Volume 1 – Arco 1

Capítulo 2: Regresso.

Kenshiro estava na parte de trás da carroça, aproveitando a carona de Walter.  

Vendo a Alta-Cidade de Miravalle se distanciar, ficaram aliviados por nenhum soldado tentar segui-los; a ameaça do espadachim parecia ter sido efetiva. 

— Então... Você realmente tem uma memória perfeita? — perguntou Olivia, quebrando o silêncio. 

Ah, aquilo? Foi uma mentira! 

Pai e filha olharam para trás, transtornados.  

— Então... Qual sua habilidade inata de verdade? — perguntou Walter. 

Sabendo que não iria escapar das perguntas, Kenshiro decidiu dizer a verdade. 

— Eu não considero uma habilidade, mas... Somos muito racionais com nossos sentimentos. 

— Como assim? — perguntou Olivia. 

— Somos verdadeiros amantes e sofredores. Tentamos levar nossas amizades para a vida toda, amar nossos cônjuges todos os dias, apreciar nosso lazer ao máximo. Mas também entramos em uma profunda depressão com a perda de um ente querido, e ficamos paranoicos por dias com um simples pesadelo. 

Olivia entendeu apenas metade da explicação. 

Walter reconhecer as ações e convicções do espadachim. Se fosse uma pessoa verdadeiramente ruim, nunca teria os ajudado, nem sentindo tanta raiva dos soldados. Estava aliviado, recordando das notícias e fofocas de quando Kenshiro ainda era um simples cadete. 

Lembrou-se de algumas questões que ainda lhe causavam dúvidas. 

— O que aconteceu com os outros dois prodígios? Vocês três partiram de Miravalle para a Capital juntos. Só tivemos notícias de você quando estava retornando para concluir sua formação, mas nada dos outros. 

Kenshiro gaguejou, havia sido pego desprevenidamente. Estava tentando criar a melhor desculpa ou mentira possível. 

— Bem... Ficamos em salas diferentes. A academia militar da Capital é muito rigorosa, separando os alunos por suas especialidades e graus de importância. Eu fiquei junto dos alunos renomados. Oliver, por alguma razão, ficou com alguns alunos peculiares... 

— E quanto a Anna? Ela era a melhor entre vocês três, além de ser filha de um Herói Imperial. Ela não ficou junto dos alunos renomados? 

— ... 

Nenhuma palavra foi necessária, Walter já sabia a resposta. Não haveria mais notícias sobre a garota. Oliver ainda era um mistério. 

Olivia não conseguia entender o quanto o silêncio poderia dizer, imaginava que o assunto havia simplesmente se perdido. Para ela tudo bem, gostava mesmo de ver a paisagem sem muitas distrações. 

(...) 

Opa! Aqui é minha parada — Kenshiro saltou da carroça. — Obrigado pela carona! 

“Walter, Olivia, desejo apenas o melhor para vocês, mas é aqui que nossos caminhos se separam. Cuidem-se!” 

— Aonde vai com tanta pressa? — perguntou Walter, casualmente. 

A carroça havia parado no instante que o jovem pulou.  Kenshiro esperava causar um pouco de mistério sobre sua figura, semelhante às histórias que lia quando criança. Ele caiu ao chão, envergonhado por sua saída dramática frustrada. 

Sua cara de desapontamento conseguiu tirar boas risadas de Olivia. 

Walter desceu da carroça para conversar com o jovem apropriadamente. 

— Sua família mora aqui? — Walter encarou a floresta diante deles. 

Kenshiro ficou um pouco sem jeito, pensando se deveria falar a verdade. 

— Sim... Mas acredite, ainda seria muito difícil para vocês encontrarem a gente. 

— Não tenho dúvidas disso! Pensava que essa floresta já tinha sido completamente explorada. Sua família deve viver no topo das árvores, abaixo da terra ou coisa parecida. 

— Algo assim. 

Sabendo que não havia nada para se compartilhar, só restava a despedida.  

Walter esticou sua mão e Kenshiro a apertou. Um aperto forte de ambos, as mãos cheias de calos e feridas de suas próprias batalhas. O olhar dos dois se escureceu ao perceberem que tinham histórias mais sombrias que suas figuras sorridentes. 

