takashi tentaram desviar o olhar. 

— Não — advertiu Kenshiro. — Vejam bem, esse não é um destino comum para nossos inimigos. É a punição daqueles que ferem nossos princípios. O destino dos traidores... 

O trio obedeceu. Engoliram o orgulho, ignoraram o remexer de seus estômagos. Assistiram à tortura sem ousar piscar. 

Xin era quem estava mais incomodada. 

Com a temperatura voltando ao habitual, Kaji soltou o bandido. 

Ele estava irreconhecível. 

Todos os pelos de seu corpo haviam queimado até não sobrar nenhum. Marcando, quase que por toda a cabeça, uma marca da terrível queimadura que só não era pior que sua face desfigurada e derretida. 

Kaji havia tomado cuidado para deixá-lo sentir toda a dor possível. Na medida certa para que não desmaiasse ou morresse. 

Rodrigo sacou sua adaga para se ver, ficando horrorizado com resultado. Anos de cuidados e embelezamento arruinados em poucos segundos eternos. 

Ainda com a adaga, tentou acabar com a própria vida. Recuou no último segundo, antes de efetuar o corte em seu pescoço. 

Era covarde ou orgulhoso demais para isso. 

Envergonhado consigo mesmo, rastejou até a caverna. 

O grupo ainda olhava para Rodrigo em sua forma patética, até Erina chamar a atenção de todos. 

Ei! Vamos, já perdemos tempo demais por hoje. 

(...) 

Chegando à carruagem, Sebastian tentou colocar Zudao dentro dela. 

— Não — advertiu Kenshiro. — Você o desmaiou, você carrega. 

Ah, entendi, esse é sua Passagem. 

Pela maneira como o casal o encarou, Sebastian teve certeza de sua suposição. 

— “Passagem”? O que seria isso? — perguntou Takashi. 

— Depois explicamos — disse Erina —, agora temos uma estrada para nos concentrar. 

Antes de permitir o vampiro se agarrar ao suporte da carruagem, Kenshiro resolver dar um aviso. 

— Sei que está ansioso, e quer demonstrar seu conhecimento, mas não tente dizê-los abertamente. Existem pessoas que não queremos que descubram nossos segredos. 

Sebastian encarou o espadachim. Estava com um olhar frio e determinado. 

O aviso também era uma ameaça. 

— Eu entendi. Garanto que não se repetirá. 

— Pois bem. 

Com todos em seus lugares, deram continuidade a jornada.

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