A Voz da Névoa Brasileira

Autor(a): Saber Hero


Volume 1 – Arco 3

Capítulo 30 - Marte Venusiana.

Marte Venusiana.

        No seio da planície gélida de Syrtis Major, Eden se abre em grande sorriso — a cidade subterrânea que se levanta num deserto iluminado por auroras discretas, do sonho anterior de um planeta arrasado.

        — A vitória na serra de Grifitas pode ser descrita como a primeira grande vitória de algo contra alguém em Marte.

        A face de Oliver-Pine era tal a planície boreal castigada pelos ventos, enrugando as areias que se metamorfoseiam além de Eden, além das fábricas de gases e cidades luminosas vedadas, além daquela câmara que por agora seus vitrais veem o lado de fora, veem o mundo, e a luz polar de estrelas cadentes.

        Oliver-Pine diz:

        — Todo livro de história terá nele escrito a mesma coisa.

        E levantando o vinho que esperou 200 anos para brindar, o bebeu, vendo os líderes que se divertem além das cadeiras, vendo as pessoas na distância que o admira, que o odeia, que se remói por dentro para entender onde se faz os homens. Ao seu lado, o Papa com pensamentos indeterminados, em seu silêncio pétreo. James Rashfield no outro, tinha um sorriso distraído, quase como se o envergonhasse ter lugar de tanto destaque.

        — Parece uma grande piada...

        James pensa sobre as demonstrações de poder e diz, para si, que pela primeira vez Eden se mostra acima do solo depois de cem anos, e que as vilas e os soldados e as pessoas, todos esperaram cem anos para a realização de um sonho, de apenas um mísero sonho.

        Na palavra de Oliver-Pine, James escuta, vendo-o se sentar ao seu lado, em sua mesa, apertar sua mão com vigor e de todos ao redor:

        — Reconhecer que as nações de Marte são mais do que um aglomerado de pessoas miseráveis e descendentes em decadência vai ser demais para a opinião pública!

        O sorriso escancarado, os olhos tais quais uma adaga, penetrando fundo no subsolo que os indivíduos ali escavam.

         — O que você pensa, caro Secretário Rashfield? — As pessoas dos Distritos não parecem confiar mais no próprio sistema político. É o início da queda, não acha? O início de tudo que precisávamos. Negociar paz agora, continuar lutando? Temos que prestar atenção nos detalhes, também! sim, nós temos! Mas pela primeira vez nós também temos algo! Só precisamos nos agarrar nisso.

        Oliver-Pine e James Rashfield se encaram naquela câmara vermelha, mal iluminada pelos lustres de led. As flâmulas de seus países balançam contra o vento da calefação, e outros líderes que bebem conhaque dos mordomos que vem e que vão, o Papa que em mão tem o vinho — a carne de camarão impressa no prato, com molho agridoce e aspargos — conversas cruzadas. O que é uma vitória? A sensação de dever? Talvez o genocídio alheio.

        James sente repulsa da comida servida em seu prato, vê naquele sorriso o conhaque aguado.

        — Nós te ajudamos na retomada de Genoa, e parte do norte de Roma. — James responde — Não estou aqui para falar sobre suposições e esperança. O agora,  quero entender o agora, Oliver.

        Em mente, James Rashfield, atual secretário-geral de diplomacia do Mar de Terra Arábia, lembrava dum acordo de não agressão que fez com o UHD antes da invasão de Genoa, acordo qual, infelizmente, fora violado por conta de um pacto anterior, que Oliver-Pine manteve com o primeiro-ministro eleito do Mar de Terra Arabia, André Philermann, em 69, quando o mesmo ocupara a posição de James. Represálias? O que é isso, James. Nosso sonho ainda é o mesmo. Foi o que seu primeiro-ministro lhe disse por e-mail.

        — Você se sente um covarde, caro Rashfield. — Oliver-Pine, por outro lado, sabia de todos os seus pactos, e todos os seus aliados — Não se veja dessa forma. O Mar de Terra Arabia tem um lugar mais do que especial nessa história que vamos escrevendo. Você sabe, estamos juntos nessa desde muito antes de você ter nascido. E fico feliz de tudo estar dando certo.

