Volume 1 – Arco 1
Capítulo 1: Jovem Tolo.
O que faz aqui? A história de Walter e Olivia não foi o suficiente para você?
Você quer mesmo saber qual foi o destino deles? Ha! Este é um mundo de dor e sofrimento, o que você espera? Meu trabalho ainda não está terminado, este mundo ainda não pode ser apreciado. Então vá embora, volte quando eu terminar.
...
...?
Entendi...
O seu mundo é pior que esse? Você passou por tanto sofrimento que o alheio lhe satisfaz? Ou você é tão egoísta ao ponto de não se importar?
Que seja...
Então, que essa história seja contada por alguém de sua semelhança.
Alguém tolo e arrogante;
Alguém sonhador e ingênuo;
Alguém... humano.
***
A noite seguia tranquila, pacífica e imutável. As estradas pareciam vazias, alguns pares de luzes podiam ser vistos andando pela estrada.
Os guardas noturnos, cansados de suas monótonas patrulhas, ansiavam pela troca de turno. Eram mal pagos e esquecidos pela população e seus compatriotas, jamais teriam histórias gloriosas ou reconhecimento.
E atendendo ao desejo deles...
O sol nasceu mais uma vez, irradiando o mundo com sua poderosa luz — espantando toda a escuridão. Um novo dia, um novo futuro, uma nova aventura iria começar.
Os exaustos sentinelas podiam enfim descansar.
Chegando ao portão de Miravalle, foram rapidamente substituídos pelos guardas diários, homens mais alegres e cheios de disposição para um dia movimentado. Invejados pelo desempenho atrelado aos agradecimentos dos cidadãos.
O que antes eram 30 vigias cansados e deprimidos, agora eram uma milha de soldados atentos e bem equipados. Cada um determinado a dar a vida em seu serviço. Não existiria maior honra do que morrer em nome do Imperador.
A vida começava a voltar a sua rotina, ainda lentamente.
Os moradores das vilas começavam o dia ainda cedo, suas carruagens já podiam ser vistas ao longe, queriam ser os primeiros a entrar no comércio. Enquanto a população da cidade demorava para despertar.
A hospedagem funcionava 24 horas. Você não encontraria as melhores bebidas ou comidas, mas sempre teria uma cama te esperando;
O estábulo e o portário trabalhavam em conjunto, eram os primeiros a abrir, precisavam estar em pleno funcionamento para atender os primeiros comerciantes do dia;
O comércio — ferreiro, artesões, tavernas, mercado — era o próximo a funcionar. Alguns mais cedo do que outros, sempre em horários próximos, prontos para negociar com os comerciantes para revender ou utilizar suas matérias-primas.
Na parte da tarde, o mosteiro era aberto ao público. Qualquer um poderia buscar auxílio: conselhos, atendimento médico, comida, educação, mas principalmente, salvação. Um local para ajudar ao próximo, quando não tomado pela corrupção.
O comércio noturno também era importante... as casas noturnas funcionavam para os jovens e delinquentes que quisessem gastar suas riquezas. Os mais diversos e conhecidos trabalhos poderiam ser encontrados e requisitados aqui. Parte do lucro das casas eram enviadas à cidade; única maneira de se manterem abertas.
Esse era o ecossistema básico de qualquer cidade. Algumas podendo receber uma função mais especifica, no caso de Miravalle era o treinamento da população local. Possuindo a maior academia militar da província.
***
Nessa academia, um jovem prodígio havia acabado de se formar.
Seu período de treinamento fora conturbado, havia começado em Miravalle e transferido para a Capital — onde recebera um treinamento especial — até ser repentinamente reprovado e enviado novamente para sua cidade natal, apenas para finalizar sua formação.
Apesar dos contratempos, sempre fora visto como o orgulho da cidade e da província. Chegara no dia anterior com muitas palmas e elogios. Finalmente estava de partida para tomar o próprio rumo de sua vida.
Seu nome era Kenshiro Torison.
Kenshiro havia acabado de chegar à idade adulta, sua face livres de imperfeições era a prova. Seus olhos eram escuros, semelhante às mechas de seu cabelo curto. Seu corpo havia sido adequadamente treinado para o exército, tal como qualquer recruta. Não havia nada de relevante em sua aparência, era tão comum quanto qualquer outro.
