Volume 1 – Arco 1

Capítulo 5.2: Perguntas.

Kaji não entrou em detalhes, nem tentou explicar o que havia acontecido, apenas pediu para os dois se arrumarem para conhecerem a Alta-Cidade Miravalle. 

Agora que estão livres, precisam conhecer o mundo de verdade. Podem-se surpreender ou se decepcionar, mas tente apreciá-lo e entendê-lo. Deverão escolher por conta própria o caminho de vocês. 

Reiji e Kenzou quase foram expulsos de casa pelo elemental. Tinham tantas perguntas para fazer, não seria Kaji a respondê-las; ao menos, não todas. 

Ainda dentro da barreira, os dois se viram num abismo ao qual deveriam saltar.  

Não sabiam ao certo o que encontrariam do lado de fora. As paranoias de Kenji poderiam estar corretas, o mundo poderia ser um lugar cruel e implacável e as pessoas sendo piores que os monstros. 

Mas também poderia ser um lugar de extrema beleza e harmonia, um mundo onde a simpatia reinava no coração de todos, um lugar de conforto onde o sofrimento, se não extinto, é constantemente diminuído. 

Para saberem a verdade sobre o mundo, bastava dar o primeiro passo. 

Ao atravessarem a barreira, sentiram o choque térmico passar por seus corpos. O ar do lado de fora era mais frio, menos acolhedor. Ainda assim, o canto dos pássaros os recebeu sem discriminação. 

Diante deles o caminho estava livre, apesar do chão e as árvores possuírem diversas marcas estranhas. Eram os locais onde as armadilhas de Kenji foram posicionadas, com a sua morte, Kaji também as incendiou até o pó. 

Os dois correram pela floresta, sendo guiados por uma chama fraca. Brincavam em meio à mata, pulando nas raízes e pegando galhos, fingiam ser suas espadas. 

Não havia luto por Kenji Torison. Afinal, um pai que mata a mãe, e não hesita em matar os filhos, não merecia ter a perda de sua vida sentida. 

Perto do fim da floresta, Kaji parou de guiá-los. Estavam diante de uma estrada de pedra. À esquerda, um caminho longo se perdia adentrando a floresta; à direita, levava-os para algo que poderia ser confundida com uma grande fortaleza. 

A Alta-Cidade Miravalle possuía grandes muralhas de pedras, algo que os garotos só leram em seus contos infantis. Era difícil acreditar que tal construção realmente existisse. 

Andando pela estrada, os jovens puderam ver as demais pessoas: comerciantes, visitantes, nobres e guardas. Cada um com suas características comuns, eram estereotipados até em como agiam. 

Estavam aliviados. O cenário apocalíptico de serem os últimos seres vivos fora desmentido. 

Então uma pequena fila foi formada para adentrar a cidade. Precisavam passar pelo portário. 

Para cada pessoa era cobrado um valor referente ao motivo de sua chegada à cidade. O guarda responsável fazia algumas anotações, lembrava de cabeça a complexa tabela de preços a serem cobrados por cada tipo de visitante. 

— Qual o propósito de sua chegada? — Uma pergunta padrão. 

— Cuidados médicos — disse Kenzou. 

O soldado tirou o olho de sua lista, ao ver o rosto do menino se espantou ao ver os machucados.  

— Me desculpem! Vão para o centro comercial, lá existe um mosteiro, tenho certeza que as irmãs cuidarão de você.  

Decidiu não cobrar a entrada dos dois; seria descontado de seu salário. Um ato nobre, característica comum dos soldados imperiais nesta época passado. 

Os garotos receberam duas bolsas com 500 moedas cada. Precisariam pagar 25 moedas para entrar. Não esqueceriam aquele ato simples de bondade. 

— A sua mentira foi boa — disse Reiji. — O que deveríamos explorar primeiro? 

— Na verdade, acho que eu deveria mesmo buscar ajuda médica. Pela reação do guarda, posso estar pior do que aparento... 

Chateado por terem de adiar a exploração, Reiji não poderia negar que uma visita a um especialista faria bem ao seu irmão. 

Enquanto andavam pela cidade, guiados pelas placas, aproveitavam para ver as construções e seus moradores. 

Os prédios mais antigos foram construídos com pedras, eram estabelecimentos renomados, jamais mudariam suas funções. Se o comércio fosse considerado bem-sucedido, a cidade poderia negociar com o dono para construir um conjunto habitacional acima da loja. Assim, no primeiro andar haveria a loja, e nos andares superiores, moradias para novas famílias nobres. 

As construções de madeira ainda eram comércios relativamente novos e pioneiros. Caso o comerciante fosse à falência, poderia vender seu local por um preço barato. O comprador poderia fazer as modificações que quisesse ao local sem muitas dificuldades, até demolir e construir um novo. 

