Volume 1 – Arco 1
Prólogo: Presságio de Valéria.
Agraciados pelo início do dia, os moradores da vila de Valéria despertaram para mais uma jornada de trabalho duro e mal remunerado.
Em tempos de guerra, recursos eram altamente solicitados pelas Altas-Cidades — Cidades principais de suas províncias, que carregam seus nomes. Valéria era uma vila madeireira, responsável por abastecer a Alta-Cidade de Miravalle.
Os raios solares finalmente alcançaram o interior do quarto de Walter, transparecendo a janela e iluminando seus olhos, despertando-o. Ainda não queria se levantar, virou-se para aproveitar alguns poucos minutos de silêncio.
Bam! A porta de seu quarto foi violentamente aberta, batendo contra a parede.
Encarando a entrada, ainda sentindo o peso sobre seus olhos, foi atacado por uma criaturinha pequena que o agarrou e gritou:
— Bom dia, dorminhoco!
— Bom dia, Olivia... — respondeu Walter.
Ainda que fossem pai e filha, pareciam completos opostos.
Walter, um homem alto e musculoso, mantinha um bigode mustache muito bem cuidado. Prezava muito pelo seu estilo. O único membro de seu corpo que não parecia ter sido treinado adequadamente era o seu pé esquerdo: um simples pedaço de pau, substituindo o original.
Olivia, uma garota meiga e pequena, gostava de seu cabelo curto com franja, um corte que ela cuidava sozinha. Estava sempre com seu simples vestido azul, contracenando com a camisa xadrez vermelha de seu pai.
Agora, acordado, Walter se levantou e vestiu-se, pronto para o trabalho.
Crrreeec... Tum!
Ele era responsável por derrubar as árvores.
Toc. Toc. Toc.
E da limpeza de seu tronco, assim como o seu transporte até a vila.
Chop-chop, Chop-chop-chop.
E da transformação do grosso tronco aos vários blocos e placas de madeira a serem transportados e comercializados.
— Aqui, papai!
Olivia era responsável por abastecer as energias do seu pai. Carregava constantemente uma jarra de suco de laranja, virada rapidamente goela abaixo pelo grande lenhador. Delícia!
Walter era o único homem adulto de Valéria. Os demais estavam servindo ao exército imperial. Uma tarefa obrigatória, todas as vilas e cidades deveriam cumprir suas obrigações em troca de proteção, algo que ele conhecia bem.
— Senhor Walter, estamos partindo — disse uma jovem mulher. Iria para Miravalle vender toda a madeira.
Aquela era outra tarefa de Walter, felizmente duas mulheres se dispuseram a fazê-la. Uma retribuição a tudo que ele já fazia sozinho.
Tlin-tlin.
— Seja bem-vinda ao Pica-pau! — disse Olivia ao primeiro freguês do dia.
— Oh! Como você é adorável... — respondeu a idosa.
Walter também cuidava da taverna da vila.
O Pica-pau era uma bodega simples, construída com a madeira local — assim como a própria Valéria —, utilizada pelos poucos comerciantes e viajantes que quisessem molhar as gargantas. Seus preços eram justos, mas um desconto era inegociável.
Por estarem próximos de Miravalle, o Pica-pau não possuía quartos disponíveis para os fregueses. Walter apenas servia as bebidas, enquanto Olivia anotava os pedidos e recebia a clientela.
— Com licença... — disse a idosa, ao se sentar à bancada.
— O que gostaria, madame?
— “Madame”? Oh, seu garanhão... não me faça ficar vermelha!
O barman mantinha um sorriso simplório no rosto, conseguindo extrair boas conversas dos seus poucos clientes. Era atencioso com todos, sabia o bom uso das palavras, e do silêncio quando fosse apenas um ouvinte.
(...)
O sol estava preparando-se para se pôr, printando o céu em um tom alaranjado. Era hora de fechar.
Apenas 6 clientes, e um deles — a idosa — não havia feito sequer um pedido. Ao menos suas conversas ajudaram a fazer o tempo correr.
— Minha madame, temo em informar que não possuímos nenhuma cama. Se não partir agora, chegará em Miravalle após a chegada da noite! Conheço uma hospedaria ótima lá, o dono cobra barato.
— Ora, essa! Parece que realmente perdi meu horário...
Walter ficou aliviado, temia os perigos que a escuridão pudesse trazer em qualquer jornada.
