Volume 1 – Arco 2

Capítulo 9: Formigas.

É da natureza de qualquer sociedade existir aqueles que sejam contra o governo. Mesmo aqueles considerados bons, ideais e perfeitos, pois cada pessoa possui seus próprios princípios que, às vezes, julgam estar acima do resto da sociedade. 

Não é porque existe uma oposição ou revolta que necessariamente ela está correta. Pessoas ruins podem se unir por um mal maior, não se engane disso. 

Era natural que um reino tão grande e poderoso como o Império, fosse ter aqueles contrários a ele. As Cidades-Livres são um exemplo de oposição neutra. 

As Cidades-Livres, possuem total autonomia de suas tropas, estradas e território, além de adotarem seus próprios regimes e políticas. A maioria ainda faz o uso do dinheiro e comercializa com o próprio Império, mas não possuem nenhuma obrigação como os impostos e o alistamento de suas crianças. No entanto, também não possuem nenhum direito, como a proteção das tropas imperiais e estradas de pedra. 

Uma oposição rara são as revoltas, quando a população de uma cidade imperial tenta assumir o controle, retirando o Governador legal do poder. Nesse caso, o Império considera os revoltantes como traidores, seus líderes são mortos em público e seus coadjuvantes presos. 

Nenhuma revolta contra o Império foi bem-sucedida até hoje. 

Ninguém jamais venceria o Império combatendo-o de frente, sua força é esmagadora. A única maneira de vencê-lo é utilizando a inteligência, e fazendo movimentos que permaneçam ocultos. 

Há rumores — nenhum comprovado — de que exista um grupo de opositores especializados em técnicas de furtividade e assassinato. Nenhum deles foi encontrado, e o Império garante aos seus cidadãos que algo assim era impossível. 

No entanto... 

Escondidos abaixo da terra, na Mancha Verde, era onde esses opositores viviam. 

Todos nutriam suas insatisfações contra o Império. Alguns baseados em suas próprias experiências e vivências, outros tomaram as dores de seus familiares e amigos. Determinação e motivos era o que não faltava. 

Unidos em um único objetivo, eles se uniram e se tornaram uma família. Seu líder era chamado de Pai, e seus membros eram seus filhos, treinados nas artes da furtividade e assassinato. 

Uma irmandade de assassinos. Quase duas centenas de membros. 

Era um grupo relativamente recente, o Pai era o fundador, não era um homem com idade superior aos 50 anos. Realizavam contratos de outros cidadãos descontentes: recuperar dinheiro roubado; encontrar pessoas desaparecidas; libertar prisioneiros; proteção; e assassinato. 

Os alvos eram sempre estudados pelo Pai, não ousaria matar um inocente. 

Com o dinheiro desses contratos, eles ampliavam seus equipamentos e membros. Tinham como objetivo estar em todo o território imperial, em todas as cidades e vilas. E embora estivessem fazendo um progresso eficaz, o Pai estava desapontado com a demora. 

Chegaram a financiar duas revoltas em duas cidades imperiais, duas vezes fracassadas. 

Precisariam ser pacientes para que o plano fosse concluído. Talvez depois de três gerações de assassinos, realmente conseguissem. Porém o Pai não queria esperar, queria ser ele a derrubar o Império, queria ser visto como o responsável, queria governar quando seus objetivos fossem concluídos. 

Assim, ele criou um plano audacioso. Chamou todos os seus filhos para o esconderijo para uma grande operação. 

Os assassinos seriam separados em 2 grupos. O primeiro iria para a Capital, adquirir o máximo de informações possíveis. O segundo iria em seguida, utilizaria as informações para fazer a limpa na cidade; todos os nobres, soldados de alta patente, políticos e corruptos iriam morrer. 

“Noite das Adagas”, seria o nome. 

E no amanhecer, o Pai se intitularia como Imperador.  

Nenhuma outra força poderia o deter, pois a Capital possuía os maiores e mais grossos muros de todo o Continente. Mesmo que todo o exército imperial tentasse fazer um ataque conjunto — sem seus experientes generais —, não conseguiriam penetrar suas defesas ou levá-los a exaustão por um cerco prolongado; a Capital era detentora de um depósito de alimentos tão grande, era capaz de sustentar todos os cidadãos por meses. 

