A voz da Névoa Brasileira

Autor(a): Saber Hero

Revisão: Tiago Costa


Volume 1 – Arco 1

Capítulo 6: O vendedor de sonhos.

— Acho que estou cansado. — A campina tinha rosas vermelhas e suas pétalas forravam para ele deitar.

Um céu puramente outonal apresentava os últimos feixes que jamais o abandonaria, com Franker deitado ao seu lado em silêncio, te observando.

— Quem ela era?

Franker amassou a rosa. Seus olhos indo em direção a ele, pousava como luva.

— Você é um covarde. — Sua voz rouca magoa. — Ninguém te salvará. — Ficou pensando se o rosto dele se deformaria em ímpeto. — Você é fraco, evita o conflito e se esconde como uma barata contra o mundo que te digere. Quem ela é não importa, pois, para começar, o que você é?

Pensou no quão prazeroso seria matá-lo, depois sobre como seria degustar de seu sangue e apenas uma vez refletiu sobre como cada palavra era irritantemente verdade. Um sorriso lançado no ar para te enfurecer, um toque na testa para acalmar. Não conseguia entender, se levantando de repente para encarar o abismo cujo era Franker.

— Você é uma boa pessoa… há orgulho nisso, ou, pelo menos, há quando se é forte o suficiente para ser.

— Força? Que porra de força? Que porra é isso...

Franker parecia imóvel. Seus olhos eram uma tela em que números se formavam.

— Força é o que te permite agir sobre um corpo.

 Na campina, houve escuridão, e num momento atípico, ele viu uma pistola apontando em seu rosto e disparando, tornando tudo em morte ou subordinação compulsória. E depois, sobre escombros, os exércitos em passeata pareciam se divertir pelas ruínas e corpos, e cujo qual tudo que podia fazer era chorar e se render.

— Se resume ao mal?

— Bem e mal são relativos.

— De que modo?

— Eles são relativos e temporais pois nada mais se tornam do que um consenso social reduzidos ao seu espaço. Te darei um exemplo, sobre um homem que encontra num deserto, um poço com água suficiente para sustentar três pessoas. Porém, na sua pequena sociedade, há nove, onde duas delas são grandes guerreiros, outros dois, agricultores experientes, e os últimos quatro, pessoas ordinárias. Você pode sustentar até cinco deles, contando contigo, por um mês, porém não há comida, e você teria que matar quatro pessoas para não deixar o grupo morrer de fome. O que você faz? — Por um minuto, foi silêncio. — Bem, não importa. O que você fizer, no tempo que fizer, se tornará um herói àqueles a quem salvar.

— Por que?

— É o pior cenário possível, qualquer ação é uma ação desesperada e tudo que fizer não será moralmente errado, desde que seja para a salvação coletiva. — Outra vez, a idílica campina se tornava em aterrorizante cenário. — Numa outra situação, um homem pobre e faminto assassina seu semelhante, se alimentando dos membros e órgãos por um mês. A sociedade o execra quando descobre, pois há sustância, não havendo motivo para tamanho desespero. No entanto, para esse homem, não há um meio onde possa suceder, como se fosse o único faminto no coletivo, seco e repleto de doenças. Se há um meio para fartura, desconhece — está sozinho ao redor das pessoas e desse mesmo jeito, os mata e se nutre delas. É uma situação parecida com a do deserto: há famintos, isolados, desesperados, procurando uma forma de salvação. Então Dois Meia, ele está errado? Ele deveria morrer? O que ele deve fazer? — A última gota era absorvida pelos lábios. — Um exemplo mais simples são as guerras. Na história humana, sempre que necessário, houve respaldo moral para os assassinatos, os estupros, a pilhagem e todo resto. Os com grandes feitos são considerados heróis, havendo poesia para eles, havendo histórias, bordões, bandeiras, estátuas, e se é errado ou não, bem, nunca é errado. Na verdade, guerra sempre é representada como um romance em fervor. E o homem no coletivo? Errado, morto, sufocado pela forca — morte essa que não importa, pois, veja só: é pela justiça! E os homens do deserto? Na sua razão, retornam à sociedade com suas panças gordas para viver dia após dia fingindo que nada aconteceu. E o que tem a ver com força? É simples, os vencedores contam a história, o detentor da força define a moral e há tantos meios para a força, que saber com quem ficar ao lado é vertiginoso. No deserto, as forças reduzidas estão tanto do lado do mais esperto quanto daquele mais forte. É sobre como você rende todos à sua vontade, como reduz o homem à sua falange, e de uma hora ou outra, Atlas não carregará todo peso de marte. Na sociedade mais complexa, o pobre homem é tão fraco, e há tantas instituições com o aparelho da força para te render, que independente de tudo, não seria capaz de viver um dia só a mais.

 Se aprofundou nos olhos dele.

— como eu obtenho esse meio…

— Você já tem, só precisa usar ao seu favor. E se quiser me perguntar como, te digo que não sei. Ou, pelo menos, da forma como estou, nunca poderia te ajudar.

— Então o que faço?

— Encontre alguém disposto a compartilhar sonhos.

O que eram sonhos? Se perguntou logo depois de despertar de um.



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