Vol 2
Interlúdio 13
Cliff
No viscondado de Cottoness, havia uma aldeia particularmente pobre. Como o visconde já era consideravelmente empobrecido, a aldeia encontrava-se em situação precária, e sua situação só piorou quando foram atacados por monstros seis meses antes. Embora não tivessem sofrido baixas humanas, suas plantações foram danificadas pelo ataque, e o suprimento de alimentos dos aldeões ficou em situação precária.
Desesperados, os aldeões imploraram ao visconde que lhes prestasse auxílio e os isentasse de impostos por um ano. A resposta que receberam foi simples e impiedosa: os impostos seriam cobrados naquele ano, como em todos os anos anteriores.
Sem opções, os aldeões recorreram ao crime. Viajaram para o território vizinho para não serem apanhados e planearam atacar uma carruagem que parecia transportar uma carga valiosa. Decidiram que o seu alvo preferido seria um veículo pertencente a aristocratas, que agora detestavam profundamente, e que tivesse o mínimo de guardas possível a acompanhá-lo.
O destino estava a favor dos aldeões — ou talvez contra eles — pois logo encontraram uma carruagem que atendia às suas necessidades. Ela viajava sozinha e ostentava o brasão de alguma família aristocrática. Além disso, não havia guarda a cavalo que a acompanhasse, e havia apenas um cocheiro para guiar os cavalos. Some-se a isso o fato de ser uma carruagem pequena, que só podia transportar cerca de quatro passageiros, e os aldeões acreditaram ter encontrado a presa perfeita. Cercaram a carruagem imediatamente.
Até então, tudo tinha corrido conforme o planejado. Infelizmente, assim que escolheram aquela carruagem em particular como alvo, o fracasso já estava selado.
Vários meses se passaram desde aquele dia, e os moradores da aldeia mencionada anteriormente, no Viscondado de Cottoness, estavam reunidos em torno do chefe da aldeia, em uma reunião.
“Um mensageiro chegou ontem do Condado de Dolkness”, declarou o chefe da aldeia. “Eles estão prontos para nos receber agora, então finalmente vão pedir a aprovação do Visconde Cottoness.”
“Será que vamos mesmo nos mudar?”, gritou um morador. “Tipo, todos nós?”
Afinal, a carruagem que os aldeões atacaram acabou pertencendo à infame Yumiella Dolkness. Ela não se vingou na época e os convidou a todos para se mudarem para o território de Dolkness, mas isso não significava que eles não enfrentariam punições mais tarde. Era possível que ela usasse seu poder para fazer algo tão drástico quanto aniquilar toda a aldeia, deixando-a um campo vazio.
Mesmo que a culpa fosse deles, os aldeões não estavam dispostos a ficar de braços cruzados enquanto suas casas eram destruídas. Embora tivessem concordado com o plano da senhorita Yumiella de se mudarem imediatamente para o Condado de Dolkness, eles também discutiram a possibilidade de fugir completamente da situação, dependendo do rumo que as coisas tomassem.
“Acho que estamos fazendo um ótimo negócio”, assegurou o chefe da aldeia ao seu povo. “Pelo que me disseram, vamos nos mudar para uma área que já possui moradias, terras férteis e bastante sol.”
“Você não pode estar falando sério”, exclamou um dos moradores. “Estamos falando do Condado de Dolkness! É o condado governado por uma Lorde Demônio de cabelos negros!”
“Além disso, não parece bom demais para ser verdade?”, observou outro aldeão. “E quanto aos rumores de que ela alimenta seu dragão com pessoas?”
Parece que, por mais otimista que eu seja, todos estão determinados a ser bastante críticos. O ancião chefe da aldeia refletiu. Levantou levemente a mão e esperou que os murmúrios cessassem.
“Acho que podemos confiar no povo de Dolkness”, declarou o chefe da aldeia. “A comida que prometeram não chegou exatamente quando disseram que chegaria? Eles até nos enviaram uma boa quantidade de ajuda financeira.”
“É verdade, as coisas que eles enviaram realmente nos ajudaram…” admitiu um dos moradores.
“No fim, não temos mais escolha”, disse o chefe da aldeia com firmeza. “Precisamos nos mudar para o Condado de Dolkness.”
Os aldeões silenciaram, ponderando as palavras de seu líder. O visconde de Cottoness já os havia abandonado, então era evidente que não podiam mais permanecer onde estavam. E, mesmo que fugissem para outro lugar, era altamente improvável que encontrassem um território além do Condado de Dolkness que concordasse em acolher uma comunidade de mais de cem aldeões. Ainda assim… estavam falando em se mudar para aquele Condado de Darkness, aquele governado por Yumiella Dolkness, que era famosa por alimentar seu dragão com qualquer subordinado de quem não gostasse.
