A Voz da Névoa Brasileira

Autor(a): Saber Hero

Revisão: Tiago Costa


Volume 1 – Arco 1

Capítulo 1: Marte, 780 depois da grande queda, cidade de Redneon — subdistrito F.

As portas se abriram automaticamente naquela fábrica de peças eletrônicas e as luzes atrás dele escureceu; tendo, a cada passo, o som de despedidas naqueles cinzentos corredores cujo Dois Meia via-se apagado. Apertos de mão entre homens enfileirados, abraços ternos de gente já bêbada no ofício e exausta em amargos dessabores — olhares impacientes que nosso protagonista já se acostumara, observando a nervosa turba passar ao lado das portas automáticas e trades de cigarro. O fiscal distrital, cujo estava trajado num terno gasto também observava, mesmo que estivesse de frente, tamborilando com um sorriso a mesa bagunçada, enquanto assobiava certa música do passado, com o teclar do moço do R.H te seguindo — chamando, aliás, ao seu ritmo, aquelas boas pessoas — sendo a sinfonia do fim enquanto operário atrás de operário convergia — se tornando um deserto intransponível os rostos — de brisas como bocejos e oásis como lacrimejos — sabido dos homens, enquanto as máquinas e as peças e os embrulhos e as caixas de papelão de cânhamo se apagavam nas mesas de metal e prateleiras de plástico.

O moço do R.H disse que estava tudo certo, que o pagamento havia caído, desejando sinceramente um bom descanso.

— Obrigado. — disse e se mandou, como fazia todos os dias da semana.

E é foda — o dia terminado e a chuva que intensamente caía do lado de fora. Não tinha guarda-chuva contigo e o anuncio dos cliques, dos ruídos, das gotas de chuva que batiam na janela era desanimador, principalmente pois já pensava de como a vida passa rápido, e que, apesar de tudo, cansaço definia, sentindo-se já morto.

Pela saída B2 (conhecida por sua parca iluminação e da qual dava debaixo de uma marquise), táxis esperavam os engenheiros e os gerentes, da torrente escorrendo pelas calhas, qual levava o lixo rua abaixo, até a avenida.

Merda, ele sabia — afogando-se onde pareceu impossível ver os filetes da poente luz penetrar a recente escuridão — dos seus pés escorregando vez ou outra, desajeitado, tendo o pedal sucessivamente batendo contra sua canela já machucada — retomando o fôlego apenas quando na avenida e com o frio, se viu descansar debaixo de um viaduto iluminado pelo neon da fachada de um barracão que servia de puteiro, com suas letras garrafais dizendo que era a “zona”, onde embaixo as letras que diziam “do prazer” se via piscar, mesmo que mais frequentemente apagada.

Chamativo, uma palavra que sempre passou por sua cabeça, principalmente naqueles dias áureos de inocência, quando escravidão não era uma coisa de verdade e seu esforço sempre seria recompensado — com seu corpo desintegrado em cansaço, em virtude mais da anestesia que era estar exausto — não sentindo o tesão dos odores, nem ouvindo os gritos ou sentindo a porrada que levou no ombro (mesmo como se acordado de um sonho); também não sentindo os leves pontapés dos seguranças que disseram que ali não era lugar pra ele — se questionando posteriormente em que lugar poderia estar naquele mundo.

Injusto, foi o que se seguiu debaixo daquela torrente, pois, se fazia as mesmas merdas que os adultos faziam, em todos os casos, por que caralhos ainda estava restringido do mundo deles — impossibilitado da mesma degeneração, do mesmo prazer? — vendo as ruas se tornarem mais escuras, as avenidas tão abandonadas quanto, sem veículos transitando ou gente vagando.

No retorno lá da altura da rua debaixo, aguaçal alagou todas as casas que se estendiam, mal conseguindo passar, observando com cuidado a comoção das janelas que se fechavam e das luzes que se acendiam nas varandas de todo semelhante cortiço de cada semelhante rua que o bairro de Less Light tinha registrado em si.

Uma pontada posterior — essa ele não soube definir — que sentiu talvez ser pela pura contemplação ao testemunhar a correnteza parda levar veículos e eletrodomésticos através de casas já abandonadas, se misturando à lama e tornando-se sucata em seguida — com lágrimas semeando as ruas e a caricatura do desespero nas miseráveis faces que ele, nosso protagonista, igualmente tinha, mesmo que inadmitido. Uma despersonalização talvez. Não sabia o que significava essa palavra, aliás. E é o que acontece por aqui, ele escutou um homem idoso uma vez dizer.

— A vida dessas pessoas começa e termina em tragédia.

Podia ser verdade. Mas bem, estava apenas no caminho, imaginando, por exemplo, a dor que é perder tudo — lembrando em sarcasmo que na verdade nunca teve nada.

E com lama devorando seus tornozelos e das luzes atravessando o ambiente, um pensamento solitário e cansado te metamorfoseou no niilista mais barato — num niilista com câimbras e que se despedia do sol, desejando perversamente apenas um cigarro — imaginando como podia ser possível ainda idealizar aquele gosto amargo na boca — sonhando com fumaça chumbada enquanto seu olhar catatônico passeava pelas viaturas de uma polícia distinta — dizendo pro escuro realizar seu desejo e depois dizendo para o clarão de luz que a máquina pública apontou para seu rosto, que já era tarde — passando em frente de um daqueles puteiros com a mão no bolso, segurando seus poucos trocados — sentindo, aliás, o exalar fodido de almíscar, dum tipo que não saía da roupa, pele ou carne — continuando em frente como se nunca tivesse desejado nada, por mais que as tetas das putas tivessem-no feito ejacular em suas próprias calças.

