Volume 1 – Arco 3
Capítulo 28 - Hellas.
Em algum lugar no meio do deserto, carros de campanha surgem, levantando poeira enegrecida nas ondas do horizonte.
Carlos e Hans, escondidos em seus trajes cinzas, observam a chegada dos estranhos; seus jipes cor de caramelo, a insígnia da união Eclesiástica nas laterais. Pérez, Amanda e Natalie em carros separados, com os motoristas, oficiais experientes de algumas viagens bem perigosas destacadas no currículo. O documento escrito por Hans e revisado por Carlos era bem especifico — vendo os atravessar aquele caminho sinuoso, apesar de plano; um caminho marcado de terra socada, traiçoeira, não se escaldando por saber que apenas um erro é necessário, apenas a mínima perda de controle para foder com tudo.
Uma pena termos os enviados à morte.
Esperavam ansiosamente a chegada por mais de um mês — entocados próximo de um oásis na latitude tropical.
— Eles realmente levaram nossa solicitação a sério. — Hans comentou.
As tendas se reuniam próximos das árvores, escondidas pelas negras rochas lado a lado e os cactos, fazendo do lugar quase um bunker, escondido de drones, das tropas terrestres e da artilharia. Único pesar era quão distante estavam de seus aliados.
— Esse lugar confunde muita gente. Não tem como manter apoio logístico e todo sinal é facilmente interceptado. — Carlos tinha a cabeça em outro lugar.
O sol queima e enfurnados naqueles trajes, o humor desaparecia.
— Os ases de profana estão ocupados com as bases na serra e Afrikanyer avançou muito na frente oriental. — Hans fez sinal para que os carros parassem — Pensar que um relés posto surgiria no meio disso tudo é loucura.
— Loucura de nossa parte, só se for.
A serra se aprontava ao norte deles, mostrando-se agitada; era possível ver em pleno dia as rajadas e os pontos de fumaça. O vento comumente turbulento e o céu noturno marcado pela luz azul dos disparos de antipartícula. Os veículos claramente passaram por uma puta aventura.
— Quem vem lá! — Carlos levanta a mão, enquanto os carros param no funil entre as rochas magmáticas e os cactos.
— Quase morremos para conseguir chegar até aqui. — Um homem negro pôs a cabeça para fora, gritando com energia — Sou o filho da puta que vocês requisitaram!
Hans e Carlos pediram para que fossem dispensadas as formalidades, os convidando para tomar uma cerveja e discutir melhor sobre a viagem.
— EU QUERO QUE SE FODA VOCÊ E SEU AMIGO! Pode um enfiar a cabeça no cu do outro!
— Por que está tão agitado, capitão? — Hans tentava acalmar os ânimos, enquanto o motorista saía com o diabo no corpo.
— Perdemos amigos, dois veículos voaram pelo espaço. Mas tudo bem: perder amigos é normal. A questão é, seus filhos da puta — porquê eu sei que vocês sabem de algo —, pois eu só quero saber: por qual o motivo de vocês também não terem perdido?
Hans e Carlos tinham uma ideia, sobre as rotas comprometidas e trilhas que passariam por batido. A leitura do mapa era, por si só, complexa. E como a infantaria conjunta de Afrikanyer e UHD não haviam tomado terreno suficiente para dominar postos avançados, a dispersão dos veículos em pontos específicos acabou por levar a uma quantidade de baixas pouco significativa, principalmente considerando os objetivos dos dois.
O que não explica, Hans tinha a cabeça lotada de ideias, como os nossos ainda estão intactos.
Era segredo de Dois Meia, essa parte, e Carlos sabia bem — mantendo consigo, assim como mantinha o segredo de Franker. A rede de comunicação do UHD era passagem livre para ele, para essa criatura disforme, esse ser feio e craquelado. Ele manipulou, sim! manipulou as expedições e os horários estacionários, mudou as marchas e os treinamentos, deu ordens específicas para pessoas em nome de outras, como se uma mutação em seus sonhos elétricos tornasse real os seus desejos.
