Volume 1 – Arco 3
Capítulo 29 - Um dia para chamar de nosso.
6 de janeiro de 786, depois da grande queda — Marte queima em guerra.
Telas holográficas brilham nos edifícios espelhados, acima da cabeça dos que não se importam; vendo, elusivo, o rosto de Oliver-Pine marcado em desespero. “O lamento de um ditador” como dizem, ou, também, “o sonho de um homem bom” ao redor de Marte. Por outro lado, o dia está quente para Carlos e Hans, mesmo que nublado em maior parte do planeta — tendo no norte da planície de Hellas, escondidos entre as paredes de rochas clásticas e arenito marmorizado da serra, a tropa que sobe com suas motocicletas motorizadas a micro-ondas, escondidos em trajes de alótropos de carbono, com a OS integrada, por onde a comunicação e as imagens compartilhadas em tempo real, ouviam Oliver-Pine dizer que o UHD provaria do próprio sangue, que as tropas se moviam ao redor das bases e que a chuva do inferno seriam a queda das naves profanas, que seria um dia para ficar lembrado!
— Um dia para chamar de nosso!
Seus lábios descarnados nos pixels flutuantes — os fuzis que pesam nas costas. Veem: os tanques enferrujados, baleados, cambaleiam junto dos caminhões de campanha nas estradas de terra batida dos barrancos de Grifitas; Veem, Hans e Carlos, e concentrem-se, escutem as notícias da rádio, mas se concentrem. O capacete tático é Eco em maldição, sem carne nem voz, transmitindo a cena no canto da viseira, pensando no que há...
E no que há?
A subida da serra tão complicada, com trilhas de areia sendo marcadas por falhas e sulcos, tendo também curvas não sinalizadas entre lotes de arbustos secos e árvores espinhentas, cactos, mata, serpenteando entre declives acentuados.
Pois, o que há?
E Oliver-Pine diz: “estamos próximos do paraíso” e a mídia do UHD descreve como uma tragédia não anunciada aos ignorantes.
E alguém pensa, alguém sente; “Eu sinto! Sinto como se um portão se abrisse no meu estômago, e pássaros se empoleirassem, bicando as paredes mucosas enquanto consumidos pelo suco gástrico das estranhas.”
A tropa técnica se aproxima de um mirante, onde avistam a unidade de artrópodes de escudo recarregando suas baterias, junto com o movimento dos operadores e os técnicos entre as asas abertas das placas fotovoltaicas de arsenetito de irídio. Com seus braços e troncos recolhidos, eles se tornam uma fileiras de cubos sob a sombra das próprias ‘asas’. Por sorte, a luz oblíqua do dia nublado não reflete, pois se não, seriam incapazes de localizar a caixa preta do canal de emergência.
Os detalhes por conta da luneta dos fuzis de precisão e o olho biônico de Carlos, qual atravessa os 30 quilômetros de escarpas e picos, chegando em um vale que se abre entre a serra, pelas paredes e subidas pedregosas, percebendo as armas aprumadas que são recolhidas preguiçosamente entre técnicos que chegam e os que saem de grandes naves de logística, através do acampamento montado às pressas, de tendas levantadas de compensando, as latrinas à sol aberto e a névoa que escorrega pela serra.
Um pensamento bárbaro:
Onde se faz os homens!
Ninguém parecia estar com a cabeça no lugar.
E Versalhes definitivamente também não estava com o pensamento no lugar e Andrew Argo não era mais relevante; “e Eles devem imaginar, sonhar com uma preguiçosa retirada, Oh! Que tropa sortuda! Que homens sortudos! Pois é aqui onde vamos devorar seus sonhos, fazer valer nossos fuzis, limpar nossa alma em sal grosso!”
Versalhes acompanha Carlos — ele dirige para seu superior, que carrega as armas na mochila tática. Escondidos, nem drones poderiam vê-los. Silenciosos, a moto passa despercebida por todos os radares. O satélite observa entre próximo do pico, escondidos na outra costa da montanha, os soldados que se aproximam, os 60 mil sobreviventes do massacre profano cometido — eles não conseguem observar essa trupe, nesse veículo esguio, pois ela não cria poeira, ela não tem rodas. Ela flutua e é leve. Um milagre da engenharia. Um milagre para Versalhes que tal como um covarde, punha seu peito na areia, encarando seu destino.
“Cante Versalhes!” Suas mãos tremem! Uma lembrança: as fileiras de soldados recepcionando Oliver-Pine na visita a décima quinta base, Mendes Eustácio, na longitude mais ocidental de Eden — esses soldados que, pela lembrança de Juan, patrulhariam um território vasto, além de toda Terra Arábia, próximo de Valles Marineris; um lugar esquecido, um lugar polêmico; um lugar onde foram-se feitos covardes! Pois então cante Versalhes, se redima dos seus pecados! Cante! Cante! Cante! Se redima!
Pois Vida longa à Operação Molar! Carlos via Versalhes pálido em tremor;
Vamos comer esses merdinhas por trás!
Fazê-los vomitar o sangue de nossos irmãos!
Pô-los para dormir de dia no deserto de verão!
O sol Vermelho entre nuvens é marte, Carlos franzia seu cenho, enquanto aquele corpo trêmulo parece suar.
Vida Longa à tropa técnica auxiliar!
Seus fuzis angelicais que partem o crânio
E que do demônio nos livra a alma
Dessas terras, as criaturas profanas;
Que é o sonho dos ímpios e das putas
Do homem não cordial e dos impuros!
Vida Longa a estes soldados sagrados!
