Volume 1 – Arco 2

Capítulo 16: Incertezas.

Depois de tantos ocorridos envolvendo a magia do Hall e do próprio Pai, todos concordaram em jogar seu corpo no poço. Takashi percebeu que o poço estava muito menor, quase raso, diferente da vez que mergulhara. 

Justificou sua demora, contando tudo havia passado. O casal não ousou duvidar, seria difícil segurar a respiração por 23 minutos, alguma magia estava envolvida. 

Permitiram que Takashi tivesse mais alguns minutos para refletir. Havia acabado de perder toda a sua vida em um único dia. 

Enquanto isso, decidiram dar atenção à Xin. 

— O que veio fazer aqui? — perguntou Kenshiro, rudemente. — Não lhe demos uma ordem para ficar do lado de fora? Você não disse que era tão fiel a nós quanto é com seu mestre? 

Xin, assustada com a maneira como era interrogada, não conseguia formular nenhum sinal corretamente. Suas mãos tremiam e lágrimas estavam se formando. 

Percebendo a mudança corporal e mental da moça, Erina interveio. 

— Amor, deixe comigo. 

— O que? 

— Eu converso com ela. Cuide do Takashi, tenha certeza que ele não faça nada estúpido. Eu o quero com a gente. 

Kenshiro revirou os olhos, ainda não apoiava a ideia de recrutar alguém que tentara os matar. Porém, como não era o líder de seu grupo, precisava acatar suas ordens. 

***

Erina levou Xin para a entrada do covil, onde massacram os assassinos que os atacaram. A pobre garota ainda estava assustada, em choque com a maneira como o espadachim se comportou, sentira que sua vida corria perigo se respondesse qualquer coisa errada. Verdadeiro. Ironicamente, seu nervosismo a impediu de responder qualquer coisa. 

Erina tentou a acalmar, segurando o rosto da jovem com ambas as mãos, gentilmente, fazendo-a olhar em seus olhos. 

— Xin — a voz calma e convidativa —, o que houve? Você está diferente. 

Xin desculpou-se três vezes. Explicou que havia sido ordenada por Zudao a investigar o esconderijo em busca do casal. Como Erina não estava por perto para desassociar a ordem, foi obrigada a cumpri-la. 

Existe uma pequena linha mágica entre Mestres e Cativos. 

Com Marionetes e Escravos, a distância desta linha é importante. Quanto mais distância, mais fraco é a magia. As marionetes podem se libertar, e os escravos se tornarem rebeldes. 

Com os Servos, não existe limite de distância, mas sentimental. Se o Servo não gostasse de seu mestre, poderia se tornar rebelde e até recusar ordens. 

Como a distância dela e de Zudao havia se tornado grande demais, sua personalidade havia retornado, mas ainda precisava cumprir sua ordem. E como Erina não havia ordenado nada a respeito de seu comportamento, Xin podia portar-se à sua maneira. 

— Zudao mudou sua personalidade? 

Xin explicou que precisava se comportar mais como um serviçal de honra e menos como uma garota rebelde. Depois de tantos fracassos, uma ordem direta foi a única coisa que a fez mudar. 

— O que mais ele pode fazer com você? 

Xin não fazia ideia. 

— Se Zudao me deu autorização de mandar em você, significa que posso libertá-la? 

Xin negou. Erina conseguiria apenas libertá-la dela mesma, ainda seria escrava de Zudao. 

Erina estava ficando sem ideias, então Xin lembrou-se de algo.  

Embora possuísse uma memória fragmentada, seu cérebro ainda possuía todos os seus conhecimentos de toda a sua vida.  

Um escravo, precisava ser funcional.  

Um escravo general necessitava de seus conhecimentos de batalha, estratégia, formação de exército para ser útil. Um escravo cozinheiro tinha que manter suas noções sobre como fazer um prato delicioso. Do contrário, ninguém teria escravos. 

Quaisquer memórias afetivas de seu passado apenas atrapalhariam. 

Xin acredita que perguntas simples e objetivas poderiam revelar informações valiosas, deveriam ser feitas sem que Zudao as soubesse. 

— Podemos começar? 