Uma pena que agora sinto como se não fizesse mais parte desse mundo...
Seus nervos pareciam fritos, seus neurônios como se doessem, e a vermelhidão em seus olhos como se realmente fosse um demônio. A BCPU em seu crânio, o estupro de Um contra seu corpo. Um deus obrigado ao papel que o determina, um papel de Dois Meia. Carlos sentia uma pena absurda deste ser.
— Nós temos nossos contatos. — Carlos respondeu — Mas nós precisávamos distrair algumas pessoas.
O soldado, chamado Aguirre, não gostou da resposta. Seu rosto torceu em raiva, e seus olhos fatiavam Carlos como se ele não fosse mais um aliado.
— Isso vai ser reportado... — respondeu, retornando ao veículo.
Hans e Carlos se depararam agora com Amanda, Natalie e Pérez, carregando caixas com alguns dos suprimentos requisitados. Eram as bases de lasers de baixa frequência e conversores de sinal tetraédrico. Carlos abriu uma das caixas e pegou na mão um daqueles. Só naquela caixa, haviam mais de 1200 bases. Um exagero.
— O plano tá seguindo bem. — Hans disse, tirando Carlos de seus pensamentos.
— Se o primeiro passo era ficar entre as linhas inimigas, conseguimos. Mas não vamos conseguir ficar por muito tempo. Os veículos chamaram muita atenção.
Hans tinha entre os dedos, um cigarro, que nos seus gestos acompanha com luz e entrecorta suas palavras.
— Esse tal de Aguirre vai foder a gente ainda, você sabe...
— Se ele não ficar com a gente, vai morrer. As rotas para a base agora estão tudo comprometidas. Se ele refletir um pouco, vai entender a posição que se encontra. Mas espero que ele pense bem...
— Eles vão nos atrapalhar mesmo se ficarem: estão sem trajes.
— Eu fiz outras requisições, mas essa ficou por isso mesmo.
Hans e Carlos andam pelo acampamento improvisado ao redor do pequeno e cristalino corpo d’água. A vista das planícies deitadas ante o sol e o cinturão áureo de Deimos era particularmente acalentador. Carlos, apesar de tudo, não entendia como Hans parecia ter seu humor roubado. Seus olhos, antes alegres, pareciam hesitantes, pareciam velhos e traumatizados.
Não como se sentisse no direito de perturba-lo. Ele tinha certeza que Hans falaria por si mesmo.
As flores do deserto, rosas de cactos espinhentos, verdes como um sonho, sutis contra o vento. Carlos vezes se esquecia da guerra. Hans o trazia de volta, infelizmente.
— Você tem que se comunicar melhor comigo. — disse, depois de um tempo — Estou sentindo uma distância estranha. Tipo, eu entendo. Você está tampando os buracos que deixo passar no manejo das nossas ações. Mas não gosto de sentir que te entrego um peso.
Carlos via seu reflexo na água. Ele via a si mesmo, um rosto, compartilhado por duas outras pessoas.
— Você está me pedindo para eu manter meu bom humor, em tempos de desesperança. Todo mundo está a flor da pele.
Hans pôs sua mão no ombro de Carlos, disse sem palavras: “me entenda...”. Mas foi incapaz de fazê-lo de fato. Hans também tinha um mal sentimento sobre a guerra.
— Senhores, viemos reportar sobre a viagem.
Pérez surgiu na margem, acompanhado de Natalie e Amanda. Seus rostos, contra o sol, pareciam mais vivos do que nunca.
— Tentativa de abuso? — Carlos perguntou, como se não pesasse as palavras.
Pérez, entretanto, se surpreendeu com a pergunta, assim como as meninas, demorando um minuto para entender. Como ele poderia saber? Pensaram.
— Por parte do sargento Eurico, senhor...
Que homem perturbador, Pérez sentia algo errado.
— Ele acompanhava Natalie nas requisições. Aparentemente, pelo que ela disse, foi depois das notícias...
— Notícias?