Após deixar a academia, caminhou tranquilamente pelas ruas em direção à saída. Com os olhos fechados e um sorriso no rosto, transparecia sua despreocupação. Foi quando percebeu a falta de movimento ao seu redor; ninguém ousara se aproximar dele.
Após ter sido recebido com tanto carinho pela população, imagine a surpresa ao descobrirem que Kenshiro havia sido dispensado com desonras. Sua armadura cerimonial, tingida de preto, simbolizava o luto e a falta de sua coragem. Era um covarde aos olhos do povo.
Kenshiro não pôde deixar de se incomodar, não se importava com a opinião alheia, lamentava como todos podiam cegamente culpá-lo sem antes terem o consultado.
Distraído em seus pensamentos, ele trombou em uma menina — igualmente distraída — que corria pela rua. Ela tombou para trás, em uma pequena poça d’água. Kenshiro a encarou de cima, semelhante a uma rapina. Amedrontador.
— Olivia! — gritou o pai, um homem alto e robusto, possuía um bigode mustache muito bem cuidado.
Ele desceu de sua carroça e correu em direção da sua criança, ao perceber em quem ela trombou, rapidamente se curvou em referência.
— P-perdão, meu senhor!
A menina, vendo a preocupação do pai, o imitou; ainda incomodada com sua roupa molhada e suja.
Kenshiro olhou com desdém, obrigando-os — involuntariamente — a se curvarem ainda mais. Quando sua mão repousou sobre o ombro do pai, os dois levantaram suas cabeças e viram um jovem sorrindo, meio sem jeito.
— Senhor, por que está se curvando?
— V-você é Kenshiro Torison! Um dos Descendentes! Sua importância se iguala a um Governador!
Kenshiro riu.
— Não é para tanto. Veja... — abriu os braços, realçando os detalhes de sua armadura. — Não vê que fui dispensado com desonra?
— Posso estar enganado, mas foi o senhor que pediu dispensa, não foi?
— Como sabe?
— Não haveria outro motivo para alguém como o senhor receber essa armadura — o pai levantou parte de sua calça, revelando um pedaço de pau no lugar do seu pé esquerdo. — Sei bem como é difícil ser dispensado...
— Já foi do exército?
O homem fez uma saudação digna de um oficial, e falou de maneira igualmente militar: — ex-capitão Walter se apresentando! Responsável pela pacificação da província de Miravalle há 6 anos!
Kenshiro não pôde conter o sorriso. Já havia ouvido falar das histórias de um oficial responsável por tornar aquela província tão segura quanto a própria Capital, estava finalmente conhecendo-o.
— Papai... meu vestido...
— E presumo que essa seja o motivo da sua dispensa.
Walter sorriu, desfazendo sua postura.
— Bem, na verdade...
Inesperadamente, Kenshiro agarrou Olivia e a escondeu abaixo de seu corpo, como se estivesse a protegendo. Uma movimentação tão repentina que pegou pai e filha de surpresa, até Kenshiro mostrar ter apanhado um tijolo momentos antes de acertar a garota.
Ao olharem para cima, viram dois guardas os escarando. Miseráveis.
Walter se assustou, aquele não era o comportamento habitual de qualquer soldado em seus tempos de serventia.
— S-senhor? Por que está me abraçando?
Voltando à menina, Kenshiro se certificou que ela não havia se ferido. Aliviado, ele se ajoelhou e perguntou: — Olivia, vamos comprar um novo vestido?
***
Estavam agora na área comercial da cidade. Um local simples e funcional.
Um pequeno chafariz ficava no centro, em sua volta as mais diversas barracas e tendas, vendiam seus produtos igualmente diversificados. Um pouco mais distante, em edifícios próprios, estavam os comerciantes antigos e bem-sucedidos da cidade: oficinas de armas e armaduras, hospedarias, tavernas, boticário e biblioteca.
Os três estavam em um ateliê de costura, um estabelecimento edificado. Kenshiro e Walter estavam do lado de fora, esperando por Olivia que procurava um vestido adequado para si.
— Obrigado por se dispuser a pagar. Fazia tempo que eu queria comprar algo para ela desta loja.
— Considere meu pedido de desculpas, não queria colocar a vida da sua filha em perigo. Com certeza estavam mirando em mim, mas a mira desses idiotas é péssima!
