Volume 1 – Arco 1

Capítulo 7: Inimigos.

A casa estava arrumada, fizeram uma faxina geral, impecável. 

A carruagem, abastecida e preparada. Itens emergenciais estavam no banco do condutor, os demais poderiam ser pegos dentro da carruagem; poderiam ser trazidos da própria cabana, graças a magia de Kaji. 

Nenhuma palavra fora dita durante todo o processo, pareciam estar se preparando para uma batalha que daria o fim de suas vidas. 

A noite chegara, silenciosa, igual uma assassina. 

— Kenshiro — disse Reiji —, quero te entregar uma coisa. 

Kenshiro esperou na sala enquanto seu tio subia as escadas. Erina esperou junto, estava sorrindo, sabia do que se tratava. Reiji retornou, escondia o presente atrás das costas, demorando propositalmente apenas para deixar seu sobrinho ansioso. 

Então, o presente foi revelado. 

— Tio, isso é...? 

— Uma compensação por todos os aniversários perdidos.  

Kenshiro recebeu duas espadas. Lâminas platinadas e cabo negros, possuíam seus nomes escritos em algarismos antigos em preto, destacado. Bóreas e Notus.  

Encantado, o jovem admirou-as por alguns instantes. Não pôde perceber que Erina havia subido para mostrar-lhe sua própria espada. 

— O nome dela é Aphrodite. 

Uma rapieira azulada como diamante, estilosa de maneira esguia, os detalhes em seu cabo protegiam a mão do espadachim. Embora fosse utilizada principalmente para ataques de perfurações, a lâmina ainda poderia ser utilizada para cortes comuns. Era tão impressionante quanto as lâminas de Kenshiro. 

Querendo participar, Reiji revelou a espada que guardava em sua bainha. 

Athena! 

Possuía a aparência de uma espada comum, a lâmina mais longa que o normal. Lâmina cinza como as demais, cabo simples de madeira. Mas quando a luz da lua refletiu a lâmina, ela emitiu um brilho platinado. 

— Onde conseguiu essas espadas, tio? 

— Eu roubei os projetos delas na Capital. Levei os projetos para um velho ferreiro de confiança. Ainda tive que desembolsar quase 50 milhas, mesmo levando os materiais! Aphrodite foi sem dúvidas a mais cara... 

Curioso, Kenshiro perguntou mais sobre o tal ferreiro, mas Reiji já o avisou que o mesmo havia se aposentado e se mudado para ter uma vida pacífica. Fez questão de não dizer sua localização, estava cansado de fazer os inúmeros projetos que Reiji trazia para ele. 

Incontáveis projetos foram comprados e roubados pelos dois irmãos, até encontrarem aqueles que fossem funcionais e especiais. 

*** 

Estava tudo pronto para partir, precisavam apenas esperar pelo retorno do sol. Precisavam ter uma boa noite de sono, o dia seguinte era cheio de espectativas. 

Para não perder o costume, Reiji se preparou para sua patrulha rotineira, levava Athena sempre consigo. 

— Kenshiro, Erina, pretendo fazer uma patrulha mais lenta essa noite. Tentem botar o papo em dia, sei que estão precisando. 

Antes que ouvisse uma resposta dos dois, fechou a porta. Queria mesmo deixá-los envergonhados, embora estivesse falando a verdade. 

Respirou um pouco do ar artificial, era tão limpo e refrescante, poderia se viciar. Embora não houvesse um único pássaro para cantar, o vento criava uma sútil melodia balançando a grama e tocando na superfície da cabana.  

Ainda que fosse obrigado a sempre buscar alimento em Miravalle, Reiji admitia que aquele simples espaço era o suficiente para ele e sua família viverem em paz; se não fossem as perguntas que sempre assombravam sua alma. 

Antes de cruzar a barreira, Reiji foi pego desprevenido por um som singular: alguém havia acabado de adentrar a floresta. 

Apesar do horário incomum — quase meia noite —, não era estranho pessoas adentrarem à floresta. Sempre aparecia um caçador ou herbalista amador que não conhecia a natureza simplória da Grande Mancha. 

Porém, algo era estranho. Seus passos não pareciam naturais, eram tão leves que um animal não conseguiria ouvi-los, ainda assim, andava com convicção; sabia o que procurava. 

Havia chegado à primeira pista. 