— Perdemos a base de Andrew Argo.
Carlos e Hans se entreolharam, e, apesar de tudo, um sorriso brotou em seus rostos. Natalie, que já se sentia constrangida o bastante, se sentiu pior, se sentiu mal. O filho da puta tentou agarrar ela no acostamento da estrada, quando dormiam próximo da ribanceira. Ela quase arrancou as tripas dele fora.
— Vamos matar o filho da puta. — Carlos por outro lado, tinha pensamentos além disso tudo.
— Ele tá por aqui ainda? — Hans questiona. Seguiam agora de volta para onde os carros estavam estacionados.
— Eles estão aguardando o cair da noite. — Pérez não parecia se opor a ideia.
Natalie por outro lado, se sente ainda mais esquisita, enquanto apoiada por Amanda, que não tem palavras, apesar do olhar severo. Ela não deseja um banho de sangue. Ela só queria que alguém soubesse, queria compartilhar um momento estranho, tenso, um momento que não pareceu ser real.
— Eles são malucos. — Magalhães comentou com a agora cabo, Natalie Biancucci.
— Todo mundo enlouqueceu um pouco. — Pérez acompanha — e aqueles dois são os mais doidos entre nós.
A base caiu! Deveria ser o desespero na terra, não? Por que aquele sorriso, aquela troca de olhares como se algo previsível tivesse acontecido. Há algo particularmente estranho em toda essa operação, eles pensam.
— Mattia tá puto. Eles estão escondendo informações, e só se comunicam entre eles. Parecem dois palhaços. — Pérez continua.
Se aproximando do veículo, o sargento Aguirre questionou qual eram as intenções dos oficiais, o que os levavam até ali. Um rosto ainda torcido, impassível, se registra encarando Hans e Carlos, que não respondem, seguindo caminho até o sargento Eurico.
— O que vocês querem? — Ele pergunta, vendo os dois homens de braços cruzados próximos da janela, roubando seu sol.
— Vocês? — Hans podia mata-lo apenas no olhar — somos seus superiores, sargento. Senhor! Entenda, filho da puta: só se refira a nós por senhor!
Ele os observa como se fossem doidos. Que mudança de atitude, pensou.
Aguirre se aproxima, suspeitando de algo e o outro sargento, chamado Liev, também se via por perto.
— O que os senhores quiserem, então... sen-nhor... — um sorriso sem riso.
— Sai do carro. — Carlos diz, abrindo a maçaneta por dentro, enquanto Hans o puxa para fora pelo colarinho.
— Que porra é essa? Vocês não tem direito pra me tratar dessa forma.
— Cala boca, porra!
Carlos parecia um demônio. A pistola, no coldre, sem brilho. Ninguém ao redor pensou que ele iria sacar, até realmente vê-la apontada para o rosto do sargento. Hans, por outro lado, calmo, tinha um sorriso no rosto, dizendo para Carlos que não era preciso tanto, que era melhor se escutarem, antes de tomar qualquer decisão.
— O que vocês querem saber?! QUAL FOI? QUAL FOI?! — o sargento poderia se mijar; suas mãos tremem, levantadas a implorar tenência.
Carlos o tinha na mira, depois ele teve Aguirre, que ousou mexer no cinto enquanto próximo da discussão.
— Vocês estão muito tempo isolados... — Aguirre soltou, sem se importar com muita coisa, — estão até confundindo aliado com inimigo.
Hans nem Carlos respondem, voltando suas atenções para um Eurico em silêncio, tomado por adrenalina e ansiedade.
— Recebemos uma denúncia, e, particularmente, não gosto quando soldados são imprudentes. — Hans explica — A cabo Biancucci não te pôs pra dormir, mas tô pensando seriamente. Me diz, em detalhes: o que houve sargento?
Eurico olha incrédulo para o furdunço o testemunhando, onde procurara a oficial que ele soube ser a autora da denúncia. De olhos cerrados, Carlos e Hans ainda o tinham na mira, esperando ansiosamente pelo que o filho da puta tinha a dizer.