        Filho da puta! James Rashfield não sabia mais o que pensar, além do fato de sentir-se miserável, e fodido. O UHD conseguiu tirar 3 trilhões de RPs do cu, de um dia para outro. A efeito de comparação, 1 RP valiam 5 Denários Edenianos. O Mar de Terra Arábia só negocia com RPs, ou negociava. A inflação talvez pulasse para uns 11% ano que vem, e aí todo aquele pandemônio com os preços nas alturas. Aliás, economicamente falando, participar de uma guerra sempre parece ser mais caro do que quando você só está observando. James queria fazer uma loucura, queria descarregar um pente na cara de todos aqueles políticos ali. Mas também sabia, ele, de outra coisa. Mas não era um pensamento concreto.

        — Eu não me importo. — James responde — Conquistar, deixar de conquistar, participar da história ou o que quer que seja. O Mar de Terra Arábia sonha apenas o mesmo sonho desde sua fundação. Nossa participação nesse fogo cruzado é apenas um passo...

        — Você é um homem que sabe o que diz.

        Uma mentira. James sentia seu orgulho ofuscar a verdade. Quer dizer, ele tinha medo. A vitória significa muito para quem nunca venceu nada, e a ideia da morte de um sonho antigo em detrimento de novas vontades, sempre são arrebatadoras. Apesar de tudo, Oliver é um homem encantador, não?

        — Tudo bem, acho que você tem razão. — A política é, antes de tudo, engolir toda ideologia e cagar no mundo — Mas me diz, Oliver. Como? Como vocês derrotaram os ases de profana?

        Oliver, que não tinha nada além de ideais, não comia os camarões, nem bebia o conhaque. Seus olhos imersos nas notícias flutuantes e nos hologramas pessoais do computador biologicamente integrado a ele, parecia uma figura distante demais na festa em que ele mesmo organizara.

        — Segredo de Estado! — seu sorriso como se iluminado.

        Pois há um pensamento nisso tudo, que pode ser anterior, posterior, ou corrente — sobre um raio não cair no mesmo lugar duas vezes. Mas um raio, continua sendo um poder incrível, não? Oliver, você tem planos maiores, não tem? Desde o princípio você sempre teve 

        — Eu fiquei sabendo que foi tudo graças a uma tropa. Uma tropa de sabotagem. Eu sei, todos sabem que você vêm treinando tropas especializadas a algum tempo, mas nunca teve um êxito tão contundente. Qual a diferença agora?

        James não queria, ele não podia suportar a ideia da não resposta. Era algo que realmente estava o afetando, era algo que realmente o incomodava. A verdade era que talvez acreditasse em Oliver-Pine, que talvez fosse capaz de ignorar toda a dor e toda ideologia no caso de realmente ser alguém, de ser tal Marco Antonio ou Crasso, de ser pelo menos uma anedota nos livros de história.

        — Seus informantes estão certos. Uma tropa. A diferença, entretanto, é sempre a mesma: os indivíduos dos quais confiamos nossas espadas sempre são mais importantes do que toda suposição. — Oliver-Pine não conseguia olhar no rosto de James enquanto afundado nas notícias — Veja, caro Rashfield, sinto que estamos no caminho certo. E é só isso.

        Pois eu vejo você gemendo enquanto chora para as suas putas do harém sagrado, Oliver... James se percebia com o pensamento fora do lugar. Ele se levanta, diz que precisa tomar um ar. A guerra continua, não? O pensamento que vem junto da brisa, vai tão logo a brisa passa. O Mar de Terra Arabia está condenado, assim como Latinía, Nova Paria, Atenas e Alexandria, assim como todas as nações que foram sugadas para essa guerra. Não há possibilidade de ser neutro, ou você nada com a gente, ou morre na praia, é isso?

        Oliver-Pine disse seu adeus mais sincero, pois tinha um comunicado importante para dar, e que seus companheiros o chamava. James o cumprimentou levantando seu copo. O mundo lá fora como um espetáculo.

Eden dançava sob as luzes estelares.

        A cidade que apenas via o céu de luzes fluorescentes, o bunker de 13 quilômetros construído ainda na época das primeiras etapas de terraformação, agora tinha um propósito, e todos os adolescentes, os militares, até mesmo o destacamento da polícia secreta, bebiam e cantavam.

        James decidiu pegar um ar na varanda social, onde presidentes aproveitavam os ares boreais do norte de Marte. O cheiro de tabaco fedia e os repórteres lá debaixo pareciam pontos de vagalumes distantes, mesmo que fossem peixes abissais doidos para engolir o primeiro a se aproximar.