Parou. Agachou, estava estudando o pinheiro caído. Levantou. 

Pela direção que tomara, Reiji estremeceu: — Ele percebeu! 

Levando a mão à sua espada, cruzou a barreira. 

O invasor começara a acelerar também. 

“Percebeu a minha presença?” 

Levando em conta a sutileza dos passos, entendia que não era uma pessoa comum. No mínimo, se tratava de um assassino muito bem treinado, com anos de experiências nas costas.  

Poderia seus inimigos contratarem esse tipo de gente? Ou eles ERAM essa gente? Ele logo descobriria. 

“Ficaram tanto tempo escondidos, por que agora?” 

Iria ser rápido, cortaria a cabeça do invasor antes que pudesse vê-lo. Antes que pudesse dar-lhe a chance de atacar; não podia arriscar a vida de sua família. 

Durante a corrida, após cruzar a segunda pista, sacou Athena, elevando-a acima de sua cabeça. Com um movimento circular, abaixou a lâmina, mirando o pescoço do invasor. 

Quando finalmente o avistou, Reiji se arrependeu.  

O invasor era uma mulher. Nua, apenas com algumas fitas brancas espalhadas em seu corpo. Estava com feridas terríveis, algumas abertas e outras fechadas com pontos, ainda sangravam. Sua pele estava azulada. 

Possuía o cabelo Chanel, azul escuro. Seus olhos também eram azuis, um pouco mais claros, lembravam água cristalina. 

Reiji foi capaz de embainhar sua espada e parar o seu avanço a tempo, assustando a mulher que cambaleou para trás, caindo na grama. 

O pé da mulher estava quebrado. 

Ela tossia enquanto tentava respirar. Correra o caminho todo, ignorando os sinais de exaustão. Seus ferimentos poderiam se agravar se não fosse tratada rapidamente. 

— Não se preocupe — disse Reiji, abrindo sua mão para levantá-la. — Está segura agora. 

A mulher se pôs a chorar. Aceitou a ajuda, levantou e o abraçou. 

— O que houve com você? 

— Eu... Eles... Vieram do nada. Amarraram todas nós. Fui a única que conseguiu escapar... 

“Ela não pode ter vindo de muito longe, não nesse estado. A vila madeireira Valéria é o único lugar possível, mas... nenhuma patrulha notificou ainda? Mesmo que fossem pegos, seu desaparecimento deveria ter chamado a atenção das demais. Suborno. Porcos imperiais.” 

Enquanto consolava, ele não conseguiria perceber... 

A mulher esticou um de seus braços.  

Abaixo de uma faixa, dentro de sua carne, estava uma adaga, a qual ela retirou silenciosamente. Posicionando-a em direção do coração do homem.  

Ela atacou. 

— Como imaginei... um inimigo! 

A mulher segurava-o com força, estava prendendo-o. Era mais forte que a maioria dos homens. Reiji ainda conseguiu se libertar, lançando a mulher para longe, acertando uma árvore. 

A adaga caíra no chão. 

Sabendo que não enfrentava alguém comum, observou seu adversário com cautela, buscava entender sua anatomia e trejeitos. 

A mulher, aparentava ter desmaiado pelo impacto, no entanto, moveu seus olhos, ainda opacos para o espadachim. A coloração havia mudado, se tornaram vermelhos iguais ao sangue. 

Ela levantara, sem precisar de apoio. Mesmo com o pé quebrado, aparentava não se importar com a dor ou sequer senti-la. 

— Impressionante — sua voz não era mais frágil, era aveludada, sedutora. — Eu não deveria ter subestimado o “Ex-Melhor Espadachim do Império.” 

Reiji não respondeu, apenas levou a mão ao cabo de sua espada e virou seu corpo. Uma posição simples, mas que escondia a forma como seria seu próximo movimento. 

— Se acha mesmo que isso será o bastante, eu temo em desapon... 

— IMPULSO! 

Reiji utilizou sua técnica, avançando rápido para causar um corte preciso e fatal. No entanto, a mulher havia sacado outra adaga, numa velocidade superior, defendendo o corte que receberia no pescoço. 

Amedrontado, Reiji recuou. A mulher desaparecera diante de seus olhos; estava atrás de suas costas, mirando novamente em seu coração. 

Em sua tentativa de fuga, atacou o ar, impulsionando seu corpo para o lado. Ainda fora ferido, um corte na lateral de sua barriga. Seu primeiro ferimento em batalha. 

