Volume 1 – Arco 2
Capítulo 14: Mau Revelado.
Gotas caíam ao chão, incessantemente. A caverna não possuía nenhuma estalactite. Não. Eram as gotas de sangue que escorriam de Kenshiro e Erina.
O casal estava bem, nenhum ferimento.
A armadura de Erina, sem arranhões. Seus punhos, por outro lado, manchados por sangue, ossos, e restos de órgãos de seus inimigos. Seu elmo, também manchado, possuía o dente daquele que recebeu sua cabeçada. Em seu peitoral, uma grande e assustadora mancha avermelhada; havia abraçado — esmagado — um assassino até a morte.
As espadas de Kenshiro, platinadas e elegantes, estavam em uma coloração carmesim horripilante; uma onda dançante de morte, cravada em suas lâminas. Por não possuir uma armadura que o cobrisse por inteiro, estava com rastros de sangue em seu rosto, cabelo, pescoço e braços.
“Foram eles que ousaram nos atacar primeiro”, eram suas justificativas.
Nenhum deles aparentava estar incomodado. Não eram as primeiras pessoas que eles matavam.
Apressados, mas mantendo a calma, estudaram a passagem do Hall, cautelosamente.
Deduziram que o ambiente fosse mágico, a luz natural não conseguia iluminá-la. Precisavam ter o cuidado redobrado.
Erina levou à frente seu poderoso escudo, cuidaria da vanguarda, sendo o primeiro alvo e o mais destacado. Kenshiro protegeria a retaguarda; sabia que era o mais frágil, mas não corria perigo.
Avançaram
A passagem se fechou logo em seguida.
Kenshiro se certificou que não era apenas um truque ilusório. A passagem havia se transformado em uma parede de pedras. Não havia mais volta.
Avançaram, mantendo a formação.
O silêncio do ambiente era incômodo, apenas suas próprias respirações eram ouvidas.
Avançaram, à passos curtos.
Nenhuma luz ou orientação para seus olhos, perdidos na escuridão.
Pararam, trocaram olhares.
Sentiram o ambiente mudar. O ar e a pressão já estavam causando-lhes suas primeiras adversidades. Não poderiam ficar lá por muito tempo.
Parados, eles esperaram. Não desperdiçariam suas energias nem para andar. Sabiam que nenhuma pessoa comum conseguiria sustentar um ambiente mágico por muito tempo. Tinham a certeza de que se não dessem o primeiro movimento, seu adversário seria obrigado a dar.
(...)
Assim ele o fez.
Uma luz avermelhada surgiu, iluminava um pequeno poço de pedra. Kuroda e Takashi estavam atirados ao lado.
Mesmo que quisesse correr para salvá-los, Erina teve de se controlar. Um único movimento em falso, e todos poderiam morrer.
Avançaram, passos mais largos, ainda calculados.
Quando finalmente chegaram à dupla, Erina pôs seu escudo nas costas. Kenshiro precisaria cobri-los.
— Como eles estão? — perguntou o rapaz.
— Kuroda está bem, sem ferimentos, apenas está desmaiado — Erina repousou o jovem, dando atenção àquela que estava mais ferido. — E Takashi foi... afogado? — Encarou o poço, imaginando como fora o ocorrido.
“Se ele foi afogado, por que não o deixaram morrer? Kuroda conseguiu salvá-lo a tempo?”, questionou Erina, tentando reanimar Takashi.
— Acorda, Kuroda! — Kenshiro chutou a perna do jovem, forte o suficiente para fazê-lo acordar.
— Aaaahh! O que? — Olhando para a escuridão, pouco se importou com a dor.
— Kuroda, olhe para mim! Preciso que nos explique o que é esse lugar.
O jovem levou a mão à cabeça, tentava forçar sua mente a lembrar.
— O Hall dos Contratos... É também os aposentos do Pai, ele tem domínio total daqui. Nunca o venceremos aqui dentro. Precisamos encontrar uma saída e trazê-lo para fora, é o único jeito.
— A passagem que usamos se fechou! Existe alguma outra?
Kenshiro ficou um pouco amedrontado ao ser informado pelo perigo que estavam passando, no entanto, ainda duvidou a respeito: “Se ele é tão poderoso, por que não atacou ainda?”.
— Cof! Cof! Cof! — Takashi despertou.
— Calma, calma. Respira, está tudo bem — disse Erina.
A mulher mantinha toda a sua atenção para o jovem assassino, queria ter certeza que o mesmo se recuperasse sem sequelas; não queria utilizar sua magia no momento.
