Volume 1 – Arco 1
Capítulo 4: Família.
O vulto ainda estava caído no chão, murmurando pelo impacto violento.
As chamas de Kaji estalavam furiosamente, era um vulcão se controlando para não entrar em erupção. Com o cair de um pequeno prato, estilhaçando-se, ele explodiu. Kaji rugiu, lançando brasas pelo ar — desapareciam antes de tocar em algo inflamável —, ergueu-se até quase atingir o teto.
— QUANTAS VEZES EU PRECISO PEDIR PARA NÃO UTILIZAREM O IMPULSO?! — Kaji se assemelhava a um demônio.
Reiji não se intimidou, enfrentando a criatura com o peito estufado.
— A audiência era de urgência! Não tínhamos tempo!
Kaji ameaçava engoli-lo com suas chamas, Reiji faria questão de dar uma má digestão se fosse o caso.
Kenshiro não achou aquilo divertido; acostumado em ver os dois discutindo, jamais vira uma situação semelhante como agora.
A falta das brigas cotidianas deixou todas as emoções contidas manifestarem juntas.
— Vocês dois... — Disse o vulto, uma voz feminina, ainda desnorteada, mas firme. — Estão brigando de novo?
A lareira rapidamente abaixou suas chamas, Reiji deu alguns passos para trás e Kenshiro ficou um pouco envergonhado, encantado ao ouvir aquela voz.
Um pano umedecido, preparado prematuramente por Kaji, flutuou até a figura que o pegou.
— Obrigada, Kaji — disse ela, acariciando o fogo.
Sua mão estava sofrendo queimaduras. Não sentia dor?
— Por nada, senhorita Erina.
— Temos que nos arrumar — enfim retirou o capuz, revelando-se —, Kenshiro deve chegar a qualquer momento!
Para sua surpresa, Kenshiro já estava ali, observando-a, cativado.
Erina ficou sem fala, paralisada ao vê-lo.
Eram duas crianças na última vez que se viram.
Erina era uma mulher formidável. Seu corpo parecia ter sido construído pensando nos mínimos detalhes, ressaltando suas curvas e sensualidade. Seu cabelo era castanho, liso e longo; levava horas de seu dia para preservá-lo. Seu rosto era como uma obra de arte, quase uma obrigação admirá-lo, mas seus olhos verdes eram verdadeiramente hipnotizantes.
Kenshiro, em sua simples aparência medíocre, sentiu-se pequeno ao ver a mulher que Erina se tornara.
— Oi, Erina. Você cresceu bastante... — disse ele, tentando começar uma conversa, ainda sem jeito.
O rosto de Erina se avermelhou instantaneamente. Ela tentou se cobrir o melhor que pôde com a toalha e correu para a escada, gritando desesperada: — E-eu vou me trocar!
Kenshiro havia ficado tão desorientado ao vê-la que não pôde perceber que partes da roupa dela haviam rasgado e se encontravam no chão. Notando apenas quando Kaji as indicou.
“Ela pensou que eu estava falando “deles”?!”
De fato, “eles” também cresceram.
— Hahaha! Eu já avisei a ela; a maioria das roupas não suportam o Impulso com frequência, e mesmo assim ela quis usar a mesma roupa na volta.
Kenshiro não o ouviu, estava envergonhado com o vexame que passara. Talvez fosse melhor fingir que aquilo não aconteceu.
(...)
Kaji começou a consertar a mesa e a janela. O ambiente precisava estar minimamente decente para que pudessem conversar.
Pouco tempo depois, Erina havia retornado.
Ela vestia um sobretudo, buscando esconder suas curvas e volumes.
— Erina, eu...
— Shh! — pediu Erina, levando o dedo indicador aos lábios de Kenshiro, estava estranhamente séria. — Tira a roupa.
“Ela quer que eu pague na mesma moeda?!”
Ainda tímido, ele obedeceu. Se aquela era a maneira dele ser perdoado pelo mal-entendido, ele não discutiria.
Kenshiro retirou sua armadura cerimonial, deixando-a na tábua da mesa que ainda estava sendo consertada. Então, retirou sua camisa.
Kaji, Reiji e Erina ficaram chocados ao verem a terrível marca cobrindo inteiramente as suas costas: Uma águia com suas garras prontas para o bote.
— Eles pegaram pesado com você... — disse Reiji.
— O ferro quente é padrão, mas trocaram o óleo tradicional pelo de cozinha — constatou Kaji, especialista sobre fogo. — As queimaduras foram muito além da marca, afetaram camadas mais profundas da pele.