Esses seres de Armas prateadas em punho,
E no peito, os sinetes da nossa pátria,
Suas armaduras, o pesadelo rubro de Marte
Dos seguidores de Ba’al, Moloque, Aserá
Belial, Uriel, Médzsci, Helena e Orfán.
Vida longa, irmãos de cristo, seguidores do deserto!
De comunhão e crisma! Batismo em águas e vida!
Das ecleses e templos! Cidades em movimento!
Irmãos de levítica e Eden! Católicos e sofrimento!
Carlos tinha sua pistola apontada para Versalhes, seus olhos por trás da viseira transparente, seus lábios quais rachados pelo terremoto que é um homem.
Qual é a sua? A mão naquele pescoço de meia idade, branco como papel, dá náuseas.
— Qual é a sua, porra!? Você tá precisando do quê? Água? Uma dose de ansiolítico? Ou um tiro? Você quer foder essa operação? É um traidorzinho de merda? Para de tremer porra, controla o ar da boca. Eu não vou deixar você me foder aqui! Não vou deixar você foder essa operação.
Versalhes respira fundo, sua mão no ombro de Carlos. Ele talvez fosse mesmo um covarde! e como o covarde que é, meteu o pé, deixou suas armas, sua faca, pegou a moto e desertou. Que filho da puta, Carlos pensa, que arrombado do caralho!
Mas ele não sabe que Versalhes apenas queria terminar sua canção; apenas queria... sua canção.
No canal de voz, compartilhou as novidades com Hans, qual em puro silêncio, parecia temer algo ou alguém.
[Queimei a CPU do traje dele,] Carlos dizia, encarando o fuzil de precisão caído, desabado na areia [fodi toda a forma dele fazer contato e subi o rosto dele como procurado. A única opção que resta ao filho da puta é fugir para o UHD. Se ficar em qualquer uma das nações de Marte, será fodido.]
Um covarde de merda, Carlos se sentia em plenos direitos... isso é, com todos os direitos. A luz que escapa das nuvens, a resposta divina: “e que se foda o resto.”
[Você não deveria ter feito isso...] foi o único comentário de Hans.
“Mas que se foda o resto!” A luz divina tem todas as respostas.
Pois no alto da colina, entre toda a circunferência, os declives, e as encostas pedregosas, espinhentas, de cactos e raízes que sugam umidade do sangue de todo bravo soldado, bravos estes que esperam o anoitecer, em desesperança, entre planos de planos de planos para atingir 10 mil soldados com suas artimanhas, com sua covardia, estratégias soviéticas e paredes de carne.
Ao Norte, os disparos e o som das explosões próximo do platô da serra, sobe vertiginosamente em uma crescente, indicando o início de um ataque desesperado de soldados dissidentes — a cacofonia de ritmos tais os disparos, as explosões — rajadas ufanistas em plena noite, ou o que quer que fosse, pois Carlos e Hans ordenam aos seus próprios soldados, para mergulhar profundamente no terreno montanhoso, de colinas sobre colinas e caminhos inexatos, picos e cumes, declives e vales, instalando uma rede complexa de infravermelho, das bases que não custam sequer 10 denários edenianos, feito assim uma conexão que se acumulam por quase dez quilômetros.
As equipes, divididas em dois grupos, foram aconselhadas a margear por baixo, criando um arco que ia do cume até a passagem de um leito seco no vale, de onde certas fragilidades se expunham em detrimento das decisões inimigas de bater retirada às pressas do local, de modo que os drones não teriam visão e nem as tropas híbridas dos encouraçados humanos, tendo que tomar cuidado apenas com as tropas de reconhecimento e ou as unidades vigilantes. Os sensores não seriam um problema, pois os trajes cegam os mapas de calor, os ruídos do passo, a emissão de carbono e reflete o infravermelho. O único problema eram as minas terrestres. Principalmente pois, por saber do comportamento de guerrilha das tropas eclesiásticas, lotar uma região com equipamento seria perfeito, estourando qualquer filho da puta antes mesmo deles porem suas mãozinhas covardes no que quer que fosse. Foda-se que é proibido. Depois dos conflitos, só dar o mapa das minas para esses arrombados, e tudo certo. Hans pensa “covardes”. Mas não tem o que fazer: a lei é a vontade dos fortes! E em mente, era a maior de suas preocupações, levando consigo um computador de CPU fotônico síncrono fortemente acoplado, onde mapeou as coordenadas e as trilhas entre trilhas. De resto, dependeria exclusivamente dos agentes, e se eles realmente fariam valer os quase dois anos de treinamento e os 4 bilhões de denários edenianos gastos até então.
A uns cinco quilômetros da borda do vale, onde as rondas pareciam mais frequentes e com galerias de minas antipessoais pontuando de forma estratégica, levando a armadilhas aparentes e sessões vazias, fora do caminho que deviam seguir, a tropa se dispersou, esperando o sinal do Tenente Reiter para iniciar a operação. Havia um buraco no perímetro da base improvisada, mas seria necessário fazer uso de força, o que, no andamento da operação, tinha potencial de comprometê-la caso não tomassem as devidas precauções.
O plano inicial era o de esperar as tropas ao norte invadirem o perímetro do UHD, entretanto, o contato estava difícil. Dissipadores de sinal fodia tudo, saturando o espectro das ondas de comunicação da região.
[Hans chamando Carlos!] A voz dele tinha um quê de tédio [parece que nossos amigos estão com problemas. O UHD saturou a região. Estamos sem internet, e a comunicação por rádio tá uma merda. Acho melhor iniciar a operação sem eles...]
Carlos, diferente de seus membros de esquadrão, foi por cima, próximo dos cumes, querendo encontrar a melhor posição para disparar.