— Vamos todos morrer — Eurico tinha palavras trêmulas — perdemos a base, vamos ficar sem combustível em breve, sem provisões. Os soldados estão se entocando, cada vez mais ao norte, e estão seguindo para as bases de Klaus Orloff e Michelly Andes. Quem ficou para trás, ficou... e é um adeus, meus amigos... É um adeus! Não tem nada mais para se fazer nesse deserto. Hellas chorou e vamos chorar também!
Carlos tira a arma da cara dele.
— Você é um covarde do caralho. — seguindo em direção, junto à Hans, aos soldados silenciosos.
— Reunião! Venham todos comigo — disse Hans para a massa atordoada — E com todos, digo também incluindo vocês, sargentos Eurico, Aguirre e Liev.
Com um misto de orgulho e medo, Hans o viu ao seu lado, lânguido, distante — uma bomba H, era o pensamento, uma bomba H apontada para todos nós.
Os soldados foram guiados em direção a tenda onde os sistemas de comunicação operam, sentando-se onde podiam, entre as cadeiras de metal, as caixas de papelão, ou se apoiando nas colunas de madeira. Em frente ao console holográfico do computador, Hans se mantinha em pé, ao lado de Carlos, onde, com algum ânimo, disse:
— Nós ainda vamos vencer essa guerra!
Todos olham incrédulos. Depois, com um pouco de admiração. Há algo de corajoso nas suas palavras, algo quase restrito — algo que não é comum de se ouvir numa situação desesperadora daquelas.
Não como se soubessem na hora, mas o que se passou ali foi apenas parte essencial da história pós queda, que marcaria o fim do outono de Marte. Eles não entenderam no momento, discutiram, debateram. Mas havia algo de essencial ali, como Biancucci pensou depois.
— A guerra está chegando ao seu ponto de ruptura. — Hans continuou — O UHD subestimou as nações de Marte, confiou nos seus parceiros corruptos. As nações eclesiásticas, a Nação Pontíficia e o que restou de Roma, além de Latinía, Nova Paris, todos se juntaram a uma causa, e com 250 mil soldados reunidos, de forças combinadas da aeronáutica e exército, agora invadem o norte de Roma para a tão sonhada retomada! Andrew Argo foi um sacrifício, e um sacrifício que faremos valer a pena! Pois onde estamos agora, apesar de desesperador, sempre foi o primeiro objetivo dessa operação. Se infiltrar além das linhas inimigas, em uma posição onde ninguém sequer pensaria! E agora, lhes digo? Agora? Vamos atacar. Porém, antes que eu entre nos detalhes, gostaria de purificar essa tropa, esses soldados. Para isso, gostaria que nos confessássemos, um por um. Aqueles que se oporem, digo-lhes: a morte vos espera! E a morte espera todos aqueles incapazes de abrir o próprio peito para o companheiro de peleja, ao irmão de armas!
Hans tinha em porte sua pistola, assim como Carlos. O restante dos soldados, também tinham suas armas em coldre, mas eles não queriam resistir. Na verdade, eles sentiam que era aquilo, que aquela era a necessidade; pois o deserto de Hellas agora estava seco, mesmo que antes fosse um mar; e no resto, os homens, os detentores de seus sonhos, ou mais: os criadores de seus sonhos. O que fosse, seria, independente de tudo. Eles os aceitavam agora como seus profetas, seus deuses.
— Quer fazer a honra, subtenente?
— Claro — A voz de Carlos era cristalina, calma e ponderada. Se ajeitando a frente dos homens e mulheres sentados nos bancos improvisados por caixotes, ele disse, mesmo que suas palavras não fossem palavras, mas gritos que ecoam:
— Eu sou um traidor!
Os olhos de Versalhes, escondidos, miravam-no atentamente. Pérez e Lykaios imóveis. Biancucci cerra o cenho e Amanda com seus lábios abertos. Apenas Mattia, Bacci e Antunes continuaram com a mesma expressão, os braços cruzados. Alguém acendeu um cigarro, cuspindo o pigarro do fundo da garganta.
