Volume 1 – Arco 1
Capítulo 6: Preparativos.
— Iremos para o norte? — perguntou Erina. Ninguém respondeu. — Não?
— É hora de decidir... — disse Kaji.
Erina e Kenshiro permaneceram quietos, olhavam para a fogueira esperando uma explicação.
Reiji colocou à mesa 2 cartas, ambas de famílias Descendentes.
A primeira carta dizia:
Socorro! Nossa localização foi comprometida, eles sabem onde estamos. Precisamos de uma extração imediatamente!
Mistra Tregorin.
A segunda carta:
Aceitamos a oferta. Iremos para o Norte procurar o Zero. Em troca, espero que cumpra sua palavra, não nos incomode mais.
Nehemis Fyndral.
— Ainda nos meus primeiros anos como herói imperial, eu fucei os arquivos oficiais e não-oficiais. Haviam algumas coisas interessantes, mas essas cartas foram as mais intrigantes.
Tregorin era uma família conhecida por sua lealdade ao Império. Foram os primeiros a aceitarem morar em suas cidades, mas repentinamente todos partiram e nunca mais foram vistos. Eles mantiveram contato com o Império, como se estivessem vigiando algo, até serem percebidos.
Fyndral era uma família insolente e arrogante, mas fiel ao seu código moral. O Império tentava requisitar seus serviços por gerações, finalmente conseguiram convencê-los. Talvez esse “Zero” tenha sido o motivo principal.
Reiji suspirou, tocaria em um assunto incômodo.
— Anos atrás, eu e meu irmão decidimos investigar as regiões do Grande Continente, procurar mais pistas; entender quem eram os “inimigos” da nossa família. Eu era responsável pelas Grandes Planícies; Kenzou pelas demais.
Eu o esperava aqui para compartilharmos nossas descobertas. Ele ainda explorava as Geleiras, até encontrar algo... Ele utilizou o Impulso para tentar chegar à Capital, mas foi interceptado por alguém no caminho. Foi quando um conflito aconteceu, e ele morreu.
Erina olhou para Kenshiro, imaginava que falar sobre o falecimento do pai iria o incomodar. Ele estava indiferente, ouvia a história de um desconhecido.
— Ainda me pergunto o que ele achou de tão urgente para decidir ir à Capital ao invés de me encontrar — concluiu Reiji.
— Então temos o Sul e o Norte — disse Kenshiro, voltando ao planejamento. — Ao Sul, está o reino dos Remanescentes. E ao Norte, esse tal de “Zero”?
Era a melhor suposição que podiam fazer.
— Independente disso — disse Erina —, tanto o Norte quanto o Sul serão rotas desgastantes para irmos a pé.
— Não iremos a pé, senhorita Erina.
Reiji e Kaji esboçaram um sorriso confiante, Reiji deixou a cabana sem dizer nada, queria que os acompanhasse. Kenshiro o seguiu sem atraso. Erina olhou mais alguns instantes para o grande mapa.
— Senhorita Erina. Por favor, não confunda a indiferença de Kenshiro com ignorância. Os Torison podem ser estranhos com seus sentimentos racionais, mas tenha certeza: se ele tivesse ao menos uma única lembrança do pai, ele estaria tão arrasado quanto o mestre Reiji.
Kaji conviveu toda a sua existência com os Torison, além de não possuir o hábito de mentir, sabia ler seus familiares como um livro aberto.
Erina concluiu que não havia o que discutir, apenas aceitar. Toda família com nome possuiria suas particularidades, fossem positivas ou negativas. Os Torison haviam a adotado, eram pessoas boas; apenas racionais demais.
Do lado de fora, quando Erina chegou, Reiji abriu o armazém.
Creeeeec! A porta abria lentamente, esteve fechada por tempo demais.
O armazém guardava apenas 1 coisa: uma grande carruagem, de eras antigas e esquecidas.
Embora seu tamanho e estilo fossem imponentes, o tempo não fora gentil. A poeira, fungos e cupins infectaram a madeira. Dificilmente conseguiriam movê-la — ainda precisariam encontrar 6 ou 8 cavalos, fortes o bastante para puxá-la.
