Volume 1 – Arco 2

Capítulo 15: Individualidade.

Takashi estava mergulhando em busca de seu arco. 

De olhos fechados e com seus sentidos perturbados, só podia se guiar pelas paredes do poço caminho abaixo. Tentara abrir os olhos, uma terrível ardência o fizera retroceder sua decisão; não arriscaria perder sua visão. 

Depois de longos minutos mergulhando, tendo a certeza que não deixara nada passar por ele, forçou-se a abrir os olhos. Takashi foi surpreendido ao perceber que não havia chegado nem próximo da metade da profundidade do poço. 

Não sabia o tempo que ficara desacordado, imaginava que seu arco estivesse no fundo. Precisava se manter calmo para ter o ar o suficiente para chegar até ele. O caminho de volta, ele não queria pensar a respeito. 

Mergulhando mais, tomou o apoio das paredes para se impulsionar. 

Até não ter mais aonde apoiar. 

Seu último mergulho o fez dar rodopios na água, havia perdido o senso de direção, nenhuma parede ou fundo estava lá para o guiar. 

Quando se estabilizou, foi forçado a abrir os olhos. 

“Isso é... um aquífero?!”, pensou Takashi, contemplando um oceano inteiro diante dele 

A passagem do poço ainda estava acima dele, seu caminho de volta. O maior problema ainda era o seu arco, não fazia ideia de como recuperá-lo. 

A quanto tempo ele esteve prendendo a respiração? 

Foi quando percebeu, seu fôlego continuava inalterado. Ainda estava sobre o efeito de alguma magia. Embora não pudesse saber se seus efeitos estavam ligados além do tempo e espaço, Takashi concluiu que era um desperdício tentar entender. 

Fechou seus olhos, suas pupilas começaram a embranquecer. 

Não havia nenhuma correnteza, seu arco só poderia ter continuada a afundar. 

Takashi persistiu em seu mergulho. 

(...) 

Quando passou uma hora, Takashi teve sua confirmação da magia presente. Seu folego se mantinha firme. Não queria acreditar que a luta já havia se encerrado, seu senso de urgência ainda apitava. 

Estava com medo da possibilidade de enfrentar o Pai sozinho. 

“Não! Mesmo que eu não chegue a tempo, sei que os dois darão conta”, dizia a si mesmo. 

A desunião que sofrera com sua família o obrigara — inconscientemente — a buscar abrigo em novas pessoas. O casal, recém-conhecidos, tratou-lhe de maneira tão respeitosa, além de demonstrarem afeto por sua vida, era impossível para Takashi não se afeiçoar. 

Não queria apenas buscar seu arco por razões egoístas e autopreservação, queria proteger seus novos amigos. 

(...) 

Quando dias se passaram, os primeiros sinais de agonia começaram-no a afetar. Estava com medo de perder a visão após tantas vezes abrir os olhos. Porém, o que mais o assustava, era não saber se esteve mergulhando para baixo ou para qualquer outra direção. 

Estava perdido. 

Seguia adiante pelo simples fato de não saber retornar. 

(...) 

(...) 

... 

Quanto tempo se passara desde que Takashi mergulhou? 

Se o tempo seguisse normalmente, mantendo as demais características mágicas, Takashi teria tido umas 100 vidas. Ao menos em sua mente. 

Seu braço direito — seu braço bom — havia finalmente se desprendido de seu corpo após tantos movimentos repetitivos, o mesmo acontecera com suas pernas anos atrás. Se não fosse por seu último membro, seria apenas um monte de carne flutuando para o além. 

Para passar o tempo, sua mente lhe fez reviver toda a sua vida em suas memórias. Foi dura o suficiente para mostrar-lhe todas as suas escolhas e possibilidades que negara.  

Líder de sua família; mestre de seu discípulo; aposentado e casado; um simples fazendeiro; revolucionário de sua raça; e mero assassino coadjuvante. 

Escolhera o caminho mais fácil, sem riscos, sem conquistas. 

Aprendera a nunca ter arrependimento de sua vida, mas agora entendia, havia negligenciado aquilo que tinha de mais importante: Kuroda. Seu fiel amigo e companheiro, afastado pelo simples desejo de se tornar Flecha Fantasma, atender às expectativas de seu mentor — as quais nunca existiram. 

