Volume 1 – Arco 1
Capítulo 5.1: Perguntas.
— Qual é, Kaji! Desembucha! — disse um menino exigente.
— Como seus mestres, você deveria nos obedecer — outro menino, um pouco mais calmo.
— Hahaha! Jovens Reiji e Kenzou, não importa a insistência, não revelarei nada — respondeu Kaji, sorrindo, acreditando ser uma brincadeira. — Vocês ainda não são meus mestres, precisam esperar o falecimento de Kenji Torison.
As duas crianças se aquietaram, nenhuma resposta valia a morte de um pai.
— Aaaaagh! Isso não é justo! Apenas diga do que estamos nos escondendo! — insistiu Reiji, o mais teimoso.
— Desista Reiji, não conseguiremos nada assim — disse Kenzou, o mais prudente.
— Tive uma ideia! — Reiji afastou o seu irmão, ficando à frente da lareira com as mãos estendidas, parecia que iria soltar um feitiço — Kaji, atenda ao meu...
— REIJI TORISON! — Urrou Kaji. A sala estremeceu, similar a um terremoto. — Jamais use essas palavras para algo tão fútil! Você me entendeu?!
Reiji, assustado com a fúria do elemental, começou a chorar. Kenzou o abraçou, tentando consolá-lo.
Sentido com a reação de seu protegido, Kaji imaginou ter tido uma reação exagerada.
— Desculpe-me, garoto, mas é sério, não faça isso novamente. Palavras, sons emitidos pelas nossas bocas, possuem força iguais a qualquer magia.
— Como assim? — perguntou Reiji, limpando as lágrimas.
— Você tentou me dar uma ordem — um comando —, algo que eu dificilmente posso recusar. Essas ordens devem ser utilizadas apenas em raros momentos de urgência. Ajuda no dever de casa? Não. Uma trapaça para ganhar dinheiro? Nem pensar! Uma situação de perigo, sua vida está em risco? Agora sim.
Caso utilize tais ordens com tamanha naturalidade, elas perderão seu significado. Nosso vínculo entre Mestre e Servo se tornará uma simples corrente de Senhor e Escravo. Ainda serei obrigado a aceitar a maioria de seus comandos, mas não poderão contar comigo em uma emergência. Eu sequer irei me importar com vocês.
Kaji se permitiu a sair de sua lareira, uma bolha flamejante flutuou até os dois.
— Sinceramente, não me preocupo em não atender esses comandos. O que eu temo é perder nosso laço de amizade.
— Está enganado, Kaji — disse Kenzou, acariciando a bolha, seus dedos não queimavam. — Não somos amigos, somos família.
Admirado com a compostura de seu irmão, Reiji se pôs de pé. Embora possuíssem apenas 1 ano de diferença, enxergava o abismo de maturidade que existia entre os dois. Tentava sempre tê-lo como exemplo.
— Eu sinto muito, Kaji — disse ele, curvando-se. — Não cometerei esse erro novamente. Eu prometo!
Kenzou sorriu, seu irmãozinho ansiava por ser um homem, estava finalmente aprendendo sobre responsabilidades.
***
Os dois moravam numa cabana no meio da Mancha Verde, próximos da cidade de Miravalle. Viveram suas vidas completamente escondidos da sociedade, utilizando da natureza para sobreviver. Era uma vida pacífica e fácil, mas terrivelmente monótona.
O pai deles — Kenji Torison — era um homem paranoico, desconfiava da própria sombra, nunca permitiu nenhum dos dois cruzarem a barreira ilusória de Kaji. Utilizou um comando para garantir que o elemental os impedisse.
O homem passava a maior parte do tempo montando e calibrando suas armadilhas, voltava um pouco antes do sol se pôr. Poucas palavras eram trocadas, acreditava que na escuridão o mais simples sussurro poderia ser ouvido.
A mãe falecera ainda quando os garotos aprendiam a engatinhar. Nenhuma memória existia sobre ela, mas um vazio a seu respeito sempre incomodou os dois. Ela era um assunto o qual o pai irritava-se facilmente quando comentado.
Kaji fazia o melhor para dar uma vida descente aos jovens. Era um mascote, ouvinte, amigo ou uma simples lareira quando necessário. Sabia que aquele lugar nunca seria o suficiente para dois espíritos curiosos e aventureiros.
Era uma vida simples e pacífica. Monótona e sem emoção.
Anos se passaram, a natureza infantil estava chegando ao fim, rebeldia e independência clamavam por ascender. Centenas de reclamações e questionamentos estavam prestes a explodir.
Hora do jantar.
Kaji, a luz do ambiente. Silêncio, a conversa presente. Grãos de arroz, a refeição.
Os Torison comiam com as mãos, talheres e pratos causariam barulho, cada um tomando o devido cuidado para não deixar um único grão cair ao chão.
— Pai? — disse Reiji.
— Shhh! Sabe que na noite o som se propaga melhor, cala a boca! — As palavras de seu pai, mais se assemelhavam ao sopro do vento.
As marcas nas costas de Kenzou eram um lembrete constante para a obediência. Reiji nunca fora punido ou marcado, sempre protegido por seu irmão.
Qualquer sentimento de insatisfação poderia ser reprimido com duras disciplinas, era o que Kenji acreditava. Porém, estava para conhecer: uma simples fagulha pode gerar um incêndio.
“Estou farto dessa vida”
— De quem estamos nos escondendo? — perguntou Kenzou.
Reiji ficou surpreso, era a primeira vez que viu seu irmão se comportando à sua semelhança.
