Volume 1 – Arco 2
Capítulo 13: Trevas.
Takashi caminhava lentamente.
A cada passo, seu tempo diminuía.
A cada passo, seu futuro se tornava mais próximo.
A cada passo, sua vida ficava mais perto de mudar.
“Não pense demais. O Pai é alguém racional e honesto, ele vai entender. Ele vai entender... Será que tomei a decisão certa, mestre Hitoshi?”.
Finalmente, chegara à entrada do Hall dos Contratos.
Nenhum outro assassino — além do Pai — podia adentrar. Um local proibido e oculto; literalmente. Embora houvesse uma tocha ao seu lado, a luz não conseguia passar pela entrada. Uma escuridão completa e infinita era o que esperava por Takashi.
Deixado à própria sorte, buscou forças para adentrar o desconhecido. O peso de toda a sua família recaía sobre ele. O peso sobre a vida de Kuroda era o que mais o incomodava.
Quando tentou seguir adiante, fraquejou e recuou. A possibilidade de estar quebrando uma regra de sua irmandade era demais.
“Eu sou... o Flecha Fantasma. Discípulo do cofundador desta família. Eu tenho todo o direito de adentrar o Hall dos Contratos!”
Estava tão preso às regras aos quais crescera, precisava inventar uma desculpa para justificar suas próprias escolhas independentes.
Finalmente, conseguiu adentrar.
O chão do Hall era semelhante ao piso da caverna, mesmo que ao olhar para baixo, nada pudesse ser visto. Era apenas uma ilusão, uma magia, ainda estava na caverna.
Embora não quisesse admitir, essa revelação o decepcionou um pouco.
Acreditou que os planos de seu Pai também ficavam nessa sala, planos os quais não podiam ser revelados para seus filhos. Isso explicaria a ilusão.
Quase.
Andando um pouco mais, não via nenhum sinal de seu líder. Não havia nada para se guiar, era mais seguro esperar que o Pai notasse a sua presença. Porém, não tinham muito tempo, a tensão entre os assassinos e o casal poderia explodir a qualquer momento.
— Pai! Eu retornei! — disse Takashi, sua voz ecoando ao infinito.
Aguardou um pouco pela resposta.
(...)
Nada.
Virou-se para trás, iria embora, frustrado e sem ideias.
Pouco antes de deixar o Hall, a passagem se fechou subitamente. Ao tentar tocá-la, apenas uma parede de pedras.
Não era uma ilusão. O Hall dos Contratos era mágico.
Sentiu a escuridão começando a sufocá-lo. Como era possível algo incolor se tornar cada vez mais negro? Não sabia se sua mente estava fragilizada, ou se o espaço estava distorcendo-se.
Respirou fundo. Precisava se recompor.
Caminhou novamente para o lugar onde chamara seu Pai.
Ajoelhou-se em reverencia.
O ambiente se tornou mais leve, não sentia mais a pressão esmagando-o.
O som, semelhante ao vento, começou a ecoar, e então uma voz, áspera e sussurrante dizia em alto bom som.
— Aaahh... Takashi, o Flecha Fantasma! Qual seria o motivo de sua honrável visita aos meus aposentos?
Takashi não se sentia aliviado em finalmente escutar o Pai. Algo estava diferente. Sentia medo.
— Lamento pela minha intromissão, meu senhor. Tenho um assunto urgente a tratar sobre o contrato que a mim foi confiado.
— Foi o seu primeiro assassinato, não é? Não se preocupe. Todos reagem de maneiras diversificadas ao tirar uma vida. Você não é o primeiro a sentir remor...
— O contrato estava errado. Eu trouxe os alvos até nosso esconderijo.
— ...
O ar voltou a ficar pesado, estava quente, fazendo Takashi suar.
— Quem tomou a decisão? Você ou Kuroda?
— Eu, senhor.
— ...
Não havia mais tensão no ar ou no ambiente. Parecia que o Pai havia desaparecido.
Takashi se levantou, estava confuso.
— AAAAAHHHH!!! — Com sua volta repentina, o ar começou a pesar uma tonelada, e Takashi sentiu seu corpo sendo esmagado, não conseguia movê-lo.
Criança insolente! Acredita mesmo que apenas por ser discípulo de meu amigo, isso lhe dá autoridade para desobedecer às nossas regras?! O que deu em você para tomar essa decisão? Me responda!
— Eu... — Sentia o ar faltando em seus pulmões. — Nem Kuroda, nem eu, fomos capazes de matá-los. Não conseguimos... nem sequer... feri-los.