No centro comercial, todos os prédios eram de pedra, até o ponto de oração, um templo antigo politeísta. O templo não possuía nenhuma figura emblemática. No local onde deveria existir uma estátua homenageando uma divindade estava vazia. 

Kenzou recebia os cuidados de uma mulher que se intitulou como “Matrona”, aparentava ser a líder do mosteiro politeísta. Ela era jovem demais para ser considerada idosa, velha demais para ser considerada uma jovem, havia cuidado tão bem de sua aparência, perguntar sua idade parecia um insulto. 

— Vocês não seguem a nenhuma crença? — perguntou Kenzou, envergonhado ao sentir o toque de uma mulher em suas feridas. 

— Seguimos sim — A voz da Matrona era doce, deveria fazer parte de um coral —, buscamos seguir o máximo de crenças possíveis. É claro que excluímos aquelas que buscam causar mal a qualquer forma de vida. 

— Pensava que só poderia acreditar em 1 religião. 

— A maioria concordaria com esse pensamento, e não negamos que as pessoas sigam aquilo que acredita. Mas em nosso templo, tentamos fazer com que seja a casa de todos. Por que um lugar sagrado deveria ser para apenas 1 crença, se pode ser de todas? 

Matrona passava um algodão molhado nos ferimentos, além de preparar algumas bandagens para prender ao olho inchado de Kenzou. 

— De onde você tirou essa ideia, aprender o máximo de crenças possíveis? 

— Muito tempo atrás, quando eu ainda era uma criancinha, eu conheci um aventureiro. Ele me disse uma vez que crenças são apenas uma maneira de interpretar o mundo e guiar aqueles que estão perdidos, que o céu e o inferno são o nosso mundo, depende apenas de nós para transformá-lo. 

Kenzou e Reiji ficaram em silêncio, refletindo sobre as palavras. 

Ah, me desculpem! Acho que falei demais... 

Com seus ferimentos devidamente tratados, era hora de explorar a cidade. Agradeceram novamente a Matrona, ela não cobrara nada. 

— Certo, o que deveríamos “conhecer” primeiro? — perguntou Kenzou, em voz alta, querendo que seu irmão ajudasse em sua dúvida. 

Reiji ignorou a pergunta, um cheiro único havia entrado em suas narinas, controlando seus movimentos. Kenzou o seguiu, seria ruim caso se perdessem. Os dois foram parar em um beco, onde uma janela estava parcialmente aberta; do lado de dentro, um porco estava sendo preparado, com uma maçã em sua boca, girando em um espeto. 

Duas sombras surgiram à frente do açougueiro, denunciando seus admiradores. 

— SAIAM DAQUI SEUS PESTINHAS! 

Amedrontados com a grosseria, os dois fugiram adentrando ainda mais nos becos escuros. 

Ainda se recuperando do susto, Reiji já sabia o que queria fazer com o seu dinheiro. 

— Será que temos o suficiente para comprar aquele porco? — perguntou ele, entusiasmado. 

— O que? Não! Não vamos gastar todo nosso dinheiro assim. 

— Mas parecia estar tão gostoso! Imagine o gosto, imagine. 

— Chega! Vamos tentar só sair daqui. 

Não é nada bom falar sobre dinheiro abertamente, principalmente em becos escuros e não vigiados. 

Um mendigo apareceu, tampando a entrada em que vieram. Kenzou tentou manter a calma, iria dar a volta por outro caminho, mas lá estava outro pedinte. Ao olhar para trás, estava os duros muros da cidade, não havia mais rotas. 

— Vocês têm algum dinheiro para nós? Por favor... estamos famintos... 

— Apenas 1 moeda bastará, não sejam mesquinhos. 

Reiji segurou firme sua bolsa, estava cogitando entregá-la. Seu irmão foi mais rápido. 

— Então peguem! — atirou a bolsa para o céu. 

Os necessitados cambalearam no desespero de pegar o dinheiro, as duas crianças cruzaram no meio deles. Quando finalmente se levantaram, aquele que pegou percebeu ter sido enganado, a bolsa estava cheia de pedras. 

— LADRÕES! PAREM OS DOIS! — Uma tentativa desesperada em ser confundido como vítima. 

Para o azar da dupla infantil, um guarda estava passando pelo local. Ele os segurou pelas golas de suas camisa e os levantou do chão. Os dois mendigos chegaram em seguida. 

— Ainda bem que o senhor pegou esses dois... 

O guarda encarava os quatro de cima a baixo. 

— O que eles roubaram de vocês? — perguntou ele, seco como uma lâmina. 

Eh... uma bolsa de moeda, isso. 

— Qual o valor?  

— Sabe, eu... isso importa? 

— Não sabe nem o valor em que foi roubado? — O guarda abaixou os dois garotos, deu um passo à frente, a mão segurando o punho da espada, pronto para sacar. — Acredito que os papéis tenham se invertido aqui. 