        — Sendo sincero, — uma voz vinha da escuridão além dos seus pensamentos — melhor seria se fizéssemos como Afrikanyer e os Estados Han: se estivéssemos ao lado do UHD, poderíamos ao menos manter alguma soberania. Agora, parece que estamos sendo empurrados seja lá para onde esse doido está indo.

        Antonio Gusman saía das sombras com o seu cigarro. O céu no pátio externo parecendo uma onda púrpura prestes a engolir o mundo.

        — Heh, e quais as novidades, senhor Presidente?

        — Não adianta tentar ser engraçado. A gente sempre soube que tinha merda no ventilador e que não dava para lutar contra a corrente. Também fomos coagidos. Nossa bancada agrícola tinha acordos com Oliver e eles tão ameaçando um golpe no poder, caso o executivo não se mantenha na linha. Esse desgraçado sempre teve acesso a tecnologia restrita, mas pelo menos agora sabemos o porquê...

        Antonio se apoiou na mureta, seu cigarro em mãos. James tinha um pensamento sobre essa figura. Ele realmente era um político nato, um cara que entendia o jogo melhor do que seus próprios interesses, coisa que parecia loucura, visto que Antonio era jovem. Apenas 70 anos escondidos numa cara de 30.

        — Tudo bem, qual o porquê?

        — Oliver-Pine está junto com o Anel de Satélites da Nova Terra, que aparentemente se tornou a ilustre Federação Galática. Eles mandam projetos para o Oliver, e Oliver vende para nós. É mais barato que importar do UHD, no fim das contas.

        James não se sentiu surpreso.

        — Federação Galática é? Nossas forças armadas tinham interceptado um sinal há um tempo atrás, um sinal não identificado vindo além de Febos. Pensamos que era apenas um dos cargueiros autônomos do UHD trazendo gelo do espaço. Mas parece que não é bem assim. Qual a fofoca?

        O rosto do presidente Gusman era de puro cinismo.

        — Você quer mesmo saber? Sabe que isso não tem volta, né? A Terra não tem salvação, o planeta entrou num processo de saturação atmosférica extraordinária e metade do mar evaporou. Aparentemente, o Anel de Satélites decidiu migrar para a lua de Europa, pois eles mesmos estavam com problemas para continuar no espaço. E sabe, isso há uns 500 anos atrás, antes do projeto Replyka e toda essa merda. Fiquei sabendo de uma fonte, que os projetistas de Terraformação de Marte se recusaram a colaborar com o planeta mãe e essa ruptura causou uma rixa enorme entre os planetas.

        — Por isso essa tal Federação vem ajudando Oliver-Pine?

        — Sim, com os instrumentos militares, projetos, essas merdas, sabe. E bem, eu tô pensando sobre. A gente não sabe nada sobre essa Federação — eles tão se mantendo no escuro por um motivo ou outro. O UHD também parece ter dificuldade, eles tão sofrendo com um doxing fodido, sofrendo com ataques proxy, além da problemática do coletivo consciente. Parece, mas só parece, que eles não sabem de nada.

        — O UHD é uma bagunça. Eles tem dinheiro, poder, influência, são a base de Marte. Mas eles são uma bagunça. — James tomou um cigarro e fumou com Antonio, enquanto sentia o céu parecer perturbador

        — Oliver-Pine, entretanto, também é uma puta duma bagunça...

        Havia uma concordância implícita entre os homens.

 


       

Grifitas, 29 de dezembro do ano 786 depois da grande queda. Carlos Andrade observa um céu puramente negro, enquanto o cigarro em sua mão queima. A oficial Natalie Biancucci ao seu lado, toma uma cerveja. Os fuzis em peito, a pistola no coldre da cintura.

        Ser um soldado é revelador, não é? Carlos pensa. Não houve muito movimento neste um mês. Quer dizer, todos se foram. Ficaram apenas uns cem soldados no montículo arrasado que eram as serras naquele instante. Hans havia dito que a cúpula tinha outros planos, e que eles seriam altamente recompensados pelos esforços de guerra.

        — Isso quer dizer que eles nos aposentaram? — Bacci comentara, na ocasião. — Pensei que eles iriam nos escravizar. Bem, pelo menos essa é a decisão que eu tomaria.

