A voz da Névoa Brasileira

Autor(a): Saber Hero

Revisão: Tiago Costa


Volume 1 – Arco 1

Capítulo 2: Dois Meia.

Quando já não sabia mais que horas eram, ele olhou para a cama bagunçada e fedida, com aquele gosto de merda de cigarro na boca, lembrando quem realmente era, com o rosto transtornado pelo cansaço e a febre.

— Dois Meia. — Ele disse pra si, deitado, encarando o teto, esperando que o sono viesse naturalmente. — Que idiota.

Não era o seu nome de verdade. Ele sequer tinha um. O que ele tinha, era o número de sua identidade provisória, que perdurava por quase 16 anos e do qual quase nunca se lembrava de cabeça, sendo 267.439.158, apelidado de Dois Meia.

Uma criança comum, travada por tragédias das quais não tinha controle e que veio a viver no orfanato da escola eclesiástica Saint Mary há mais de um ano. Um pouco antes, ele foi morador de rua, por mais ou menos uns 3 anos, pulando pelas casas dos amigos de seus pais e parentes distantes, além de motéis. Seu antigo patrão, um cara chamado Mathieu, que te tirou delas, quando o recomendou para uma vaga de estágio numa fábrica de pilhas que curiosamente pedia em seu requerimento uma situação econômica estável, do qual mais precisamente dizia respeito a um processo que eliminava crianças de rua, ou que incentivava estas a buscar ferramentas do estado para serem devidamente acompanhadas por órgãos sociais.

Era uma merda, entretanto. Ele não sabia o que pensar da situação de agora ou de antes, mas sentia nelas uma miséria que as tornavam semelhantes, tendo um luxo destoando de outro, que no fim não significavam nada, como o fato de não ter mais que dormir na rua quando te faltasse dinheiro, contra a verdade de que antes se alimentava melhor quando podia, além de não ter que dividir merda nenhuma com ninguém.

E essas crianças, ele lembrava em desespero — 27 dessas, de várias idades e tamanhos, hipocondríacos e existencialmente doentes — vivendo numa particular miséria e num eterno conflito de pobrezas — fugindo quando podiam na alta noite, para transar, para brigar, se drogar ou apenas pela fuga, pelo prazer de não respirar mais aquele ar, de não ver mais aqueles rostos e, de algum modo, ao poder de ser, de se afirmar.

Dois Meia não era bem assim. Ele escutava as histórias em ódio. Ele não era assim. Ele não tinha nenhum interesse nessas merdas. Trabalhar e estudar era tudo que havia em sua vida, mesmo assim odiava, reduzindo seus amores a nada.

Um desprezo, que, ao seu rosto afundando no travesseiro, parecia significar nada, pois no fim, as traças devorariam sua carne, as moscas pousariam em seu frio cadáver.

Ele ainda olhava para o teto, sem sono, escutando os sussurros, as vozes. Estava cansado, mas não conseguia pegar no sono, sentindo um ódio que não deveria ser seu percorrer todo seu corpo, quando olhou para garota da cama da frente mexendo no computador de mão, percebendo como ela não te importava, assim como o sorriso no seu rosto, as mensagens que convergiam em felicidade — assim como o menino do outro lado, se masturbando — como freira aparecendo à porta e depois desaparecendo.

Estava tão cansado que todas as pessoas do mundo poderiam morrer. E foda-se se houvesse só eles três ali. Não há conexão, não há nada. São três pessoas independentes, com suas próprias vidas para governar, o que por si só já era suficiente para nunca os tornar a falar uns com os outros.

A própria menina, ele pensou, poderia aparecer grávida no dia seguinte, indo se mudar para a casa do seu marido, e o menino poderia ter uma overdose de cocaína ou entrar para uma facção, mudar seu nome e nunca mais aparecer em Black Light.

E quando as pálpebras se fecharam, pensou mais a fundo, imaginando se também não pudesse ter um fim idealizado desses, como conhecer uma pessoa especial num outro dia, ou, quem sabe, ganhar uma porrada de dinheiro por algo provido pela sorte — idealizando os detalhes que se encaminharia da sua vida com essa pessoa, dessa vida com esse dinheiro, abrindo seus olhos em lágrimas, puto que ainda não conseguia dormir e triste por saber que nada nunca aconteceria na sua vida.

 Ele fechou seus olhos, por uma terceira vez. Os sons se tornavam cada vez mais irritantes e a febre parecia mais intensa. Não soube quando pegou no sono, o que é normal, mas soube que acordou desesperado, num campo de lavandas, sob um céu puramente azul.