Xin negou. Ela não tinha certeza se suas respostas seriam precisas, pois suas habilidades diminuíam conforme seu elo ficava mais fraco, existia a chance de sua memória também piorar. Precisavam fazer as perguntas próximas de Zudao, sem que ele descobrisse. 

Erina pensou com calma.  

Snap! Ao estalar dos dedos mostrou que uma ideia surgiu rapidamente. 

— Já sei o que fazer! 

***

Takashi ainda estava ajoelhado, recitando uma pequena oração de olhos fechados. 

— Isso aí vai demorar? — perguntou Kenshiro, apoiado na parede. 

— Você é tão inconveniente assim, ou poupa apenas sua esposa? — Levantou-se lentamente, encarando o espadachim com desdém. 

— Posso ver que seu arco não foi a única coisa que mudou... 

— Se quer me falar alguma coisa, fale. 

— Você acabou de perder sua família, seu amigo, tudo que conhecia e lutava. Quero saber o que você pretende fazer. 

— Acha que planejo me matar? 

— Não sei. Você planeja? 

— ... 

Takashi pegou seu arco, começou a vislumbrá-lo enquanto sentia a superfície da madeira. 

— Não. Não planejo — respondeu ele. — Satisfeito? 

Kenshiro andou até o assassino. 

— Quer ajuda para enterrá-los? Podemos dar dignidade à morte deles. 

— Não há necessidade, seus espíritos já foram libertados. Fomos ensinados a matar nossos alvos da maneira mais rápida possível, não queríamos que nenhum deles se tornassem Renascidos. Ao menos o Pai manteve isso até o fim. 

E pela maneira como você e Erina estavam sujos, posso presumir que os outros também tenham morrido rapidamente. Embora não tivesse tido uma morte limpa... 

— Não te incomoda deixá-los assim? 

— São apenas corpos agora, uma carne que irá apodrecer e deixar apenas os ossos. Eu já fiz os meus votos para cada um deles, minha consciência está tranquila. Além do mais, esse lugar... ninguém mais deveria utilizá-lo, nem como abrigo da chuva. 

Takashi começou a caminhar para fora do Hall, mas foi impedido por Kenshiro que segurou seu ombro. 

— O que aconteceu naquele poço para você ter mudado tanto? 

— “Um quadro em branco”, foi o que eu me tornei. 

— Está me dizendo que essa é sua personalidade agora? 

— Ela te incomoda? — Virou-se para encarar o espadachim. 

— Ela é falsa — Deu um passo para frente. Não se sentia intimidado. — Por acaso, era assim que o Pai se portava? Ou esse é o seu antigo mestre? 

— Hitoshi. Sim. Essa é personalidade do Flecha Fantasma anterior. Imaginei que precisava me inspirar em alguém sábio, honroso e correto para pintar meu quadro. 

— Não está se inspirando, está copiando-o. 

— Por mim tudo bem. 

O arqueiro virou-se novamente. 

— Não existe nada para se inspirar em você mesmo, Takashi?! — perguntou Kenshiro, irritado. 

Takashi parou. 

Suspirou profundamente. 

Retirou seu capuz e máscara. 

O espadachim podia ver que o arqueiro possuía um cabelo curto, loiro, liso e sedoso. Algo difícil de se manter até entre os nobres. 

Ao virar, Kenshiro entendeu o motivo. 

Os olhos de Takashi eram azuis como água cristalina — lembraram-no de Anna —, grandes como joias. Sua pele era lisa e perfeita, parecia que brilhava pela simplória iluminação da caverna. 

Nenhum humano conseguiria manter tamanha qualidade morando em um lugar tão antiquado. Takashi era um elfo. Suas orelhas pontiagudas, uma prova incontestável. 

— Como veio parar aqui? — perguntou Kenshiro. 

— Não é uma história para agora. O que você precisa saber é que Takashi possui uma história apenas de tragédias e escolhas ruins. Não quero me basear nele para me tornar o Flecha Fantasma dessa geração. 

Se meu quadro precisa ser uma cópia de meu antecessor, isso me servirá. Cansei dos meus fracassos. 

Kenshiro não conseguiu suportar mais, socou o elfo no meio do rosto, derrubando-o e fazendo seu nariz sangrar. 