O canhão de antipartículas, pesado, guarda segredos, como também parece guardar pecados, ele pensa.
— Se iniciarmos agora, vamos perder muita gente.
O peito de Hans não arfa, não sente uma pontada sequer. Sentado na cadeira de ferro, em frente ao console, fez como todos antes deles o fez, como todos os filhos da puta que acreditam na guerra! Tal Napoleão, Adolf, tal Ivan, O terrível! tal Oliver-Pine!
Ele disse os sacrifico sem um pigarro na garganta.
Ele disse é o nosso destino, no conforto de sua mesa.
Mas ninguém pensou no que ele disse, ou se importou com destino.
A ordem foi dada e eram 21:30.
Lykaios, Antunes e Pérez, próximos, mas separados, seguem as trilhas, armados com uma pistola silenciada da Mars Arms, de potencial magnético e de 10mm. Eles tinham os fuzis nas costas, carregando na mochila as granadas PEM e as de fragmentação, além da C-6 e as granadas de firamina.
As 21:40, se encontraram entre as trilhas de cactos, por onde foram em silêncio. Hans Reiter os observa no computador, conectado a GW-0, expondo suas posições e os arredores em tempo real no canto da viseira. Carlos diz que não é bom, que a posição pode ser comprometida quando os soldados do UHD reparar que há alguma coisa errada. Mas Hans sabe que está tudo errado desde o princípio, que não há motivo para se alarmar. As 21:50, Pérez e Lykaios entram em rápido combate com um vigia, matando-o furtivamente. Felizmente, não há muitas tropas naquela posição — felizmente, Antunes já havia visto muita gente morrer, apesar de nunca ter matado. O rosto do soldado, uma coisa com um quê de borrado.
Um pouco mais ao sul, Mattia e Bacci passam por um campo minado, encontrando posição sobre um aclive, onde os banheiros químicos se veem depois de uma cerca com arame farpado. Essa cerca, feita com urânio empobrecido, foi cortada com um arco de plasma, invadindo a sessão, com vista para as tendas de cozinha e os dormitórios.
Amanda Magalhães, junto de Natalie Biancucci se encontram apenas às dez, pois na posição mais à oeste, procuraram um aclive em que os seus fuzis de precisão pudessem ser efetivos. Carlos, com sua luneta, conseguia vê-las, e, através da rede de comunicação, as informou além da escuridão e das luzes latentes dos disparos e explosões. O ecossistema do traje tinha limites, quais o olho biônico de Carlos conseguia sobrepor. Além de que, ele tinha no seu cérebro a BCPU modulando as trajetórias de disparo, e fazendo o trabalho auxiliar de destacar e diferenciar as unidades que se derramam naquele vale obtuso.
Já aos motoristas, os sargentos Eurico, Liev e Aguirre, eles ficaram junto de Hans, operando a CPU. E, aliás, apesar do pouco conhecimento técnico, Hans sentiu que eles ainda seriam uma ajuda melhor do que se estivessem em campo.
Hans disse: A tudo que nos é sagrado! Vendo, no horizonte, chamas surgirem, sem que se passassem uma hora sequer no relógio. Os rapazes conseguiram! Eles conseguiram! Alguém diz no canal de comunicação:
[O grupo de assalto explodiu uma torre de biodiesel com as granadas térmita. Primeira etapa da operação concluída! Agora, tomem cuidado! Vinte soldados estão indo nessa direção, e outros mil foram alertados, cercando vocês. Unidade de sabotadores, a hora é agora!]
Foi quando os artrópodes foram ligados, e a conexão com os soldados de campo, perdida de vez.
Carlos tinha-os na mira por outro lado, acompanhando com a luneta o movimento da equipe de assalto — essa tão experiente equipe que parecia brincar entre os corredores de tendas e as tendas com os soldados que corriam de um lado ao outro.
Apesar que Antunes não é bem um soldado... ainda...
Na emoção daquele meio distinto, em que se escondiam entre as vielas, atrás de tonéis e armas, Pérez diz:
— Lyka! — e o céu iluminado pelos projeteis de firamina derramando chamas entre camadas no negrume da fumaça e o céu noturno — veja que coisa bonita!
O domo celeste iluminado pela cor laranja, branco e amarelo, como se o sol entrasse em nova e se tornasse uma abstração de si.
Lykaios tem um sorriso.
— É hoje que vamos de saco, rapaziada.
Parece descomprometido, parece valente. Porém, segurando firmemente seu fuzil, Lykaios também se lembra do que deixou, das pessoas que amou e que ama. Seu olhar perplexo, seu peito batendo devagar, aquele sorriso cansado.
Antunes por perto, e com um sorriso tão iluminado quanto aquele céu, disse, como a se ler os pensamentos daqueles dois veteranos mentirosos:
— Nós vamos beber uma boa cerveja depois disso tudo ainda.
E Lykaios quis abraçá-lo. Pérez, do lado dele, quis que aquele moleque fosse a pessoa mais feliz do mundo. E, apesar de tudo, aquela heterodoxa equipe parecia alegre.
Por outro lado, Bacci e Mattia não conseguiam manter o bom humor. A instalação das bases era mais complicado entre os dormitórios, principalmente com aquela quantidade absurda de soldados saindo de tudo que é canto para assumir as armas. Sem comunicação, entender para onde ir, e qual caminho evitar, eram duas vezes mais complicado.
Talvez eu morra mesmo... a mente de Bacci era um mar de ondas calmas e idílicas, ao contrário de Mattia, que observa tudo e a todos, entre arbustos secos e os cactos.