Ele começou a se explicar, diminuindo o tom da voz sem perder a gravidade:
— Não sei se vocês sabem, mas a base adriática se dividia na serra de Monte Branco por bunkers interligados até o edifício principal. Quero que visualizem: 10 mil soldados ansiosos, esperando por dias a chegada de naves que os olhos mal acompanham, tropas com artilharia que supera em muito a sua própria, e táticas que simplesmente suprimem tudo o que você tem. No primeiro dia de ataque, não nos foi enviado profana, mas drones suicidas que invadiram nosso espaço aéreo, com bombas de reação térmita, napalm e fósforo branco para destruir nossos escudos e equipamento antiaéreo. Nosso domo de ferro durou apenas 4 horas de ataques constantes e sobre o resto, bem: vocês conhecem a história.
O silêncio reina, tanto dentro, quanto fora. Uma calmaria mórbida, densa, pesada.
— Eu fugi, junto do meu pai e alguns companheiros, assim que nossas serras verdes se tornaram vermelhas, e a noite verteu em dia. Foi no meio da fumaça, em meio aos detritos e artilharia pesada, fugindo dos drones, fugindo dos tiros, fugindo de tudo e todos e, principalmente, do nosso próprio dever.
Por algum motivo, Versalhes sentia que era tudo papo furado.
— A maioria morreu... a caminhada até Genoa foi dura e o pior, nossas lápides não foram às de heróis, não foram às de soldados; e eu agora me sinto um fantasma, carregando nessa casca pútrida, a alma de todos que me acompanharam; sendo o fardo deles, também o meu, até que não haja mais dever.
Natalie tinha olhos úmidos contra Carlos.
— E eu vou cumprir o meu dever...
O silêncio póstumo foi seguido pelas solitárias palmas de Hans, que roubou o lugar de Carlos. Era ele agora o orador.
— Muito bom, subtenente — disse, com um grande sorriso no rosto, enquanto lentamente tirava a faixa que cobria suas cicatrizes — Todos nós temos nossos fardos! Eu, assim como você, carrego também o fardo de ser um traidor filho da puta! Veja só, não sou de Roma, não sou da Nação Pontíficia. Sou o algoz do Mar de Terra Arabia. E sabe o que eu fazia em Roma? Sabem? Vendia meu fuzil por dinheiro. Trabalhei com os técnicos Leônidas e Adriano em operações de sabotagem contra a República Democrática Romana em favor de seus militares, de Enrico Mazzale e o coronel Euclídes. Não sou um mártir, não sou santo. Sou um soldado e um homem com um sonho, criado no seio desértico desse planeta infeliz! E quer saber, eu serei a espada do subtenente ao meu lado, a arma de sua vingança! E não só dele, mas como também serei para o outro pecador que aqui nos acompanha! Venha, cabo Mattia, venha dizer-me com suas palavras, venha dizer-me seu pecado!
Mattia cerrou seus olhos, jogou o cigarro quase apagado fora. Um sorriso. Filho da puta, pensou, não quero participar dos seus joguinhos. Mas se aproximando dele, Mattia hesitou. Aqueles olhares dizem o contrário, você já tá participando — e sua boca treme, sentindo suas mãos vacilarem. É esse traje, queria uma desculpa; esse deserto maldito...
A cabo Biancucci, seguida de Amanda, que não soltava sua mão, tinha olhos estreitos. Não sabia, por outro lado, que a sargento Magalhães tremia, tal como Pérez e Lykaios, tal como Bacci, escondido entre as caixas — todos os tártaros tremem, menos Versalhes, esse arrombado não teme mais nada.