Pensou que estava morto, no céu, como diziam as freiras onde sua alma estaria. Nunca soube se era mesmo verdade. E quando viu aquelas duas cadeiras de vime, encostadas debaixo de uma árvore, quase teve certeza, observando as sombras místicas que se tornavam sombras graças as baixas e solitárias nuvens que uniformemente dançavam acima da campina.

Um bule de chá, ele sentiu o odor perfumado, depois viu as xícaras ao lado, com aquele velho a sua frente, vestido de túnica branca, além da barba feita.

— Inesperado, não acha. — Por algum motivo, estava sentado numa cadeira de vime. — É engraçado, essa forma como enlouquecemos. — Não respondeu nada. — Você sabe, se tudo estivesse bem, do jeito que você acha que está, eu não estaria aqui, a princípio.

Esboçou um sorriso — ele estava certo, em alguma coisa. Não que importasse, aliás. Apenas fechou seus olhos, suspirou. Não era a primeira vez que tinha um sonho desses, de merda. E bem, isso funcionava, ou pelo menos tornava mais suportável.

— Você está morto. — O velho disse.

— Foda-se?

— Vai continuar morto se ficar negando a verdade.

— Que verdade?

— Que você é um merda.

Dois Meia olhou para ele, sentindo uma pontada que ia dos dedos de seu pé à nuca.

— E daí? — Dois Meia disse, hesitante.

— Bem, eu sei que você se importa. — O velho acendeu um cachimbo. — Você odeia sua vida, odeia as pessoas ao seu redor. Isso, claro, é um problema. Mas você se importa, pois tem uma recusa na sua cabeça. Uma que, claro, não vai admitir pra mim, mas que sei que é o que te motiva a vestir suas calças pela manhã, a andar todo o caminho por aí, a trabalhar na fábrica, a ir pra escola, a se esforçar em tudo aquilo que você diz ser inútil.

Bebeu um gole do chá, olhando pra longe.

— E daí?

— E daí? — O velho falava entre tragadas. — E daí que você vive contra suas vontades. Você se inibe, achando que nunca será mais.

— A pergunta continua a mesma. E daí? Eu não preciso que você me conteste o óbvio.

O velho não respondeu, olhando para o horizonte. Um silêncio atingia os dois, e Dois Meia apreciava. O céu com aquelas nuvens que nunca batiam umas contra as outras, tinha feixes maravilhosos que escapavam das frestas, enquanto os ventos frescos da tarde idílica batia em seu rosto. Ele não queria escutar uma palavra a mais, só queria apreciar aquela tarde, e talvez, quem sabe, nunca acordar.

— Quem é você? — Perguntou, quando finalmente se sentiu à vontade.

— Eu? Eu não sou ninguém, a princípio.

Ele disse isso, mas Dois Meia sabia quem ele era. O nome dele aparecia encrustado no rosto, assim como a ocupação, lendo claramente que ele era Franker Médzsci, fundador de uma escola de estudo materialista em Human’Behavior e ex-representante parlamentar da Megatorre 1 durante um tempo. Não entendeu como, nem quis se perguntar, olhando para o sorriso dele, esperando uma resposta.

— O homem... ele é louco o bastante para matar seu semelhante, mas não o suficiente para beijá-lo. — Dois Meia falou, como se de repente invadisse sua cabeça.

— Parece que já descobriu quem eu sou.

Olhou para o rosto dele, Dois Meia, parecendo haver certa diferença na compostura. Para ser sincero, também se sentia desconfortável, percebendo como sua blusa ficava coberta de suor de repente e de como sua perna se mexia maniacamente, enquanto os lábios tremem e seu olhar se torna fixo no de Franker.

— Você morreu em Redneon. — Lembrou, e sua boca descascava e os lábios grudavam. — Como alguém tão importante pode morrer assim, sozinho, nesse fim de mundo?

— Longa história. — Seus olhos eram vermelho puro e um calor subia pelas orelhas. — Mas acho que não importa tanto. Primeiro porque simplesmente não morri, me mataram. E de resto, um homem pode morrer em qualquer lugar no mundo que ele ainda assim vai continuar sendo um morto.

Parecia histerismo, Dois Meia imaginou, ou quem sabe um ataque de pânico. Também podia ser luto, mas nem o conhecia. Se fosse mentira, teria tirado esse nome idiota de onde? Nem sabia escrever Médzsci e mesmo assim, toda vez que dizia, aquela quantidade de letras surgia na cabeça. Uma loucura, que se fosse verdade, ia ser o pior dos delírios. Mas como não era, apenas olhou pra cara dele, enquanto sentia vermes sair dos poros de sua face.