Talvez morreremos juntos... chefe...
À oeste, avistaram um pequeno ponto de luz piscar. Era código Morse, que dizia: sigam a luz. Logo, também viram um laser indicar a direção.
Vá meus companheiros, vá! Carlos tinha em mãos o destino daqueles! Vá meus combatentes! Ele diz — E o sol que brilha agora seria o fim de todos os outros.
Foram Bacci e Mattia seguindo o caminho estrelado, como gatos entediados, pondo as bases em cima dos tonéis, dos caixotes, entre os pallets, no próprio chão, se aproximando de onde eles viram ser os artrópodes e os autônomos antibalístico, próximo de onde as chamas são intensas e as unidades de contenção de incêndios se movimenta como loucos e o som de mísseis e o cheiro de álcool os faz lembrar que ainda estão plenos, operantes e vivos.
Talvez isso seja um problema...
O gás carbono, em meio aquelas luzes, fez o campo dos artrópodes se assemelhar com o sexto círculo do inferno, com o sonho de Nero, poços perfumados com carne defumada e suor. É sufocante a neblina que surge, e é intenso, enquanto no céu, a lava corre, a erupção atmosférica que encontra o solo, tomando os escudos e a gente — vendo homens serem incendiados e correr como loucos, vendo o calor vermelho do incêndio tomar as estruturas, vendo os operadores se aventurarem para refrigerar os autônomos, carregando-os com óleo mineral e nitrogênio, despejando gás carbono e água.
Eles não imaginam, claro! Pois são eles os ofensores, são eles os que nos caçam, os que veem na nossa gente a pequenez, a diminuição do homem como ele é! Eles não imaginam, não! São incapazes de nos conceber como uma ameaça! Que também temos em punho a ciência de como destruí-los! Que nossas ideias podem sim superá-los!
O tetraedro foi ativado quando próximos do canal de emergência. Os soldados não sentiram, pois dentro dos escudos PEM, seus pelos já tendem a ficar ouriçados, seus ouvidos com um ruído insuportável e a vista um pouco embaçada.
Mas que a vista foi bela, foi! E Quão bela!
A descrição era como se vissem os campos elíseos, pois assim foi a detonação dos mísseis PEM dentro do escudo, seus feixes de alta-tensão crescendo como vinhas, e o pulso como se mil homens pudessem ser jogados ao lixo. Foram 10 de uma vez, depois 100! Todos próximos tiveram suas vistas queimadas, suas retinas derretidas, além do corpo carbonizado pelos mísseis vagantes e dos que falharam em plena ignição. Carlos teve que pôr a viseira; Hans poderia ter batido uma punheta.
[Vocês são pica! Puta que pariu!] Hans grita no canal.
[Voltem vivos! Seus filhos da puta! VOLTEM VIVOS SEUS ABENÇOADOS!]
O tetraedro superaquece e pifa e Mattia e Bacci correm como se suas vidas dependessem. A confusão levou alguns soldados a se dispersarem e fez os operadores irem em direção às naves de logística e veículos de campanha.
— Chamando apoio! Chamando apoio!
A amálgama das coisas que se assemelha a um título confuso, sempre é bem-vindo; e a equipe de assalto formada por Antunes, Lykaios e Pérez passa por um momento tenso, um momento terrível. Eles tentaram seguir em direção ao mesmo caminho que os levara até ali, mas uma tropa os identificou e os encurralou. Tiros de metralhadora rasga no coração da base dos Distritos, e uma corrida coordenada em prol da sobrevivência, estoura naquela unidade desesperada, como a amálgama das coisas que se assemelha a um momento distinto; pois Carlos e as meninas, por terem gasto tempo indicando o caminho para Bacci e Mattia, os deixaram de lado, se desconcentrando de vez quando a operação molar se via um sucesso, comemorando em champagne e caviar, em beijos e abraços ternos.
Agora, tenho que cuidar dos meus... Carlos tinha o pensamento em mente, pedindo para que Magalhães e Biancucci cuidassem dos disparos, pois ele temia que o bocal de pecados do seu canhão de antipartículas, chamasse atenção desnecessária. Ele apenas indica o caminho, fazendo reconhecimento.
— Filhos da puta!
E era lá, entre as fileiras do estoque e as tendas de enfermaria, é lá onde Pérez grita. Seu fuzil, um modelo AI-39, com munição de potencial iônico, encamisada, 7,62x39mm, qual seu cano parece o demônio, gritando ante o sangue, ante a carne, ante a si mesmo e ao seu destino.
Eu nunca me destaquei em nada... Um pensamento. Pérez corre ao lado de Antunes, que era um cabaço, que nunca havia matado. Minha guerra santa, meu deus! Que guerra santa é essa! Seu coração pode parar, não sentir das pontas dos dedos ao restante do corpo... desmaiar. Tinha se injetado 1mg de adrenalina, um octaedro de SNC-UP; e seus olhos acompanham, pois podem acompanhar na velocidade da luz! Como uma amálgama de coisas que se assemelha a um parágrafo torpe.
— Negão, me segue. Nosso sub entrou em contato! — Lyka sempre sabe o que dizer.
Pois olha o sangue doce que cai! Olha a distinção das coisas! Você acha que isso vale a pena?
No céu, o enxerto de profana sai, esses encouraçados humanos, esses gorilas mecânicos, disparando seus canhões de antipartícula contra as tendas e os buracos do acampamento. Via-se dois na escuridão cósmica, e logo tentaram se esconder, com os disparos de luz atravessando os dormitórios de compensado.
Pérez sente medo e reza:
Meu Senhor, por favor, livre-me de todo mal!
