Volume 1 – Arco 1
Capítulo 3: Lar, Nostálgico, Lar.
— Preciso mesmo ir? — perguntou Kenshiro, ainda criança.
— Sim. A essa altura, não terei mais como esconder você. Seu pai registrou o seu nascimento e estou começando a ser cobrado de minhas “obrigações” — disse uma voz masculina, um homem adulto.
— E mais uma vez, Ren teve mais sorte do que eu...
— Ei! Não coloque a culpa em mim! Ao menos você tem algo que prove a sua existência... — disse Ren, outra criança.
— Parem vocês dois agora! Kenshiro, você terá que ir para academia de um jeito ou de outro, se dependesse inteiramente de mim, é claro que você não iria. E Ren, pare de dizer que você não existe! Um pedaço de papel não deveria importar para você!
— Sim, tio...
— Sim, pai...
***
— Agora que está de volta, podemos finalmente começar nossa Jornada! — disse Kaji, com um sorriso exageradamente aberto.
— Sim, nós podemos — Kenshiro observou a bagunça dos papeis mais atentamente, ficando transtornado ao perceber do que se tratavam. Pegou algumas folhas do chão, indicou-as para Kaji e, preocupado, perguntou: — O que aconteceu aqui?
— O que foi, jovem Kenshiro? Esqueceu como é a rotina de sua família?
— Não é isso. A bagunça geral eu entendo, mas esses... são documentos. Estavam procurando alguma coisa?
— Ah! Sim. Mestre Reiji foi chamado para uma audiência na Capital, jovem Erina foi junto. Faz 2 horas que partiram, devem voltar a qualquer momento.
Kenshiro lembrou do tempo que levara para viajar de Miravalle à Capital; 2 semanas, com paradas apenas para dormir e comer.
Se soubesse que sua família iria para Capital, teria se formado lá mesmo.
— Hm. O tio utilizou o Impulso para ir? Pensava que você não gostava quando utilizavam técnicas de combates para locomoção.
— Eu já desisti de convencer aquele cabeça oca! Ainda tenho esperança de convencer a jovem Erina. Espero que você não herde o estilo do mestre também.
Não havia mais nada a ser feito no momento. Com sua família fora de casa, restava apenas aguardar.
— Não se preocupe, não aprendi nada que pudesse replicar o Impulso, mas estou impressionado que Erina tenha aprendido tão depressa! — Puxou a cadeira para se sentar à mesa.
O jovem encostou a mão sobre o topo da garrafa de café, estava fria.
Percebendo o desapontamento, Kaji decidiu providenciar uma nova remessa de café.
A garrafa levitou até a pia, jogando fora o líquido amarronzado. Enquanto a garrafa era lavada, outros utensílios começaram a levitar. Um pote de vidro, carregando grãos de café, abriu-se sozinho e despejou os grãos em um filtro.
Apesar de ser uma visão fantasiosa, ela não era precisa, a maioria dos grãos caíam para fora.
Um bule de ferro, amassado e velho, foi à pia. Abastecida com água, foi colocada acima da cabeça de Kaji que o utilizava como um chapéu.
— Haha! Eu ainda levo jeito!
Kaji possuía poderes telecinéticos, utilizados para facilitar o cotidiano da vida dos Torison. Com essas habilidades ele poderia controlar quaisquer objetos da família. Nenhuma chave seria perdida ou esquecida, e a casa estaria sempre faxinada. Nem sempre.
Finalmente, quando a água começou a ferver, acima da lareira, a garrafa e o filtro se posicionaram em um sincronismo atrapalhado, esperando pela água quente.
O novo café estava pronto.
O líquido foi despejado em um copo de metal e entregue ao jovem. O café preto mais se assemelhava à lama de um pântano. Estava borbulhando!
“Kaji exagerou na quantidade de grãos, como sempre...”
Sem hesitar, Kenshiro deu um grande gole, tomando todo o conteúdo de seu copo. Seu corpo se estremeceu, era quente e gosmento, e o gosto... o pior de todos. Forçou-se a engolir. Não queria que seu rosto se contorcesse, não queria mostrar que havia perdido para a cafeína pura.
— E então... como estava? — perguntou Kaji, maliciosamente.
“Sem fazer careta. Sem fazer careta!”
— Estava... — Kenshiro virou seu rosto para o elemental, pleno. — Uma delícia.
(...)
Depois de passar pela provação do café, Kenshiro começou a juntar a papelada que considerava importante do chão. Kaji, o Servo, serviçal, responsável pela limpeza, apenas observava.
— Qual documento o tio procurava?
— Ele estava procurando a carteira de identificação de Herói Imperial. Eu não sabia onde ele tinha jogado, então pegamos todos os documentos possíveis e começamos a procurar.
Organização não era o forte de Kaji.
— Estranho... Nenhuma audiência pediu por isso antes.
— Pois é. Uma audiência tão repentina, com todos os Heróis Imperiais reunidos... Acredito que esteja finalmente acontecendo. A Grande Campanha chegou ao fim.
Kenshiro levantou-se do chão, deixando todos os papeis que pegara caírem novamente. Estava pálido.
— Isso é um problema...
— Sim, de fato.
O Império é o maior e mais importante Reino Humano. Sua influência e força conquistaram a maioria dos reinados, dominando toda a região central, quase metade do Continente.
Ninguém jamais ousara desafiar a sua força, e mesmo os Elfos e Orcs eram inteligentes o suficiente para saber que uma disputa contra eles seria desastrosa. Assim, o Império prosperou por milênios.