Sem mais palavras, Walter retornou e subiu na carroça. Olivia ficou de pé em seu banco, acenando em despedida ao jovem. 

Kenshiro olhou os dois se distanciarem. Pai e filha mal podiam ser vistos agora. 

“Dane-se!” 

— Walter! Olivia! Se precisarem de ajuda, adentrem a floresta! 

Quando olharam para trás, Kenshiro havia desaparecido. 

*** 

Na província de Miravalle existia uma extensa floresta de pinheiros, apelidada de Mancha Verde. A floresta ocupava metade da província, espalhando-se para outras três. 

Apesar de ser o destaque da província, Mancha Verde era, em suma, inútil. 

Sua flora era fraca e pouco interessante, carente de plantas medicinais, frutíferas ou mágicas. Sua fauna era praticamente inexistente, apenas pássaros em migração passavam por lá; a Alta-Cidade era obrigada a importar carne para sua população. Mesmo sua madeira, tão medíocre quando comparada às demais, só era utilizada para construir habitações igualmente decepcionantes; o preço de seu comércio mal pagava o frete. 

Porém, sua pior particularidade era sua terrível atração para os bandidos e malfeitores. Um lugar perfeito para qualquer um desaparecer. 

Não é surpresa para ninguém, discussões sobre seu desmatamento sempre entravam em pauta, mas eram rapidamente dissolvidos pelos amantes da natureza. 

Nesse lugar terrível, abandonado e frívolo era onde os Torison moravam. 

Semelhante aos bandidos, a família de Kenshiro permanecia escondida de todos, por pelo menos 4 gerações. Embora os Torison fossem constantemente procurados, e a floresta explorada de cabo a rabo, nunca foram encontrados. 

Apenas um Torison saberia como chegar em seu lar, observando os poucos e sutis sinais que sua família havia deixado. 

Primeiro: um pinheiro caído. Tão comum quantos outros que ele já passara, mas um pequeno fungo denunciava sua importância — não era natural daquela região. A copa do pinheiro indicava o caminho correto. 

Mesmo que algum especialista descobrisse sobre o fungo e a direção, ainda não seria o suficiente. Todos os arredores da floresta eram iguais, qualquer pessoa que não fosse um exímio caçador acabaria andando em círculos ou desviando da rota original. O próprio Kenshiro confundiu-se 2 vezes até encontrar a segunda pista: um broto de pinheiro. 

Este, igualmente comum aos demais, também não era a verdadeira pista, mas sim a pequena lagarta que devorava pacientemente suas folhas. Era um espécime raro, considerado extinto pelos estudiosos.  

Apelidada de Lagarta-Renovara, sua cor era escura com linhas douradas e pintas roxas. Seu nome carrega uma lenda: “A lagarta se alimentará em crises; tecerá seu casulo no auge do desespero; e renascerá junto de uma nova Era”. 

Se a lenda era verdadeira? Kenshiro desconhecia, assim como a existência de outras lagartas que não estivesses nas únicas 5 mudas plantadas por seus familiares. 

Faltava pouco para finalmente chegar em casa. Seu coração palpitava forte. 

(...) 

Finalmente ele encontrou a última pista, indicando que havia chegado ao seu destino: uma rocha. 

Adiante da rocha não havia nada, apenas mais dos mesmos pinheiros e vegetações que já havia passado. A rocha em si não dizia nada, mas havia um detalhe interessante: seu musgo crescia apenas em um de seus lados, interrompendo-se exatamente em seu meio. 

Kenshiro respirou fundo e cruzou a rocha.  

Ao passar pelo meio, exatamente onde o musgo parara de crescer, ele desapareceu. 

Atingindo por um choque térmico, Kenshiro sentiu, em seu fim, um calor reconfortante de um novo ambiente. Ao abrir os olhos, teve uma visão que a muito pensara já ter se esquecido: seu lar, uma cabana de madeira. 

A cabana tinha dois andares, fora construída com madeira de alta qualidade, possuindo tons mais escuros. Com seu estilo rústico, recebeu muita atenção aos detalhes e acabamentos; algo que apenas famílias ricas e renomadas gozavam. 