— Você não existe...

— Você inverteu o assunto. — Olhou nos olhos dele. — Eu quem disse que você estava morto, a princípio. Mas se esse é o caso, eu posso provar que estou vivo e que, aliás, que estou mais vivo que você. — Quem era Franker? — Pois tenho certeza que se fosse me contar sobre você, iria apenas se resumir a sua insônia, em que tu fica perambulando pelas madrugadas de um lado ao outro procurando algo, sobre as manhãs de sono, em que tenta não dormir entre as aulas, sobre seu chefe, aquele porco chamado Leonardo, sobre Mathieu e a vontade que você tinha de entrar pra facção criminosa dele — sobre o tempo em que viveu na rua. E, aliás, me sinto até incomodado, pois, como pode alguém que nem mesmo tem um nome pra chamar de seu, dizer se eu existo ou não? Você acha que existe porque forma palavras na sua cabeça, porque acha que consegue sentir os estímulos ao seu redor? Mas me diz Dois Meia, me diz sobre quando tu anda na rua, me diz: alguém realmente olha para você? E não, não estou falando desses merdas que se aproximam e te batem, e te roubam — esses não importam. Alguma vez na sua vida você já se sentiu amado? Por algum dia já foi tomado por enorme contemplação por uma criação tua? Você é um ninguém e sabe disso — você é uma pária dominada de lástimas, só que isso não deveria importar, e você sabe disso, Dois Meia.

A reação foi estranha. Primeiro Dois Meia riu, depois gargalhou. Ele não tava legal. Sua cabeça doía, a respiração parecia limitada. Inspirava, expirava, inspirava e em vez de expirar, inspirava de novo. Estava abafado na campina, e o sonho bonito, dominado de idílicas nuvens, se tornou um turbilhão que parecia querer matá-lo.

— Sai da minha cabeça.

— Não...

— Se é real... se existe... por que fica na merda da minha cabeça?

— E em qual outro lugar eu poderia estar?

— Você não é nada.

— Por que eu estou na sua cabeça?

— Sim?

— E os axiomas que foi forçado a aprender são baboseiras também? Os algoritmos são uma merda sem sentido? — Foda-se Franker e tudo parecia criptografado nos símbolos que em alto céu surgiam. — Não é porque algo está na sua cabeça, que ela simplesmente não exista.

— Não. Elas se manifestam. Não tenta me enganar. Porra! Todas as coisas que estão na minha cabeça existem...

— Então eu existo?

— Não. Você é um nada.

— Então, alguém chamado Franker pode ter existido, e alguém com minha instrução também. Como você me explica, que tipo de fenômeno eu sou? Vamos dizer que tenha me tirado de algum dos filmes ruins que tenha visto. Sendo assim, sou fruto de uma carência inexplicável. Sou o mentor que debate contigo e que busca uma conclusão que lhe tire dessa suposta miséria.  Do que eu seja feito, inacreditavelmente você precisa acreditar que sou real, pois se não, quem verterá em nada será justamente você.

— Isso nem faz sentido…

Dois Meia tomou um gole do chá, depois outro e mais outro. Tinha gosto de mijo e anfetamina. E o pior de tudo é que não conseguiu afastar o desconforto que sentia.

— Você quer reprisar aquela mesma história? — Franker pegou na sua mão. — Eu não. Mas vamos observar alguns fatos sobre mim. Primeiro, você sente esse toque, não sente? — Que merda ele estava falando. — Se disser que não, estará mentindo, pois o que acontece é exatamente isso: meu toque; depois o sentido, e, então, seus olhos vem ao meu. O sentimento ruim passa, não passa? Gostaria de te dizer o porquê..., mas bem, o que eu poderia te dizer?

— Me diz tudo... sobre você...

— Como eu poderia?

— Você sabe sobre mim.

— Sei, Dois Meia, e como eu sei...

— Mas não por que me conhecia...

— Então você já sabe?

— Não.

Tentou dizer algo de suma importância, mas a campina de sonho se despedaçou. E também, Dois Meia tinha ideia de que caso ele conseguisse escutar, seria apenas silêncio, enquanto as lavandas murchassem, apodrecessem, se tornando pó, tal como Franker, como ele próprio, tal como as paredes, seu sorriso, cada palavra e cada coisa.



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