— Então... eu me enganei... — A pressão foi aliviada. Takashi caiu ao chão, levando a mão à sua garganta, parecia queimar. — Vocês não foram capazes de concluir o contrato. Diga-me, a diferença de forças era tão grande assim?
— Sim. Acredito que, mesmo o senhor, não seria capaz de matá-los.
— Entendo. A sabedoria do Flecha Fantasma parece que, mais uma vez, foi superior à minha. Você os trouxe aqui para que pudesse eliminá-los juntos. Muito bem.
— Não!
— “Não”?
Takashi deixou-se levar. Voltou a ajoelhar como sinal de lealdade.
— Lamento em dizer que seu engano fora muito maior.
— Como você... ousa? Acredita mesmo que Kenshiro Torison, o Carrasco de Valéria, é inocente?
— Não sei dizer. Mas acredito que o assassinato do último membro de uma das famílias que juramos proteger seja um erro.
O silêncio, mais uma vez, dominou a sala.
— Então diga-me, Takashi, qual seria essa família?
— Junto de Kenshiro Torison, a mulher que foi acusada como sua cúmplice, se tratava de Erina Waltz. Lembra dela, meu senhor?
— Sim...
A suposta extinção da família Waltz, foi o catalizador para que o Pai criasse o plano de limpar a Capital.
— Acredito que o contratante precise ser investigado — disse Takashi, levantando-se.
— Sim. Em todos esses anos, nunca imaginei que um contrato estaria tão errado. Agradeço a você, Takashi, por evitar uma tragédia, e abrir os meus olhos.
Uma luz avermelhada surgiu, iluminando um pequeno poço.
“É daqui que os contratos surgem?”, Takashi imaginava que o Pai, ou outro responsável, visitava os contratantes pessoalmente.
O Pai não lhe disse nada. Presumiu que precisava olhar para o fundo do poço.
Encarou a água, ainda desconfiado.
Não havia nada. Nada além da simplória água do poço.
Estava para desistir, até algumas bolhas surgirem e estourarem em contato com a superfície.
Um ser humanoide estava surgindo.
Takashi imaginava que se tratava de uma mera imagem, mas quando o corpo ficou visível, aterrorizou-se ao se deparar com uma criança morta; afogada.
A criança não aparentava ter mais do que 10 anos. Estava com um vestido incolor. Seus longos cabelos loiros — tingindos por uma coloração esverdeada — dançavam lentamente sobre a água. Sua pele e carne desprendiam-se de seus ossos ao menor movimento da água.
O que mais assustava Takashi era o rosto da garota: sua pele continuava intacta; boca terrivelmente aberta, como se tentasse gritar; e seus olhos, parados em algo fixo, sem vida algum.
Takashi tentou recuar, para que tal visão não o assombrasse em suas noites de sono, mas alguém segurou sua cabeça, forçando-o a encará-la. Se não se segurasse no poço, tinha certeza que seria afogado.
— Pai, é você?!
Nenhuma resposta.
A garota o encarou, quando ouviu a voz do assassino; seus olhos ainda sem vida.
Takashi entendeu a quem deveria fazer as perguntas.
— Você... Você é o contratante?
Da boca da garota, bolhas de ar subiram até a superfície. Quando estouraram, uma voz, semelhante ao vento, sussurrou dentro de sua cabeça.
— Sim...
— Por que... quer Kenshiro e Erina mortos?
Takashi viu os cabelos da menina se desprendendo, em seguida o restante de sua carne. Exceto pelo rosto, o corpo da garota se tornara apenas um esqueleto. Seus órgãos afundaram.
O rosto intocado da garota era o próximo a sofrer pelo desgaste causado pela água.
As outras bolhas — sua resposta — causaram a queda de seus dentes; dissolveram-se na água. Seus olhos saltaram das órbitas. O que sobrara da sua carne havia sido perdido. Restava apenas os ossos.
Uma bolha conseguiu cruzar a barreira da água, estourando próximo do rosto do assassino.
— Os dois... pedras... em meu... caminho... — a voz parecia ter se aproximado.
Vendo o estado em decomposição da garota, acreditando ser o culpado, Takashi fechou os olhos para não ser assombrado pelo resto da vida.
O peso daquele que o empurrava estava cansando seus braços, não suportaria muito mais.
Uma última pergunta, precisava fazer.
— Quem... é você?
— ...
A pessoa que o empurrava, desapareceu.
Takashi virou-se rapidamente para tentar achá-la, mas não foi possível. No entanto, o Hall dos Contratos iluminou-se para ele. Procurando pelo Pai, teve a certeza de que ele não estava lá. A passagem havia retornado.