— Kenshiro... — Erina, chocada, não conseguia formular palavras de conforto.
— Qual é! Pessoal, está tudo bem, nem doeu tan...
— Shh... — Erina pediu novamente, mais gentil. Sabia que Kenshiro tentava apenas parecer forte.
“Homens...”
Sabia quando ele estava mentindo.
“?!”
Ela o abraçou.
Kenshiro, surpreso, não questionou. Aproveitou para fazer aquilo que as cartas não conseguiam transmitir, o calor corporal de um abraço. O sentimento era mútuo.
O cabelo de Erina começou a flutuar levemente, suas pontas se tornaram loiras, e uma aura esverdeada tomou conta dos dois.
A marca terrível nas costas de Kenshiro começou a desaparecer junto da dor que carregara. Suas costas estavam limpas. As queimaduras na mão de Erina também desapareceram.
— Melhor agora, né? — Erina se afastou um pouco, seus olhos verdes brilhavam intensamente.
— Sim! — respondeu Kenshiro, não conseguindo conter a alegria.
Erina fechou os olhos, em poucos segundos toda a energia que criara desapareceu. A cor de seus cabelos e olhos voltaram ao normal. E assim ela sentou-se à mesa.
— É sempre impressionante ver a magia curativa da senhorita Erina.
— Sim, o brilho foi tão intenso quanto na Capital — comentou Reiji.
— Como assim? — perguntou Kenshiro.
Reiji e Erina se olharam.
— Acho melhor contar tudo de uma vez.
***
O que é um Herói?
A maioria pensaria que se trata de alguém que é capaz de arriscar a sua vida pela dos outros, mas está incorreto, ou melhor, está incompleto.
Qualquer um é capaz de arriscar a própria vida por aquilo que ama; os próprios animais fazem isso por seus filhos e parceiros, e nem por isso são considerados heróis em suas sociedades.
Um verdadeiro Herói é aquele que é capaz de sacrificar aquilo que mais ama pelo bem de completos desconhecidos. Alguém que deixou de salvar o amor de sua vida, para impedir que uma cidade inteira fosse destruída; que ousou compartilhar da própria, e escassa, comida para outro necessitado; que abandonou uma vida inteira de paz e conforto para adentrar uma jornada de dor e sofrimento.
A vida de um Herói não é repleta de glórias e reconhecimento, e sim de reflexões e arrependimentos. Embora sejam reverenciados em diversos contos, sendo um desejo de muitas pessoas, poucos são aqueles capazes de suportar esse peso.
Os Heróis sempre foram figuras lendárias e solitárias; quando o pior estava para acontecer, eles apareciam para salvar a todos. Mas fato é: depois de tantos anos de paz e harmonia, acredita-se que todos eles tenham enfim se aposentado ou morrido. Suas lendas continuam ecoando mesmo assim.
O Império — responsável pela paz — enxergou uma oportunidade de ser visto como herói e protetor da humanidade. Eles criaram os heróis imperiais.
Qualquer pessoa que fosse devidamente capaz, receberia um título. Reiji foi considerado o “Melhor Espadachim”, pois fora intocável durante a prova para adquirir tal título. O número desses “heróis” beira os 50, ainda assim, nenhum deles é grande o bastante para substituir os verdadeiros.
Existe um único herói que o povo possui o direito de eleger como seu representante, chamado: Herói do Povo.
O Herói do Povo possui a mesma importância de um herói imperial, com a diferença que não pode ser substituído até se aposentar ou morrer. Como representante do povo, é considerado por eles o herói mais forte e importante. E isso era verdade.
Os heróis imperiais tinham obrigações como qualquer soldado imperial. Servir solenemente ao império, o alistamento de suas crianças, pagar seus impostos, proteger e salvar todos os cidadãos.
Caso fosse solicitado uma audiência, e o herói não comparecesse, seu voto se juntaria à maioria. Essas audiências eram feitas para criar e modificar leis, e nos piores casos — após a morte do Imperador — iniciar campanhas de expansões e guerras.
***
— O Império considerou que a Grande Campanha chegou ao fim, e eles queriam iniciar um ataque ao território dos Remanescentes — Reiji foi direto ao assunto. — Mas eles precisavam que os votos fossem unânimes; apenas 2 foram contra.
Apesar do alivio, Kenshiro ainda estava nervoso sobre o assunto.