Pérez sente medo e ora:
Que minha morte seja breve;
Que seja perdoado todos os meus pecados.
Todo homem e mulher entende que essa vida foi feita para ser breve. Todo homem e mulher entende que essa vida foi feita para se ter guerras. A paz é uma mentira, pois se não com os outros, travamos com nós mesmos.
No céu escuro, onde profana aparece, bombardeando vales, o platô, as colinas — a lâmina de luz que torna tudo em chamas — as bombas de prótons que explodem em azul e reverbera além, nos vários cantos do planeta. Pois todo homem e mulher entende, que no mundo há sempre alguém acima de nós mesmos! Como Pérez, e o seu coração, que diz: há um deus em tudo o que nós fazemos! E o seu desejo de viver, e sua vontade inata de não se tornar uma podre estatística, uma brevidade, uma coisa que não é nada — e eu quero chorar! Quero!
Pois eu nunca deixei um filho, uma filha... ninguém para herdar minha miséria e estou só. Minha mãe já morreu, minha avó também. Meu pai nunca se importou e o resto... é o resto.
Seu irmão está morto, e ele sabe de quem é a culpa. Ele que o abandonou. Ele era... ele era um filho da puta. Ele não havia se regenerado, mesmo confesso. O que tinha dito: eu não vou mais abandonar ninguém? Que coisa, que coisa maravilhosa e linda. Mas queria deixar Antunes aos bois, aquele menino forte, aquele menino pálido e forte, escondido em um traje que nos desumaniza, que não nos faz parecer heróis de verdade, mas clones de algo que se supõe ser humanidade.
E todos nós vamos morrer! Vamos, vamos e vamos!
Antunes perde sua virgindade, sua pureza. Ele mata um soldado que se jogou para cima de Lykaios, dando 10 tiros na costela do filho da puta a queima roupa, doido para também atingir seu companheiro. E ele ofega, e ele se sente mal. Diz que vomitou dentro do traje. Diz que se sente sujo.
Agora... agora todos nós somos iguais! Alguém pensa.
Como a voz da névoa que nos chama! E proclama! Você seu filho da puta! Nós, uma CAMBADA DE ARROMBADOS! Pois o sol que brilha para eles, também será o mesmo que brilhará para nós. E Pérez escuta Carlos dizer:
— Não se afobem! Não quero enterrar heróis hoje...
E Pérez cai em lágrimas, pois é quando Lykaios chora, nessa que as câimbras vem, nessa que as pernas falham e a munição acaba.
E veja, veja o céu com aqueles gorilas trajados de kevlar, anchoxlítio e sílica, armados com canhões de dois metros e voando em liberdade. Eles te apontam, e Pérez sabe que vai morrer. Então, o que há? Seu Deus ornado de sílica, Dois Meia? Talvez um milagre...
Pois é como se os Anjos estivessem ao meu lado;
Lykaios se sente um pouco menos homem.
Um anjo da guarda com sua espada apontada no horizonte;
Meu mensageiro de mil olhos, fractal sagrado.
O primeiro cai que nem merda, parcialmente desintegrado, nas paredes serradas do vale. O segundo até tentou fugir, fazendo piruetas em pleno ar, e disparando contra os pontos inexatos.
Carlos pensa: quem será que ele é? Quem será sua família? Desintegrando-o em seguida com um disparo preciso no meio do peito, explodindo em pleno ar como se acertado por um míssil.
— Equipe de assalto, avançar!
Como? Foi o que a cabo Natalie Biancucci pensou; quem é ele? Sua mente flutua em questões antigas, não superadas.
Um homem que apenas faz o que lhe é devido, não parece ser o mesmo que se dedica a vingança.
Que os ímpios queimem com a verdade.
— Que porra foi essa!? — Alguém no comando de controle inimigo diz, estarrecido — isso foi fogo amigo? Eles tem canhões de antipartículas? Que porra é essa!
No céu, o pesadelo dos homens: profana, embicando contra o vale.
Carlos grita:
— Corram, piranhas!
E Magalhães e Biancucci se desmontam, pulam, abandonam seus rifles e vão vale abaixo.
Um segundo.
A luz branca varre a areia do barranco, os cactos verdes e floridos, os vagalumes que brincam nas montanhas. O cheiro é de carvão em brasa com notas açucaradas de horror. Hans vê na distância e depois conta no céu as origens dos feixes. Eram três. Três ases de profana no mesmo local.
— Hans chamando Klaus Orloff — a base teria informações mais detalhadas, ele imagina.
— Klaus Orloff com Hans.
— O que caralhos tá acontecendo?
— A coalização falhou na primeira investida, recuando para a Nação Pontíficia!
— E como nós estamos?
— Vencemos a batalha! Destruímos um pelotão inteiro de tropas autônomas e todas as principais mídias estão noticiando.
Hans quis jogar o capacete longe. Ele viu no céu mais de dez encouraçados humanos descerem. Estava feliz, mas sabia que também havia alguma coisa errada.
— Quanto nós perdemos?
— 30 mil soldados de uma vez. O ataque foi efetivo, mas profana acabou com a gente.
Ele franziu o cenho.
— Com quem eu estou falando?
— Com o Coronel da décima segunda base de Levítica, Enrico Mazzale. — Os olhos de Hans Reiter se abrem, quase saltando da viseira — Bom trabalho, tenente!
E como se todo homem esquecesse do seu destino.
Hans se esqueceu, mas lutou, e lutou, e lutou.
E vai se foder — ele disse.
O que resta?