— Desculpe-me, senhor! Foi engano! — Os dois mendigos fugiram. 

Aliviados, Reiji e Kenzou arfaram. 

O soldado se ajoelhou diante deles, queria ter certeza de que fizera a escolha correta.  

— Agora vocês, qual é o valor? 

— Duas bolsas... 500 cada uma... — Kenzou ainda estava com pouco fôlego. 

— Uma milha? É um valor um pouco grande para duas crianças... Quem deu a vocês? 

Kenzou pensava como responder, sabia que Kaji não era um ser comum, até Reiji dizer: — Nosso Servo nos deu. 

— “Servo”? Ah, seu criado, entendo — Deduziu que eram crianças nobres. — Sei o estilo de vida que vocês têm, mas tomem cuidado, andem apenas pelas ruas movimentadas. E se aparecer alguém estranho, não hesita em chamar por nós! 

O guarda bateu uma saudação, então partiu para continuar sua patrulha. 

— Que demais... — disse Reiji. 

Embora fosse outro ato nobre, talvez o soldado não fosse tão cordial se soubesse que não eram nobres. Ou será que os tratasse com ainda mais relevância se revelassem ser Descendentes? 

Kenzou retirou a verdadeira bolsa de moedas, sabia no que iria gastar. 

*** 

Tink!-Tink!-Tink! As marteladas de um ferreiro. 

 — Com licença? — disse Kenzou. 

O ferreiro virou o rosto, estava sério, concentrado em seu trabalho. 

“A falta que um atendente me faz...” 

— Pois não, meus jovens — disse ele, voltando a martelar. — O que esse humilde ferreiro pode fazer por vocês hoje? 

A ferraria não era humilde, estava no centro comercial em um edifício próprio, construído com pedras. No entanto, aquele homem estava encarregado de todos os trabalhos. 

— Gostaríamos de duas espadas e duas adaga, se puder. 

— Querem algo do estoque ou possuem algum projeto? 

— “Projeto”? — perguntou Reiji. 

O ferreiro soltou o martelo, levou a mão até a testa e suspirou. Falara demais, teria de fazer explicações. 

— No estoque estão as armas que eu faço por prazer e pedidos de clientes que não puderam pagar ou quiseram devolver. Os projetos são papeis com instruções para fazer uma arma ou armadura; caso tenham em mãos todos os ingredientes, cobrarei apenas a mão de obra. 

— Esses projetos, criam coisas fortes? São difíceis de conseguir? — perguntou Kenzou. 

— Depende. Um projeto é só uma receita, ela pode estar certa ou errada, não saberá até experimentar. Fato é: as melhores armas são aquelas projetadas, mas seus projetos são escondidos do público comum. 

O ferreiro, fardo de explicar, adentrou sua loja, mostrando as armas que tinha à venda. 

— Desculpe-me perguntar, mas qual a finalidade das adagas e das espadas, meu jovem? 

Reiji estava apenas acompanhando seu irmão, permaneceu calado o tempo inteiro. 

— As adagas são para proteção, as espadas para treinar. 

Hm. Nesse caso, acho que sei o que posso fazer... 

Foram entregues duas espadas sem fio, serviam mais como porretes. As duas adagas, no entanto, eram extremamente afiadas. 

Cada espada custou 50. As adagas 35. Os irmãos dividiram a conta. 

O restante do dia fora exaustivo.  

Após estarem equipados, os dois irmãos correram em loja em loja, buscando quaisquer itens que considerassem importante. 

Kenzou comprou livros, pergaminhos, mapas, receitas e projetos. Sobrou 20 moedas 

Reiji comprou comidas, bijuterias e decorações. Sobrou 5 moedas 

Retornando para casa, os dois discutiam no caminho. 

— Miravalle é incrível! Veja o tanto de coisa que conseguimos! 

— Por que você não gastou o seu dinheiro com coisas importantes, Reiji? 

— Porque eu sabia que você gastaria. Para quê comprar dois livros iguais? 

Kenzou riu, talvez seu irmão fosse mais inteligente do que aparentava ser. 

— E o que você planeja fazer? — perguntou Reiji. 

— Eu não sei. Ainda penso sobre esses “inimigos” que o papai tanto temia. 

— Fomos atacados na cidade... 

— Éramos presas fáceis, apenas isso. Acho que Kaji nos mandou para cá para comprovarmos que papai estava errado, não existem inimigos. 

— Ou talvez, eles não saibam onde estamos... 

Apoie a Novel Mania

Chega de anúncios irritantes, agora a Novel Mania será mantida exclusivamente pelos leitores, ou seja, sem anúncios ou assinaturas pagas. Para continuarmos online e sem interrupções, precisamos do seu apoio! Sua contribuição nos ajuda a manter a qualidade e incentivar a equipe a continuar trazendos mais conteúdos.

Novas traduções

Novels originais

Experiência sem anúncios

Doar agora