Erina e Kenshiro estavam desapontados, imaginando o valor do conserto ou substituição. Reiji estava empolgado, não conseguia conter o sorriso, seus dedos estalavam sozinhos e seu pé estava inquieto.
— Tio, está tudo b...
— KAJI — exclamou ele —, ATENDA AO MEU CHAMADO!
Nada aconteceu. Olhavam para ele, parecia estar alucinando sozinho.
Então o som de chamas começou a realçar.
A carruagem foi tomada por um incêndio, um que se iniciou sem um causador aparente. Poeira, fungos e cupins foram evaporados. A carruagem endireitou-se sozinha, voltará a forma como fora apresentada ao mundo.
O fogo permanecia, não queimava a madeira. As braças flutuaram no ar em pequenas fagulhas. Atiraram-se à frente da carruagem, sugadas por uma força oculta.
Uma figura flamejante começou a se formar. Um ser quadrúpede. Um cavalo.
O cavalo tinha o dobro do tamanho do maior dos corcéis. Vestia uma armadura alaranjada — criada pelo próprio fogo —, sua carne se assemelhava a lava, um material gelatinoso e inflamável. E seus olhos eram o mais puro fogo, dourado.
O cavalo se pôs de pé, relinchou furiosamente. Em sua voz, era possível ouvir o crepitar das chamas.
Erina percebeu.
— É o Kaji?!
Kenshiro se espantou com a conclusão.
— Relaxem — Reiji esticou seu braço, impedindo os dois de aproximarem —, ele está apenas se espreguiçando. Fazem anos desde a última vez que ele se revelou para alguém.
O cavalo voltou ao chão, aquietou.
— Não lembrava que era tão leve — disse Kaji, sua voz se tornando grossa.
Os três sentiram-se intimidados. Kenshiro e Erina pela nova forma do elemental; Reiji por sentir o aumento de força descomunal de seu amigo, não arriscaria irritá-lo ou discutir como de costume.
— Pouco discreto — comentou Erina.
— Eu sei. Mas não existe forma melhor de fazermos uma grande jornada — explicou Reiji. — Kaji é, além de serviçal, nosso transporte, casa e protetor.
— Eu possuo outras formas. Se quiserem ver...
O ambiente ficou mais pesado, o ar parecia mais quente. Ardia a garganta.
— NÃO! NÃO. Não. — disse Reiji, puxando às rédeas. — A barreira iria ruir, mostre-se amanhã quando partirmos.
Kaji, insatisfeito, desfez sua forma. O grande cavalo desapareceu em cinzas. A voz do elemental ainda podia ser ouvida, distante, recitando insultos e maldições ao seu mestre.
Com o fim do último insulto, a voz de Kaji desapareceu definitivamente, Reiji continuou sua dissertação: — Kaji possui uma habilidade a qual podemos utilizar em emergências. Uma porta dos fundos.
Reiji abriu a porta da carruagem. Os dois jovens foram surpreendidos pelo conteúdo infinito, literalmente infinito.
O interior quebrava as leis da física. Um espaço tão grande quanto o céu, incolor quanto o branco e o preto, vazio quanto o nada.
Conforme olhavam e tentavam decifrar o impossível, suas mentes cediam, uma forte dor de cabeça chegava lentamente.
— Estão esperando o que? Entrem — convidou Reiji.
— É seguro mesmo? — perguntou Kenshiro, dando um passo para trás.
— Aonde iremos parar?
Erina resolveu tocar, sua mão dissolveu-se completamente diante de seus olhos. Antes que alguém entrasse em pânico, ela puxou-a para fora. Estava inteira. Um truque ilusório.
— Vão logo! — Reiji os empurrou.
Kenshiro e Erina conseguiram dar as mãos, antes de desaparecerem no interior.
Passou pelos seus olhos o mundo inteiro dividido, esticado e dobrado. As cores viajaram em suas íris, estavam cegos. Seus corpos não aguentavam tanta pressão, iriam explodir.
Então voltaram para a cabana de Reiji, como se tivesse acabado de adentrar pela porta.
Toda a sensação incômoda não durara mais que 1 instante, e, ao mesmo tempo, durado uma eternidade.
Os dois ainda estavam de mãos dadas.