Estava indefesa.
Kenshiro olhava atentamente para a escuridão, circulando os três enquanto tentava favorecer os seus sentidos.
Estava ocupado.
Takashi havia acabado de despertar, ainda estava zonzo e fraco. Não era nenhuma ameaça.
Estava derrotado.
Ninguém representava uma ameaça para ele naquele momento.
Swish! Um corte rápido ao vento.
— Ah?! AAAAAAAHHHHHH!!!
— Ku...roda? — Takashi, ao ver seu amigo, ficou horrorizado.
— MEU BRAÇO!!! — gritou Kuroda, soltando a sua adaga a centímetros do pescoço de Erina.
Os sentidos de Kenshiro eram muito aguçados, ainda mais quando se tratava da proteção de sua esposa. Eles nunca haviam o abandonado, por isso golpeou aonde acreditava ser necessário, mesmo que não conseguisse ver o alvo.
Erina, chocado ao ver Kuroda tentando matá-la, recuou para trás de seu esposo.
O espadachim mantinha suas espadas sacadas, não tinha coragem de finalizar o serviço, queria entender os motivos do jovem ter feito aquilo.
Takashi, assustado em ver seu amigo ferido e lamentando pelo seu membro decepado, soube rapidamente a quem culpar.
— Kenshiro! Seu maldito! Por que fez isso? Por que atacou o Kuroda?! — Kuroda aproveitou para correr escuridão adentro, onde sua voz se tornou mais áspero. Era uma voz a qual Takashi já ouvira antes. — Não... não pode ser...
— É o Pai — disse Erina, tomando a frente. — Kuroda não está mais aqui.
— Não. Não! — Takashi correu em direção à escuridão.
— Espera! — Kenshiro agarrou-o a tempo — O que pensa que está fazendo?!
— Kuroda ainda pode estar aqui. Ele deve estar perdido na escuridão! Preciso resgatá-lo!
— Seu idiota! Só vai acabar se matando também!
— Não me diga o que fazer, você não é meu pai!
Erina, buscando resolver rapidamente a situação, tomou Takashi do espadachim, e deu-lhe um tapa. Havia retirado a luva para garantir que não arrancasse o rosto do jovem.
— Takashi — Sua voz firme. — Se não fizermos nada, o Pai matará todos nós. Existe alguma forma de derrotarmos ele ou sairmos daqui?
Takashi ainda estava absorvendo o tapa, lembrava aos poucos todas as informações e relatos que conhecia sobre o Pai, sua força, técnicas, e o Hall dos Contratos.
— Não... ele é realmente invencível aqui. Não sei ao certo o que ele pode ou não fazer, mas quando a sala se iluminou para mim, não pude sequer vê-lo.
Não existia problema em enfrentar alguém invisível, ou estando com a visão comprometida. A questão era o tempo. Quanto mais tempo passava, mais fracos eles ficavam. Mais chances tinha o Pai de derrotá-los.
Os gritos cessaram.
O trio sentiu a pressão aumentando, parecia que pesavam toneladas. E o ar se tornara rarefeito.
— Desistam — falou o Pai. — Não podem me vencer aqui. Rendam-se e eu prometo dar-lhes uma morte rápida, como fiz com Kuroda.
Apesar da dificuldade até em respirar, Takashi decidiu enfrentá-lo.
— Como pôde? O que diabos é tudo isso?
— Takashi. Jovem, pequeno e reles, Takashi. Não consegue ver? Tudo que faço é por um bem maior. Não importa o tamanho de nossa família, ou quão bem treinada ela fosse, nunca conseguimos impedir a morte daqueles que juramos proteger, ou acabar com a corrupção de uma única cidade imperial. Não foi por falta de tentativas, não, não... Simplesmente não podíamos estar lá, antes que algo acontecesse.
Agora, com o sacrifício de minha família, foi-me prometido o poder que eu sempre almejei. Poderei finalmente estar em todos os lugares, ao mesmo tempo! Não será apenas a Capital que limparei, mas todas as cidades, de todo o Continente!
— Você... está realmente perdido.
O Pai, o melhor amigo de seu mestre, o homem que servia como inspiração para ele e seus irmãos, o pai adotivo de seu melhor amigo, estava morto. Aquele homem era apenas seu inimigo, um alvo a ser eliminado.
Prontamente, Takashi tentou sacar seu arco, mas o mesmo não estava mais com ele. Ao olhar para trás, para procurá-lo, não pôde perceber que o Pai já tentava atacá-lo. Uma sombra saiu da escuridão, segurando uma adaga manchada de sangue.