        — Não, porra, somos peixes grande agora. Se fôssemos sequestrados pelo UHD, ou morrêssemos em combate, eles perderiam um know how importante. — Mattia, ao lado, parecia mais afiado. Suas roupas amarrotadas, um sorriso amarelo. — Eles vão nos pôr para treinar tropas especiais, nos pôr em posições importantes da instituição.

        Hans, com seu rosto enfaixado, suspira em desânimo. Parece irônico. Uma imagem que não é necessariamente interessante, mas que ainda chama alguma atenção.

        — Nós vamos para Eden, temos uma missão ainda para completar. Lá eles vão dizer nosso destino.

        Drama é algo particularmente religioso. Cientificamente falando, todo Drama é desnecessário. Siga em frente, seja melhor do que seus problemas.

        O céu negro que parece contar uma história para Carlos Andrade, uma história que ele não consegue entender a moral. Como um cisco em meu olho. Me sinto um merda, que coisa.

        Além do cigarro, há uma carta cujo o remetente era Maria Luiza de Andrade, sua mãe que, até então, ele pensou estar morta — informando que conseguiu encontrar seu contato através de um amigo, frei, que o havia visto na base João V, quando a tropa se encontrou na Lapis Regio após o bombardeio que culminou na queda de Roma. Ela dizia esperar vê-lo em breve, compartilhando seu endereço de e-mail. Fazia uma semana inteira desde que estava com a carta, tentando entender o que faria.

        Carlos Andrade... acho que ele foi um bom filho, apesar de tudo.

        Dois Meia treme por inteiro na cápsula da memória e os vermes que cobrem seu corpo. Tinha algo que o fazia ter vontade de vomitar após cada tragada e a memória da carta, observando o céu negro. Natalie havia dito que era mais simples do que tudo, e que ele deu sorte.

        — Minha mãe só entrou em contato comigo uma vez, e foi logo depois do combate, me pedindo para não morrer. Ela trabalha na política e tá refugiada, adivinha só: no UHD! No inimigo que jurei esmagar. Fazia uns dois anos que eu não escutava nada sobre ela.

        Carlos envolveu seus braços nela.

Que coisa!

        — Vão pensar que você é uma traidora.

        — Que seja. Sou uma heroína porra. Quero que se foda tudo!

        Uma heroína... que me anestesie então, me faça sentir.

        O céu estava cheio de estrelas, mesmo que nenhuma nave passasse por ali.

        Parece um pequeno pedaço de mundo só meu.

        Carlos se sentia estranhamente feliz, ele se sentia estranhamente esperançoso, ele se sentia um herói, alguém admirável.

        Um beijo em Natalie, e ele vê aqueles olhos. O que diz? O mundo de amanhã é sempre o de amanhã, e você é o hoje.

        O cheiro de sangue e químicos já haviam passado, o vento levara para muito longe — os corpos enterrados, mesmo que cicatrizes marcassem essa estranha terra.

        — O que eu escrevo para ela...?

        Natalie o observa com um sorriso.

        — Que você sente falta dela.

        Ou qualquer outra mentira que sempre conto. Que seja...

Que seja...

        A serra de Grifitas será um sonho eterno. As pessoas gritando nas ruas o meu nome, pedindo paz, um abraço, desejando quase que o tempo todo para serem felizes, para que eles fossem os responsáveis por trazer essa felicidade. Mas não dá. O público não pode saber os nomes de seus salvadores, não pode saber o nome daqueles que afiaram suas facas no pescoço do inimigo. Alguns soldados os cumprimentaram, Enrico Mazzale havia ido lá pessoalmente para dizer os parabéns mais calorosos.

Para Carlos, ele disse:

        — O que você quer agora? Se sente bem?

        Para caralho!

        — É isso que eu queria escutar. Sendo sincero, Carlos, pensei que você ia morrer.

         Mazzale havia trago um uísque, tinha charutos que compartilhara ali, na sua sala, com Carlos.