Até que um pequeno e recém-formado Reino agiu.
Ao Sul, numa região gélida e inóspita — as Geleiras — existia uma prisão, local onde os piores e mais temíveis criminosos eram enviados. A intenção primordial era que essas pessoas fossem reintegradas à sociedade, depois de pagarem por seus crimes, mas todos sabiam que qualquer um que fosse enviado para a Prisão de Aleksandr jamais retornaria.
Alguns acreditam que a prisão sofreu de superlotamento, outros que os guardas eram corruptos e enxergaram uma oportunidade, mas fato é: um dia, diversos homens vieram do Sul e massacraram diversas vilas e cidades da fronteira; então se proclamaram como os “Remanescentes”.
O Império demorou para agir, jamais imaginara que alguém ousasse os desafiar, ainda mais se tratando de uma simples prisão em um território tão infrutífero.
Diversos ataques foram feitos contra os Remanescentes, mas as Geleiras eram uma fortaleza natural. Estavam seguros e intocáveis.
Em resposta, o Império negociou com os Elfos, adquirindo um casal de mestres engenheiros e seus funcionários. Em menos de 2 meses, a muralha de Aranost fora construída, isolando os Remanescentes para sempre.
Muitos já acreditavam que aquilo era a vitória. Sem suprimentos, seria uma questão de tempo até os Remanescentes morrerem. Porém, o Império instaurou a Grande Campanha, um período de militarização de suas cidades e a formação do maior exército do Continente, visando um ataque coordenado e devastador contra o Sul.
— Se o Império começar um ataque, teremos que desviar de suas formações durante nosso trajeto — disse Kenshiro.
— Isso é o de menos! Estaremos em Lei de Guerra continental! Todos os civis deverão se alojar nas Altas-Cidades e aguardar pelo fim da lei. Qualquer um que for pego descumprindo será considerado um traidor e morrerá!
— Verdade. Não poderemos nem parar nas cidades para nos abastecer...
Kenshiro levou a mão até sua cabeça, coçando sua nuca agitadamente.
“Então foi por isso que os soldados estavam tão agitados e rancorosos com a minha saída. Os preparativos já estavam sendo feitos!”
Whoosh! Alguém havia chegado em alta velocidade.
Kenshiro sentiu uma presença ameaçadora invadindo o local. Não havia muito tempo para pensar. Na falta de uma arma eficaz, levantou os punhos, pronto para uma briga.
Creeeeeec...
Um homem alto cruzou a porta. Vestia apenas uma calça escura e grossa, junto de uma capa presa ao seu pescoço. Seu corpo robusto exibia seus músculos intimidantes, algo incomum pela velocidade usada para chegar ali.
Percebendo quem era, Kenshiro abaixou os braços, emocionado por finalmente vê-lo.
— Tio Reiji! — Correu para abraçá-lo.
— Kenshiro! — Reiji ajoelhou-se, como se recebesse uma criança.
O abraço foi forte e apertado, uma pessoa comum teria suas costelas quebradas devido a força exagerada que o homem gostava em demonstrar.
Reiji possuía traços similares aos de Kenshiro, com a diferença de uma barba curta e espetada, junto das poucas linhas que denunciavam ter chegado à meia idade.
— Vejo que finalmente criou vergonha e treinou esse corpo, moleque!
— Posso ainda não ser tão forte quanto você, mas garanto que irei superá-lo!
— Hahaha! Entusiasmo irracional, eu gosto disso! Hahaha.
Kaji observava com um olhar desinteressado, forçou uma tosse para chamar a atenção.
— Como foi a reunião, mestre? Entramos em Lei de Guerra?
O rosto de Reiji paralisou em uma expressão séria. Após soltar seu sobrinho e ver que ele havia notado sua mudança, tentou disfarçar.
— Aaaa! Falamos disso depois... — Ele sentou-se à mesa e pegou um copo, servindo-se um café — Acabei de chegar em minha casa e já sou bombardeado de perguntas! — Ele tomou.
...?!
Pffft! Um jato amarronzado ejetou de sua boca, acertando a lareira, mudando a cor de suas chamas levemente.
— KAAAJI! Quem deixou você fazer o café! Está horrível como sempre!
A lareira se sacudiu, retirando toda as manchas, então se elevou até atingir a mesma altura de Reiji.
— O jovem Kenshiro queria café, eu me dispus a fazer um pouco!
— Ah é? Então você deveria ter deixado um pouco do café antigo para mim! Eu prefiro tomar café frio do que esse piche!
Reiji e Kaji encaravam-se, batendo suas testas. Com uma visão mais afiada, era possível ver pequenos raios se formando entre seus olhares.
Kenshiro não aguentou, começou a rir. Fazia anos que não via os dois discutindo. Uma visão que para muitos poderia ser assustadora, brigar com um elemental, ou boba, brigar por simples café, mas para ele, era divertido e nostálgico.
Carne e fogo observaram o jovem, confusos.
— Jovem Kenshiro, aconteceu alguma coisa?
— Desculpe! Apenas estou feliz em ver que nada mudou.
— Do que está falando? — perguntou Reiji. — Essa é a primeira vez em anos que discutimos — Kenshiro parou de rir, encarou-os duvidoso. — Tivemos que mudar nossos comportamentos por causa...
Smash-Crack-BAM! Todos foram pegos desprevenidos.
A janela fora quebrada, a mesa destruída e a parede acertada por um vulto.
O responsável havia deixado um buraco no vidro que passara; se enrolado na toalha da mesa que arruinara; agora estava no chão, próximo da parede que batera.
— ...dela.
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