Volume 1 – Arco 3

Capítulo 20: Descuido.

Com o segredo de Xin revelado, todos sentiam-se constrangidos em se olharem; o julgamento era inevitável. 

Ainda teriam tempo para conversarem sobre o assunto, à noite. Durante o dia, não podiam se dar ao luxo para distrações e conversas paralelas; foco era primordial. 

Felizmente, algo estava para distraí-los... 

— Há um homem parado na estrada à frente — alertou Takashi. 

— O que? — questionou Zudao, acirrando os olhos, enxergava uma mera pulga adiante. — C-como conseguiu enxergar aquilo?! Como pode saber que não é um mero animal? 

Kenshiro sorriu orgulhoso, seu arqueiro estava finalmente mostrando serviço. 

— Tentem agir com naturalidade — disse Erina, friamente. — Prestem atenção aos arredores, só eu falo. 

Conforme se aproximavam em silêncio, pensamentos e presunções dos mais variados eram feitos pelo grupo. O bater das patas do corcel flamejante sincronizavam com seus corações; ansiavam por qualquer ação. 

Takashi e Kenshiro coçavam as mãos, ansiosos para sacar suas armas ao menor sinal suspeito; Zudao, convencido que se tratava de um homem comum, tentava se posar da melhor maneira possível; Xin mantinha-se terrivelmente quieta, presa em seus próprios pensamentos; Erina mantinha um semblante sério, precisava transparecer segurança. 

“Não há nada para se temer”, dizia para si mesma. 

(...) 

Estando em plena vista de todos, o homem levantou-se do chão, pulava e gritava para ser visto. 

Parecia errado ignorá-lo. 

A carruagem desacelerou, suficiente para terem uma conversa — e para fugirem em disparada. 

Ah, que alívio. Pensei que não fossem sequer me ver... — disse o homem, aproximando com cuidado. 

— O que quer, “padre”? — perguntou Erina, rudemente, encarando-o com desdém. 

Com vestes brancas com dourado, juntos dos adornos simbólicos em cruz, era justificável pressupor que se tratava de alguém religioso. Embora fosse jovem demais para exercer qualquer função merecedora de tais vestimentas pomposas. 

— E-eu... S-sinto muito tê-los a-a-atrapalhado, aventureiros — dizia ele. Buscava ser breve, mas seu nervosismo o atrasava. — B-bem q-que eu queria esperar por uma pa-patrulha imperial, mas nenhuma apareceu. 

— Por acaso és “es-estúpido”? Esta estrada vai até uma cidade-livre! Nenhuma patrulha imperial passará por aqui. 

— M-mas...! Há t-três dias, havia passado uma patrulha por aqui! T-talvez eu tenha me perdido um pouco do meu caminho... 

— Não damos carona, Hyah! 

Kaji começou a correr, abandonando o moribundo. 

Após inalar um pouco de poeira, e tossi-la, o próprio começou a persegui-los desesperado, desengonçadamente. 

— E-esperem, por favor! Ao menos... ao menos me ajudem a recuperar meus pertences, eu posso pagar! 

O homem tentava estabelecer um contrato com o grupo. Afinal, dinheiro era o “pacto de sangue” dos mercenários e aventureiros. 

— Não há nada que você possa oferecer que seja do nosso interesse — respondeu Erina, sem olhar para trás. — Além do mais, estamos com pressa. 

— Não! Eu não posso voltar para aquela caverna sozinho! Aqueles olhos ainda me assombram... 

Screeech! A carruagem parou. 

Na tentativa de não bater contra o transporte, o homem acabou tropeçando nos próprios pés, caindo ao chão. 

Erina desceu da carruagem, pegou o homem pelo ombro e o encarou. Seu semblante sério se transformara em preocupação. 

— Qual era a cor dos olhos?! 

— V-vermelhos... 

(...) 

Sem tempo a perder, o grupo se preparou. 

Kaji foi deixado para trás junto da carruagem, ficariam escondidos em meio à mata, longe da estrada; Kenshiro e Takashi inspecionavam seus equipamentos, não podiam permitir que uma falha acontecesse com eles em caso de um conflito; Zudao ainda estava seguro de si, não entendia a importância daquela atividade; Xin permanecia quieta; Erina vestiu seu elmo, não queria que vissem sua expressão. 

“Mesmo que as chances sejam mínimas, preciso ter certeza”, pensou ela. 

— F-fico feliz que tenham m-mudado de ideia. 

— Por favor — disse Erina, grosseiramente —, pense antes de falar; seu gaguejar já está me irritando. 

— C-certo... quero dizer... — respirou fundo, tentou esconder um sorriso estranho —, claro. 

— Fale do pagamento: qual sua proposta? 

Embora não tivessem realmente interesse, qualquer dinheiro fácil era bem-vindo. 