Determinado em sair dali, em seu primeiro passo fora impedido. Pisara no cadáver de um irmão.
O chão mostrou uma centena de corpos; os assassinos que não estavam presentes no esconderijo.
— Aah... Aaahhh... AAAHHHH!
Gritar, era tudo que podia fazer ao ver aquela carnificina.
As cabeças de seus irmãos viraram-se para encará-lo.
Um a um, eles se levantaram.
Todos possuíam algum ferimento fatal. Cortes no pescoço ou corações perfurados. Mortes rápidas.
Os assassinos mortos, andavam lentamente com seus braços estendidos, queriam alcançá-lo.
Takashi, subiu no poço, armou seu arco, mas não tinha coragem de disparar uma única flecha.
O Hall voltou a escurecer. Quando a falta de luz tocava um assassino, ele se transformava em uma sombra, perdendo toda a sua identidade.
Takashi imaginou que esse seria o seu destino, perder quem ele mesmo era.
Sua falta de ação foi respondida.
A criança ergueu-se atrás dele, agarrando-o e puxando-o para dentro do poço. O pânico fez rapidamente a água invadir seus pulmões.
Se debatia tanto que não pôde ouvir a resposta de sua última pergunta, sussurrada novamente em seu ouvido.
Perdendo a consciência, Takashi se perdeu na escuridão.
***
Kuroda chegou à passagem para o Hall ainda correndo, não se importou com o que não via a sua frente, nem percebeu que a escuridão não era algo comum.
Adentrou ao Hall ainda em sua corrida.
— Takashi! Você está aí?!
Seus sentidos apitavam em urgência.
A passagem que viera desapareceu, ele sequer percebeu.
Começou a correr. Não saía de seu lugar. Seus gritos ecoando e voltando para si.
Pensava estar exausto pelo tempo que corria, era o ambiente afetando-o.
Uma luz avermelhada iluminou um pequeno poço de pedra. Takashi estava atirado ao seu lado.
Kuroda, que não conseguia mais ouvir seus sentidos, correu para resgatar seu amigo.
Swink... Um sutil corte ligeiro.
Kuroda despencara ao chão. Suas pernas não estavam mais funcionando, não as sentia.
“Droga! Eu realmente exagerei”.
Começou a engatinhar.
Sentia seu corpo começando a ficar dormente.
“Não me abandone agora!”.
Seu tórax ficou enrijecido.
“Estou quase lá!”
Seus braços tremiam.
“Takashi... eu... estou chegando...”
Sua visão estava turva.
“Eu não vou... abandonar... vo...”.
O jovem esticou seu braço o máximo que pôde. Não conseguiu sequer tocá-lo.
Kuroda não era mais capaz de se mover.
Jovens prodígios, tão vívidos e impulsivos. Se ao menos tivessem a calma ou a maturidade necessária... seus corpos não se atirariam aos montes ao chão.
***
Enquanto isso, do lado de fora.
— Eles estão demorando demais — reclamou Zudao. — O que eles estão fazendo lá afinal?
Xin não respondeu, admirava a perfeição que eram suas unhas.
— Será que eles estão em perigo?! Não, não... A visão mostrava claramente eles chegando ao templo de Budai. Mas eles estavam sozinhos. Droga! Será que nossa simples aparição pode ter mudado tanto o futuro? MEERRDA! Eu não considerei o efeito borboleta, dominó, teoria do caos, efeito ponta de virada, teoria da complexidade...
Seus sacerdotes alertaram-no das possíveis alterações ao mexer no futuro. Zudao agora estava surtando, lembrando-se todas as teorias e complexidades que ele sequer entendia.
Esperava que sua escrava pudesse lhe auxiliar, ao menos lhe acalmar. A mesma o encarou e mostrou-lhe o dedo do meio.
Fez questão de sinalizar lentamente, com sua outra mão, as letras: “I-M-B-E-C-I-L"
— Sua...! Sua...!
“I-M-B-E-C-I-L"
— JÁ CHEGA! — Zudao bateu seu cetro contra o chão, assustando-a. — VOCÊ IRÁ VER O QUE DIABOS ESTÁ ACONTECENDO, AGORA! EU LHE ORDENO!
O medo de Xin foi substituído por simples e absoluto nada, estava com uma expressão neutra. Seus olhos — que já eram opacos — mostravam sua natureza submissa; nunca poderia escapar de seu destino.
Sem se queixar, ela andou em direção à caverna.
Retirou seu cinto, era um chicote, sua arma.
Uma ordem dada a um escravo precisava ser cumprida, custe o que custar.
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