Assustado, Reiji tocou seu ferimento, vendo o sangue escorrer em seus dedos. Sua mão começou a tremer, a distância entre suas forças era maior do que podia imaginar. 

— Por favor, deixe eu terminar. Não quero que isso acabe tão depressa e tão... sem graça. 

Sem nenhuma resposta, a mulher concluiu que não seria interrompida novamente. 

— Como eu estava dizendo... Temo desapontá-lo, mas mesmo que tente esconder seu próximo ataque, se for gritá-lo, poderei facilmente me defender. Eu sei, eu sei. Vocês “chamam” pelo golpe, pois assim eles se tornam mais fortes... mas existe outra maneira, uma mais convencional. 

Um zunido incômodo, lembrando metais em atrito, começou a ressoar atrás de Reiji. Era a primeira adaga que a mulher havia largado, estava flutuando atrás de sua nuca.  

Se a mulher tivesse lutado sério deste o começo, Reiji já estaria morto. 

Havia algumas palavras escritas em sua lâmina, ele as recitou: 

“Sob a proteção do Sol que me guia, 
Deixarei para trás toda dúvida sombria. 
Mesmo que seu brilho eu só possa refletir, 
Como a Lua na noite, irei resistir. 
E para cada Rato ou Sombra a me enfrentar, 
Com o poder humano, os farei lamentar.” 

Com o fim da última palavra, ainda que dita em dúvida, Reiji sentiu uma ardência em seu peito. Seu coração começara a bater mais rápido, mais forte. Seu sangue circulara aceleradamente, ardia de calor. 

Mal podia descrever a agonia que sentia. Podia sentir se espalhando para cada parte de seu corpo. Cada membro. Cada fio de cabelo. Era uma agonia tão prazerosa que podia se perder nela. 

Todos seus sentidos haviam se amplificado. Podia sentir uma força descomunal na ponta de seus dedos. Mesmo o mais intenso de seus treinos jamais lhe trouxera tamanho avanço. 

Se começasse a raciocinar demais, conseguiria enxergar cores novas. Podia ver cores no mais puro branco. Ver os milhares de seres microscópicos que viviam a sua volta. Distinguir a própria força que habitava na alma de cada ser. Podia... 

— Fico feliz que tenha gostado. 

Seu estado de êxtase fora interrompido ao ser relembrado que estava em um combate. 

A mulher, para exemplificar a mudança, sacou novamente sua adaga. Agora Reiji conseguia acompanhar sua velocidade. 

— Por que fez isso? — Fora obrigado a perguntar. — Por que tornar a luta justa, se estava com toda a vantagem? 

— É mais divertido — a mulher esboçou um sorriso meigo. — A adrenalina; o medo de que o menor dos movimentos errados possa ser o meu fim; a sensação de poder acabar com tudo em um único golpe certeiro... É tão viciante e único... Nada chega perto desse sentimento! 

A mulher começara a alisar seu rosto e corpo, entrara em êxtase ao recordar de suas batalhas passadas. 

— Você já me conhece, poderia me dar a honra de saber o seu nome? 

Surpresa, a mulher saiu de seu estado. Olhou para o espadachim e disse: — Varelith. 

Um nome singular para o período em que viviam. 

— Varelith... O que me ensinou será muito útil em minha jornada, agradeço. 

Reiji lançou a adaga aos pés da mulher. Se posicionou para o combate que viria. 

A mulher, satisfeita com a confiança de seu adversário, soltou sua segunda a adaga. As duas começaram a circular a sua volta. Seus braços estavam dobrados, apontando para sua cintura, parecia estar se preparando para sacar mais. 

Reiji manteve uma única mão no cabo de sua espada. Não se virou, não estava preocupado que sua adversária pudesse ver seu movimento, faria questão de ser mais rápido que ela. 

O início de um duelo, quando não há nenhum ansioso, é o momento mais importante de todos. Ambos criam cenários e hipóteses que enfrentarão, ao mesmo tempo que tentam ler os possíveis movimentos de seu adversário. 

Aquele que conseguisse criar mais cenários possíveis possuiria mais chances de vencer. 

Um curioso pássaro observava a dupla, havia escolhido mal o galho que repousara. 

Creeck!  

Os dois avançaram. 

 

 

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