Ao perceber que os moradores estavam com dificuldades para chegar a uma decisão, o chefe da aldeia se pronunciou, explicando o plano que tinha em mente.
“Dito isso, acho que seria uma boa ideia explorarmos o Condado de Dolkness para ver como é viver lá. Decidi passar a responsabilidade dessa missão para o Cliff.”
De todos os aldeões, Cliff era o que estava em melhor forma e, em geral, era bastante popular. Às vezes, ele até assumia a liderança no lugar do ancião chefe da aldeia. Quando estavam planejando assaltar uma carruagem, ele serviu como comandante.
“Então, tudo o que eu tenho que fazer é ir dar uma olhada no Condado de Dolkness?”, perguntou Cliff. Ele parecia completamente destemido em relação à perigosa tarefa que lhe fora dada.
Murmúrios surgiram da multidão de aldeões reunidos. Todos pareciam certos de que podiam confiar a Cliff a responsabilidade que o chefe da aldeia lhe havia atribuído.
“Se eu não voltar… quero que todos vocês fujam”, disse Cliff aos outros moradores da vila, com voz séria. “Mesmo que nos separemos, tenho certeza de que um dia conseguiremos viver e rir juntos novamente.”
Essas palavras determinadas fizeram os outros moradores da vila chorarem. Eles se contiveram enquanto Cliff saía da vila, ignorando todos que tentavam impedi-lo. Era hora de ele fazer uma viagem para o território extremamente perigoso do Condado de Dolkness.
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“Então, de onde você está vindo, Cliff?”
“Hum… lá do extremo sul.”
“Nossa, você percorreu um longo caminho desde um lugar tão frio?”
Já fazia cerca de meio dia desde que Cliff deixara sua aldeia. Ele caminhara para o norte durante a maior parte desse tempo e logo cruzara a fronteira para o Condado de Dolkness. No momento, vagava sem rumo, reunindo o máximo de informações possível enquanto fingia ser um viajante de uma terra distante.
O lugar onde ele havia chegado era uma pequena vila, mais ou menos do mesmo tamanho que sua terra natal. Ele chamou um aldeão que por acaso estava trabalhando nos campos, e eles começaram a conversar com ele, com um sorriso gentil.
Para dizer a verdade, Cliff ficou estupefato — a área por onde ele havia viajado até então parecia idílica e pacífica demais para pertencer a um território supostamente governado por uma Lorde Demônio, muito menos por uma que deixava seu dragão solto.
Afinal, o Condado de Dolkness não é um lugar perigoso? Será que é só nisso que vai se resumir a responsabilidade pela qual me esforcei tanto?
Disfarçando o choque, Cliff tentou puxar conversa com o aldeão de meia-idade com quem estava falando. “Este lugar fica no… Condado de Dolkness, certo? Como está a economia por aqui?!
“As coisas estavam bem ruins até recentemente”, admitiu o morador. “Aí chegou a nossa nova condessa, e nossas vidas melhoraram drasticamente, praticamente num instante. As estradas foram arrumadas, então agora tem mais comerciantes, e além disso, ela reduziu a taxa de impostos a zero este ano para comemorar!”
Ele parece tão feliz e animado! Cliff pensou. Parece, sem dúvida, que ele está dizendo a verdade.
“Entendo”, disse Cliff. Ele decidiu fingir que de repente havia desenvolvido interesse pela condessa, para ver como o aldeão reagiria. “Parece que sua nova condessa deve ser uma boa pessoa.”
“Ah, sim!” exclamou o aldeão. “Afinal, ela é uma deusa!”
Cliff não sabia bem como reagir. Ele percebeu que o aldeão era profundamente grato à condessa, mas chamá-la de deusa pareceu um pouco demais.
Então, de repente, o aldeão começou a se afastar. “Ei, senhor, siga-me. Por aqui.”
Cliff fez o que lhe foi dito e foi conduzido a um santuário feito de pedra. “O que é isto?”
“É um santuário para a deusa da montanha, também conhecida como nossa condessa!”
“O quê…?” O estômago de Cliff revirou. “A condessa está afirmando ser uma deusa?”
Não há como um aristocrata que se autodenomina um deus ser outra coisa senão uma pessoa desprezível. Cliff pensou, desanimado. Mas… esse cara parece tão orgulhoso desse santuário. Talvez eu não esteja entendendo completamente a situação.
Isso foi confirmado quando o aldeão balançou a cabeça apressadamente. “Oh, não, não. É que, algum tempo antes de eu me casar — há uns dez anos, eu acho — uma deusa da montanha apareceu. Ela saiu derrotando todos os monstros que surgiam por aqui. E recentemente, depois de todos esses anos, descobrimos que a deusa da montanha era, na verdade, a senhorita Yumiella. Incrível, não é?”
“Com certeza…” disse Cliff, concordando prontamente.