— Não tenho muito a oferecer, mas com minhas ferramentas eu posso preparar algumas poções que serão uteis para sua aventura, tenho certeza. 

— Por exemplo? 

— Posso criar diferentes anestésicos que aliviarão quaisquer dores. 

“É inútil para nós. Ao menos poderemos vender por algum preço”, pensou Erina. 

— Onde está a caverna? 

— Não estamos longe agora. 

Apenas alguns minutos de caminhada e a tal caverna apareceu. 

A entrada era muito estreita para Erina passar com seu escudo, fora obrigada a seguir sem ele. Mesmo que sua armadura enroscasse em algumas partes, utilizaria sua força para abrir sua passagem. 

Erina não arriscaria estar desprotegida. Não contra ela. 

O medroso homem resolveu ficar do lado de fora, aguardaria pelo retorno dos aventureiros com a cabeça da vil criatura. 

Sem o homem para incomodá-los, passando pelo estreito corredor, eles debatiam. 

— Nunca imaginei que seria confundido como um simples aventureiro — disse Zudao, desapontado por não ter sido confundido como o líder do grupo. 

— Mas é o que somos — disse Erina. — Não estamos ligados a nenhuma facção, reino, bandeira ou senhor; estamos em uma jornada cujo fim nós sequer sabemos o que nos aguarda; e somos no mínimo diversificados. Somos aventureiros. 

— Vocês, sim. Eu não pretendo acompanhá-los depois de chegar à Shenxi. 

— Tudo bem, mas enquanto estiver conosco, saiba seu lugar. 

Fosse uma ameaça camuflada ou demonstração de aceitação, Zudao entendia que não era líder de ninguém ali. 

— Não estou querendo questionar sua decisão — disse Takashi —, só não entendo o motivo de estarmos aqui. 

— Só quero confirmar uma coisa — respondeu Erina. — Eu ficaria nossa jornada inteira incomodada se não visse com meus próprios olhos. 

— Do que está falando? 

Erina não respondeu. 

Se a pergunta de Takashi demorasse apenas 5 segundos a mais, o silêncio de Erina teria sido justificado. O caminho estreito se abriu para uma câmara. 

Havia um buraco no teto onde luz e chuva vinham, responsáveis pelo nascimento das plantas e musgos. 

O ambiente natural e aconchegante era o lar de pequenas criaturas, morcegos. Todos mortos e mutilados por três homens que se encontravam em situações ainda piores. Seus corpos estavam dilacerados, alvos de uma fúria descontrolada daquele que fora responsável por alimentar e criar os morcegos. 

O responsável estava sentado, pacientemente, acima do corpo de sua última vítima. O rastro de sangue que escorria de sua boca não fora causado por um ferimento, mas sim de sua última refeição. 

Ao perceber que novos intrusos vieram até seu recinto, o homem se levantou. Estudava-os, calmamente. Não tinha pressa para o que estava por vir. 

Utilizava vestimentas antigas. Uma grande manta escura e elegante cobria-o dos pés até o pescoço. Por dentro, estava um colete branco bem costurado. 

Ainda cansado de seu ataque anterior, abriu a boca para respirar. Seus caninos, destacados e superiores aos demais, estavam visíveis para todos. 

Se ainda não foi o suficiente para descobrir de quem se tratava, talvez seus olhos vermelhos e pele pálida revelassem se tratar de um vampiro. 

Takashi e Xin armaram-se, sem nenhuma ordem ou sinal. 

— O que estão fazendo? — questionou Kenshiro. 

Zudao fora ainda mais rápido, batendo seu cajado no chão. Raízes cresceram ao redor do vampiro, prendendo-o. 

O vampiro os encarou desinteressado, parecia entediado. 

— Mais de vocês? — Sua voz, áspera e impactante, ecoava pela caverna. — Ao menos, desta vez, resolveram utilizar equipamentos melhores... Pois bem... 

Ao ser envolvido por uma escuridão repentina, ele desapareceu. 

— Teletransporte! — Batendo seu cajado novamente, as raízes voltaram para o solo. 

— Não, Zudao! — alertou Erina. — É um truque, é invi... 

O vampiro reapareceu, estava diante de Zudao, socando-o contra a barriga. O impacto fez o idoso voar contra a parede, a pancada em sua nuca deixara-o inconsciente. 

Xin e Takashi, instintivamente, tentaram atacá-lo. O arqueiro saltou para trás, puxando sua corda ao máximo. A a jovem mirou nas pernas do vampiro, buscava incapacitá-lo. 

— Não ataquem! — ordenou Erina. 

Ambos ignoraram, fosse pela adrenalina, ignorância ou por não a considerarem sua líder. Kenshiro supôs o pior. 

Com o estalo do chicote e o disparo da flecha, ambos foram jogados ao chão pelo espadachim, antes do ataque ser efetuado. Suas armas retiradas de suas mãos. 