— Pare de falar besteiras! Só porque tomou algumas decisões erradas na vida, agora está com medo de decidir por conta própria?! Precisa mesmo se basear numa pessoa morta para seguir em frente?! 

— Cale... a boca... — Takashi tentava se recuperar. — Não sabe nada do meu passado. 

— E parece que você também não! Quer mesmo esquecer do Kuroda? Ele morreu querendo te salvar, e assim que você retribui? 

Takashi não respondeu. Encarou o chão, suas lágrimas caíam timidamente. 

Kenshiro respirou fundo, precisava recobrar a razão. 

— Está bem — Estendeu a mão. — Faremos o seguinte: 

Takashi estava muito quebrado para tomar decisões sozinhos, era um fato. Abatido demais para seguir em frente. Perdido demais para planejar seu futuro. 

Kenshiro e Erina tomariam as decisões por ele. Em troca, Takashi precisava pintar seu quadro em branco de maneira autônoma, desenvolver sua própria personalidade e não a copiar de alguém. 

— Por que você se importa? — Pegou a mão. 

— Não me importo — Levantou-o. — Erina se importa. 

— Pode levar anos para que eu me molde. 

— Nosso grupo fará uma grande jornada, também levará anos. Além de ser a melhor chance de você encontrar seu sucessor. Não existe opção melhor pra você. 

— Sim... acho que é verdade. 

Kenshiro caminhou para saída. 

Parou bruscamente ao lembrar-se de um detalhe. 

— Só torça para não encontrar seu sucessor ainda no início. 

— Por quê? 

— Não carregaremos peso morto. E... se quiser deixar nosso grupo, eu o matarei. 

Kenshiro partiu. 

Takashi caiu de joelhos. Levando a mão ao peito, sentia dificuldade para respirar e seu coração batia com força. 

Ansiedade, medo ou pânico? Ele não sabia. Kenshiro havia escolhido as palavras certas para impactá-lo. 

Sua entrada ao grupo havia o deixado em uma prisão.  

Envergonhado consigo mesmo, Takashi se ajoelhou corretamente, bateu a cabeça contra o chão, parecia estar pedindo perdão. 

“Por favor, mestre Hitoshi. Eu não sei o que fazer! Quem eu sou? Quem eu sou?!”. 

Nenhuma resposta. 

Abandonado, o jovem elfo se levantou, limpou as lágrimas de seus olhos, o sangue de seu nariz, e seguiu em frente. Vestindo novamente seu capuz e máscara, se encontrou com o restante de seu novo grupo.  

Ao sentir a maneira como o jovem fora machucado, Erina brigou com seu marido, beliscando seu ombro. Rapidamente curou o arqueiro. 

— Melhor agora, não é, Takashi? — perguntou Erina. 

— S-sim, obrigado. 

A voz calma de Erina fazia o jovem se envergonhar. 

Um sentimento conflitoso emanava dentro dele. Não entendia os motivos para nutrir carinho por pessoas que acabara de conhecer, mas sentia que estava seguro. Algo que demorara anos para ter com Kuroda, em menos de um dia havia sido estabelecido com Erina. 

Saíram da caverna. 

***

— Mas que bosta. Estão demorando demais. Será que eu deveria entrar? 

O covarde idoso mal se moveu de seu lugar.  

Assustou-se ao ver pessoas saindo, ficando aliviado ao notar quem eram. 

— Finalmente! — Percebeu a presença do arqueiro. — Ué, um dos assassinos resolveu ficar? Tanto faz... 

Os quatro trocaram olhares, decidiram que era melhor não compartilhar nenhuma informação. Xin manter-se-ia calada, a menos que recebesse uma ordem direta. 

— Onde vamos agora? — perguntou Takashi. 

— Não é óbvio? Para Shenxi! — respondeu Zudao. 

— Não — interveio Erina. — Vamos voltar para a cabana. 

— Por que diabos iremos demorar mais? Um herói está aguardando por vocês, e irão... 

Erina parou de caminhar, encarou o idoso de cima e respondeu: — se está tão incomodado, senhor Zudao, sinta-se livre para partir. Ninguém está te impedindo —O idoso se encolheu, não respondeu. — Se esse é o caso, fecha sua matraca. 