Percebendo que o único culpado de sua situação era ele mesmo, lamentou não ter salvo Kuroda e por não conseguir salvar Kenshiro e Erina. 

Entregou-se de corpo e alma para a água. 

Não tinha mais medo de sua acidez e de qual maneira agonizante seria a sua morte. Ainda era melhor que continuar com a vida que escolhera. 

Carregado pela água, Takashi inspirou profundamente. 

Havia acabado de recuperar seu fôlego. 

Porém, o que lhe chocou, foi que ao fechar os punhos, sentiu em sua mão direita o seu arco. Espera, ele não havia o perdido? Puxando-o com força, percebeu que estava sendo segurado por mais alguém. 

Temendo que fosse a criança afogada, Takashi ousou pensar em fugir, mas ao receber um toque gentil e quente em sua testa, pôde entender aquele que o segurava. 

— Meu jovem aprendiz — disse Hitoshi, Flecha Fantasma anterior. — Vejo que finalmente se tornou uma tela em branco. Pinte seu lindo retrato, da maneira que lhe for mais agradável. 

Mesmo que estivesse cego, mesmo que acidez da água o assustasse, Takashi queria tanto ver seu mestre uma última vez. Suas lágrimas ajudando a abastecer o poço. 

Abriu os olhos. 

Deparou-se com as paredes do poço, havia chegado ao seu fundo. 

A água não ardia. 

Olhando para cima, percebeu que a distância era menor do que a primeira vez que abrira os olhos. 

Não dando importância se tudo se tratava de magia, ilusão ou um truque de sua mente, precisava retornar. 

***

Erina mantivera-se sentada durante todo o combate, algumas sombras tentaram ferirem-na, mas sua armadura não pôde sequer ser arranhada por suas adagas. Estava completamente protegida. 

Kenshiro por outro lado, possuía tantos cortes em seu corpo, o tecido de suas roupas escureceu-se. Os ferimentos mais graves foram curados, seu coração bombeando rapidamente o sangue que lhe faltava. 

Seus pulmões, aflitos pelo pouco ar que conseguia respirar, chiavam em agonia para cada movimento que o espadachim fazia. 

23 minutos haviam se passado desde que Takashi havia mergulhado. 

— Erina, vamos logo com isso! — sua voz, áspera e com chiados. 

— Não! Precisamos confiar nele! Ele vai voltar! 

Hahaha! — As sombras paravam de atacar nos poucos intervalos que o Pai falava. — Seus tolos, por que acreditar em um desconhecido que tentou matá-los mais cedo? 

— Takashi é uma boa pessoa, ele merece nossa confiança! — respondeu Erina.  

Kenshiro não compartilhava de sua opinião. 

— Confiança e honra são só um sinônimo de fraqueza! Se quer algo bem feito, faça você mesmo! Nunca teria percebido isso, se não fosse por ele. 

— “Ele”? — perguntou Erina. 

Queria estender a conversa, dar mais tempo para Kenshiro descansar. 

— Meu senhor, meu Deus. Fiz um juramento, com o sacrifício da minha família, e a morte de Erina Waltz, eu me tornaria sua Sombra. Um expecto de sua vontade. Eu estaria em todos os lugares do Continente, e qualquer um que fosse contrário a ele, seria meu alvo! 

— Você... é insano! 

— Chame-me do que quiser, Erina Waltz. Seu sangue é o que meu mestre anseia, e eu irei extraí-lo! 

Erina, cansada de escutar a ética maculada do Pai, queria ter certeza que não havia mais nada relacionada ao líder que Takashi dizia ele ter sido. 

— Todos esses anos, todos os seus filhos, não significaram nada para você?! 

— Foram um desperdício do meu tempo, sentimentos e recursos. Se seu tempo como líder fosse maior, você entenderia. Subordinados são apenas os peões de um jogo de xadrez, só servem para ser sacrificadas em nome de seu Líder. 

Erina retraiu seu elmo, seus dentes rangendo e olhar determinado, enfatizando sua fúria. Seus punhos tremiam pela força que os fechava. 