— Ha! Algumas coisas nunca mudam...
(...)
— Então... Posso saber por que um dos Descendentes quis ser dispensado?
— Eu não posso só querer isso?
— É claro que pode! Mas você ficou tanto tempo escondido como um simples soldado comum... Imagina a surpresa quando a simples província de Miravalle descobriu que uma das famílias dos Descendentes estava morando por aqui!
— É... e desde então, estão procurando nossa morada.
— Nem em meus tempos de glória eu fui tão elogiado e procurado como você...
— Ainda não consigo entender o porquê de meu sangue valer mais que os feitos de anos dos outros. Sequer fiz alguma coisa na vida...
Walter ao notar o rumo que a conversa estava se tornando — depreciação — bateu uma palma forte que atraiu a atenção de Kenshiro, junto de algumas pessoas que passavam pelo local.
— Senhor Kenshiro. Eu entendo que possa estar perdido, como se estivesse com as melhores cartas do jogo, mas não faz ideia das regras. Então irei te explicar...
Nesse mundo mágico, atualmente, existem apenas resquícios de magia. Quase todas as bestas místicas foram extintas; os orcs e elfos estão isolados em suas próprias regiões, nunca mais ouvimos falar deles; e mesmo os próprios Descendentes estão desaparecendo.
Nos tempos em que a magia fora abundante, era comum que as famílias possuíssem um nome próprio, como a própria família de Kenshiro: Torison. No entanto, quando a magia veio a se esvair, isso desencadeou uma guerra civil mundial. Muitas famílias foram exterminadas e seus nomes apagados da história.
A humanidade estava prestes a ser exterminada por sua própria ganância. Até que homens poderosos apareceram e interviram. Seus filhos e netos foram chamados de Descendentes.
— ...qualquer pessoa com nome de família já seria importante, mas um Descendente? Você carrega o peso de ter salvado a humanidade!
— Sim, mas... eu nunca pedi por isso. E parece que eu preciso suprir as necessidades do mundo antes da minha.
Naquele momento, Olivia saiu da loja. Ela deu algumas voltas para mostrar seu novo vestido azul para seu pai. Feliz em vê-la, Walter a pegou pela cintura e a colocou sobre seus ombros.
Apesar da conversa ser momentaneamente interrompida, Kenshiro sentia satisfação em ver uma família tão feliz, ainda que em tempos de guerra.
Não querendo permanecer muito tempo na cidade, Kenshiro se levantou e acenou para a moça da loja de roupas. Era uma antiga amiga da academia. Devia-lhe um favor.
— Sabe, Kenshiro Torison — continuou Walter —, eu nunca saberei o fardo que você carrega. Ou o quão ruim ele deve ser. Mas tenho autoridade para falar: todos temos nossas obrigações, ainda assim, podemos escolher rejeitá-los. Porém, teremos que aceitar suas consequências...
Chegando à carroça, Walter pôs Olivia no banco e sentou-se ao seu lado.
— Mas aqueles que nos conhecem de verdade, entenderão nossas escolhas — disse Walter, apertando o nariz de Olivia. — E isso é tudo que importa.
Aconselhado, Kenshiro assentiu sua realidade. Havia prioridades em sua vida, pessoas das quais o importava mais do que a própria vida.
— Vocês vão para Valéria, não é? Posso acompanhá-los?
***
Chegando ao portão, Kenshiro andava ao lado da carroça de Walter e Olivia, puxada por um simples cavalo fiel. Queria apenas garantir que os dois saíssem da cidade a salvo.
Faltava apenas passar pelo portário: um guarda responsável por vistoriar e garantir que ninguém entrasse ou saísse com quaisquer pertences ou riquezas não permitidas.
Walter foi o primeiro. Entregou algumas notas ao fiscalizador, todas as suas compras e vendas estavam ali. Ainda precisava pagar uma pequena taxa pelo uso das estradas, morar em uma província imperial e pela segurança diurna; um valor simbólico de 20% de seu lucro. Impostos abusivos.
Era a vez de Kenshiro.
Como fora dispensado da academia, estava apenas com as roupas do corpo, seu bilhete de dispensa e um saco com 1.000 moedas.