— Eu... — mas Mattia foi sem medo, sabia que não era mais tempo para ter medo — eu sou o comandante Giancarlo Mattia, soldado reformado de Roma, e mercenário a mando de Enrico Mazzale! Traí minha pátria a quase uma década, quando me despedi dos meus deveres em troca de dinheiro e liberdade. Meus homens compõe mais da metade dessa tropa, e os mantenho sob meu julgo desde a Nação Pontíficia. Admito ser um animal, ser um bicho sem cordialidade; travestido de soldado enquanto minha nação é esculpida em fogo! Não posso mais voltar atrás no que fiz, no que abandonei, pois sou meu próprio mestre, e tal sendo, o homem por trás de todos os meus atos. Agora, arrependido, serei a armadura da vingança de Hans e Carlos, uma armadura de carne que corre por essa tropa, que corre por esse grupo — por todos!
Palmas ecoam ao fim do discurso de Mattia, que tinha olhos fervidos em ódio, raiva e amargor. Uma pessoa menor, uma pessoa pequena. Se sentir baixo é um problema, se sentir apequenado uma coisa estranha. Hans Reiter, seu filho da puta. Fervia em ódio, Mattia, enquanto ovacionado por diferentes soldados, se desmantelando com o sentimento de pertencimento, com o sentimento de estar em algum lugar.
Lykaios e Pérez também comentaram, se purificaram de seus pecados. Disseram serem homens ruins, de serem pessoas que se divertiam com o sangue, com as coisas efêmeras desse mundo, de pessoas desprendidas que abandonam e abandonaram tanta gente. Amanda se arrependeu de ter deixado seus filhos. Bacci disse que queria ser maior, que seu orgulho era seu maior pecado. Os sargentos se viram espelhados em covardes, e emocionados, tomaram a cachaça que Hans havia guardado, dormido em redes contra o céu desvelado, presos entre si e os outros. Versalhes que não disse nada, quase como esquecido, mas esse, Carlos queria ter uma conversa a sós. Ficou nas palavras de Antunes, que disse:
— Não sei que pecado me governa. Sei que há muitos, sei que sou um pedaço de desespero. Talvez seja o pecado de Hellas, talvez seja o pecado desse deserto. Eu perdi minha mãe no ataque em Genoa; e, apesar de não ser um soldado no dia do ataque, me senti responsável, me senti responsável pelo fracasso de nossas próprias armas. Todo dia eu acordo pensando no que eu poderia ter feito de diferente. Infelizmente, sou um homem fraco. Sou uma criatura sem lugar no mundo. Quer dizer, isso antes de vocês. De todos aqui. Vocês me inspiram, vocês me fazem sentir como se eu fosse parte de algo...
algo maior do que eu.
O oásis é uma efemeridade, nada de importante acontecerá aqui...
Carlos estava sentado em uma rocha calcária próxima das águas. Biancucci se banha, sem o traje. Uma informalidade. Vista o traje, esteja com ele. O céu marcado por aqueles raios de antipartículas, parecido com tempestades apocalípticas do fundo desse cosmos, fazia parecer que mais estrelas surgiriam, para apreciar aquele corpo esculpido na peleja, na guerra, no embate das armas, no suor de dia após dia.
Seu corpo branco, pois o traje não permitia que o sol a bronzeasse; seus músculos sobressalentes — uma mulher forte, bruta, de olhar poderoso. Havia delicadeza, mas isso faz parte de toda e qualquer criatura que pisa nessa terra. Carlos se sentia mais delicado, aliás, observando-a.
Pois foi ela quem, constrangida, o pediu para que a vigiasse, pois precisava, e como precisava.
— O banho vai limpar a minha alma. — disse, com um olhar triste e acabado.
E vendo-a nadar naquelas águas cristalinas, desejou se afundar, se afogar com ela — fingir que toda essa guerra nunca passou de um sonho ruim.
— Você está com medo? — ele pergunta.
Foi um susto, ela não espera palavra.
— Você não?
— Eu me sinto como se algo bom estivesse pra acontecer.
Agora ela quem o observa. Algo de estranho? assim como há em todas as coisas que nós fazemos. E com ele, parecia que tudo estava mais embaixo. Na verdade, ela se surpreendeu com algo, pois viu-o se transformar até ali, na pessoa que era agora — o sol desses soldados, a morte que se encarna.
