Volume 1 – Arco 1
Capítulo 8: Derrota.
Reiji fechou a porta antes que qualquer um pudesse dizer algo.
Os dois estavam envergonhados e em silêncio, parecia que o menor dos comentários só iria confirmar seus sentimentos.
— Esse cara nunca muda — disse Kenshiro. — Não é, Kaji? Kaji?
Era apenas uma simples lareira. O casal estava realmente a sós.
— Kenshiro... poderia se sentar um pouquinho?
Erina subiu as escadas, poderia acabar demorando um pouco. Kenshiro aguardava seu retorno, ansioso e pensativo. Sua mente imaginava todas as possibilidades, até fantasias inadequadas.
“Kenshiro, pare com isso!”, pensou ele, envergonhado com si mesmo.
— Desculpe-me, eu demorei muito? — Erina carregava um baú de madeira, deixou na mesa à frente do jovem.
— Demorou nada. O que é isso?
— Abra e descubra.
Eeeek.
— São... cartas?
As cartas ainda estavam guardadas em seus envelopes abertos, nem mesmo os selos foram jogados fora.
Ao ler o conteúdo, lembrou-se do que se tratavam: eram as cartas que ele e sua família compartilhavam entre si durante sua estadia na academia militar.
— Você guardou todas? — perguntou Kenshiro, impressionado. — Como guardou aquelas que enviou?
— Eu fiz cópias — Erina sorria envergonhada.
— Nossa! Vou precisar lê-las desde o começo.
Levou um tempo até deixar todas em ordem. Uma a uma, Kenshiro leu. Erina não precisava, sabia exatamente o conteúdo escrito de cada uma delas.
— Minha letra era horrível! Como vocês conseguiam ler isso?
— No início, Ren era quem “traduzia” tudo, mas com o tempo eu aprendi essa “nova linguagem”.
Os dois riram.
— Ah, aqui deve ser quando eu me mudei para a Capital, os intervalos ficaram maiores... Engraçado. Mesmo eu estando em Miravalle e visitando vocês, ainda mandava cartas quase todos os dias!
— Você e sua família sempre foram muito próximos — Erina levou sua cadeira para se sentar ao lado dele. — Eu achava estranho e sem sentido no início, mas quando você se mudou, eu entendi o que eles tanto temiam; pensavam que você pudesse se distanciar deles.
Kenshiro ficou surpreso com a forma como sua família encarou seu crescimento. Talvez não estivessem tão errados.
— Sim...
Os intervalos aumentaram.
— Acho que aqui devem ter começado o período de provas. Eu deveria estar estudando muito, eu acho...
— E aqui foi quando o Ren se mudou. Eu reescrevi a carta umas 5 vezes, não sabia como você reagiria.
— Quantos anos nós tínhamos nessa época? — Kenshiro tentou subtrair as datas, era péssimo em matemática.
— Tínhamos 14 anos. Isso foi há 5 anos atrás. Ren nos escreveu apenas 3 vezes.
— As cartas dele estão aqui?
— Não.
Ren era um assunto delicado demais para conversarem, tanto pelo Reiji quanto por eles mesmos. Fazia muita falta.
Os intervalos aumentaram.
— Não faz sentido, tem certeza que receberam todas as minhas cartas? Eu não posso ter enviado tão poucas em 1 ano!
— Está sentindo falta de alguma?
Kenshiro leu e releu as cartas que enviara com 16 anos.
— Não... está correto. Foram só essas.
E então, somente uma carta foi enviada depois. O conteúdo falava sobre uma aula prática, fora da Capital, sabiam o que houve em seguida.
— Eu entendo os motivos de você não ter enviado mais nada depois daquilo — disse Erina, mexendo os dedos. — E não estou culpando você de ter diminuído a frequência quando se mudou, mas eu e Reiji ficamos surpresos quando soubemos que você estava voltando para Miravalle para se formar.
Queríamos estar lá para receber você, mas Reiji foi requisitado para uma audiência de urgência. Ainda assim, ficamos aliviados ao ver você novamente.
— Parecia mesmo que eu estava me afastando, não é?