Era um plano perfeito.  

Era o que ele imaginava. 

***

A primeira onda de assassinos já havia partido pela manhã, sem que os outros os vissem. Precisavam chegar cedo para adquirir informações desde a abertura da Capital até seu fechamento. 

Uma dupla jovem ficou surpresa por não ter sido selecionada à primeira onda, afinal, a segunda onda era apenas para aqueles experientes em assassinatos. No entanto, não fora dito nada a respeito deles participarem do segundo grupo. 

Os experientes despertaram quase ao mesmo tempo, apresentavam uma conduta coordenada, quase sincronizada. Se encontraram perto da saída de seu esconderijo para se separarem em grupos menores. 

A dupla os seguiu. Esperavam encontrar o Pai para os orientar, mas ele não estava presente. 

Outro assassino, velho e experiente, lhes entregou um papel. 

— Leiam com atenção — advertiu. 

— Um contrato? — O mais velho dos dois, leu. — “Assassinato”? 

— O que?! — O mais jovem, se indignou. — Está nos entregando um contrato apenas para ficarmos de fora do plano?! 

— Conhecem as regras, todo contrato precisa ser finalizado. Foi o Pai que pediu para que esse fosse entregue a vocês.  

O jovem pouco se importou, começara a discutir e apontar o dedo. Era o único a apresentar esse tipo de conduta, chamando a atenção dos demais. 

— Chega, Kuroda — disse seu parceiro, guardando o contrato em seu bolso. — Vamos terminar logo com isso. 

— Qual é, Takashi! Você não vai nem... Ei, me espera! 

Takashi, o mais velho — só um pouco —, parecia conhecer bem as práticas e procedimentos de sua irmandade. Almejava se tornar alguém respeitado e admirado. 

(...) 

A dupla, em seu quarto, começou a se preparar para partir. 

Para cada um: uma pequena bolsa com suprimentos, suas máscaras, capuzes, e seus respectivos equipamentos. Takashi era um arqueiro, não levava nenhuma outra arma. Kuroda carregava duas adagas em sua cintura. 

Quando devidamente vestidos, a única coisa que podia-se notar eram seus olhos e cor de pele. 

Takashi possuía olhos azuis que lembravam água cristalina, sua pele era branca quase albina. Kuroda tinha olhos castanhos quase avermelhados, sua pele era um pouco escura; comum daqueles que viviam no deserto. 

Takashi manteve-se calado enquanto Kuroda cantarolava uma melodia que criara. A bolsa de Takashi estava organizada em seções, ainda possuía espaço para carregar mais. A bolsa de Kuroda mal fechava, mesmo possuindo exatamente o mesmo que seu parceiro. 

Contracenando seus estilos, ambos haviam desistido de tentar compartilhar suas óticas e personalidade. Acreditavam que era melhor cada um manter seus defeitos e virtudes, assim formaram uma dupla, onde um cada um suprimia a fraqueza do outro. 

Deixando o esconderijo, foram acompanhados pelos olhares e saudações de seus irmãos. 

Podiam ser jovens, mas tinham o mesmo peso do mais velho irmão. 

(...) 

Do lado de fora, sendo agraciados pela natureza da floresta de pinheiros, junto do nascer do Sol, Kuroda retirou sua máscara e capuz. Fez isso longe de seu parceiro. Abriu os braços e deixou-se ser abraçado pelo clima da manhã. 

Aaaaahhh... — respirava profundamente, como se fosse o primeiro ar de sua vida. 

Após seu breve momento, voltou a vestir sua máscara e capuz. Takashi aguardava pacientemente pelo ritual de Kuroda. 

— O ar daqui é tão refrescante... 

— Não exagere. É o mesmo ar do nosso esconderijo. 

— É. Tirando o fato do pó, a terra, a umidade, e um monte de gente que não sabe quando é hora de tomar banho! 

Takashi retirou de seu bolso o contrato, queria lê-lo cuidadosamente para não cometer nenhum erro.  

Seguindo as coordenadas, andou na frente. Sabia que Kuroda odiava ler os contratos e decifrar a localização de seus alvos e missões. 

(...) 

Depois de ler e reler algumas vezes, Takashi finalmente se sentiu confiante. 