— Eu pensei que você fosse mata-lo.
— Covardes se matam sozinhos. Eu apenas quis humilhá-lo. É assim que o seguro na coleira.
Ele tinha um cigarro na mão, um copo com cachaça na outra. Ela se sentia confortável. Não foi a primeira vez que o convidou para acompanhá-la. Quando se achegaram na região a pouco mais de três meses, o convidou pela sua posição, se sentindo nervosa em chamar alguém abaixo para algo que pudesse constrangê-la. Das outras, foi pela postura, isso é, o modo como ele agia com a situação — se sentindo confortável, como se nada nem ninguém pudesse atingi-la. Era o seu fantasma naquelas rochas; alguém que, por algum motivo, não se importa com ela, apesar de estar ali, em vigia.
Talvez ele não me veja como mulher! Ela pensa.
— Talvez eu seja apenas uma estranha.
Mas os olhos dele acompanham as estrelas cadentes dos fuzis dos homens, a rogar que seus sonhos bélicos de vingança se tornem verdade e que nada nesse mundo fosse capaz de rasgar sua carne.
— O que você tá pensando? — ele pergunta a ela.
— Você é um esquisito do caralho.
Talvez todos nós sejamos.
Natalie Biancucci se aproxima do soldado Carlos Andrade de Sávia, e entendendo-se entre os sóis distantes tais como os sons de marte, descobriu-se despida entre seus braços e entre a ausência de sorriso. O fenômeno de homem é particularmente violento entre as mulheres, assim como a delicadeza de uma mulher em um homem.
— Na verdade, talvez tenhamos mais mulheres endurecidas em Hellas, do que homens delicados em toda Marte. Todos esses estão marcados pela violência, pelo fenômeno que faz eu ser o que eu sou.
Natalie observa os olhos castanhos, a pele parda, seus cabelos cacheados, a barba. Parecia olhar um daqueles bustos helênicos, de imperadores esquecidos e pergaminhos empoeirados. A rigidez do seu corpo, os sulcos entre sua pele. Davi de Michelangelo? Não... eles são puros, seu corpo é puro. Carlos não é uma réplica, ele é um descendente misturado. Seu pai, ela o conhecia. Tinha lido um conto — as falésias árabes — sobre um menino que de tanto chorar, criou um mar.
E talvez eu deva chora.
E em lágrimas, naqueles braços, Natalie lembrou do seu pai, da sua mãe. Ambos deveriam estar na mesma casa, fazendo as mesmas coisas, como se a vida aqui fora não tivesse mudado. Políticos arrependidos de ter uma filha tão revoltada com tudo. Ou será que eles foram executados, ou será que agora estão presos, ou vivendo como mendigos, atormentado por doenças. Lembrou do seu namorado da base D’Itália, que, ou se não morto, esquecido; pois Natalie, pelo menos, havia; e não arrependida, pois ele não jurava amor, não jurava uma vida, não dizia nada, apesar de que ela também não; e está tudo bem. Morreria de qualquer jeito, e está tudo bem.
Carlos não pergunta o motivo das lágrimas, e não pergunta o motivo do abraço, e não a leva para a margem do oásis, e nem a fode como um selvagem. Ele está ali, com ela nos braços, se questionando no que faria quando saísse daquele deserto. Iria para uma cidade? Comeria um bom hamburguer ou se aventuraria numa feijoada? O pagode Alexandrino deve render e muitas coisas boas entre tudo que nós fazemos e o que todas as outras pessoas fazem.
Será que ela sabe? Será que ela sabe que eu planejo destruir tudo em que ela acredita?
O céu é um quadro negro marcado das cores distantes de radiação esculpidas no vácuo.
Eu acho que ninguém acredita em mais nada. Acho que não faz diferença. Todos nós só queremos viver.
Amanda o beija, não sendo beijada de volta. Ela tenta, mais uma vez, e ele cede.
Morreremos todos amanhã.
Os lábios dela tinham sabor de terra.
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