Volume 1 – Arco 3

Capítulo 19: Conciliação.

A festa só acabou junto da carne e o álcool, o combustível de suas ações irracionais. Ainda que estivessem cheios de energia, Erina insistiu para que todos aproveitassem as 3 horas que restavam para dormir, antes que o sol nascesse. 

Xin, interpretando o pedido como uma ordem, foi a primeira a se arrumar. Da maneira como deitou, dormiu. 

Takashi foi o próximo, não queria ver o ritual que o casal fazia para dormir; entendia que era um dos poucos momentos íntimos entre eles. 

A tontura ainda o incomodava.  

Aceitar a competição de bebedeira com Kenshiro fora uma péssima escolha. 

Quando o sono finalmente o convidou, rapidamente se arrependeu de ter aceitado seu convite. 

Pesadelos sobre sua vida pareciam ainda o perturbar. A morte de seus conhecidos, amigos, irmãos. Kuroda, Hitoshi — seu antigo mestre — e mesmo o Pai estavam lá, todos o culpando pelas suas mortes. 

É claro, não era culpa de Takashi. Sua consciência pesava ainda pela sua inexperiência. 

Sentia as trevas lentamente o engolindo, seu corpo estava reagindo, sua respiração fora cortada, morreria dormindo. Então uma luz surgiu no céu, libertando-o. Não precisou sequer tentar alcançá-la, a luz veio até ele e tocou em seu rosto. 

— Takashi, levanta — disse Erina, acordando-o com delicadeza, a mão em seu rosto. Takashi respirava aliviado. — Está tudo bem? 

— Sim... só tive um pesadelo — Levantou rápido, envergonhado pela maneira que fora acordado. — Espere, não estou com enxaqueca? Como? 

— Estou aliviando suas dores — disse Erina —, sei como ressaca pode ser incômoda. Ainda assim, peço que beba bastante água no restante do dia. 

— Sim, senhora. 

Takashi foi de encontro a Kenshiro, não queria fazer corpo mole. 

Erina se preparou para acordar Xin. 

“Nem sequer mudou de posição, parece mesmo um objeto”, constatou ela. 

Com um simples toque em sua pele, Xin despertou. Levantou-se rapidamente, como uma armadilha sendo acionada. 

— Está tudo bem? — perguntou Erina, intricada. 

Xin confirmou que não havia com o que se preocupar, havia descansado o bastante, embora não compreendesse como que em poucas horas havia dormido tão bem. 

Erina sorriu para si mesma, não imaginava que o ambiente de Kaji pudesse ser tão benéfico. 

— Poderia acordar Zudao? Temo que não serei tão delicada com ele. 

Xin acatou o pedido como um soldado, acordou o velho de maneira grosseira, ainda melhor do que Erina teria feito por si mesma. 

Zudao levantou preguiçoso, levanto o tempo que queria para se espreguiçar. Quando terminara, todos estavam prontos para partir. 

— E o café da manhã? — perguntou ele. 

— Não tive tempo de preparar hoje, amanhã farei algo para compensar — disse Erina, controlando-se para não se irritar. 

— Nem pensar! O café da manhã é a refeição mais importante do dia! Precisa de ovos, bacon, café, açúcar, pão, manteiga... 

— Acontece que não temos tempo para perder durante o dia. Se está tão incomodado faça seu café e tente nos alcançar depois. 

Erina estava pronta para seguir em frente, Zudao percebera que precisava mudar sua conduta se não quisesse ser abandonado ou morto. 

— Está bem! Me desculpa! —Impressionados, todos sabiam que o idoso não possuía tal caráter. Aquela desculpa era humilhante para ele. — Podemos só conversar por um momento, antes de partirmos? Sei que precisamos acertar nossas diferenças. 

Erina desceu da carruagem, era a primeira vez que estavam concordando em algo. 

— Serei direto com vocês: eu estava acordado ontem de noite, eu... 

— Kenshiro, não! 

Zudao não teve tempo de terminar, o espadachim estava com as lâminas contra seu pescoço. Os olhos de Kenshiro estavam fixos em seu alvo, ansiando para finalizar seu ataque. 

O idoso caiu para trás, assustado com a velocidade. Erina havia salvado sua vida, ordenando para que seu marido parasse. 

— Volte para a carruagem, não tente fazer isso novamente — ordenou ela. Erina caminhou até o idoso. — Continue — Estendeu a mão para ele. 

Zudao aceitou a ajuda. 

— Eu sei do interrogatório, não culpo vocês por terem o feito. Eu devo ter dado motivos para suspeitarem de mim. 

— Motivos têm de sobra. 

— Sim, eu sei. Procuro ao menos esclarecer alguns deles, já que teremos que seguir essa jornada juntos por algum tempo. 