Havia também um armazém e um poço próximos. O armazém se assemelhava a um celeiro, mantiveram a cor natural da madeira, semelhante à cabana. O poço era de pedra, tão comum quanto qualquer outro. 

Além das construções, a vegetação parecia desconexa com a floresta. A grama era mais baixa, clara e possuía mais flores. 

A floresta ainda podia ser vista, estava embaçada. Causa comum de qualquer barreira mágica, uma ilusória. Podia ver tudo de dentro para fora, não o contrário. 

Assim como suas habilidades inatas, os Descendentes possuíam algumas artimanhas. 

Caminhando até a porta, os dedos do jovem se enrijeceram, sua respiração ficou turbulenta e o suor de seu rosto começou a escorrer. Apenas quando foi alcançar a maçaneta, percebeu seu nervosismo. 

Fechando o punho e levando-o até o peito, Kenshiro se concentrou para se acalmar. 

Talvez estivesse apressando seus passos, havia ficado longe demais de seu lar, precisava aproveitar tudo que era oferecido a ele. Começando pelo ar. Ele deixou todo o ar de seus pulmões saírem, então inspirou profundamente... e soltou.  

Inspira... Expira...  

“É mesmo, eu me esqueci. Esse ar... é tão limpo quando comparado àquela sujeira das cidades imperiais. Kaji se esforça tanto para nos dar o melhor, o mínimo que posso fazer é usufruir disso.” 

Inspira... Expira...  

Seus pulmões já estavam limpos, abastecidos pelo melhor ar que ele podia respirar. 

Ele não sabe disso ainda, mas a pureza do oxigênio aperfeiçoa sua força. Algo comum que os Servos... Ops! Acho que me adiantei... 

Estando mais calmo, Kenshiro finalmente abriu a porta. 

Creeeeeec  

!!! 

A casa inteira estava uma bagunça!  

Livros e documentos espalhados pelo chão; copos e talheres jogados à mesa; as cadeiras estavam caídas e havia comida nas paredes. Era como se um tornado tivesse passado.  

O único local que parecia estar impecável era a cozinha, onde a lareira se encontrava — utilizada tanto para aquecer quanto para cozinhar —, estranhamente sem nenhuma chaminé para levar sua fumaça. 

Kenshiro sorriu, aliviado em saber que nada havia mudado. Estava tudo exatamente como ele se lembrava. 

Organização e limpeza não eram o forte de sua família, e pelo rastro de comida que ainda descia pela parede, pôde ter certeza de que aquela bagunça havia sido feita ainda pela manhã. 

Ao perceber que o fogo estava baixo, apesar da quantidade exagerada de lenha, decidiu acordá-lo. Tomou cuidado para não trombar em nenhum móvel, amassar um documento ou pisar num caco de vidro.  

Quando chegou, Kenshiro levou sua mão ao fogo e começou a acariciá-lo. Supreendentemente sua mão, nem sua roupa, se queimaram. E após um pequeno estalo, o fogo subitamente cresceu, tomando conta de todo o corpo de Kenshiro. 

Ah... 

O jovem não aguentou, o calor era tão reconfortante e acolhedor que poderia dormir de pé. Sentia falta daqueles abraços. 

— Já chega, Kaji. Deixe-me te ver. 

A lareira obedeceu. Abaixou seu fogo até sua estatura normal. Então dois olhos e uma boca mágica foram criados, mostrando uma face fofa e amigável. 

— Você não mudou nada! — disse Kenshiro. 

— Não posso dizer o mesmo de você — respondeu Kaji, sua voz tremulando igual ao fogo —, jovem Kenshiro. 

Kaji era um elemental do tipo fogo, e um Servo da família Torison. 

Elementais são criaturas mágicas, seus corpos correspondem às formas básica de seus componentes ou substâncias. No caso de Kaji, embora seja representando como uma simples fogueira, também possui poderes relacionados à lava e explosões. 

Um Servo, é um ser vivo criado com o único propósito de servir. Ele pode ter sentimentos ou não, mas sempre será fiel àqueles que está jurado a servir, dedicando sua vida para isso.  

Kaji abriu um sorriso, exageradamente largo, e disse: — Agora que está de volta, podemos finalmente começar nossa Jornada! 

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