Antes de ser apunhalado, foi salvo por Kenshiro que cortou a cabeça da sombra. Desapareceu no simples contato das espadas, era frágil.
Takashi caiu para trás ao comtemplar a velocidade do espadachim.
— Você o matou? — perguntou Erina
— Não, o ar continua pesado — respondeu Kenshiro. — Mas a sombra estava sem uma das mãos, realmente eu o feri anteriormente.
“Devia tê-lo matado quando tinha a chance”, Kenshiro rangeu os dentes, culpando-se pela situação que colocara sua esposa.
Takashi continuava preocupado sobre seu arco. Não podia ser apenas o acaso seu arco ter sido retirado dele. Ele sabia que o Pai acreditava na lenda do Flecha Fantasma. O Pai o via como um perigo.
Verdadeiro.
Não importa onde seu arco estava, Takashi estava determinado a explorar toda a escuridão se necessário. Sabia que com a ajuda do casal, conseguiriam encontrá-lo. No entanto, reconhecendo seu inimigo, sabia que o mesmo já havia pensado nessa possibilidade.
“Só existe um lugar em que meu arco possa estar...”, raciocinou Takashi, olhando para o temível poço.
Não era possível ver a sua profundidade.
— O que está fazendo? — perguntou Erina.
— Eu vou tirar a gente daqui, aguentem firme!
Quatro sombras tentaram atacar Takashi. Kenshiro pulou, cortando-as em um giro completo com Bóreas.
Splash! Takashi mergulhou.
Ao repousar no chão, o espadachim sentiu os primeiros sinais de fadiga. Estava difícil até de utilizar suas espadas em conjunto.
— Amor, você está bem? — Erina utilizou sua cura, tentava fazer os pulmões de Kenshiro voltarem a respirar sem dificuldades.
— Não faça isso, eu estou bem.
— Mas...
— Sei que você deve estar tão cansada quanto eu. Apenas fique parada, protegida, e cure meus ferimentos mais sérios. Se sair de sua armadura, ele poderá matar você, não vou arriscar isso.
Erina o encarou ainda duvidosa. Quando se tratava do bem estar de seu marido, sua emoção falava mais alto que a razão.
Kenshiro se levantou, não tinha dado por vencido.
— Quanto tempo acha que consegue aguentar até a armadura começar a te esmagar?
— Curando todas as suas adversidades, 5 minutos. Apenas seus ferimentos...15.
— 20 minutos. Se Takashi não voltar até lá, faremos aquilo.
— Mas... isso pode fazer toda a caverna desmoronar em cima de nós!
Kenshiro olhou para trás, lançando um olhar feroz para Erina.
— Não importa. Mesmo que o mundo inteiro caia sobre nós, se eu eliminar nossos inimigos, sei que você nos protegerá.
***
Andando pelo longo corredor, Xin sentiu seu corpo voltando ao seu controle. Sua expressão de insatisfação sendo a prova.
A distância entre mestre e escravo havia se tornado grande demais. Não era mais um simples objeto.
Queria voltar e surrar seu mestre até a morte, mas não podia dar um passo para trás, ainda estava presa a uma vida escravizada; precisava seguir o que fora ordenado.
“Ao menos posso fazer isso sendo eu mesma agora”, pensou ela, sinalizando algumas ofensas que queria mostrar para seu mestre.
Olhando para o chão, ainda seguia os rastros. Curiosamente, não conseguia acompanhar as pegadas do casal, mas indícios da dupla de assassinos ainda eram observáveis. Se perguntava o tipo de treinamento que o casal teria feito.
O silêncio incomodava Xin, podia significar diferentes coisas dependendo do contexto. Se tratando do esconderijo de assassinos, eles poderiam estar aguardando por ela, uma armadilha.
Quando o corredor se abriu, o motivo do silêncio foi revelado: carnificina.
“Carrasco, ha!”, ela ironizou.
Kenshiro fora responsável por fatiar e mutilar os assassinos, mas Erina fora a principal responsável. Com sua força ela havia esmagado, quebrado e lacerado muitos com as próprias mãos, não demonstrara nenhum remorso.
Vendo o quão motivado o casal era, Xin se perguntou o problema que se tornariam caso fossem inimigos.
O som repentino, semelhante a uma explosão, chamou a atenção da jovem.
Rapidamente, Xin correu em direção ao som. Sua ordem a deixara com um senso de urgência, na possibilidade de o casal estar em perigo.
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