— Está tudo em ordem, apenas um kit básico de reservista — disse o guarda.
O espadachim guardou seus pertences. Estava pronto para partir, até o guarda segurá-lo pelo ombro.
— Espere um pouco, faltou seu “visto de liberação.”
Kenshiro foi surpreendido com uma joelhado em seu estômago, expulsando o ar de seus pulmões, fazendo-o se curvar. O guarda aproveitou para sacar sua adaga, acertando a nuca do espadachim com o cabo.
— Aaaaahh! — gritou Olivia, assustada pela ação repentina.
Kenshiro tentou se levantar, mas sua cabeça foi pressionada pela bota metálica do guarda que o advertiu: — Fique no chão!
— O que diabos está acontecendo aqui?! — exigiu Walter. — Essa não é uma conduta apropriada, ainda mais para um oficial!
Walter pôde notar que o soldado vestia um cordão de ouro dentro da armadura, algo caro demais para qualquer soldado de baixa patente.
— Tsk! Não se intrometa, civil! Estou apenas dando uma lição para os próximos cadetes...
Outro soldado apareceu, escoltando algumas dúzias de crianças. Este vestia uma armadura padrão, mas as plumas brancas e vermelhas de seu capacete denunciavam sua função como recrutador.
Ele parou ao ver o pequeno show, rapidamente decidiu participar.
— Vejam crianças: um traidor! — disse de maneira teatral. — Um desertor que liga apenas para o próprio umbigo! Ele usufruiu de todas as comodidades de nossa academia; dormiu em nossas camas, comeu nossa comida, leu nossos livros e teve um treinamento adequado com os melhores professores do Continente. Mesmo assim, preferiu dar as costas ao único pedido que lhe foi feito.
O recrutador caminhou até Kenshiro, chutando um pouco de terra em seu rosto.
— Agora, lembrem-se: este é o destino apenas para os covardes e traidores. Nenhum de vocês precisarão passar por isso. Apenas pediremos para que sirvam ao exército por 1 ano, e logo serão dispensados e voltarão para suas famílias com todas as honrarias que conquistarem...
O homem seguiu para dentro da cidade, ainda discursando, acompanhado pelas crianças assustadas. Algumas delas encaravam Olivia, um misto de inveja, desprezo e pena.
O fiscalizador percebeu.
— Esperem um pouco. O senhor e sua filha, de onde são?
Walter sentiu um frio em sua espinha. Se descobrissem que ele levou Olivia consigo para não ser recrutada, poderia acabar perdendo sua guarda.
Kenshiro sabia disso.
Em um movimento rápido, Kenshiro se levantou, desequilibrando o guarda que bateu a cabeça contra os muros da entrada. Ele acabou deixando a adaga escapar de suas mãos.
Quando o soldado recobrou a atenção, viu a ponta de uma lâmina posta contra seu olho direito.
Kenshiro estava a segurando, com um olhar assassino.
— Então você quem ordenou para atirarem um tijolo na minha cabeça... Você quase acertou uma criança. ESSA criança. Sabia disso?!
— E-eu... Não fazia ideia!
— Você deve saber que eu sou um Descendente... É a única explicação para ter tanto desprezo de mim... Você sabe que todos os Descendentes possuem uma habilidade inata, não é? Quer saber qual é a minha?
Kenshiro se aproximou e cochichou no ouvido do soldado. No lugar da tremedeira do pânico, ele ficou paralisado por puro medo.
— Minha família possuí uma memória perfeita. Eu me lembrarei de seu rosto, e se alguma coisa acontecer comigo, ou a esses dois, saberei que foi você. Você me entendeu? Eu irei atrás de você, de seus amigos, de sua família, e garantirei que você irá pagar por isso, porco imperial.
Kenshiro recuou a lâmina e a soltou, caindo perfeitamente no meio das pernas do oficial. Ao se levantar o encarou de cima. Seus olhos penetraram as lentes do oficial, ficando cravadas em sua mente.
O guarda nada disse, tentou ao máximo controlar o seu pânico. Só voltou a realidade quando o verdadeiro soldado responsável pelo portário apareceu.
— Senhor? Está tudo bem?
O oficial levantou-se rapidamente.
— S-sim! Está tudo bem!
— Senhor?
— O que foi?!
— Suas calças... estão molhadas...
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