— Sim. Não é como se você tivesse obrigação de ficar conosco, mas depois que Ren partiu... o silêncio nos deixou ansiosos.
Kenshiro começou a relembrar de seu tempo na academia. Erina não estava errada, se não fosse por aquilo, ele realmente se afastaria sem dizer nada.
Decepcionado consigo mesmo, Kenshiro a abraçou.
— Eu nunca faria isso com vocês.
Kaji sabia que era mentira.
Erina abraçou de volta, lágrimas escorreram.
— Desculpe-me por não ter feito uma recepção adequada...
Kenshiro se afastou momentaneamente, limpou as lágrimas de Erina com o maior cuidado, sua mão não saiu do rosto dela.
Erina fechou os olhos.
Gentilmente, sua mão deslizou até a parte de trás de seu pescoço. Os dois começaram a se aproximar involuntariamente.
Kenshiro fechou os olhos.
Estavam tão pertos que podiam sentir seus corações batendo em sincronismo. Não existia mais nada, apenas o breve silêncio até finalmente se beijarem.
Crack! Um prato quebrou.
Os dois abriram os olhos.
Envergonhados e sem saber como reagir, acharam rapidamente uma rota de fuga.
— KAJI! — Imaginavam ser outra travessura do elemental.
No entanto, a lareira não reagiu.
O rosto de Kaji estava lá, estático. Sua boca desaparecera, seus olhos arregalados e sem vida, suas chamas paradas no ar.
— Kaji? Está tudo bem? — Kenshiro se aproximou. — Amigo? O que fo...
Kaji urrou, fazendo a casa inteira estremecer. O fogo se elevou até alcançar o teto. Uma fumaça preta estava começando a acumular. As chamas acertaram — queimando — Kenshiro.
Kenshiro gritava, pedindo para seu amigo se acalmar.
Erina tentava encontrar uma lógica, aquela mudança repentina precisava ter alguma explicação. Uma grande brasa acertou o baú, Erina tentou salvá-lo, mas percebeu que nenhuma das cartas fora queimada ao contato do fogo.
Entretanto, o nome de Reiji estava queimando em todas as cartas.
Não havia um único quadro, pintura ou rabisco homenageando-o. Seu nome escrito nas cartas era a única coisa que existia a seu respeito.
Sentindo um forte arrepio passando pela espinha, Erina tinha que aceitar a cruel realidade.
Ela deixou a cabana. Kenshiro demorou um pouco para perceber sua saída.
Estava no armazém, preparando seu equipamento. Não possuía qualquer tipo de armadura, permaneceria com a mesma vestimenta, mas teria o cinto para embainhar sua Aphrodite.
— Erina! O que está fazendo? Se não pararmos o Kaji ele irá queimar toda a cabana!
Erina pegou-o pela camisa e o ergueu do chão. Não parecia estar se esforçando. Uma força impressionante!
— Kenshiro, me escute com atenção — Erina falava firmemente, mas seus olhos estavam cheios de lágrimas. — Nossos inimigos estão nos atacando. Reiji está em perigo!
O jovem não teve coragem de questionar nada, a feição de Erina era o bastante para convencê-lo.
Vestiu sua armadura cerimonial, uma porcaria, era melhor do que nada. Equipou seu cinto e embainhou Bóreas e Notus.
Erina esperava fora do armazém, ansiosa para cruzar a barreira.
— Reiji nunca deixa seus rastros tão visíveis, até eu pude vê-los hoje — disse ela, indicando o local onde ele partira.
— Temos que ser rápidos!
Os dois cruzaram a barreira.
Erina estava com o coração na mão. Ouvira falar sobre os inimigos da família Torison, nunca imaginou que ousariam atacá-los em seu esconderijo.
“Será que... o Impulso que utilizamos para ir e voltar da Capital nos denunciou? Impossível! Sempre o utilizávamos. Então por que agora? Justo hoje?!”
Kenshiro ainda nutria esperanças. Esteve toda a sua infância treinando para chegar ao nível de seu tio e superar Ren, reprovara propositalmente apenas para ter mais tempo de treinamento com seus professores.