— O herói imperial, Reiji, o Melhor Espadachim, e o herói do povo, Arturo Dragon, foram contra — completou Erina.
— Arturo foi inabalável em sua decisão, não possui o menor interesse de mudá-la, o Império não tem outra escolha se não aceitar. Quanto a mim, fui dispensado com desonra, também recebi minha “marca de traidor” . A próxima audiência de guerra só poderá acontecer daqui 6 meses, eu não estarei lá para me opor novamente. Precisaremos contar que o Herói do Povo não “desapareça” até lá.
— E o que faremos agora? — perguntou Kenshiro.
—Não é óbvio? Vamos em frente com nossa jornada. Hoje, faremos os preparativos, amanhã, estaremos na estrada.
(...)
Kenshiro foi ajudar seu tio a descarregar alguns papeis importantes do armazém que ficava abaixo da escada, enquanto isso, Erina e Kaji cuidavam para limpar a sala o melhor possível.
Apesar da família Torison ser preguiçosa, influenciando o servo, Erina detestava sujeira e desorganização. Perdoou o ocorrido da manhã por ser um caso urgente, mas advertiu o elemental por não ter limpado enquanto estavam fora.
— Você realmente deixou a Erina curar uma cicatriz?
— Kenshiro, você deveria saber que nunca fui ferido em batalha. Minhas cicatrizes são sentimentais... as adquiri enquanto tentava cuidar de você e do Ren.
— Foi tão difícil assim?
— Nunca tive experiência com crianças, e sinceramente, me assustei ao perceber o quão desafiador seria. Agradeço ao divino por vocês crescerem saudáveis.
— Ao menos Erina apareceu quando já estava mais velha...
Falando nela.
— Não acredito que você não se esforçou nem para dar uma geral nesse chiqueiro — disse Erina, colocando os livros de volta à estante, organizados por gêneros. — Francamente, Kenshiro deve ter pensado que eu sou igual a vocês!
— Ainda acredito que tomei a decisão correta! Pude sentir a nostalgia fluindo pelo corpo dele. Ele nem imaginou que você é quem faz o café e as refeições agora...
Erina olhou para a mesa arrumada, a garrafa de café e o copo estavam posicionados como um convite.
— Ele tomou... isso daí?
— Sim, ele tomou sem fazer careta!
Erina encarou aquilo como um desafio. Encheu o copo e o virou sem pestanejar.
— Ah, nem é tão forte assim...
Kaji ficou boquiaberto.
“Poderia o café ter ficado mais fraco pelo tempo?”, pensou ela, dando valor à forma como Kaji havia se espantara.
(...)
A sala estava finalmente organizada, impecável e irreconhecível.
Reiji e Kenshiro apareceram, carregados com duas caixas cheias de livros, mapas e pergaminhos.
Todas os utensílios foram retirados da mesa. As caixas foram deixadas ao lado. Reiji pegou um mapa e o estendeu, em mãos estavam alguns lápis para fazer marcações.
— Como devem saber — começou ele —, as estradas de terra interligam as vilas, vilarejos e cidades-livres; as estradas de pedra interligam as Altas-Cidades, a mais importante e vigiada delas sendo aquela que leva para a Capital. Porém, existe outra estrada que recebe a ainda mais proteção — Reiji pegou um dos lápis, fez a primeira marcação.
Essa estrada parte da Capital, não possui nenhum tipo de parada, mas tem diversos postos de fiscalizações. A Capital se encontra no centro do Continente, no centro da região das Grandes Planícies. Essa rota vai em direção ao norte, até Altos-Titã — uma região composta por montanhas —, e acaba abruptamente sem detalhes.
— Pudemos ver essa estrada na Capital — disse Erina —, ela sai diretamente detrás do palácio real. Nenhum civil, nem mesmo um herói imperial, tem autorização para se aproximar.
— Descobriu algo útil durante sua formação, Kenshiro? — perguntou Kaji.
Kenshiro cruzou os braços e fechou os olhos, estava se esforçando para tentar lembrar de qualquer informação útil.
— Esses guardas... como eles se vestiam?
— A cor das armaduras deles era diferente, roxo escuro.
— Esses são os soldados de elite do Império — formulou Kenshiro. — Estão apenas em postos de extrema importância, como a Muralha de Aranost. Eram os guardas pessoais do Imperador, foram realocados após sua morte.
Afinal, por que esse pequeno grupo quer tanto utilizar essa estrada? Por que arriscar um conflito contra o maior e mais poderoso reino existente? Quais seriam suas motivações?
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