— Garoto! Esqueceu do que eu te ensinei?
— De quem você tem tanto medo? — insistiu.
— Eu já disse. Nossos inimigos, eles estão nos procurando!
— Somos criminosos? Fugitivos? — Levantou da mesa, sua cadeira caindo ao chão, um grande estrondo.
— A falta de surras deixou a sua língua solta?! — Sem mais sussurros.
— Você... — Kenzou percebeu aquilo que mais o assombrava. — Você não sabe, não é?
Não houve resposta, sua confirmação.
— Seu moleque!
As mãos de Kenji voaram contra o pescoço de Kenzou. O peso de seu pai o derrubou contra o chão, esmagava-o.
— Pai! O que está fazendo?! — Reiji deixou a mesa, queria impedir uma tragédia.
Kaji o segurou, fora ordenado a permitir quaisquer disciplinas de seu mestre, independente da sua natureza.
A alimentação de grãos enfraquecera Kenji, salvando o jovem de ter seu pescoço quebrado. No entanto, a falta de ar roubava lentamente sua consciência, sequencialmente, sua vida.
— Por que tantas perguntas? Você sempre foi o mais educado, o que mudou?
— Estou cansado de viver no escuro... — Sangue começara a escorrer de sua boca. Encarava seu pai, obstinado. — Quem são nossos inimigos? Como o senhor sabe deles? Eles mataram a mamãe?
Novamente, silêncio.
As mãos de seu pai afrouxaram. Ar, finalmente.
Kaji soltou Reiji, aliviado com o fim daquele absurdo.
— Kaji — disse Kenji, sua voz carregando um tom sombrio —, atenda ao meu chamado.
Os olhos de Kaji se tornaram opacos. Suas chamas pararam de dançar e estalar.
— Meu filho deve ver o que eu farei a seguir. Que ele se lembre de nunca me desobedecer.
— Sim, mestre.
Kenji fechou os punhos, socou o filho, o pior que pôde. Kenzou sentiu o impacto em seu nariz, estava quebrado, sua nuca acertando o chão com violência. Outro soco veio, mais fraco que o anterior, Kenji era destro.
Reiji correu para socorrer seu irmão, as chamas de Kaji o impediram, eram tão sólidas quanto as pedras. O sangue nas mãos de seu pai pingava, a poça avermelha abaixo de seu irmão aumentava. Ele apenas podia ver.
— Parece que aqueles desgraçados conseguiram de novo — disse Kenji, naturalmente. — Vocês substituíram minha mulher e meu primogênito, mas ainda restou um da linhagem. Não... mesmo que ele seja substituído também... eu ainda sobreviverei. Sempre poderei recomeçar. A família Torison nunca morrerá!
Kenzou parara de se defender, seu corpo estava imóvel, apenas reagia aos impactos dos golpes de seu pai.
Impotente, Reiji só poderia implorar por ajuda.
— Kaji, por favor... pare isso...
— Jovem Reiji, não posso... Kenji é meu mestre...
— Eu não quero que meu irmão morra, salve ele, por favor...
— ...
— Kaji... atenda ao meu chamado!
A lareira se apagou. A escuridão invadiu a sala, deixando todos no vazio.
Kenji continuou seus golpes, parando ao perceber que havia tocado algo sólido, não era o rosto de seu filho.
Sozinho na escuridão, ele se levantou.
“Seus desgraçados, finalmente estão agindo.”
— Não, Kenji. Não são seus inimigos. — disse Kaji.
O elemental apareceu em sua forma mais pura, um ser humanoide. Fogo e lava dançavam e corriam em seu interior. Em seu peito, um núcleo dourado se destacava, seu coração, sua alma, sua vida.
Kaji, apesar de sua natureza, não conseguia iluminar o ambiente. Não é pra menos, não estavam em nenhum lugar físico, sequer existente.
Kenji sentia estar sendo desprezado. Kaji não possuía olhos, ainda transmitia seu desapontamento.
— Onde estou?
— ...
— Eu sou seu mestre! Eu ordeno que me obedeça!
— Não mais — a voz de Kaji ecoava por todo o espaço. — Como encarregado de proteger a família Torison, eu, Kaji, retiro todos os direitos e benefícios de seu sangue, Kenji.
Kaji avançou, lentamente, cada passo calculado. Kenji tentou manter distância, mas não podia sair do lugar.
Com o elemental diante dele, só pôde se ajoelhar.
— Por favor... Piedade!
— Devo exterminar todos os inimigos da família Torison.
Kaji tocou com seu polegar a testa do homem. O abismo em que estavam se iluminou. Seus corpos desapareceram.
***
Kenzou abriu seus olhos, seu rosto ainda estava inchado e doloroso.
— Irmão! Você está vivo! Está vivo! — Reiji abraçou-o, quase o sufocando.
Já havia amanhecido.
Irmãos passaram a noite no chão. Kenzou desmaiado, quase em coma. Reiji preocupado, não conseguiu ficar afastado.
— Mestre Reiji e Kenzou, desculpe o atraso.
Os dois jovens levantaram-se, perceberam que estava faltando alguém.
— Kaji, onde foi parar nosso pai? — perguntou Reiji.
— Kenji não se encontra mais entre nós.
Quando a lareira de Kaji apagou, Kenji havia desaparecido. O fogo retornara somente com o despertar de Kenzou.
— O que você fez?
— Eu atendi ao seu chamado.
— Espere — Kenzou buscou forças para se levantar. — Você nos chamou de “Mestres”?
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