Carlos tinha-se envelopado sob areia e cascalho. Com cuidado e cansaço, ele levanta, encarando a escuridão póstuma daquele brilho intenso. O canhão de Antipartículas estava a salvo, assim como seu rabo. Mas onde estão as meninas? Ele procura ao redor do barranco. Aparentemente, os feixes destruíram parte da colina, moldando Marte em desespero, esse local que entraria para a história, como se não fôssemos nada...
Amanda, também tinha pensamentos análogos, pensando no quanto o homem superou a natureza inerte. O disparo simplesmente cortou rocha, criou sulcos, pulverizou a mata que crescia, a vegetação, tornou pó o que milhões de chuvas não seria capaz de fazer. Biancucci ao seu lado, disse que agora entende, que entende!
— Profana... heh, a inversão da natureza.
— Como tudo que é humano desde então.
O céu limpo, com Febos passando em intensidade e o cinturão de Deimos ao redor dessa merda que chamam de planeta. A areia amarelada aos seus pés, a vista negra da parte desabada da colina — Carlos Andrade.
— Vocês estão bem? — ele pergunta, preocupado.
— Estamos ótimas... — Magalhães responde.
—Então está tudo certo.
Num abraço terno e conjunto, a equipe de atiradores observa as chamas, e os pontos alados que brilham e que parecem desaparecer em alto céu.
Já eram meia-noite.
Pérez, Lykaios e Antunes ainda encurralados, se escondiam do enxerto de profana. Bacci e Mattia numa situação semelhante, entre os dormitórios, esperam a chegada das tropas eclesiásticas. A vista pela janela, infelizmente, é de desespero, vendo os feixes dos encouraçados cortar a escuridão nas colinas e nas direções contrárias ao vale.
[Mattia chama T.T.A! Alguém me explica que porra tá acontecendo?]
O canal de comunicação se torna agitado.
[Hans para Mattia! Profana atingiu nossos atiradores! Sem apoio contra os encouraçados por hora!]
Um ódio, uma carne, algo entre as coisas, as palavras.
[Carlos para T.T.A! Não tivemos baixas! vamos nos realocar e em breve voltamos com o apoio.]
Raiva!
>Mensagem privada: Hans, pelo amor de deus! Bota esses caras para fazer alguma coisa. Não tem como eu e as meninas darmos apoio para dois grupos tão distantes um do outro!
Hans armou os filhos da puta com rifles de precisão, um lança-míssil experimental, que disparava cargas de prótons teleguiados e tomou o canhão de antipartículas para si, qual a princípio deveria ser para Lykaios, mas que por ser impossível de carregar aquele trabuco numa infiltração, ficou para si, essa arma alienígena linda do caralho!
[Hans para Carlos!] Sua voz não guarda nem raiva nem rancor, [nos realocamos ao sul. O foda é que os meninos estão sem traje. Vamos nos deslocar em conjunto: vocês até nós e nós até vocês, para não sermos pegos por esses arrombados!]
Mattia e Bacci compartilham suas perspectivas em tempo real, sendo processada pela I.A da CPU do traje, chamada Oclus, e que transforma dados sonares e de imagens num pequeno mapa, desenhando uma saída em tempo real para os infiltrados.
A equipe de assalto, presa entre um cerco alado, e por baixo, nas tendas em que passam, pelas galerias de pallets e os salões que eram os refeitórios, via também Oclus em brilho, no canto da viseira, diferente do brilho montanhês, intenso e escaldante, trazendo seus ventos áridos e cálidos em contraste ao frio comum e a serração.
Silêncio eclode e Pérez se sente agora um pouco mais esperançoso, como se o efeito das drogas tivessem dado uma diminuída. Lykaios em lente, com seu fuzil, seu grande amigo — Lyka.
“Vamos porra!” Ele não parece ter sua coragem minada; “nós vamos tomar aquela cerveja ainda” nem sua vontade, extinta. Um homem que está além de toda esperança. Pois assim que é entre os dois. Dois loucos. Um dia, estaria em Alexandria, conhecendo a família dele, quem sabe, tomando uma cervejinha.
Como num dia que disse: Você vai ser feliz também... Onde Pérez se lembra do que te traz tanto medo e ânsia, pois ele não era dali. Ele também não era, como pensavam alguns, de Afrikanyer. Ele nasceu em Pangeia, mas pelo emprego do seu pai, que era contrabandista, teve que se mudar para o primeiro estado Han. A forma como apareceu em Afrikanyer foi engraçada, pois também se tornou contrabandista, mais precisamente traficante, levando uma quantidade absurda de drogas para o UHD. Foda foram aqueles mercenários. Eles que o tiraram do caminho. Mas que seja! As pessoas já entendem que a guerra nunca muda, e não seria agora que ela iria mudar. Eles já entendem onde nós estamos.
E preso entre caixotes, viu uma unidade atravessar seu caminho e o que fazemos quando algo atravessa nosso caminho? Ele dispara como doido, e, tão entulhado entre os equipamentos de logística, foi para o mano a mano, faca contra faca, pegando um cara tal como ele, forte, ágil, doido!
E a faca desliza, de um lado ao outro, e os seus movimentos parecem como os de uma sombra; e tal como uma sombra, perfurou o filho da puta no estômago, sem que ele visse, o estripando do umbigo ao fígado, como um maníaco.
Antunes vê a cena, e aos seus pés, sangue escorre. Ele tira a viseira. Dá um sorriso. Precisamos ir, Pérez.
— Ainda vamos tomar uma boa cervejinha hoje!
Lykaios pergunta se está tudo bem, se ele precisa de um UP, se sua vista está embaçada se as pernas doem.