Erina estava visivelmente incomodada, não queria criar simpatia com o tipo de Zudao, mas precisava tolerá-lo em seu grupo. Sabia que em pouco tempo, ela ou Kenshiro iriam acabar matando-o por algum motivo fútil. 

— Pois bem. Como Xin se tornou sua Escrava? 

— Juro que não foi minha intenção. Ela passou por um grande trauma, sua mente não conseguiu suportar, e atribuindo a culpa da morte de seus pais a mim, ela se induziu a se tornar minha escrava. 

Cada palavra proferida por Zudao era estudado e analisado por Erina, não iria suportar uma única mentira.  

Ele não dava indícios de estar mentindo. 

— E você tem culpa pela morte dos pais dela? 

— Infelizmente, sim. Veja, Shenxi é uma cidade muito pobre e numerosa, nosso lago é responsável por nos alimentar. Certo dia, estávamos com pessoas de mais e peixes de menos. Eu não tinha nada negociar com as demais cidades em troca de comida, e nenhuma queria fazer caridade, tive que tomar decisões extremas... 

— Você selecionou pessoas para morrerem?! 

— Não! Elas mesmas que escolheram. Mulheres e homens acima dos 30 anos de idade. No caso de pais, precisavam-te alguém para deixar os filhos. Xin possuía uma tia que concordou cuidar dela. 

— O que aconteceu? 

— Eu não queria matar eles no meio da cidade ou nos arredores, e queria que partissem de uma maneira indolor e rápida. Eu os levei até uma antiga torre e lá eu administrei um remédio que tirou a vida de todos. Foi como se estivessem caindo de sono. 

— Em que momento Xin entra nessa história? 

— Naquele dia, ela fugiu da casa de sua tia, foi até a torre, e viu eu administrando os remédios em seus pais. 

— Ela disse que todos encontraram “deus”, o que ela quis dizer? 

— Era apenas uma das maneiras de eu reconfortá-los. Eu disse: o sacrifício de vocês garantirá um encontro com deus”. Acredito que minha sentença deva ter ficado cravado em sua mente. 

— Certo, mas se você é o senhor dela, por que não a liberta? 

— Eu já tentei, mas ela sempre tenta acabar com a própria vida! Eu queria que ela encontrasse outra coisa para se agarrar e continuar vivendo, não posso aceitar que ela morra assim. 

Erina olhou para Xin, ao vê-la escondendo o rosto em vergonha, soube que a história continuava verissímil. 

— Essa é uma decisão dela, não deveria se meter. 

— Eu... não consigo. 

Erina suspirou, a história era mais complexa do que ela havia imaginado. 

— Tá, tá. E quanto a Budai? Você o quer como aliado, mesmo sendo inimigos? 

— “Inimigos”? Isso é um pouco imaturo! Temos filosofias e crenças diferente, sim, mas nada que nos faça inimigos! É claro, minhas crenças são o que me impedem de adentrar seu templo, mas eu busco apenas o melhor para meu povo. 

— E o que você busca, realmente? 

— Francamente, qualquer coisa. Está mais do que claro para mim que Shenxi não irá se manter por muito mais tempo, isso acabará com a morte de todos, seja pela fome ou por um ataque. Eu preciso da ajuda de Budai para salvá-los, seja multiplicando nossos peixes ou nos levando para algum lugar seguro. 

— Precisa mesmo de um Herói para isso? 

— Eu já tentei a ajuda do homem comum. Nenhuma cidade, nem o Império, muito menos as cidades-livres, ninguém quis nos ajudar quando perceberam que não receberiam nada em troca. Os Heróis ajudam as pessoas em troca de nada desde os tempos antigos. Budai é minha última esperança. 

Erina suspirou novamente. Absorvendo todas as informações novas, sabendo que eram verdade — ou pelo menos muito bem elaboradas —, achou justificáveis as ações de Zudao. 

— Sabe, senhor. Se não fosse tão ranzinza, talvez eu não o tivesse tratado tão mal. 

— O mal da idade chega para todos, minha cara. 

— A sabedoria também — Erina estendeu o braço para um aperto de mãos. Buscava demonstrar que iria confiar mais em Zudao, além de querer o seu perdão. 

Zudao apertou sua mão. Havia aceitado as desculpas. 

Xin olhou de relance, sentindo um arrepio incômodo pelo seu corpo. Sentia-se frustrada ao ver os dois se aproximando. 

— Agora vamos, temos uma longa estrada pela frente. 

Com todos posicionados em seus lugares, a carruagem começou a se mover. 

Erina encarou Xin, ainda estava envergonhada ao ter seu segredo revelado. Sabia que a informação havia feito mal a ela, mas foi necessária para conseguir a confiar em Zudao. 

“Talvez Xin não queira ser salva”, pensou Erina.

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