— Eu nunca... trataria as pessoas, as vidas, daqueles que confiam em mim assim! Eu nunca seria tão desprezível como você! 

Os olhos de Erina começaram a brilhar em dourado, seu cabelo começou a levantar e as pontas se tornaram loiras. 

Kenshiro sentiu todos seus ferimentos sendo curados rapidamente. Seus pulmões voltaram a funcionar com perfeição. Seu coração batia aceleradamente. 

Entendeu que era hora de encerrar aquele embate. 

Sacando suas duas espadas, apenas esperava pelo sinal de sua esposa. 

Bwoosh! Takashi emergiu do poço. 

Sua chegada chamou a atenção do casal, que olhou para trás. O Pai aproveitou para invocar todas as sombras que possuía, iria ao menos matar o espadachim em seu ataque. 

Takashi estava com seu arco, mas não havia nenhuma flecha em sua aljava. Ainda assim, ele puxou a corda até seu peito. 

De olhos fechados, ele sentiu o peso de uma flecha se formando. Sabia que entre todas as sombras, apenas uma era o Pai. Não precisava enxergar, sabia onde estava seu alvo. 

Uma flecha mágica foi criada, uma coloração roxa estava iluminando o Hall. Quando as sombras foram tocadas pela luz, elas desapareceram, restava somente uma. 

Takashi soltou a corda, manteve os olhos fechados.  

A flecha cortou o vento, sendo tão rápida que Kenshiro nem pôde notá-la. 

O casal voltou sua atenção para frente, havia acabado de sentir o perigo das sombras, elas já haviam desaparecido. A escuridão persistia, nenhuma sombra tentou atacá-los. O Pai estava calado. 

— Acabou — disse Takashi, descendo do poço. 

Lentamente, a luz voltou a iluminar o Hall dos Contratos.  

A passagem que se fechara estava de volta, assim como os corpos de todos os assassinos que foram mortos pelo Pai, dentre eles, estava Kuroda. 

Preso na parede, ao lado de sua cama, estava o Pai, com uma flecha em seu coração. Estava morto antes de perceber que fora atingido.  

Seu rosto e corpo assustaram ao trio, ele estava magro, com uma barba longa, dentes faltando, e careca. Muito diferente da aparência nobre que Takashi se lembrava. 

O arqueiro se ajoelhou ao lado de seu falecido amigo, podia finalmente lamentar por sua morte. 

— Takashi, seu arco — Indicou Erina. 

O arco velho e desgastado havia mutado completamente. Estava novo, feito de uma madeira de qualidade que somente os nobres ferreiros imperiais utilizavam para seus generais. Até a corda fora trocada por outro material mais firme. 

Não era pra menos. Cada Flecha Fantasma recebia um arco de acordo com os melhores materiais de sua geração. 

Takashi ficou encantado com seu novo arco, de maneira que não pôde perceber que Erina e Kenshiro estavam paralisados. Somente quando uma súbita sensação de perigo o dominou que percebera a maneira em que se encontrava. 

Não conseguia se mover, mas seus sentidos estavam ampliados. Sua vida estava correndo perigo. 

Não havia nada à sua frente e em seus lados, só poderia significar que... 

Ao olhar para trás, viu algo inacreditável. 

— Morra, Flecha Fantasma! — O Pai ainda estava vivo, mesmo com uma flecha em seu coração paralisado. 

Erina ainda estava concentrada na dupla de assassinos. Kenshiro percebera o Pai, mas estava longe demais para matá-lo com suas lâminas. Takashi demorara demais para se virar, mesmo que tentasse armar seu arco, não conseguira evitar sua morte. 

Vsst-thuck! O Pai parou bruscamente seu ataque, encarou Takashi no fundo dos olhos, então tombou para o lado. 

O trio encarou aquilo com dúvida, até verem uma kunai presa na nuca do Pai. Uma fina corta estava amarrada em seu cabo. A arma fora puxada com força, sendo levada para a entrada do Hall. Xin segurava a kunai presa ao seu chicote. 

Sua expressão de surpresa e medo, acompanhava os demais. 

Deixando sua arma cair ao chão, ela perguntou se somente ela viu o homem com uma flecha em seu peito. 

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