“Depois de todos esses anos... Eu vou conseguir. Ao menos desta vez, não permitirei que ninguém morra!”
Cheiro de sangue invadiu as narinas do jovem. Seu olhar determinado se transformou em dúvida.
Um pouco antes de chegarem à segunda pista, eles avistaram aquilo que temiam: Reiji estava morto, deitado no chão, com uma mulher levantando ao seu lado.
Kenshiro, sentido, fitou o corpo de seu tio. Não conseguia aceitar. Sua mente fraca lembrava-o de todo seu passado, como nunca aproveitou aquele que esteve ao seu lado.
Erina não perdeu tempo, aquela mulher, fosse quem fosse, era a responsável por matar seu professor e cuidador.
Iria se vingar.
Não precisava “chamar” pelo seu golpe, utilizando apenas a força de seu corpo, pôde replicar o Impulso. Desaparecera do lado de Kenshiro. Estava atrás da mulher, empalando seu coração com a Aphrodite.
— Morra, sua vadia! — Torcia a espada, queria que ela sentisse dor.
A mulher estremeceu com o ataque surpresa, mas logo virou seu rosto para ver sua agressora. Seus olhos vermelhos conseguiram amedrontar Erina, lembravam sangue.
— Interessante — sua voz aveludada e sedutora. — Você é a aprendiz de Reiji Torison?
— Por que você não morre?!
A mulher retirou uma adaga da própria garganta, uma ferida aberta e fatal, tentou acertar Erina, retribuindo o golpe em seu coração.
Erina deu um salto para trás, escapando ilesa.
Kenshiro, ao perceber que a luta havia começado, foi obrigado a ignorar a morte de seu tio. Corria, ainda sem muita concentração.
— Vejo que seus reflexos são melhores que os dele...
— Cale essa boca!
— Estou te elogiando! Deve ter passado por um duro treinamento para conseguir superá-lo ainda tão jovem.
Erina aproveitou para olhar o corpo de seu professor. Espantou-se ao ver a quantidade de cortes em seu corpo. Ele nunca havia se ferido em um combate. Sua adversária era mais formidável do que ela poderia imaginar.
A mulher abaixou as mãos, estava com a guarda baixa.
— Chega. Já matei quem precisava. Reiji Torison parece ter sido uma boa pessoa em vida, queria que ao menos alguém sofresse por sua morte ao invés dele ser esquecido.
Erina não disse nada, mudou sua postura, uma menos agressiva. Ainda mantinha a espada em mãos.
— Não seja tola, você não tem chances de vencer. Aproveite os últimos 5 anos que lhe resta, a maioria não teria essa sorte.
Erina lembrou-se de todos os anos que treinara com Reiji. Ele fora um professor duro, exigente, impaciente, mas justo e inspirador. Havia lhe dado abrigo, comida e amor, muito além do que ela poderia pedir.
Não poderia deixar sua morte passar em branco.
A espada foi levada à sua bainha, a mão ainda em seu cabo. Erina virou seu corpo levemente, uma posição a qual sua adversária não conseguiria ver seu saque e deduzir seu próximo movimento. Um reflexo de seus treinamentos com Reiji Torison.
— Pois bem.
A mulher elevou seus braços e abriu as mãos. Embora não quisesse admitir, estava orgulhosa pela escolha de Erina.
Kenshiro chegou naquele momento.
A mulher fez uma expressão de terror ao vê-lo. Erina se sentiu confiante, suas chances de vencer pareciam ter aumentado. No entanto, Kenshiro também parecia estar horrorizado.
— Anna? É você?
— Ken... shiro...?
A mulher começou a gritar, um grito horrendo e enlouquecedor.
Era a primeira vez que Erina escutava alguém gritar assim. Mas para Kenshiro, essa era a segun...
— Kenshiro! Me responda, droga! Você a conhece ou não?!
Kenshiro saiu de seu devaneio, uma lembrança sombria.
— Você... esqueceu da Anna, Erina?
Erina buscou nos confins de sua memória qualquer coisa que pudesse relembrar.
Sim, ela se lembrava.