Tlin-tlin. Outro freguês?
Um homem encapuzado havia chegado.
Olivia sabia que determinados indivíduos não deviam ser abordados por ela, uma questão de segurança que seu pai a havia pedido.
— Boa tarde, meu senhor. Bem-vindo ao Pica-pau.
O homem não falou nada, apenas observou os arredores, certificando que as demais mesas estivessem vazias.
— Eh... O senhor pode se sentar onde quiser.
— Acho que deu a minha hora... — disse a idosa, apertando as mãos.
— Olivia, por que não mostra à madame o seu quarto?
Creeee...
Com a saída das duas, o homem enfim se moveu até a bancada onde se sentou. Ainda estava em completo silêncio, escondendo seu rosto.
Walter estava com um péssimo pressentimento, algo que não sentia há muitos anos. Queria acreditar que estava apenas sendo paranoico. Seus sentidos estavam certos.
— Desculpe-me pelo silêncio — disse o homem, retirando o capuz, mostrando um grande sorriso e olhar simpático —, acho que estava perdido em meus pensamentos.
Os sentidos de Walter se aliviaram ao ver um simples e modesto homem. Ele soltou a adaga que mantinha escondida atrás do balcão, e respondeu:
— Não seja por isso! Que tal uma bebida para me dizer sobre o que tanto pensava?
***
Vendo seu pai pela fechadura da porta, Olivia pôde concluir que estava tudo bem.
— Senhora, acredito que você já possa ir.
— Que quarto adorável você tem, minha jovem. Diga-me, ele tem algo de especial? Seu pai pediu para que viéssemos aqui... acredito que ele queria que você me mostrasse alguma coisa.
Olivia sorriu despreocupada. Adorava conversar e impressionar os moradores da vila e os visitantes. Era verdade, havia algo de especial em seu quarto.
Depois de arrastarem sua cama, ela revelou à senhora um alçapão que as levava para uma caverna abaixo do Pica-pau.
— Oh! Isso é incrível! Diga-me: onde isso nos levaria?
— Papai disse que a cavernas tem muitas bivurcações, mas o caminho correto nos levaria para o meio da floresta, no Sul! Mas teríamos que dar uma grande voltona, já que Miravalle fica ao norte!
— Isso mesmo! Você é tão esperta!
A idosa acariciou os cabelos da criança.
Olivia estava tão feliz por impressionar mais um adulto que nem percebeu: um dos motivos daquela passagem existir estava diante dela.
***
O homem mostrava ser mais falastrão do que aparentava, Walter sabia como conversar com esse tipo.
— E foi assim que vim parar aqui! — encerrou o homem.
— É realmente uma grande história! Estou curioso para ouvir mais. Não, não está.
O cliente ajeitou-se em sua cadeira. Pediu mais uma dose da sua bebida, cerveja simples com baixa fermentação.
— Sabe, Walter... eu posso estar enganado, mas você é o único homem da vila? Digo, homem adulto.
Walter parou de esfregar o caneco limpo bruscamente, hábito comum de sua profissão. A sensação incômoda retornou.
— Sim, eu sou.
— Aaah! Deve estar se divertindo então. Certeza que não tem nenhum perdido seu por aqui?
Walter pôs suas mãos na bancada. O impacto, embora não houvesse barulho, pôde ser sentido pelo freguês.
— Eu fui, e sou, fiel à minha Lilian. Sei que todas as mulheres desse vilarejo também são fiéis aos seus cônjuges. Qualquer um que fosse atrevido o bastante... já teria sido expulso daqui.
Os dois encararam-se momentaneamente. Os olhos de Walter estavam sérios, determinados a mostrar a firmeza de suas palavras. O olhar do homem era fraco, intimidado pelo tamanho e postura do lenhador. Um sorriso escapou por seus lábios.
— Ora! Eu só estava brincando! Você não é tão divertido quanto parece ser...
— Sinto muito — Walter levantou suas mãos, voltando a limpar a perfeição. — É um assunto pessoal, deixei me levar.
— Fiquei interessado. Por favor, comece.
Walter encarou-o com dúvidas. O homem insistiu para que contasse um pouco de sua história, pois já havia contado a própria.
— Pois bem...
O barman tentou ser breve.