Em completo silêncio, todos acompanharam Erina até a cabana de Reiji. 

***

Um pouco antes da cabana pudesse ser avistada, o relinchar de um cavalo chamou a atenção de todos. O som do animal era poderoso igual a um trovão, e o simples bater de suas patas dianteiras ao chão foi o suficiente para eles sentirem seu peso. 

Um poderoso corcel flamejante estava os esperando, puxando uma majestosa carruagem de séculos passados. Criada para transportar monarcas e nobres, seria utilizada para levá-los até o fim de sua jornada. 

O casal exibiu um sorriso confiante; Takashi, mesmo embaixo de sua máscara, não conseguiu esconder que estava impressionado; Zudao acreditava que se tratava de uma criatura demoníaca, retirada de contos supersticiosos, escondendo-se atrás de sua escrava; Xin permaneceu neutra, mas estava profundamente curiosa. 

Andando à frente, abandonando seu mestre covarde, ela perguntou se o animal se tratava do Servo do casal. 

— Isso mesmo — disse Erina, acariciando o corcel. — O nome dele é Kaji. 

Diante do elemental, Xin inclinou seu rosto levemente para o lado. Kaji a acompanhou. Tentando se aproximar, ela estendeu a mão; queria acariciá-lo. Kaji recuou, não por desconfiança, não queria ferir a jovem. 

Zudao, sentindo-se confiante, ao perceber que o animal era dócil, tentou demonstrar sua superioridade. Segurou-o pelas rédeas e tentou forçar um contato. Kaji quase arrancou-lhe a mão com uma mordida. 

HAA! — O idoso caiu ao chão. 

— Cuidado — advertiu Kenshiro — Ele não confia em estranhos, principalmente tratando de mestres e senhores de escravos... 

Hm... — Levantou-se do chão, não aceitava ser menosprezado — Os Servos não são muito diferentes dos escravos, Kenshiro. São seres inferiores cujo único propósito é obedecer. Tenho certeza que seu sangue não é mais limpo que o meu! 

— Como é? 

O espadachim sacou lentamente suas espadas enquanto caminhava na direção do velho. Zudao tentou recuar, caindo ao tropeçar em uma garrafa que aparecera atrás de seu pé. 

— Acha mesmo que somos parecidos, eu e você? — perguntou Kenshiro, mirando como um águia pronto para dar o bote. — Posso não ser um santo, mas nunca me atreveria a fazer nada com crianças. 

As lâminas se aproximavam, arranhando a terra ao passar. 

Enquanto Erina e Takashi olhavam curiosos, Xin tentava novamente se aproximar do animal. 

Erguera sua mão, parando momentos antes de tocá-lo. 

Kaji olhou fixamente para a palma da mão da jovem, podia ver os calos e machucados; entendia que ela era uma mulher com um passado obscuro. Ainda não podia tocá-la. 

Em contrapartida... 

Kaji fechou os olhos, se concentrou para aumentar sua temperatura. 

Sentindo a palma de sua mão esquentando, Xin sorriu ao entender a intenção do elemental. 

Erina, observara a aproximação dos dois em silêncio, ficou satisfeita ao reconhecer a humanidade que ainda residia na jovem. 

Takashi tentava segurar Kenshiro para que não matasse Zudao. 

 — Ffffiiiuuu! — Erina estava sentada no lugar do condutor da carruagem. Xin estava ao seu lado. — Subam logo na carruagem, ou ficarão para trás. Hyah! 

Com o bater das rédeas, e o grito de Erina, Kaji começou a galopar, levando a carruagem consigo. 

Kenshiro e Takashi conseguiram se segurar na carruagem sem muitos problemas. Zudao foi deixado para trás, precisando correr para tentar alcançá-los. 

Conforme a distância ficava maior, Xin voltou a se comportar como uma humana comum. Seu sorriso e alegria ao ver seu mestre sendo deixado de uma maneira tão cômica, encantou Erina, que rapidamente voltou a ficar séria ao lembrar-se da condição da garota. 

“Não se preocupe, Xin. Iremos libertá-la. Eu lhe prometo”. 

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