— Estamos correndo para o lado errado. Esses filhos da puta estão nos empurrando cada vez mais para o Norte!
No céu, não eram mais os encouraçados, como também drones suicidas e drones atiradores. Os disparos por cima, os feixes de antipartícula e as bombas que agora despontam por todo campo de batalha, enquanto além das colinas, profana se expõe implacável.
Talvez nossa única esperança seja ele, pensam o grupo, tão unidos em pensamento e carne, que quase deu para se dizer serem UM!
Os disparos de antipartícula contra aqueles gorilas de aço, por outro lado, não eram UM, eram Dois Meia. Os disparos que, os levam ao chão, destruídos, parcialmente desmembrados, cauterizados. Até Hans se impressionou com a precisão dos disparos, gritando no canal de comunicação, alto, a plenos pulmões, que até o final da noite destruiria profana.
Foram 7, dos dez que caíram, fazendo-os recuar de volta para a nave mãe. Recuo esse que deu um ar para aquelas criaturas de Aristófanes, que cada vez mais se aproximam da verdadeira vitória, da verdadeira paz! da única liberdade que existe.
— Realoquemos agora meninas! — Carlos grita, enquanto profana convoca o raio mestre contra aquelas colinas áridas.
Liev olha, e na distância, e como no pó que viemos, ao pó ele retorna.
Primeira baixa! Hans diz, sem pesar.
Não sabia nada de Liev. Talvez ele fosse um homem bom. Talvez ele fosse um homem ruim. O que fosse. Está morto agora, não o está? Desintegrado ao meio e, como Hans disse, cheirando a churrasco. Carlos infelizmente nunca comeu churrasco.
Não... Carlos comeu sim... quem não comeu foi quem? Talvez eu esteja ficando louco...
— Isso foi perigoso — Hans comenta, baixo, para alguém, talvez sua para sua própria sombra — temos que recuperar nossos homens logo. Ficar nos levará a morte.
E mesmo que alguns já estejam fadados,
Lutar é o que nos resta
A equipe de assalto passa à oeste, seguindo a direção de onde se veio, próximo das trilha entre os cactos. Os encouraçados, agora distantes, e com tão pouco restando, não apresentavam mais perigo. Apenas profana desponta em pleno céu, mas eles tinham outras preocupações. O que restou foi uma equipe de não mais que 30 pessoas a procura dos sabotadores, organizados dentro da base, no meio da bagunça de conflitos dentro de conflitos, quase como se fosse uma questão de orgulho.
Bacci e Mattia, do outro lado, a sul, sobem as colinas, distante de tudo. O vermelho de Fobos é pequeno, e quase se confunde com uma estrela. Mesmo assim, Mattia sente que era sua lua, que era ela quem diria: você será hoje, um lobo.
— Bacci... — ele pergunta — o que você sente?
Bacci o olha, olha para aquele homem lagarto, aquele cara esquisito, aquela pessoa que era seu amigo e que, além do nome parecido, estava ao seu lado a tanto tempo.
— Como eu me sinto?
“Diga Bacci, diz para mim quão vazio você se sente, quão baixo, quão desesperado. Diz para mim que você não se sente bem, que guarda um desejo profundo de desertar, de fugir dessa merda, de chorar!”
— Me sinto vitorioso!
“E você?
Eu?!
É, você!
Eu me sinto bem, também...”
Drones suicidas saem aos montes, e carregados de explosivos, atacam a equipe de assalto, levando o solo lotado de minas terrestres a explosões ruidosas e sucessivas. Os atiradores tentam conter aquela onda, mas não têm muito êxito. Hans que foi o salvador da pátria, carregando um conjunto portátil de canhão anti-drone, qual tomou a névoa de mísseis PEM de baixa intensidade.
Já eram quatros horas da manhã.
O passo era doído e a serra dolorosa.
As explosões levam a um último esforço naquela base improvisada, a tomar vingança contra os sabotadores. As tropas eclesiásticas, que avançam pouco significa. Eles não são o motivo da nossa derrota. Quem nos sabotou? Eles se perguntam; quem nos fodeu!
Notícias correm no UHD, dizendo que aquela derrota poderia significar um alistamento involuntário para suprir baixas nunca antes vistas na história militar dos Distritos.
— Nosso exército não é vasto. Não mantemos uma reserva gorda, não temos um orçamento extraordinário e muito do nosso equipamento vem de quase um século atrás. Nos escoramos, aliás, em tecnologia que até então estava inacessível às nações de Marte. Uma vitória pode significar muito, aliás, para quem nunca venceu nada. — Humberto de Arões, em entrevista para a the new globe.
Na serra rochosa, o que se vê entre os cactos, os arbustos espinhentos e as árvores secas, é um grupo de veículos de campanha levantando vento, atravessando em ímpeto a face parda da estrada, onde disparam suas armas montadas; como se os guerrilheiros fossem eles, não os religiosos malucos.
Hans pede a Carlos que cuidasse deles, pois Aguirre e Eurico ainda choram pela morte de Liev. Carlos diz que seria um problema.
[Estou sem munição, Tenente!]
Hans bota a mão no peito, procurando um cigarro. Não tinha mais nenhum. Ele fumou tudo como o viciado que era. E o foda foi que sua mão treme. Que porra de tenente é esse que não consegue disparar uma arma. Aguirre, por outro lado, lançou e as bombas de prótons fizeram um último espetáculo.
Uma pena, entretanto...
Um azar.
Pérez >Você vai sentir minha falta?<
Antunes estava ali, seus pés sabiam onde ele estava. O nascer belo de um sol tímido nas montanhas geladas; Pérez e Lykaios.