Walter fora selecionado, ainda cedo, para servir o exército imperial. Algo comum que toda criança — vassalo desse regime — iria passar quando chegasse a idade. No caso dele, ainda faltava 1 ano para que fosse recrutado, mas seu tamanho o destacou tanto que fora uma exceção.
Após formar-se na academia, fora dispensado e retornou para Valéria e casou-se com sua amiga de infância, Lírian. Os dois tiveram uma criança, mas ela fora sequestrada e morta por bandidos.
Em sofrimento, Walter juntou-se novamente ao exército e subiu rapidamente na hierarquia até se tornar Capitão. Foi quando começou a perseguir e expulsar todos os bandidos que encontrou na província.
Lírian engravidou novamente, esperava por Olivia. Mas a sede de sangue de Walter ainda era vívida em sua pele. Ele não esteve presente no dia do nascimento. Foi somente quando recebeu a notícia da morte de sua esposa — doente pela falta de seu marido — que Walter percebeu ter se passado 3 anos.
Desta vez, o próprio Império impedia-o de ser dispensado. Seus serviços haviam sido tão efetivos, queriam torná-lo responsável por limpar e diminuir as ameaças de outras províncias.
Sem escolhas, Walter cortou o próprio pé, conseguindo sua dispensa.
— ...desde então, busco estar presente na vida de Olivia o máximo que eu puder.
O homem bateu algumas palmas lentas pela bela história. Mais uma garrafa havia terminado.
(...)
A noite havia chegado.
— O senhor planeja ficar quantas horas ainda?
— Está expulsando um cliente?
— Jamais! Apenas não possuo nenhuma cama, e me preocupo com a segurança de vossa jornada.
— Não há necessidade para isso! Apenas a estrada de pedra passa nessa vila, levando diretamente para Miravalle. E os guardas já devem estar patrulhando essa hora...
Walter olhou pela janela e pôde ver alguns homens armados andando pela estrada. De fato, era hora das patrulhas.
O freguês, um homem falastrão e espontâneo, se tornou subitamente quieto. Ele não pediu nenhuma bebida, sequer respondeu as iniciativas de conversa de Walter; seu silêncio se tornou incômodo.
Então, com um sorriso perverso em seus lábios ele começou:
— Você deve realmente amar a sua filha para não ter deixado ela ser levada pelo recrutador...
Um arrepio!
— Perdão?
Olhando mais atentamente, aqueles homens não eram guardas... Outros mais apareceram!
— Estive observando essa vila já faz algum tempo... esperei o dia que não houvessem mais crianças, pois elas causam muita comoção às pessoas. Não nos tornamos apenas homens procurados, mas monstros. Custa uma fortuna para limpar nossos nomes!
Tlin-tlin. Duas dezenas de homens entraram. Todos vestindo roupas similares às do primeiro freguês.
Walter já havia entendido o que estava acontecendo.
— O senhor e seus amigos devem partir imediatamente. Os guardas estão patrulhando, e logo chegarão aqui!
— Walter, Walter, Walter... ficaria impressionado o que um bom suborno pode fazer. Como por exemplo: impedir que os guardas patrulhem por algumas semanas, ou criar uma rota alternativa para comerciantes.
— O que vocês querem? — Walter tentava manter a calma, enquanto buscava pegar sua adaga, lentamente.
— Mulheres, bebidas, um lugar para dormir e se esconder. E encontramos tudo que queríamos bem aqui! E de bônus, conseguirei um grande guarda-costas para mim!
Tchiin!
Walter e o cliente sacaram suas adagas juntos, apontando-as contra o outro. Os demais levantaram suas armas em seguida.
— Eu jamais me juntarei a sua laia!
— Acho que você não terá escolha...
Bam! A porta do quarto de Olivia abriu com violência.
— Abaixe a faca, ou sua filha morre! — disse a velha, revelando sua natureza e voz traiçoeira.
Olivia estava desacordada, amarrada e com uma faca contra o pescoço.
Walter pôde ver pela janela os bandidos invadindo as demais moradias.
Lute.
Mesmo que fossem mais numerosos, sabia que poderia vencê-los.
Lute!
Era o único capaz de proteger Valéria.
LUTE!!!
Mas não conseguiria salvar Olivia.
Lute...
...
Clink! A adaga caiu no chão.
— Muito bem...
Walter foi acertado em sua nuca, desmaiando. Seu destino, e de sua filha, agora estavam nas mãos daquelas pessoas.
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