— Parece um contrato simples. Me assustei ao ver de quem se tratava, mas se o pegarmos de surpresa, acredito que não teremos muitos problemas — Guardou o contrato em sua bolsa. — E aí? Tá ansioso pelo seu primeiro assassinato? 

Kuroda não respondeu. 

Ao olhar para trás, percebeu que o mesmo não estava o seguindo. Não fazia ideia de quando haviam se separado. 

— De novo não... 

***

Kuroda, ainda no início de sua caminhada, havia encontrado uma borboleta. Eram tão raras de aparecerem na Mancha Verde que se viu obrigado a persegui-la e brincar ao seu redor, o levando para longe de seu parceiro. 

Se uma borboleta já era rara, o que dirá de outros animais? 

Como uma ironia da natureza, Kuroda parece ter sido levado para uma armadilha. 

Ao cruzar uma árvore, um urso estava o esperando.  

O imenso animal assustou o jovem, que tropeçou em uma raiz, caindo à frente do animal. 

O urso, faminto pela sua primeira refeição do dia, não hesitou, prendeu a mão de Kuroda com sua pata. O jovem sacou sua adaga e feriu o urso, que o libertou ao sentir o corte em sua carne. 

Assustado e perdido, Kuroda engatinhou para trás ao invés de levantar e correr. Andar com seus quatro membros apenas o atrasou, diferente do urso que o alcançou rapidamente, agora irritado pela sua ferida. 

Encarando o imenso animal, Kuroda recuou mais um pouco, até bater de frente com uma árvore. Estava preso. Sem uma rota de fuga, cruzou os braços a sua frente, numa tentativa ingênua de se defender. 

O urso ergueu-se e rugiu, esmagaria o jovem com todo o peso de seu corpo. 

Fwhoosh! Algo veloz cortou o vento. 

Então ele caiu ao chão, do lado do jovem. 

Kuroda abriu seus olhos, incrédulo por ainda estar vivo. Ao se levantar viu Takashi abaixando seu arco. Nas costas do urso, uma flecha estava cravada profundamente em sua carne, havia perfurado seu coração. Morreu na hora. 

— Obrigado — disse Kuroda, ainda sem fôlego. — Quase virei comida de urso! 

— Qual é o seu problema?! 

— Eu... 

— Toda vez que saímos é assim! Está sempre se metendo em problemas, quase foi morto desta vez! Se eu não chego a tempo... 

— Eu viraria comida de urso. Eu sei. Eu acabei de falar isso — Kuroda, despreocupado, começou andar na frente. Não queria escutar nenhum sermão. — Mas você chegou a tempo, como sempre. 

Takashi aguardou por alguns segundos. Kuroda retornou rapidamente. 

— Onde temos que ir mesmo? 

Takashi decidiu dar o sermão em outro momento. Agora segurava seu parceiro pelo braço, carregando-o até o destino. Kuroda tentou persuadi-lo, o silêncio foi sua resposta. 

(...) 

Quando finalmente chegaram, Kuroda foi liberto. 

Não haviam demorado muito, ainda era de manhã. 

Vendo o local do alvo, Takashi concluiu que era melhor esperarem. O alvo não havia aparecido ainda. 

Para não serem vistos na altura dos olhos, nem atraírem nenhum outro animal, construíram um pequeno abrigo nas árvores. 

Amarrando algumas linhas entre os galhos de três árvores, formando um triângulo, copiaram o estilo das aranhas. Em uma árvore estavam suas mochilas, na outra um pequeno cantil com filtro para pegar água da chuva — não sabiam quanto tempo levaria para o alvo aparecer —, e na última estavam os dois, sentados e esperando. 

Utilizavam uma capa, com dois furos na região dos olhos, para se misturarem às folhas, apenas precisavam se esconder do sol para não deixarem seus corpos visíveis. 

Naquele silêncio e calmaria, Takashi retomou seu sermão. 

— Você é indisciplinado... 

— Começou... 

— ...imprudente, imaturo... 

— Divertido! 

— ...e egoísta! 

— Sabe tudo sobre mim, deve ser um fã. Quer um autógrafo? 

— E está piorando a cada ano que passa! Deve ser o primeiro ser humano da terra que quanto mais velho fica, mais infantil se torna... 