        — Desde que você apareceu em Genoa cheio de papo, se achando alguém naquela mesa com o Coronel, eu pensei que tu ia morrer. Talvez fosse um desejo meu. Aliás, lembro de você ter sido minha obsessão por um tempo, pesquisei todos os seus arquivos em loop, ficava noites conversando com a inteligência artificial, tentando descobrir algo a mais no seu perfil. Em algum momento, cheguei nos arquivos do seu pai. Me interessei apenas pelo fato de que, artistas tendem a odiar exércitos. Somos escárnio em pureza, e nada no mundo me tira da cabeça que um artista escarra sobre as tumbas ornadas de armas e bandeiras. Talvez seja o álcool subindo a minha cabeça. Veja, compilei os arquivos do seu pai, vi os registros bancários, agrupei em categorias os recursos semelhantes, o nome das pessoas que ele havia já feito contato, essas coisas. Um artista, um militar, e um viado. Marte não é um lugar onde podemos ser quem queremos ser. Nosso amor é determinado desde o princípio, nossas vidas um aglomerado de consequências passadas. Lutamos a vida toda para mudar uma coisa ou outra e parece que não estamos chegando em lugar nenhum. Seu pai é o homem com a melhor sepultura nas ruínas de Genoa, e em sua lápide, pedi para que fosse escrita um poema que realmente me tocou. Quer saber qual é? Vou recitar para você, é “Um homem no deserto”.

        Tirando o catarro do fundo da garganta, Enrico Mazzale cantou:

Um homem no deserto, cisma com as batatas;

Vê na poeira alada, miragem de castelos;

Observa nos próprios pés, fendas amarelas —

A água em poças pardas e um céu caramelo.

 

Pergunta todos os que passam, quem é o louco do deserto?

E o louco diz que é de Vênus, de onde Marte descende;

Mas Vênus está na distância, queimando em desespero!

Como o homem do deserto, em suas covardes veredas.

 

Pois não diga às armas que não estou, eu gosto do sangue;

                                                                                Ele diz!

Pois não diga à espada que desce, que sou feito de carne;

                                                                        E chora!

Me permita marchar rumo aos castelos distantes;

Me permita correr em direção ao desespero alheio.

 

Tal o louco do deserto que clama: Marte Venusiana;

Aos que passam, ele grita: as bombas que caem,

                                        Mas que nada fica!

 

        — Eu ri na primeira vez que li. Não fez sentido algum para mim. Uma história sobre um louco no deserto? Que coisa. Depois pensei bem: a história é essa. Saímos de um planeta verde, um planeta lindo, cheio de vida, para cá e encontramos nada. Devíamos ser gratos, devíamos lutar pela mesma coisa. Fazer o comum dever de avançar, de encontrar a felicidade eterna ou o que quer que seja. Não é bem assim, não é? Destruímos um planeta e agora parece que destruiremos outro. Seu pai sabia de algo e é uma pena que ele morreu. Aliás, sinto inveja do legado que você carrega.

 

        Enrico Mazzale entregou a Carlos Andrade um disco de armazenamento compacto, carregado de arquivos recuperados dos contos inacabados, histórias publicadas, documentos de direitos autorais, contratos sob royalties, fotos, notícias e entrevistas.

        Carlos brindou com Mazzale, pensando no que há?

        Pois o que há?

       Dois Meia teve um pai que morreu sob cascalho e Carlos também. A vida é uma tragédia, não?

        Carlos disse a Mazzale:

        — Ele foi um homem maior que tudo isso, diferente de mim.

        E Mazzale não soube bem o que responder.

        — Você é um herói, se sinta bem por isso.

        Agora, Dois Meia via na distância, a solidão desértica dos ventos carmesins, e a ideia que teve foi de viver um falso legado e uma falsa vida para sempre.

        No e-mail que escreveu para sua mãe, ele apenas disse:

       

        [Sinto sua falta, e espero que você também tenha sentido a minha. Fico feliz que a senhora está bem, pois até agora, eu vinha me consumindo pela tristeza de ser o último. Papai morreu, e eu não pude fazer nada. Tento vingar sua morte, mas sinto que só estou me esvaziando. Espero sobreviver a tudo isso, e voltar para casa. Conheci alguém e quero ter um filho com ela, quero te dar um neto e quero que sejamos todos felizes, juntos.

Com todo carinho, seu filho.]

 

        Pois Dois Meia sempre sentiu inveja de tudo e de todos.

        O orfanato em que viveu poderia ter desmoronado;

        Sua mãe poderia nunca ter existido.

        Dois Meia sonhou a vida toda em ser Carlos e só agora ele percebia a solidão carmesim dos ventos desérticos.

        E ele sorriu, pensando no quão dissimulado se tornou, para poder viver o sonho que sempre sonhou.

 

Fim do terceiro Arco.

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