O vampiro, intrigado com o grupo singular, recuou suas garras. Querendo entendê-los, deu alguns passos para trás para observá-los e ver quais atitudes tomariam. 

— O que pensa que está fazendo?! — questionou Takashi, sentindo o peso do joelho de Kenshiro em seu peito. 

Xin não era capaz de responder, estava com as mãos presas entre o chão e seu corpo. 

— Vocês desobedeceram a uma ordem direta! — disse o espadachim, apoiando-se contra os dois, esmagando-os um pouco mais.  

— Você não consegue ver que tem um vampiro tentando nos matar?! 

— Cale essa sua boca, e observe... 

Irritado, Takashi obedeceu. Desejava ver o vampiro atacando, apenas para abalar Kenshiro e satisfazer seu próprio ego. No entanto, o que se seguiu deixo-o transtornado. 

Oh? Então você não planeja me matar? Interessante... Me pergunto o motivo... 

— Peço perdão pela minha invasão — Erina levou a mão ao peito e curvou-se, semelhante a uma cavaleira. — Temo tê-lo confundido com outra pessoa. 

Ora, sei que sou antigo, mas não há necessidade de tanta formalidade, me tratar como igual será mais que o suficiente — O vampiro cutucou o próprio nariz, demonstrando não se importar com formalidades, sua fala era apenas um costume. — Então diga-me, quem procuras? 

— Não. Não vem ao caso agora, não é o momento para essa conversa. 

— Devo concordar. 

Estando mais calmos, Kenshiro soltou a dupla. Fez questão de encará-los um pouco mais, um sinal de advertência para não repetirem o erro. 

— Então, você é do bem? — perguntou Takashi. 

— Defina, “bem”. Eu sou um ser que necessita se alimentar de outros seres vivos? Sim, igual todos os animais, eu suponho. Eu gosto de matar? Não, sinto remorso até daqueles que merecessem. Farei algum mal a vocês? Somente se for para minha proteção. 

Xin gesticulou, imaginando que todo o monólogo do vampiro fosse significar um “sim”. 

— Peço desculpas, de fato eu gosto de falar — Demonstrava saber sobre Signês. — A maioria das vezes estou a pensar e falar sozinho. Não me lembro da última vez que estive com outro alguém que não tentasse me matar. 

— E o que planeja fazer agora? — perguntou Kenshiro. 

— Gostaria de dizer que todos os planos da minha agenda foram remarcados, mas acredito que seja mais apropriado dizer que “foram pro caralho” — Todos deram uma breve risada. — Estaria me convidando para seu grupo, ou preciso preencher algum requisito? 

— Só precisamos saber que podemos confiar em você — disse Erina, voltando a um tom mais sério. 

— Entendo. Garanto que não irei morder vossos pescoços quando estiverem dormindo. E pela maneira como você conduz seus subordinados, senhor — encarou Kenshiro por um momento —, qualquer ordem que a mim for proferida será cumprida de imediato. 

— Simples assim? — perguntou Takashi. 

— Acredite meu jovem, ficar com vocês será um belo passatempo para eu esquecer minhas dores recentes. Mesmo que fiquemos meio século juntos, algum dia irei esquecer de suas vozes, seus rostos, nomes, até suas meras existências. 

Xin comentou que aquilo parecia algo cruel. 

— Mas até esse dia chegar, serei vosso subordinado mais leal — Dobrando os joelhos, fez uma reverência harmoniosa, algo que, no passado, era natural entre os nobres, mas que hoje exige aulas para ser imitado. — Sebastian Drakul ao seu dispor. 

Ignorando sua robusta armadura, Erina recriou a reverência que lhe fora ensinada por sua mãe, assemelhava-se a uma princesa. 

— Eu sou Erina Waltz, líder deste grupo de aventureiros. 

Intercalou outra reverência, apresentandos seus membros. 

— O espadachim é o segundo no comando, Kenshiro Torison, meu marido. O garoto que tenta parecer misterioso é Takashi, o Flecha Fantasma atual. 

Takashi fez questão de demonstrar seu descontentamento pelo seu segredo revelado. 

— E quanto ao idoso e a jovem? 

— Não são membros oficiais, poderá conhecê-los ao anoitecer. 

— Entendo. 

Ao ver o incômodo de Xin, por não ser devidamente apresentada, Takashi imaginou que estivesse em uma posição confortável e de confiança. Sentiu pena de sua amiga. 

Antes de partirem, deram tempo para o vampiro pegar suas coisas.  

Kenshiro precisou carregar Zudao em suas costas, teria trabalho para passar pela passagem estreita. 

Ao revirar seu esconderijo, Sebastian retornou apenas com uma bolsa cheia de frascos e plantas. 

— O que seria isso? — perguntou Erina. 

— Minhas ferramentas, sou um herborista e praticante da alquimia.

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