Para ser sincero, ele não tinha ideia do que o homem estava falando. Dez anos atrás, a senhorita Yumiella seria uma garotinha com menos de dez anos. Será que o cara estava mesmo dizendo que ela derrotava monstros tão jovem e que acabou sendo confundida com uma deusa?
Depois disso, Cliff ficou por ali um tempo e ouviu várias outras histórias sobre o Condado de Dolkness. Durante todo o tempo, nenhuma palavra negativa foi dita sobre a senhorita Yumiella.
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Cliff sabia que visitar apenas uma aldeia não seria suficiente para ter uma visão completa da situação no Condado de Dolkness, então continuou viajando a pé pelo território. Em seguida, chegou a uma aldeia cheia de pessoas que vieram de fora do Condado de Dolkness.
Isto é… um destino turístico? Ele se perguntou. Bem, pelo menos ninguém deve me achar suspeito aqui.
Olhando ao redor da vila, Cliff percebeu que havia uma variedade de opções de hospedagem. Havia de tudo, desde casas reformadas até construções totalmente novas. Ficou claro que, até pouco tempo atrás, aquela área era apenas mais uma vila agrícola comum.
É um lugar tão calmo e tranquilo, mesmo com tanta gente. Cliff pensou. Eu gostei bastante.
Depois de um tempo, ele decidiu seguir a multidão e acabou chegando a um lago alguns minutos depois. Era um círculo perfeito, e havia vários barquinhos flutuando em suas águas. Em meio a um grande grupo de pessoas, Cliff contemplava a superfície do lago, hipnotizado por como ela brilhava e refletia a luz. Sua atenção só se desviou quando ouviu um homem, que carregava uma bandeira nobori de uma loja de aluguel de barcos próxima, compartilhando informações destinadas a turistas. Cliff seguiu as pessoas ao seu redor enquanto se aproximavam e escutou atentamente.
{ Yoru: Bandeira nobori é aquele tipo de bandeira estreita que é hasteada na vertical, bem comum em frente a lojas japonesas. }
A primeira coisa que ele ouviu foi: “Este lago foi criado pela dona deste território, a Condessa Yumiella Dolkness!”
Cliff franziu a testa, confuso. Como assim ela criou o lago?
“A condessa lançou uma enorme pedra bem alto no céu, que caiu aqui e criou um buraco redondo! A água da chuva se acumulou nesse buraco, formando este belo lago”, continuou o homem.
Cliff franziu ainda mais a testa. Por que a senhorita Yumiella lançaria uma pedra enorme para o céu…?
Como se o homem tivesse lido os pensamentos de Cliff, ele prosseguiu: “A condessa sabia disso o tempo todo, e foi por isso que atirou a pedra em primeiro lugar.”
Nesse momento, a expressão de Cliff não poderia ser mais perplexa. Quer dizer, será que ela realmente pensou tão longe assim quando atirou essa pedra?
“Este lago também é conhecido por trazer sucesso aos relacionamentos amorosos. Não há dúvida de que você e seu parceiro terão um ótimo relacionamento se fizerem um passeio de barco juntos!”
Espere aí, e de onde vieram esses supostos poderes de relacionamento?!
Cliff se sentia completamente perdido. Havia tantas coisas que ele não entendia sobre aquele lago estranho, criado por Yumiella. Mas antes que pudesse se entregar ao desespero, o homem da loja de aluguel de barcos foi substituído por uma mulher de uma loja de presentes. Ela segurava uma espada de madeira simples bem alto, para que todos pudessem ver. Cliff notou que o cabo tinha “Condado de Dolkness” gravado nele.
“Esta é a nossa lembrança mais popular: uma espada de madeira! São espadas autênticas, feitas sob a supervisão da senhorita Yumiella Dolkness, e disponíveis apenas aqui! Até a própria condessa treina com uma espada de madeira como esta, então, se você adquirir uma, com certeza ficará mais forte! Mas lembre-se: não é possível comprá-las em grandes quantidades!”
Não entendi. Cliff gemeu internamente. Como uma simples espada de madeira pode ter um efeito tão intenso sobre uma pessoa?
Apesar de suas dúvidas, Cliff acabou cedendo à forte persuasão da vendedora da loja de lembrancinhas e comprou uma espada de madeira com o pouco dinheiro que lhe restava para a viagem.
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Depois disso, Cliff visitou vários outros lugares no Condado de Dolkness e, em seguida, retornou são e salvo para sua aldeia. Assim que todos se reuniram, ele relatou os resultados de sua exploração a todos de uma vez. Sua viagem pelo Condado de Dolkness havia sido repleta de coisas estranhas que ele não havia entendido, disse ele, mas havia uma coisa da qual ele tinha certeza.
“O Condado de Dolkness não é um lugar tão ruim quanto dizem. Na verdade, é um lugar muito bom. Mas…”
“Mas?”
“Mas… é estranho.”
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