— E mais bonito, não se esqueça disso. 

— Se quer tanto assim deixar a irmandade, deveria ter feito isso faz tempo! 

— ... 

Com o sermão dito, Takashi voltou a vigiar o local de seu alvo. 

— Acha mesmo que eles iriam me liberar? — perguntou Kuroda. 

— Liberar do que? 

— ... 

— Não... — Takashi retirou sua capa e de seu amigo. — Está falando sério? Quer sair da nossa irmandade?! 

— Entende agora, não é? 

— Por que não me disse antes? 

— E no que isso mudaria? Acha que é só chegar para o Pai e disser: “E aí, pai? Obrigado por ter me adotado e tudo mais, estou caindo fora...”, acho que você que é o ingênuo. 

Cai na real, Takashi. Ninguém sai da irmandade, existem regras. Eu ainda teria que responder ao Pai e entregar informações em qualquer lugar que eu fosse viver. Eu queria ser livre dessas obrigações. Eu não... pedi por isso. 

Takashi não sabia como reconfortá-lo, conhecia as regras tão bem quanto os outros. Kuroda nunca seria livre de fato. 

— Se o plano do Pai for bem sucedido, talvez você seja livre. 

— É... é o que eu espero. 

— E o que você faria? Sendo livre e tals. 

— Bem, é engraçado, eu não pensei muito sobre isso — Kuroda ficou envergonhado. — Eu ainda planejo saber quem eu sou, e o que eu gostaria de me tornar. Mas uma coisa que eu adoraria fazer é explorar esse mundo. 

Takashi lembrava das vezes que visitavam cidades e vilas por causa de seus contratos. Kuroda sempre parecia perdido, caminhava para locais cada vez mais distantes, na verdade estava apenas conhecendo e admirando as localidades. 

— Não apenas as Grandes Planícies. Quero conhecer o deserto das Dunas; ver os pântanos e os orcs no Enlamaçau; me perder em Eldertree, a floresta dos elfos; sentir o frio das Geleiras; e escalara maior montanha do Continente em Altos Titã. 

Apesar de Kuroda transparecer que seu plano era simples e bobo, na verdade era bem audacioso. Era desconhecido que alguém conseguiu explorar todas as regiões em vida. 

— E você, Takashi? O que quer fazer? 

Takashi tentou falar, mas recuou.  

Fato era, ele não possuía nenhum plano, sonho ou ambição, diferente daquele que lhe fora destinado. Os planos de Kuroda pareciam grandiosos demais quando Takashi se imaginava fazendo-os. 

— Quero... apenas encontrar meu sucessor, assim como meu mestre o fez. 

Insatisfeito, Kuroda esperava aquela resposta. Seu ânimo contagiante se apagou. 

— Não imagino maneira melhor de encontrá-lo, se não explorando todo o continente — disse Takashi, tentando trazer o bom humor novamente. — Eu poderia me juntar a você? 

— É claro, seu idiota! 

Com uma breve brincadeira de socos e provocações, os dois se aquietaram. 

(...) 

O ambiente estava tão calmo que os dois se cansaram de esperar em baixo de seus mantos. Aproveitavam o sol que se movia lentamente. 

“Deve ser quase 9 da manhã”, disse Takashi, sentindo os confortantes raios solares ficando mais fortes. 

Entediado, Kuroda perguntou: — Quem são nossos primeiros alvos? Quero fazer um amuleto da sorte em homenagem a eles. 

— Talvez você faça um santuário quando souber — Takashi foi até a outra árvore, pegou o contrato e entregou ao seu amigo que leu com atenção. 

ALVO: KENSHIRO TORISON, O CARRASCO DE VALÉRIA 
RAZÃO: O MASSACRE DE TODOS OS HABITANTES E O INCÊNDIO DA VILA MADEIREIRA DE VALÉRIA. 
DESCRIÇÃO: JOVEM ADULTO, CABELOS PRETOS, OLHOS NEGROS, ESTATURA MÉDIA, FORMAÇÃO MILITAR, ESPADACHIM DE DUAS ESPADAS, POSSUIU PREFERÊNCIA POR TRAJES ESCUROS. 
LOCALIZAÇÃO: A MORADIA DOS TORISON FOI DESCOBERTA DIAS APÓS O MASSACRE DE VALÉRIA. TEMOS RAZÕES PARA ACREDITAR QUE O ALVO VOLTARÁ AO LOCAL NOS PRÓXIMOS DIAS.  
ATENÇÃO: 1 É PROVAVEL A AJUDA DE UM SERVO ELEMENTAL DO TIPO FOGO. 
2: DIZEM QUE UMA MULHER O ACOMPANHA, CÚMPLICE. 