Reiji surgiu em seguida, da mesma forma que os jovens, criando dúvidas nas mentes e confusão aos olhos, pois havia simples aparecido do completo nada.
Os dois soltaram as mãos e se afastaram, envergonhados.
— Não é tão ruim quanto eu me lembrava... — comentou Reiji.
— Kaji... O que foi isso? — perguntou Kenshiro.
— Como posso explicar? — As chamas estalavam, ritmicamente.
Em tempos imemoráveis, os Descendentes viajavam constantemente, fugindo dos perigos, procurando um lar intocado e pacífico. Era comum a necessidade de uma saída rápida, armadilhas naturais ou humanas sempre apareciam em suas viagens. Os Servos eram capazes de retornar todos para o último local que descansaram, o último lugar que julgavam ser seguro.
— Com o tempo, paramos de ser nômades, minha habilidade se tornou inferior. Consigo apenas levá-los para os locais que sejam de sua propriedade, com documentação e chaves em mão!
— O que mais possuímos?
— A família Torison, atualmente, possuí apenas 2 acomodações: essa cabana; e um chalé ao leste, próximo ao Lamaçal.
— Perto dos Orcs? — questionou Erina. — O que tem de útil por lá?
— E por que lá? — acrescentou Kenshiro.
— Infelizmente, minha memória não é mais a mesma. Não sei dizer.
— Você sofre de amnésia?
— Quase. Tive partes da minha memória apagada. Cortesia de Renjito Torison, seu bisavô.
— Por que ele faria isso?
— O pai dele, seu trisavô, morreu defendendo sua família. Eu estava... ocupado, não cheguei a tempo para salvá-lo. O ressentimento de Renjito caiu sobre mim, fui punido.
— E o filho dele, meu pai, se tornou tão paranoico que quase nos matou. Tamanho era seu temor por seus “inimigos”.
Em meio a conversa, Erina percebeu uma coisa. Pegou as duas cartas e começou a relê-las constantemente.
Os três observavam ela em silêncio, sabiam como a mente de Erina funcionava. Quando começava a raciocinar, não poderia ser atrapalhada pelo mais simples dos barulhos; sempre chegava em conclusões formidáveis.
— Será que... — disse ela, soltando as cartas. — Tregorin estava pedindo socorro, pois sua moradia fora confiscada pelo Império? Se a propriedade precisa ser oficial, então eles estavam presos!
Refletiram sobre o raciocínio. Era uma hipótese plausível. Verdadeira.
— E se — continuou —, os Fyndral estivessem fazendo o mesmo que a gente? Uma viagem para o Norte? Mas por não retornarem, o Império concluiu que era perigoso demais e tentaram fechar quaisquer entradas possíveis.
Ainda assim, não haveria qualquer pista do que fosse o Zero, mas era algo importante o suficiente para o próprio Imperador precisar de uma estrada reta sem intervalos. Quase.
Reiji olhou para o mapa, refletindo o melhor que podia.
— Não importa a rota que escolhermos, teremos que dar um jeito de passar pelas defesas imperiais. Seja a muralha de Aranost, ou seja, lá o que tiverem no Norte — concluiu.
— Além dos nossos possíveis adversários — disse Kenshiro. — Os responsáveis por matar o meu pai.
— E os Remanescentes no Sul — acrescentou Erina —, esse Zero no Norte, e, independente da direção, o próprio Império...
Reiji se sentou, fechou os olhos, deixou sua cabeça se curvar para trás. Pensava, pensava, pensava. Não conseguia chegar em nenhuma decisão.
— Então tá — retirou uma moeda de seu bolso. — Cara é Norte, coroa é Sul.
Ting! A moeda foi ao ar.
O tempo não fora mais longo que 2 segundos, pareciam uma eternidade. Uma simples moeda ditaria o destino deles.
— Coroa.
Qualquer direção, apenas a morte.
Apoie a Novel Mania
Chega de anúncios irritantes, agora a Novel Mania será mantida exclusivamente pelos leitores, ou seja, sem anúncios ou assinaturas pagas. Para continuarmos online e sem interrupções, precisamos do seu apoio! Sua contribuição nos ajuda a manter a qualidade e incentivar a equipe a continuar trazendos mais conteúdos.
Novas traduções
Novels originais
Experiência sem anúncios