>Do que você está falando<
Todas as pessoas devem ter o seu lugar.
Que os justos e os bons herdem essa terra.
E tomando o lugar de Antunes, Lykaios o empurra para longe, dizendo que queria tomar aquela cerveja ainda, que eles não precisavam espera-lo; que todo bom filho da puta sempre chega no momento certo e que ele estava feliz, e que aquele ainda foi um dos poucos dias bons dedicados apenas a ele... um dia bom para todos os bons.
Um dia para chamar de meu!
Ele diz.
Espero que ainda encontrem
todos os meus pedaços,
E que, enfim
me enterrem junto e apenas junto de mim!
E Versalhes, já longe, diz:
Pois, vida longa à operação molar;
Vida longa aos que morrem por ninguém,
Aos que dedicam sua vida à miséria
— Às armas que dizem também ser suas!
Vida Longa ao Judas de Marte!
Vida Longa ao Assassino de profetas!
Mas observando as brumas, se deleitando com uma boa xícara de chá acompanhado de um cigarro, Um se questiona:
Mas o Judas das causas impossíveis?
Ou aquele que sacode suas moedas?
Ela nunca entendeu muito bem os santos, a diferença entre eclese e templo; homem ou Dois Meia.
O dia limpo, as questões da TV. Haviam destruído um dos ases de profana, e ninguém soube responder quem?
Quem?
Talvez tivesse sido seu Deus ornado de sílica... apenas ele poderia, se com os instrumentos certos.
Um Ás de Profana. Para toda questão levantada sobre o que é, ninguém naqueles distritos saberia responder. Apenas Franker. Apenas Franker sabia o mistério.
Recapitulemos:
“O que eu posso fazer? O que eu posso? Meus músculos como essa terra arrasada, cede e o ar me é roubado! Versalhes, filho da puta! Você tirou a minha coragem! Você roubou meu brio! Não existe em mim, nada! Pois você sabe, sabe quem eu sou, o que eu sou e o que eu vou fazer! E por isso, talvez eu não possa fazer nada, mesmo que em lente, veja aquilo que mais assuste os loucos, os crentes... mas, mesmo assim sendo, a eclese não é templo e nem templos são ecleses. O que sobrevive e o que se torna novo, apesar da afirmação anterior, não se difere! Pois tudo que é de Marte, é de Marte! Tudo que é nosso, é nosso! E a fundação é apenas uma mentira!”
As mãos de Carlos tremem, mas Carlos não é apenas Carlos, ele também é Franker — Franker que o ajuda a apoiar o cano, que o ajuda a entender o que tem na distância, ao que fazer naquele ponto fosco. Ele diz:
— Sabe o que é? Vê a linha imaginária no horizonte. Quando construímos, dividimos as partes do projeto de modo que cada um conseguisse se focar no que sabia e depois, juntamos tudo para ver se realmente iria funcionar. Não deu muito certo, à primeira vista. Revisamos o projeto, juntamos as partes, analisamos nossos próprios erros. Descobrimos que o problema é que toda parte é uma imensidão em si mesmo, e só colar os canos não ia dar em nada. O certo é pensar como cada parte de uma coisa pode ser com as outras. A resposta? UM. Veja só. Centralize a principal característica da coisa, e use todos os instrumentos disponíveis para que esta coisa funcione. Veja bem: a coisa funciona sem a necessidade das outras partes! Um motor elementar funciona, ele funciona sem que necessite provar que funciona. O movimento, isso é, a utilidade se difere da funcionalidade, pois a função ele desempenha, mas é inútil quando todo o resto não colabora com ele. Foi aí que revisamos todo o projeto, pois pensamos? Como se centraliza algo? O que é centralizar. Pegamos todas as problemáticas e distribuímos num quadro. Vimos o que vimos: um círculo que sobe sem nunca conseguir acabar-se! E que tolos fomos. Pois mesmo assim não chegamos onde queríamos. Um veículo de dobra, que nos traria ao próximo passo civilizatório, reduzido a uma simples máquina de guerra. Talvez seja irônico, talvez seja aí onde se prova a existência de Deus: pois como permitir tais criaturas chegar, sem nem ao menos ter de fato, avançado. E como uma andorinha não faz verão, atire duas vezes. Uma, em direção ao centro da nave, outro tiro, a 2 quilômetros a oeste. É o mecanismo de defesa, e como a atmosfera de Marte não tem resistência suficiente para auxiliar na frenagem do impulso, o pulo sempre será o mesmo, salvo nas tempestades que você mesmo já viu. Te impressiona o fato? 1 metro em 45 nanosegundos? Um instrumento desses? Esse troço, minha decepção? A máquina que profana os desertos e que tão igual destruiu os meus sonhos? Veja, Dois Meia. Assim é feito o homem.
Assim é feito Marte.
Pois Carlos não podia, não podia deixá-los ver sua glória, não podia deixar esse erro do ego sobressair a sua verdadeira missão. Apagou, apagou as informações da IA, apagou as informações do traje, as coordenadas do seu disparo, viu tudo se tornar um fantasma num microssegundo.
A realidade que bate é as vezes mais fantástica do que aquela que sonhamos por toda vida.
Oliver-Pine teve as notícias. Nem mesmo ele acreditou nas palavras dita pela inteligência.
Humberto de Arões convocou 30 mil pessoas no mesmo dia e foi concedido 1 trilhão e meio de RPs para o fundo militar dos Distritos Humanos Unificados.
O que isso significa?
— Um dia para chamar de nosso.
A multidão bate palmas vertiginosamente enquanto as cortinas se levantam.
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