— Vamos matar um Descendente?!  

— Ansioso? 

— Isso não é um pouco estranho? 

— Por que? O nome de sua família não deveria inocentá-lo. 

— É, mas... Você não acha nem um pouco anormal? Por quais razões um Descendente mataria uma vila inteira de inocentes? Ele podia viver com todo os luxos que o Império o proporcionaria! 

— Pessoas ruins nascem em qualquer família, Kuroda. Esse Kenshiro Torison também é suspeito pelo desaparecimento de seu tio, Reiji Torison, Ex-Melhor Espadachim do Império. E o mais estranho, Reiji não é visto desde que seu título foi retirado com desonra. 

— Acha que tem alguma relação? 

— É possível. Talvez o título de herói imperial trazia benefícios à família. Quando Reiji perdeu o título, seu sobrinho pode tê-lo o culpado. Vai saber... 

— Tá... mas e quanto Valéria? 

— Não sei, mas uma patrulha imperial diz terem visto Kenshiro adentrando um portal de fogo antes de sumir de Valéria. Todos os seus habitantes foram queimados até ficarem irreconhecíveis. 

— Nossa... é estranho essa patrulha não ter sido morta também. 

— Tiveram sorte. 

Kuroda sentiu um arrepio em sua espinha, ao perceber da possível força de seu alvo. 

 — Acha mesmo que damos conta? Alguém capaz de matar um herói imperial, não é demais para nós? 

— Relaxa. O Pai sempre estuda até os mínimos detalhes do contrato antes de escolher quem irá cumpri-los. Nenhum contrato nunca foi entregue de maneira errada. Se nós o recebemos, é claro que podemos! 

Kuroda ainda não se sentia seguro. 

Apesar de Takashi ser o mais inteligente, racional e prudente da dupla, era alguém cego pela sua irmandade. Não questionara nem as regras mais duvidosas e estranhas, assim como a escolha de alguns membros, quem dirá de um contrato entregue pelo próprio Pai aos dois.  

Pela primeira vez, Kuroda acreditava que seu amigo estava enganado. 

— Então, o que faremos? 

— O que você acha? Cumpriremos nosso contrato! 

Ajeitaram-se em seus galhos, estavam decididos a esperar por horas a fio. 

O local do alvo, uma modesta cabana de madeira, fora revirada várias vezes por soldados e curiosos ao longo dos meses. Todos queriam conhecer como era uma casa de um Descendente; roubaram tudo que acreditavam ser valioso. 

Apesar de ninguém morar lá, a grama continuava impecável. 

***

Enquanto isso, em uma terra ausente de quaisquer muralhas, cidades ou vilarejos, o casal contemplava a imensa fogueira à frente deles. 

Apesar de estar próximo, não era o calor o motivo do homem suar, seus pensamentos, dúvidas e questionamentos impediam-no de seguir em frente. Suas mãos tremiam ao perceber que estava prestes a abandonar tudo de bom que encontrara em vida. 

A mulher, calma e serena, havia aceitado seu destino. Imaginava que aquilo não era um abandono ou despedida, apenas uma pausa do momento mais feliz de sua vida. Não tinha nenhuma esperança, era certo que retornaria. 

— Meu amor... — ela cochichou no ouvido do homem. — Mate nossos inimigos. Dê a eles a piedade de suas lâminas. Permita nosso caminho ser livre. E eu prometo proteger você de todo o mal que habita nesta terra. 

Com o consolo de seu anjo da guarda — aquilo que ele mais prezava em vida —, suas mãos se aquietaram. 

Não há mais volta. 

“Por um futuro em que possamos ser livres de nossas obrigações e punições impostas por esse mundo injusto”, uma promessa que não se cumpriria. 

Ainda de mãos dadas, adentram o fogo. 

Com um forte abraço, aceitaram o destino inevitável: morte. 

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