O cenário na Light Avenue com os feixes sensuais de um centro movimentado, da qual a majestade de seus edifícios te faziam sentir ser menos gente que Redneon — do seu único desejo se realizando de repente, com uma guimba meia acesa na mureta de um daqueles edifícios caros. A vida se ajustando a sua paranoia, talvez — ao seu desejo: parando e fumando — perdendo talvez a única coisa que realmente respeitava em si mesmo.

À beleza, foi por isso. Entretanto, ao ser expulso depois de encostar num homem gigante, trajado de terno caro e com dois robustos braços que só podiam ser biônicos, achou a feiura — entrando num beco dominado por luz parca, gente vadia e olhares torpes e odiosos — com aquela sua mochila encharcada e sua roupa pesada — sendo um Atlas, só que um Atlas que carregava nas costas todo peso de marte.

Olhou de um lado, depois para o outro, se regozijando com as lentas tragadas. O velho ele só viu após, esparramado entre as sacolas de lixo plástico.

O coro de lonas ecoando das fachadas neon, o som da queda de algum corpo não seu.

A chuva marciana caía, é: era bonito pra caralho (o homem agonizando). Sangue gentilmente ondulando nos pingos e seu cigarro parecendo um alento barato — a face se contorce.

— O que é um homem de verdade... — Lembrou de um amigo distante e, sem perceber, tomou os cuidados da ferida, estancando o sangue e retirando os vermes de sua carne.

O velho olhou para ele um pouco depois, quando rostos embalsamados de suor e lama finalmente te acordaram.

— Quem é você? — perguntou. Sua voz era grave, como se sua vida girasse entorno de charutos e uísque.

— Não tenho nome. — O menino respondeu. Por outro lado, sua voz era uma daquelas, de jovem mesmo. Seu tom nem grave nem agudo. Chato de escutar (doloroso até).

E da chuva, o menino não gostava. O velho observando sua feição, parecia em dúvida. Que porra a chuva tem a ver? Pensou e disse para ele. A chuva que é o verdadeiro alento. Que porra de alento, o menino sorriu, que porra tu tá falando?

— Realmente... — disse. Seus olhos estando imóveis. — Tem um cigarro? — perguntou o velho.

— Eu tenho nada.

Sangue espirrava... o céu azeviche... eles dois.

— Foda...

— Foda.

Olhando para ele, o velho também disse que discordava, dizendo que essa chuva era tudo, que ia ser uma merda morrer sem uma gota d’água.

— Só de morrer já é uma merda. — respondeu.

E o velho riu, disse que ele tinha razão, mesmo que ainda gostasse da chuva. Era um réquiem, comentou, um verdadeiro réquiem a ele. A foda mesmo são suas mãos nessa porra de ferida.

— Dói pra caralho, aliás.

— Não vai deixar de doer se eu tirar...

— Tu não entendeu, moleque: não deveria doer.

— Por quê?

— Nem tudo é dor, no fim das contas. Mas bem, a forma como você tenta me ajudar certamente dói.

De que modo não deveria doer, ele pensou.

— Deve significar alguma coisa, eu acho — talvez o fato de você ainda estar vivo.

— A vida sendo dor, então? Não fode!

— Quase isso. Mas também acho que ameniza, com o tempo. — Não pensou em muita coisa. — Chega um momento em que você se acostuma, sabe, até morrer.

— É, acho que pode ser... — O velho dirigiu seu olhar pro céu. — Mas também acho que não importa. — Era impossível ver qualquer coisa além de clarões relampejantes e uma escuridão sem fim.

— Queria um cigarro, aliás.

O velho morreu sem fumar um último. Curiosamente, no bolso de seu casaco tinha um isqueiro e um maço. Talvez fosse isso, não ter forças nem pra realizar o mais simples desejo. Suas mãos estavam sujas de sangue, a chuva não lavava nem por um caralho. E o maço estava molhado. Não era tão diferente do velho, sentiu. O sorriso abandonado que tinha ainda no rosto, os olhos cansados que fez questão de fechar. Não foi o primeiro cadáver que viu, todavia se sentia um pouco desconfortável. O céu vertia a uma limpidez também, dominado por faróis distantes das naves que atravessavam, tão iguais as estrelas que não pensou ver naquela noite. Pareceu como se o velho fosse nada.

Quis fumar um cigarro em memória dele, aliás. O próprio que havia furtado. Engraçado, tinha pego a carteira também, mas não levou contigo. Uma moral que não pensou haver. Estava cheia, entretanto. Podia ter bebido em memória dele. Se bem que foi tudo muito estranho. Ele tocou no seu pulso, disse que viveria bastante dessa amargura ainda. Que amargura? Alguma coisa pareceu clicar no seu cérebro, a face do velho desapareceu de suas memórias. Estava apenas ele sozinho e com frio, observando a rua sentado nas escadas do seu orfanato.



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