Erina havia visto Anna ainda quando crianças. Anna era uma menina forte e independente, sempre carregava um olhar determinado e sorriso obstinado. Era a representante de sua classe e líder de seu pequeno grupo de amigos. Havia sido transferido junto de Kenshiro para a Capital.
Ao ver a forma como Anna estava agora, só conseguia sentir pena.
— Espera, isso não faz sentido! Por que Anna iria querer matar o Reiji?!
— Ela não queria... — Kenshiro ainda parecia estar perdido. — Anna morreu no Incidente dos Descendentes.
Nunca houve muitos detalhes sobre o Incidente. Erina só soube graças a posição privilegiada de Reiji, e ainda não sabiam os detalhes. Se Anna morreu naquele evento, Erina pôde entender os motivos de Kenshiro ter parado com as cartas.
Se existia alguma desconfiança ou ressentimento sobre ele, haviam sido extintos.
— Ken...shiro...! — disse Anna, estava sofrendo.
— Anna! Eu estou aqui, não se preocupe!
— Kenshiro... Por que estou aqui? Dói... tanto... — Os olhos azuis de Anna choravam sangue. — Meu corpo inteiro dói... Não consigo ver... falar... respirar sem sentir dor. Por favor... Faça parar...
— Não Anna... Tem que haver outro jeito. Eu ainda posso salvar você!
— Eu já estou morta Kenshiro... Você precisa me superar...
O olho direito de Anna havia se tornado vermelho sangue.
Anna encarou Erina, parecia estar contente em ver que seu amigo possuía alguém.
O olhar de Kenshiro escureceu.
— É UMA ORDEM! — Suas últimas palavras.
Não existia mais azul em seus olhos, apenas sangue.
A mulher, fosse quem fosse, assumira novamente o controle. Não mostrava sua feição pacífica de antes, estava irada.
— Seus malditos... Ela não precisava passar por isso!
Novamente, ergueu os braços e abriu as mãos. Chamava por algo.
Os poucos pássaros que dormiam naquela noite foram acordados, batendo asas para longe. Os troncos e galhos das árvores começaram a ranger. Um som incômodo, metal em atrito, vinha dos céus.
Um turbilhão de adagas começou a sobrevoá-los, seu som era ensurdecedor. As adagas circulavam a mulher em alta velocidade.
Abrindo lentamente a palma da sua mão, as adagas começaram expandir sua órbita. Árvores e pedras em seu caminho eram trituradas, o que dirá da carne de Erina e a armadura medíocre de Kenshiro?
Kenshiro dobrou os joelhos, manteve as mãos em suas espadas, parecia que iria sacá-las em um golpe cruzado.
Erina entendeu o que Kenshiro planejava, mas se perguntava se conseguiria realmente sobreviver.
Kenshiro não se importava com as consequências de seu ataque.
Ao abrir os olhos, sua íris negra se tornou dourada. Uma visão que fez a mulher ficar surpresa, satisfeita.
Em menos de um instante, a luta fora encerrada.
Kenshiro já se encontrava do outro lado. Suas espadas em mãos, o sangue escorrendo de suas lâminas.
As adagas pararam de girar, caíram ao chão.
A mulher ainda estava de pé, com um sorriso simplório, orgulhosa. Sua cabeça caiu no chão, depois seu corpo.
— Kenshiro! — Erina correu para socorrê-lo.
O corpo do espadachim fora perfurado por dezenas de adagas, algumas em pontos vitais. Erina precisava tomar cuidado, estancar os ferimentos e retirar as adagas; não sabia ao certo o quão efetivo sua cura poderia ser contra ferimentos mais graves.
— Os dois...
Erina o encarou. A expressão de derrotado de Kenshiro era clara, as lágrimas escorrendo verticalmente de seus olhos.
— Eu não pude salvar nenhum dos dois...— Caiu de joelhos.
Erina o abraçou, tentava consolá-lo o melhor que podia. Apesar de estar em profundo sofrimento, precisava ignorá-lo naquele momento; não conseguia imaginar o que um Torison poderia estar passando.
Próximo deles estava a muda de pinheiro com a lagarta. Ainda devorava suas folhas pacientemente.
O pior momento ainda nem chegara.
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